Arquivo mensais:outubro 2013

Abandonarás teu pai e tua mãe (Philippe Julien)

Retorno ao texto do Philippe Julien, com as perguntas sobre a situação da família hoje em dia (para além das questões morais e da visão de uma família burguesa, invenção recente do Ocidente). Um aspecto chama a atenção de imediato: a família tem se tornado cada vez mais pública, ao mesmo tempo em que a sexualidade cada vez mais privada (não estou descartando os usos que se faz da sexualidade enquanto imagem, mas apontando que, na história do Ocidente, a sexualidade sempre foi pública – a religião cristã, de um jeito e noções sobre INTIMIDADE forjadas depois, colaborarão para esse movimento rumo ao privado).

Qual é a importância, se ainda há, da família?

philippe

“À diferença da conjugalidade, cada vez mais discreta, a parentalidade passa a depender abertamente do social por intermédio de peritos chamados para dizer quais são os direitos da criança e, em caso de conflito conjugal, o que convém mais ao filho ou à filha: novos papais e mamães em posição de tutores e tutoras em razão de sua suposta capacidade de resolver tanto os sintomas das crianças quanto os conflitos entre pais.

Chegamos finalmente ao que Jean-Jacques Rousseau escrevia em suas Confissões (1788):

Ao entregar meus filhos à educação pública, por não poder educa-los eu mesmo, ao destiná-los a se tornarem operários e camponeses em vez de aventureiros e caçadores de fortunas, acreditei cometer ato de cidadão e de pai e me olhava como um membro da República de Platão.

Com efeito, Platão queria que todos fossem filhos do Estado e, da mesma forma, Rousseau se considerava pai porque cidadão. O pai se torna o delegado da Nação, a quem pertence o filho em primeiro lugar. Esta posição, que se desenvolve ao longo dos séculos XIX e XX, tende a estabelecer que a parentalidade não se define primeiro biologicamente, mas civilmente, enquanto “autoridade” reconhecida pela lei.

Medimos, portanto, o estranho hiato: quanto mais a conjugalidade é privada, mais a parentalidade é pública. Quais são as consequências deste desnível crescente? Como ele é percebido e vivido hoje em dia?”