Arquivo mensais:julho 2013

Padre Paulo Ricardo, aula de quê? ou mais um jênio legitimamente brasileiro.

Ele diz: ‘não estou defendendo o capitalismo’ =0), mas nunca tinha visto tal coisa na igreja católica (tirando a TFP): propriedade privada, discurso contra o Estado, saúde privada, educação privada…. É um verdadeiro defensor do liberalismo (mas ele diz que é legitima ‘doutrina social da igreja’).

Ele mistura, em tom fundamentalista, uma crítica a um suposto ‘vazio espiritual’ a uma crítica ao suposto socialismo em vigor no Brasil (e pelo visto no mundo). É um profeta, desses que acreditam em revelações (no caso de Nossa Senhora – aliás, por que Nossa Senhora aparece tão frequentemente como uma piegas moralista anticomunista? será que mesmo Nossa Senhora de Guadalupe seria uma ilusão, amorenou-se como os indígenas para convencê-los de que deveriam aceitar a sina da dominação cristã/colonial e portanto seu destino trágico?)

A mim não interessa o que permite, dentro do catolicismo, a existência de uma criatura dessas, nem o quanto ele reflete boa parte do pensamento dos católicos, mas que ele representa sim um certo cristianismo ou o como ele se encarna (palavra cara a muitos católicos) neste e em outros momentos da história. É a possibilidade de se fazer ouvir, graças às concessões de rádio e tv e, agora, à internet, espaço não tão democrático assim (já que o acesso a ele ainda é limitado e facilmente dominado por quem detém a linguagem e a compreensão de seu funcionamento – além do valor agregado do tratamento da informação e do marketing – aliás, basta ver a qualidade (definição dos vídeos inclusive) do site do padre em questão  e fazer-se a pergunta: quem banca isso?) que torna o fenômeno interessante.

 

 

Entre um protestantismo racional e um catolicismo fundamentalista, quem diria….

Da série: conservadores e malucos. Um caso de internação: Padre Paulo Ricardo.
Eu, sentindo-me distante de qualquer religião institucionalizada (para falar a verdade, de qualquer religião), embora continue estudando “fenômenos religiosos”, mas com vínculos com o catolicismo (onde cresci e dentro do qual deu-se parte da minha formação e identidade), hoje vivi uma situação inusitada:
Pela manhã, participei de uma belíssima apresentação de acadêmicos evangélicos (pesquisadores e professores universitários discutindo com jovens universitários questões sobre religião e seu lugar na sociedade global, com enfoque no protestantismo). Vi muita fé, mas uma vontade real de compreender racionalmente o lugar da religião (e dos religiosos – no caso dos evangélicos) no mundo atual. Dúvidas dos jovens não eliminavam, antes parecia fortalecer, sua fé.
Agora de tarde me deparo com um tal de Padre Paulo Ricardo, ligado à Canção Nova, e que tem um site (padrepauloricardo.org) que se propõe também oferecer um ‘curso’ (parrêsia) aos católicos (entre outras coisas). Cheguei a pensar que ele era da TFP (inclusive porque é tão moralista quanto, ataca outros padres, chama os protestantes de otários, ataca a Teologia da Libertação, o Partido dos Trabalhadores, militante anti aborto etc). Não nego que possa ser legitimo ser contra qualquer coisa, mas ele é fundamentalista, arrogante e chega a enganar com seu discurso (parece inteligente e bem preparado – embora diga algumas besteiras que nos podem fazer questionar os dois adjetivos).
Ouvir as baboseiras que ele fala sobre política e políticas públicas e o Estado (e o que ele acha ser o socialismo) é terrível, porque convence facilmente uma parcela dos católicos (porque vem junto com outros argumentos que favorecem posições conservadoras ‘católicas’ e argumentos genéricos com os quais qualquer um poderia (e até deveria) concordar: contra a corrupção, por exemplo).
Enquanto os protestantes que ouvi pela manhã eram coerentes, abertos ao mundo (para entendê-lo), dispostos ao diálogo, racionais (sem deixar de se mostrarem apaixonados por sua fé), esse padre (e uma penca de ‘seguidores’ (os comentários favoráveis às asneiras do padre quase apostata são, no geral, tão irracionais, tão pobres, que dão dó)) é um fundamentalista, arrogante, dono dA verdade, fechado em uma lógica própria, que me deu vergonha de ter mais vinculo com o Catolicismo do que com o Protestantismo.
Enfim, nada mudou em mim sobre a questão da fé, nem minha avaliação sobre os defeitos (mas também das virtudes) do cristianismo. Apenas queria compartilhar esse dia de contrastes.

encontro pericardo

Parrêsia

Quem suporta a franqueza? quem suporta o discurso aberto e que desvela a alma do falante?

Quem é capaz, hoje, de dizer a verdade (não a verdade de si, mas do mundo – a partir de si) e arcar com essa ousadia?

Que espaço existe, hoje, para dizer a verdade? de que vale dizê-la, se não for para construir algo novo a partir dela?

Num mundo em que já não nos escutamos, faz sentido a parrêsia?

A lógica da ação coletiva

A despeito de todas as criticas feitas e refeitas ao Olson, às quais em grande parte subscrevo (coitado de mim), continua intrigante e fundamental perguntar-se sobre a ação coletiva e, igualmente, pelo lugar do indivíduo (sempre institucionalizado?).
Em tempos de ‘ação coletiva’ no Brasil e no mundo, vale pensar sobre a tese olsoniana de que “mesmo que todos os indivíduos de um grupo sejam racionais e centrados em seus próprios interesses, e que saiam ganhando se, como grupo, agirem para atingir seus objetivos comuns, ainda assim eles não agirão voluntariamente para promover esses interesses comuns e grupais” (Mancur Olson, A Lógica da Ação Coletiva, São Paulo: Edusp, 1999, p. 14).

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O Outro como condição de possibilidade do Homem

“(…)a partir da entrada do Outro – denominado divino – no mundo, a história humana pode começar em sentido próprio, pois, nessa perspectiva, a história dos homens é a perene manifestação de uma estrangeiridade qualificada de “divina”, que exige seu reconhecimento nos vestígios positivos deixados na natureza e nas ruínas da cultura dos homens”
“(…) O homem nao se encontra a si mesmo na História, mas, antes, acha sempre o vestígio e a prova de sua procedência extra-mundana, do pacto teúrgico originário com o Grande Outro que se oculta em cada rincão do cosmos”
(Fabián Ludueña Romandoni, em ‘Para além do principio antrópico: por uma filosofia do Outside’ – interpretando um texto de Schelling).

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PÉROLA: TEM GENTE TOMANDO CONTA DAS ‘RUAS’, NEM TRABALHADOR, NEM MILITANTE TÊM “DIREITOS”

Vi no Face e não resisti.

Não só porque ridículo (embora saiba que alguns levam a sério). Eu ri muito tanto por causa do lugar a partir do qual vi essa asneira, como, depois, lendo os comentários dos engomadinhos que queriam justificar o injustificável.rua2

A apropriação da palavra PELEGO foi uma coisa a parte, tem sua própria graça, uma inovação =0). Não deixou de ser curioso, uma vez que, normalmente, os sindicalistas (ou sindicalizados) usavam isso contra quem furava greve.

Mas o mais engraçado é a tentativa de apropriar-se das ‘ruas’ (conceito a ser revisitado urgentemente), do direito de manifestar-se, de querer oferecer ao ‘POVO’ uma visão privilegiada de ‘quem entendeu tudo’ (inclusive do ‘golpe’ que, pretensamente, o governo, o Lula, o PT, a esquerda, e quem mais a gente quiser enfiar no saco, está querendo aplicar no ‘POVO’, para nos iludir, tentando criar uma ‘confusão’, para ‘nos’ deixar divididos….).

A ideia de POVO também é muito interessante nesse contexto. Principalmente se considerarmos que não há, na realidade, nenhuma proposta fechada ou objetiva que identifique esse POVO. Por exemplo, se um sindicato vai às ruas, supõem-se que seja representando trabalhadores, que são uma parcela organizada da sociedade civil, portanto com direito a dizer POR SI o que pretende com sua ‘manifestação’, com uma greve, com uma mobilização… mas alguém (e é sempre assim, um ‘sujeito indeterminado’) quer desqualificar uma parte da sociedade em nome de? sabe-se lá em nome do quê (claro que fica evidente uma ‘má vontade’ com o PT, mas parece que há mais).

Não dá para fazer uma avaliação de todo mundo que replicaria essa idiotice, mas vemos que são tão raivosos quanto os que eles dizem serem raivosos. Parecem representar bem um outro tipo de trabalhador (se é que trabalham), uma parcela da classe média (jovem) que tem tempo de sobra para incitar o ódio (ou são pagos pra isso também, vá lá saber). Servidor público (desses que se beneficiaram do governo Lula, com seus reajustes e carreiras consolidadas) igualmente com tempo de sobra para ‘conspirar’ (estamos mesmo precisando de uma reforma administrativa e esvaziar o serviço público, tanto de comissionados quanto de servidores de carreira).

Apesar de entender que haverá aqui uma transição (e vi outras coisas mais interessantes, embora críticas também por aí), esse tipo de manifestação é realmente um divisor. Não tenho dúvidas mais nenhuma de que o que veio à tona com o ‘povo nas ruas’ foi, entre outras coisas claro, a divisão de classe e o ódio de certa parcela da classe média (classe merda, como diz meu amigo Ruy Dzcuta) – porque as elites mesmo estão se lixando (estas não perderam praticamente nada nesses 10 anos – uma lástima) à distribuição de renda (e olha que tudo que foi feito até hoje ainda é muito modesto).

Não entre nessa fria =)

Jargão técnico

“Acredito que a especificidade lingüística da literatura e das ciências sociais é proporcional à mediocridade da língua. (…) Quanto menos se tem a dizer, mais se recorre ao jargão”
(René Girard, em A Conversão da Arte. São Paulo: Editora É, 2011, pp. 123-124)

Ainda o Cioran (Vertigem da História)

Cioran_by_ironie“A ambição de cada um de nós é sondar o Pior, ser um profeta perfeito. Infelizmente há tantas catástrofes nas quais não pensamos…”

“Toda indignação – desde a simples reclamação até a revolta luciferina – indica uma interrupção na evolução mental”

“Dizer: prefiro tal regime a tal outro, é flutuar no indefinido; seria mais exato afirmar: prefiro tal política a tal outra. Pois a história, na realidade, se reduz a uma classificação de políticas; por que, de que trata o historiador, senão da concepção do gendarme que os homens criaram através dos tempos?”

“Que não nos falem mais de povos dominados, nem de seu gosto pela liberdade; os tiranos sempre são assassinados tarde demais: essa é sua grande desculpa.”

“O ceticismo é o excitante das civilizações jovens e o pudor das velhas”

(Cioran, em Silogismos da Amargura).