Arquivo mensais:setembro 2013

Narcisista não assumido ou o arrogante de bom coração

Todos nós podemos, vez ou outra, cair na tentação de achar que “chegou à verdade”, seja quanto a questões teóricas, seja quanto a aspectos da vida (inclusive e principalmente a dos outros).

narciso2A tentação pode ser passageira ou efetivar-se no ‘pecado’ de ‘tornar-se como um deus’, por alguns minutos que seja. Infelizmente, para muitos, a tentação é companheira constante e os ‘pecados’ já se tornaram a regra da vida: sou mais inteligente; tenho a visão privilegiada; minha(s) teoria(s) sobre isso e aquilo (ou sobre tudo) é mais consistente, explica mais, é irrefutável; sou mais rápido e objetivo, mais perspicaz; menos afetado…. mas não basta o narcisismo disfarçado, é necessário destruir aquele(s) que (embora não se admita nunca a motivação) nos lembre que há outras possibilidades de ser: o(s) outro(s) é idiota; vendido(s); narcisista (de diversos tipos: porque se acha mais inteligente (o ‘pecador’ não); porque acha que seu ponto de vista é mais interessante ou mais justificado (o ‘pecador’ não); porque cita autores e ideias ‘sofisticadas’ para parecer melhor do que é (o ‘pecador’ não se acha nunca melhor que os outros, ele tem certeza – e por isso não precisa sustentar-se em ideias alheias); porque o(s) outro(s) julgam-se acima do seu tempo, quando o pecador acredita que, ao contrário pararam no tempo – só ele seguiu adiante, só ele é corajoso o suficiente para abandonar antigas crenças, só ele é capaz de ver o que o(s) outro(s), covardemente, preferem fingir não existir, só ele é vacinado contra ideologias antiquadas e perigosas, só ele…. se não é isso narcisismo…..

narciso1Não consegue o nosso semideus, sim, pois, mesmo cometendo o pecado de ‘igualar-se a deus’, ele costuma sendo religioso, e, por isso, o seu Deus ainda tem um lugar. O(s) outro(s) ou têm crenças absurdas ou pararam no tempo ou, ao negarem a fé, são como judas, venderam-se por 30 moedas ao absurdo do ateísmo. Provavelmente, no entanto, o discurso do nosso personagem encontre pouco eco junto àqueles que lhe são mais próximo, porque um semideus é alguém insuportável, arrogante, impaciente e mesmo seu ‘bom coração’ não o salvará dos efeitos que seus ataques diários, desferidos contra os seus, vão, em algum momento, provocar.

A angústia que esse ‘pecador’/semideus sente de não poder dominar tudo, de não poder mostrar aos de quem ele jura gostar, ou amar, a verdade, de não poder trazê-los para a realidade, para o reino dos mortais (embora ele esteja acima disso), de não poder fazer o(s) outro(s) compreender(em) os erros em que incorre ou incorreu – logo ele que tão fácil e claramente entende ‘o que se passa’.

É terrível, só resta, então, maltratá-los, denunciá-los, expô-los, para que vejam como são ridículos, estúpidos, covardes, relaxados, quiçá arrogantes, prepotentes, fingidos…. é a ultima tentativa de salvá-los.

Nosso semideus jamais admitiria isso, até porque ele não se vê assim, o que ele vê é uma vítima, uma pessoa simples (diferente daquilo em que o(s) outro(s) se transformou(aram)), uma pessoa incapaz de maldades (apenas se for acidental, ou para o bem do(s) outro(s)), ele não humilha ninguém (é sempre uma defesa contra o(s) que tenta(m) humilhá-lo ou ataca-lo – ou à sua inteligência).

Não! Ele não tem pretensão de grandeza ou de reconhecimento, quer apenas que o deixem viver em paz e não tem problemas em colocar no seu devido lugar aquele(s) que ousem retirar-lhe essa paz, desviar-lhe do caminho, atrapalhar-se a rotina etc.

É um personagem triste, apesar de interessante (como todo ser humano). Tende a ‘acabar sozinho’ (mas isso é apenas comprovação de que o(s) outro(s) não suportam a verdade) e a exagerar na dose – mesmo os mais próximos em algum momento ou outro deixam de relevar as ofensas e a falta de tato (que ele rejeita como sendo fingimento ou falta de transparência).