Arquivo mensais:março 2014

A Democracia da classe média e a mediocridade da tecnocracia, espelho da “sociedade”

“Crença na utopia é ainda a melhor forma de questionar a exclusão social”
“Eleger a internet como exemplo democrático é esconder diferenças sociais, institucionais e psicológicas entre as vidas “real” e “virtual”” (Zizek)

Impressionante que não tenhamos outra coisa a que nos apegar. Óbvio que issblog-action-day-poverty-photoo a que chamamos de ‘internet’ é algo importante (embora se pedirmos às pessoas que expliquem o que é a internet, elas não terão uma definição razoável ou mesmo uma imagem útil ou adequada para ela). Isso não é tão importante (embora possa ser frustrante), pois costumamos não dar muita importância à compreender a maioria das coisas que nos rodeiam e das quais nos servimos comumente, incluindo a tecnologia.

Importante, concordamos, mais hoje que a 5 ou 10 anos, mas supervalorizada. Esquecemos não apenas que a chamada “brecha digital” ainda é real, mas que, ao se valorizar a internet como instrumento preferencial de participação e uso de serviços, ela se torna perversa.

Em 2013, temos um registro de cerca de 39 % da população mundial com acesso à internet, sem entramos nos dados sobre qualidade e tempo do acesso, sobre velocidade e sobre que tipo de pessoas estão incluídas nesse percentual. Na África, no mesmo ano, estima-se que apenas 16% naquele continente tenham acesso à internet, na América Latina e Caribe, algo em torno de 43%.

O incentivo à participação por meio da internet, participação dos cidadãos nas questões de estado, na fiscalização do Executivo, do Judiciário, do Legislativo, é algo sem dúvida positivo. Agora, imaginar que essa é a alternativa à democracia representativa, dando-lhe uma “oportunidade” de aprimoramento, de revitalizar, de abrir para os cidadãos as instituições, é não apenas uma ilusão, como algo perigoso.

Não apenas uma vez se viu pesquisas, no Brasil, indicando a participação da “sociedade” no parlamento, ou na definição de políticas públicas a serem propostas pelo Executivo, por meio de indicadores exclusivamente por meio de quantidade de acesso a ferramentas disponíveis nos portais das organizações do Estado. Muitos desses sequer chegam a esclarecer que já se tem uma ideia do perfil desses “cidadãos”, de que “sociedade” é essa de que as pesquisas estão falando, que ela não é a sociedade brasileira, não pode ser. Os que mal têm acesso a rádio no interior do Amazonas ou que têm acesso, mal e porcamente, apenas via celular, não fazem parte desse grupo. Talvez nem se interessem ou nem saibam da existência de canais de participação.

Nossa mente, ainda colonizada, apega-se a experiências do/no “mundo desenvolvido” – cujo acesso à internet alcançava, em 2013, cerca de 77% de sua população (contra 31% do chamado “mundo em desenvolvimento”), e transportam para cá, sem considerar questões como cultura política, nível de educação formal, maturidade das instituições, preço dos serviços de telefonia e de internet, com uma empolgação que envergonha quem conseguir vislumbrar o orgulho ianque que motiva o esforço de nossos gestores em “mostrar que o país pode ser reconhecido como um exemplo para o mundo” (leia-se: “que não somos bárbaros”).

Daí que nos preocupamos em como produzir “leis com qualidade” enquanto não temos cidadãos politizados o suficiente para fazer uma leitura “de qualidade” dessas leis e de se comprometer com o país, fiscalizando, sugerindo e cobrando. Mas é bonito que discutamos e nos “capacitemos” em “legistica”.

Mas esse é apenas um exemplo de uma espécie de dissonância cognitiva presente hoje na tecnocracia que dá o tom da gestão no “serviço público” nacional.  Nossa Imprensa Nacional, responsável pela publicação dos Diários Oficiais do Poder Executivo e do Poder Judiciário, “perdeu” grande parte de sua própria produção (talvez a culpa deva ir para um certo presidente da república, cujo modelo de gestão implicava sucatear alguns órgãos e agências, o que pegou a IN de cheio, mas a verdade é que o acervo dos diários publicados por essa instituição está incompleto). Que importa isso? esse é apenas um exemplo sobre o como tratamos nossa memória oficial, ao mesmo tempo nos vangloriamos em discutir e produzir projetos de preservação digital. Queremos prêmios pela “qualidade” de nossos portais, mas quando olhamos o que há por trás deles o que vemos é o retrato do país: uma emaranhado de coisas sem conexão e que vamos mantendo embaixo do tapete, na esperança de que surja no horizonte uma solução mágica, provavelmente vinda do “mundo desenvolvido”. Quem sabe fazer pose ajude.

A internet, nesse sentido, mais engana do que outra coisa. Se considerarmos que mesmo no “primeiro mundo”, no “mundo desenvolvido” (aquele no qual cerca de 77% da população tem acesso de verdade à internet), predomina o que chamamos agora de MENTE MEDIANA, ou seja, a despeito de uma sociedade mais politizada (ou que já foi mais), uma cultura política cultivada, o que se tem hoje é um tipo de cidadão cuja imaginação é débil, cuja mente é populista, pragmática, conservadora, mediocre. Essa mente mediana não pode fazer nada de interessante com uma ferramenta poderosa como a internet, mas apenas disseminar valores igualmente medianos, medíocres, incluindo valores conservadores.

Se essa maldição, a mente mediana, não se apossar de mim, voltarei à carga contra a tecnocracia depois. Agora, quero apenas ressaltar essa incapacidade de alguns em enxergar (talvez porque elas se vejam representadas) que a internet não é o mundo real. O mundo “virtual” ainda não consumiu, não tomou o lugar, do “real”. Mas sei da dificuldade em entender isso, pois muitos desses “analistas”, “gestores”,  vivem mesmo em um outro mundo.

Projeto de um poemeto, de algum dia dos idos anos 80/90…

Porta aberta, vento e vozes podem entrar20130703-231659.jpg

Entram: a vida, amigos e outros… podem sentar

Senta o tempo, o que foi e o que ainda vem

Vão-se os sonhos, filhos e filhas, desejos e temores

Que é “viver” senão criar e recriar….?

Que é viver senão sumir?

Que venha o novo, que venha o outro

Pois o homem não existe

Existe a humanidade, da qual somos apenas idade

(quem sabe infância de um ser cada vez mais sábio)

…..

porque outros sumiram e ideias ficaram

porque nós iremos e outros virão

…..

Semana estranha. Pensando e repensando a tragédia do viver.

Semana estranha a que passou.

Estranha porque fui obrigado, como o somos muitas vezes durante a vida (ainda bem) a um afastamento do fluxo, para lembrar Alfreschutzd Schutz, da vida naturalizada que nos condena a sermos menos do que poderíamos, mas que nos garante alguma sanidade, dirão outros – graças ao fato de nos afastar de uma postura consciente e totalmente crítica em relação ao que experimentamos e ao que se nos apresenta como dado, incluindo o que pretensamente ‘sabemos’. Relativização, envelhecimento, aprendizado… tudo cabe nesse momento, mas não é apenas isso. Emocional e afetivamente tais momentos podem ser fundamentais para saltos ‘qualitativos’ quanto ao modo de estar nesse mundo, de nos relacionarmos com as coisas e com os outros (pode não durar, como é comum, mas creio que podemos pensar isso como oportunidade única).

Como acontece? quando? por quê? não há formula aqui e, talvez, algum ‘expert’ possa desprezar isso como ‘coisa de psicologia’ não científica.

A minha semana me serviu, com o falecimento de um tio, primeiro, e agora, na sexta-feira, de meu padrinho de batismo (sim, família católica).

Nos dois casos, a perda, a despeito do distanciamento que os anos e a geografia impôs, trouxe, além da reflexão mais óbvia sobre o sentido da vida e da dificuldade de lidar com a morte de quem nos é próximo, ou que faça parte de nossas redes de relacionamento e sentido, ou melhor, rede que nos permite ou dá alguma base para uma ficção sobre nosso lugar nesse mundo, trouxe também uma meditação sobre a tragédia da vida. Observando as pessoas em torno desses dois eventos, dolorosos sem dúvida para muitos que os experimentaram, revela-se (ou confirma o) como estamos perdidos e como os sentidos que damos a nossa vida, por mais frágeis sejam, mostram-se fundamentais para manter a vida, melhor, a tragédia, sem questioná-la, sem sequer suspeitar-se que somos meros personagens de uma história que é pura invenção (em maior ou menor grau, acho que sempre nos damos conta disso, aqui porém, parece claro que um dos motivos, pelo menos, seria nos impedir de enxergar).

Acreditamos, no entanto, no papel que desempenhamos que temos dificuldade em nos ajustar aos outros que vão se impondo a nós no curso desse teatro.  Fratricídio, parricídio, matricídio, traições, inveja, ressentimento, culpas, desespero, moralização (como defesa), brutalização dos afetos…  tudo é tão comum e repetitivo que não é compreensível, sem algum esforço de análise, o porquê de  tratarmos tudo isso como exceção ou como anomalia, como coisas que, talvez, façam sentido em certa classe social ou com pessoas psicologicamente frágeis.

Não pude acompanhar a despedida ao meu tio, em Minas Gerais, mas meu padrinho, José Pazos Vazques, um espanhol que aportou no Brasil com 18 anos, no final da Segunda Guerra Mundial, em busca de trabalho e de uma vida, coisa que na Europa, ele que não era abastado, não teria naquele momento. Trabalhou muito a vida toda. Com minha Madrinha, Anna (Maria) Rodrigues Pazos, capixaba, a quem conheceu no Rio de Janeiro, casou e trabalhou, trabalhou…. acabou em Brasília, para trabalhar, primeiro para um parente com melhores condições econômicas, depois com um pequeno Bar e Restaurante, não sem antes terem feito das tripas coração para ‘criar’ sua família, três filhos para educar e alimentar. Uma coisa é certa, se tudo tiver dado errado, o trabalho sempre foi o maior valor para todos três filhos, assim como era para o “Chefia”, como o Espanhol, chamava as pessoas e acabou sendo também chamado. Minha madrinha, que se foi faz quase duas décadas, não pode estar presente para intermediar outro duro trabalho, o de intermediar as relações fraternais, nem sempre fáceis, como é comum.  Não pode estar perto para continuar dando um sentido mais ameno a essa vida que foi de luta.

Ela morreu sem saber, também, se um dia poderia parar de trabalhar. Ele morreu frustrado, com seus 87 anos, por já não parecer tão produtivo. Um AVC, uma queda que, depois, lhe quebrou o fêmur, rapidamente levou ao final, talvez por não suportar ter que ser cuidado…. uma perna que se perdeu e o coração que não suportou as paradas cardíacas que se seguiram. Um fim duro, como foi a vida.

A vida, quando pensamos fora dos 1 ou 10% de ‘sortudos’ nesse mundo, é pura tragédia, em qualquer sentido que se pense essa palavra. Não é um evento, é a vida.

Se é verdade que não podemos nos deixar derrotar por essa ‘sina’, tenho minhas dúvidas se a preservação de nossa sanidade mental com a recusa em enxergar além das aparências de nossas representações, além das cortinas, nos bastidores, e ver que o teatro, tantas vezes, é mais ‘verdadeiro’ que o ‘teatro’ a que cotidianamente damos vazão.

Não foi uma semana fácil, assim como não é fácil para milhares de pessoas todos os dias tocar a vida. Vaya con Dios, Chefia.

O Império das Palavras (François Warin)

“Kein ding sei wo das wort gebricht”
francois warin(Stephan George)

Le mot me manque(Jaques Lacan)

Dizer que para nós a linguagem é pouco, não significa que é pouco utilizada. Pelo contrário. Usa-se e abusa-se da linguagem, é o consumo extraordinário que fazemos dela, o abuso da comunicação que caracteriza a nossa época “…. palavras ao mesmo tempo desenfreadas e hábeis, escritas, rádio-transmitidas, que rodopiam à volta da terra”. É essa linguagem degradada, essa moeda falsa, comparável aos níqueis usados que pomos em silêncio na mão dos outros, como diria Mallarmé, que de início conhecemos como sendo a linguagem. A linguagem é própria do homem, mas não vivemos nativamente o que somos, não estamos imediatamente nivelados à nossa verdade; perdidos no falatório anônimo é que surgimos pela primeira vez a nós mesmos. Nossa fala é vã porque não é nutrida pelo silencia; e no entanto, ao “falar” corresponde sempre um “calar-se” e um “escutar”. Falamos à torto e à direito porque não temos respeito pela língua, fala-“se”, e faz-“se” conferências sobre “temas” e é através dessa prodigiosa inflação do verbo, que caracteriza o mundo moderno, desse falatório e desse palavrório (das Gerede), que temos de reencontrar a linguagem autêntica (die Rede).

Ensaio não tão sofístico…. se tudo fosse racional

“If everything on earth were rational, nothing would happen

(Fyodor Dostoevsky)

Consideremos “racional” um sinônimo de “crítico”, melhor, “ativamente crítico”. Ser crítico significa buscar justificação para todas as coisas, para todos os fenômenos, para todas as ações, para todos os argumentos propostos, para a vida, enfim.

Espera-se, tbrain1ambém, que algo/alguém racional tome decisões baseadas em avaliações críticas.
O único ser considerado potencialmente racional é o homem. Potencialmente apenas, porque não avalia, de fato, criticamente tudo o que diz e faz, nem busca justificação “crítica” para/nos acontecimentos que o tocam. O quadro se torna pior se considerarmos que, geralmente, se é crítico em relação ao que afeta mais intensamente, diretamente, a espécie, imunizando-se daqueles problemas referentes ao gênero humano como um todo.
Se agisse racionalmente, o homem evitaria injustiças. Se buscasse justificativas para tudo que diz, falaria menos bobagens – o que, por si só, evitaria, por sua vez, muitas contendas ou energia gasta em coisas sem valor.
Se resolvesse racionalmente toda sorte de problemas, estar-se-ia admitindo não haver espaço para a sorte, para a irresponsabilidade, para a crença, para a opinião, para as convicções (ou, para reeditar uma antiga e importante discussão divisora entre modernos e antigos: para o desejo, para a natureza). Parece racional buscar o caminho mais curto e menos oneroso.

Tudo na natureza, porém, indica o caos, e a vida – pelo menos segundo a Química, é puro desequilíbrio. Assim, poder-se-ia dizer que tornar todas as coisas racionais significaria acabar com o caos e equilibrar os elementos.
A questão é: restaria vida sobre a Terra?

Originalmente postado em 13/09/2005 09:46:26

Educação Após Auschwitz (Theodor Adorno)

adornoEDUCAÇÃO APÓS AUSCHWITZ

“A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda monstruosidade ocorrida. Mas a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas, sintoma da persistência da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas. Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação. Fala-se da ameaça de uma regressão à barbárie. Mas não se trata de uma ameaça, pois Auschwitz foi a regressão; a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão. E isto que apavora. Apesar da não-visibilidade atual dos infortúnios, a pressão social continua se impondo. Ela impele as pessoas em direção ao que é indescritível e que, nos termos da história mundial, culminaria em Auschwitz. Dentre os conhecimentos proporcionados por Freud, efetivamente relacionados inclusive à cultura e à sociologia, um dos mais perspicazes parece-me ser aquele de que a civilização, por seu turno, origina e fortalece progressivamente o que é anticivilizatório. Justamente no que diz respeito a Auschwitz, os seus ensaios O mal-estar na cultura e Psicologia de massas e análise do eu mereceriam a mais ampla divulgação. Se a barbárie encontra-se no próprio principio civilizatório, então pretender se opor a isso tem algo de desesperador.

A reflexão a respeito de como evitar a repetição de Auschwitz é obscurecida pelo fato de precisarmos nos conscientizar desse elemento desesperador, se não quisermos cair presas da retórica idealista. Mesmo assim é preciso tentar, inclusive porque tanto a estrutura básica da sociedade como os seus membros, responsáveis por termos chegado onde estamos, não mudaram nesses vinte e cinco anos. Milhões de pessoas inocentes —- e só o simples fato de citar números já é humanamente indigno, quanto mais discutir quantidades foram assassinadas de uma maneira planejada. Isto não pode ser minimizado por nenhuma pessoa viva como sendo um fenômeno superficial, como sendo uma aberração no curso da história, que não importa, em face da tendência dominante do progresso, do esclarecimento, do humanismo supostamente crescente. O simples fato de ter ocorrido já constitui por si só expressão de uma tendência social imperativa. Nesta medida gostaria de remeter a um evento, que de um modo muito sintomático parece pouco conhecido na Alemanha, apesar de constituir a temática de um best-seller como Os quarenta dias de Musa Dagh, de Werfel. Já na Primeira Guerra Mundial os turcos —- o assim chamado movimento turco jovem dirigido por Enver Pascha e Talaat Pascha —— mandaram assassinar mais de um milhão de armênios. Importantes quadros militares e governamentais, embora, ao que tudo indica, soubessem do ocorrido, guardaram sigilo estrito, O genocídio tem suas raízes naquela ressurreição do nacionalismo agressor que vicejou em muitos países a partir do fim do século XIX.

Além disso não podemos evitar ponderações no sentido de que a invenção da bomba atômica, capaz de matar centenas de milhares literalmente de um só golpe, insere-se no mesmo nexo histórico que o genocídio. Tornou-se habitual chamar o aumento súbito da população de explosão populacional: parece que a fatalidade histórica, para fazer frente à explosão populacional, dispõe também de contra-explosões, o morticínio de populações inteiras. Isto só para indicar como as forças às quais é preciso se opor integram o curso da história mundial.

Como hoje em dia é extremamente limitada a possibilidade de mudar os pressupostos objetivos, isto é, sociais e políticos que geram tais acontecimentos, as tentativas de se contrapor à repetição de Auschwitz são irnpelidas necessariamente para o lado subjetivo. Com isto refiro-me sobretudo também à psicologia das pessoas que fazem coisas desse tipo. Não acredito que adianta muito apelar a valores eternos, acerca dos quais justamente os responsáveis por tais atos reagiriam com menosprezo; também não acredito que o esclarecimento acerca das qualidades positivas das minorias reprimidas seja de muita valia. É preciso buscar as raízes nos perseguidores e não nas vitimas, assassinadas sob os pretextos mais mesquinhos. Torna-se necessário o que a esse respeito uma vez denominei de inflexão em direção ao sujeito. É preciso reconhecer os mecanismos que tornam as pessoas capazes de cometer tais atos, é preciso revelar tais mecanismos a eles próprios, procurando impedir que se tornem novamente capazes de tais atos, na medida em que se desperta uma consciência geral acerca desses mecanismos. Os culpados não são os assassinados, nem mesmo naquele sentido caricato e sofista que ainda hoje seria do agrado de alguns. Culpados são unicamente os que, desprovidos de consciência, voltaram Contra aqueles seu ódio e sua fúria agressiva. E necessário contrapor-se a uma tal ausência de consciência, é preciso evitar que as pessoas golpeiem para os lados sem refletir a respeito de si próprias. A educação tem sentido unicamente como educação dirigida a uma auto-reflexão crítica. Contudo, na medida em que, conforme os ensinamentos da psicologia profunda, todo caráter, inclusive daqueles que mais tarde praticam crimes, forma-se na primeira infância, a educação que tem por objetivo evitar a repetição precisa se concentrar na primeira infância. Já mencionei a tese de Freud acerca do mal-estar na cultura. Ela é ainda mais abrangente do que ele mesmo supunha: sobretudo porque, entrementes, a pressão civilizatória observada por ele multiplicou-se em uma escala insuportável. Por essa via as tendências à explosão a que ele atentara atingiriam uma violência que ele dificilmente poderia imaginar. porém o mal-estar na cultura tem seu lado social —- o que Freud sabia, embora não o tenha investigado concretamente. É possível falar da claustrofobia das pessoas no mundo administrado, um sentimento de encontrar-se enclausurado numa situação cada vez mais socializada, como uma rede densamente interconectada. Quanto mais densa é a rede, mais se procura escapar, ao mesmo tempo em que precisamente a sua densidade impede a saída. Isto aumenta a raiva contra a civilização. Esta torna-se alvo de uma rebelião violenta e irracional.

Um esquema sempre confirmado na história das perseguições é o de que a violência contra os fracos se dirige principalmente contra os que são considerados socialmente fracos e ao mesmo tempo —- seja isto verdade ou não —- felizes. De uma perspectiva sociológica eu ousaria acrescentar que nossa sociedade, ao mesmo tempo em que se integra cada vez mais, gera tendências de desagregação. Essas tendências encontram-se bastante desenvolvidas logo abaixo da superfície da vida civilizada e ordenada. A pressão do geral dominante sobre tudo que é particular, os homens individualmente e as instituições singulares, tem uma tendência a destroçar o particular e individual juntamente com seu potencial de resistência. Junto com sua identidade e seu potencial de resistência, as pessoas também perdem suas qualidades, graças a qual têm a capacidade de se contrapor ao que em qualquer tempo novamente seduz ao crime. Talvez elas mal tenham condições de resistir quando lhes é ordenado pelas forças estabelecidas que repitam tudo de novo, desde que apenas seja em nome de quaisquer ideais de pouca ou nenhuma credibilidade.

Quando falo de educação após Auschwitz, refiro-me a duas questões: primeiro, à educação infantil, sobretudo na primeira infância; e, além disto, ao esclarecimento geral, que produz um clima intelectual, cultural e social que não permite tal repetição; portanto, um clima em que os motivos que conduziram ao horror tornem-se de algum modo conscientes. Evidentemente não tenho a pretensão de sequer esboçar o projeto de uma educação nesses termos. Contudo, quero ao menos indicar alguns pontos nevrálgicos. Com freqüência por exemplo, nos Estados Unidos —- o espirito germânico de confiança na autoridade foi responsabilizado pelo nazismo e também por Auschwitz. Considero esta afirmação excessivamente superficial, embora na Alemanha, como em muitos outros países europeus, comportamentos autoritários e autoridades cegas perdurem com mais tenacidade sob os pressupostos da democracia formal do que se queira reconhecer. Antes é de se supor que o fascismo e o horror que produziu se relacionam com o fato de que as antigas e consolidadas autoridades do império haviam ruído e se esfacelado, mas as pessoas ainda não se encontravam psicologicamente preparadas para a autodeterminação. Elas não se revelaram à altura da liberdade com que foram presenteadas de repente. É por isso que as estruturas de autoridade assumiram aquela dimensão destrutiva e —- por assim dizer de desvario que antes, ou não possuíam, ou seguramente não revelavam. Quando lembramos que visitantes de quaisquer potentados. já politicamente desprovidos de qualquer função real, levam populações inteiras a explosões de êxtase, então se justifica a suspeita de que o potencial autoritário permanece muito mais forte do que o imaginado. Porém quero enfatizar com a maior intensidade que o retorno ou não retorno do fascismo constitui em seu aspecto mais decisivo uma questão social e não uma questão psicológica. Refiro-me tanto ao lado psicológico somente porque os demais momentos, mais essenciais, em grande medida escapam à ação da educação, quando não se subtraem inteiramente à interferência dos indivíduos.

(…)

Afirmei que aquelas pessoas eram frias de um modo peculiar. Aqui vêm a propósito algumas palavras acerca da frieza. Se ela não fosse um traço básico da antropologia, e, portanto, da constituição humana como ela realmente é em nossa sociedade; se as pessoas não fossem profundamente indiferentes em relação ao que acontece com todas as outras, executando o punhado com que mantêm vínculos estreitos e possivelmente por intermédio de alguns interesses concretos, então Auschwitz não teria sido possível, as pessoas não o teriam aceito. Em sua configuração atual e provavelmente há milênios —- a sociedade não repousa em atração, em simpatia, como se supôs ideologicamente desde Aristóteles, mas na persecução dos próprios interesses frente aos interesses dos demais. Isto se sedimentou do modo mais profundo no caráter das pessoas. O que contradiz, o impulso grupal da chamada lonely crowd, da massa solitária, na verdade constitui uma reação, um enturmar-se de pessoas frias que não suportam a própria frieza mas nada podem fazer para alterá-la. Hoje em dia qualquer pessoa, sem exceção, se sente mal-amada, porque cada um é deficiente na capacidade de amar. A incapacidade para a identificação foi sem dúvida a condição psicológica mais importante para tornar possível algo como Auschwitz em meio a pessoas mais ou menos civilizadas e inofensivas. O que se chama de “participação oportunista” era antes de mais nada interesse prático: perceber antes de tudo a sua própria vantagem e não dar com a língua nos dentes para não se prejudicar. Esta é uma lei geral do existente. O silêncio sob o terror era apenas a conseqüência disto. A frieza da mônada social, do concorrente isolado, constituía, enquanto indiferença frente ao destino do outro, o pressuposto para que apenas alguns raros se mobilizassem. Os algozes sabem disto; e repetidamente precisam se assegurar disto.

Não me entendam mal. Não quero pregar o amor. Penso que sua pregação é vã: ninguém teria inclusive o direito de pregá-lo, porque a deficiência de amor, repito, é uma deficiência de todas as pessoas, sem exceção, nos termos em que existem hoje. Pregar o amor pressupõe naqueles a quem nos dirigimos uma outra estrutura do caráter, diferente da que pretendemos transformar. Pois as pessoas que devemos amar são elas próprias incapazes de amar e por isto nem são tão amáveis assim. Um dos grandes impulsos do cristianismo, a não ser confundido com o dogma, foi apagar a frieza que tudo penetra. Mas esta tentativa fracassou; possivelmente porque não mexeu com a ordem social que produz e reproduz a frieza. Provavelmente até hoje nunca existiu aquele calor humano que todos almejamos, a não ser durante períodos breves e em grupos bastante restritos, e talvez entre alguns selvagens pacíficos. Os utópicos freqüentemente ridicularizados perceberam isto. Charles Fourier, por exemplo, definiu a atração como algo ainda por ser constituído por uma ordem social digna de um ponto de vista humano. Também reconheceu que esta situação só seria possível quando os instintos não fossem mais reprimidos, mas satisfeitos e liberados. Se existe algo que pode ajudar contra a frieza como condição da desgraça, então trata-se do conhecimento dos próprios pressupostos desta, bem como da tentativa de trabalhar previamente no plano individual contra esses pressupostos. Agrada pensar que a chance é tanto maior quanto menos se erra na infância, quanto melhor são tratadas as crianças. Mas mesmo aqui pode haver ilusões. Crianças que não suspeitam nada da crueldade e da dureza da vida acabam por ser particularmente expostas à barbárie depois que deixam de ser protegidas. Mas, sobretudo, não é possível mobilizar para o calor humano pais que são, eles próprios, produtos desta sociedade, cujas marcas ostentam. O apelo a dar mais calor humano às crianças é artificial e por isto acaba negando o próprio calor. Além disto o amor não pode ser exigido em relações profissionalmente intermediadas, como entre professor e aluno, médico e paciente, advogado e cliente. Ele é algo direto e contraditório com relações que em sua essência são intermediadas. O incentivo ao amor —– provavelmente na forma mais imperativa, de um dever constitui ele próprio parte de uma ideologia que perpetua a frieza. Ele combina com o que é impositivo, opressor, que atua contrariamente à capacidade de amar. Por isto o primeiro passo seria ajudar a frieza a adquirir consciência de si própria, das razões pelas quais foi gerada.

Para terminar gostaria ainda de discorrer brevemente a respeito de algumas possibilidades de conscientização dos mecanismos subjetivos em geral, sem os quais Auschwitz dificilmente aconteceria. O conhecimento desses mecanismos é uma necessidade; da mesma forma também o é o conhecimento da defesa estereotipada, que bloqueia uma tal consciência. Quem ainda insiste em afirmar que o acontecido nem foi tão grave assim já está defendendo o que ocorreu, e sem dúvida seria capaz de assistir ou colaborar se tudo acontecesse de novo. Mesmo que o esclarecimento racional não dissolva diretamente os mecanismos inconscientes conforme ensina o conhecimento preciso da psicologia —, ele ao menos fortalece na pré-consciência determinadas instâncias de resistência, ajudando a criar um clima desfavorável ao extremismo. Se a consciência cultural em seu conjunto fosse efetivamente perpassada pela premonição do caráter patogênico dos traços que se revelaram com clareza em Auschwitz, talvez as pessoas tivessem evitado melhor aqueles traços.

Além disso seria necessário esclarecer quanto à possibilidade de haver um outro direcionamento para a fúria ocorrida em Auschwitz. Amanhã pode ser a vez de um outro grupo que não os judeus, por exemplo os idosos, que escaparam por pouco no Terceiro Reich, ou os intelectuais, ou simplesmente alguns grupos divergentes. O clima —- e quero enfatizar esta questão mais favorável a um tal ressurgimento é o nacionalismo ressurgente. Ele é tão raivoso justamente porque nesta época de comunicações internacionais e de blocos supranacionais já não é mais tão convicto, obrigando-se ao exagero desmesurado para convencer a si e aos outros que ainda têm substância.”

Texto completo em: http://adorno.planetaclix.pt/tadorno10.htm