Arquivo mensais:agosto 2013

“Viver e pensar como porcos” (Châtelet) (I)

Esse é o título de um livro de Gilles Châtelet.

Como interpreta PELBART*, “a equação contemporânea, diz Châtelet, é de uma clareza matemática: Mercado=Democracia=Homem médio. Ou, em outros termos, a Mão invisível do chateletMercado não só dirige o Consenso democrático mas faz de todos nós esse gado cibernético que pasta mansamente entre os serviços e mercadorias ofertadas (….) O resultado é uma extraordinária operação de anestesia social, fundada na unidade atômica indispensável, o homem médio estatístico, o consumidor ideal, de bens e serviços, de entretenimento, de política, de informação, o cyber-zumbi. O homem médio é resultado dessa fabulosa engenharia social: eis nosso encontro com a modernidade, a capitulação elegante aos ditames da Mão invisível, o contra-ataque planetário dos imbecis”.

 

*autor, entre outros, de A vertigem por um fio. Iluminuras, 2000

Condenados a significar (2004)

No mundo humano o vazio absoluto é algo difícil de imaginar, uma vez que tudo se reveste de sentido, que a tudo damos sentido. Mesmo o “vazio”, o silêncio, está pleno de sentido, de intenção, de vontade….
o nada
Na realidade, creio, estamos condenados a isso: tudo significar, sem o quê, nem humanos seríamos. Isso é estrutural para nós.

Então, estamos condenados a tudo ordenar, hierarquizar, valorar, posicionar em escalas, conjuntos, grupos, tipos…, não conseguimos viver sem (pre)julgar, sem encher de sentido os fatos (existem?) e fenômenos. Com isso, temos demarcado noso modo de estar nesse mundo, para o bem ou para o mal (mas isso já é dar um sentido ao viver….)

Ou seja, não temos escolha, o nada, o vazio, só existe logicamente, teoricamente, quando se trata do mundo humano (Sartre pensa diferente, eu sei).
Tudo está preenchido ou o será assim que “descoberto” pelo homem.

Não sei se há algo de mal nisso, mas é estranho nos imaginarmos condenados a viver de uma maneira contra a qual não podemos lutar, o que já significaria tomar uma posição cheia de sentido….. estranho viver.