Arquivo mensais:abril 2014

ALGUMAS ORGANIZAÇÕES CONSERVADORAS OU LIBERAIS NO BRASIL

FFF Aprenderam com a religião ou com os marxistas, não importa, mas aprenderam e têm se mostrado muito mais competentes que muitas igrejas e partidos (embora em muitos casos apoiem partidos determinados).

Claro que temos um número razoável de organizações de esquerda no Brasil, algumas declaradamente marxistas, alguns partidos que se identificam com a “esquerda”, que têm como objetivo muitas vezes disseminar um pensamento marxista, socialista, comunista, ou apresentar uma leitura especifica da história e dos fatos corrente. Se é assim, que mal há em termos, de outro lado, organizações, instituições, partidos etc que apresentem outras visões, que militem em outra direção, que defendam outros projetos e outras visões de mundo?

Essa é a arena, esse é o jogo, nada do que reclamar ou combater, dentro das regras do jogo democrático, do estado democrático (embora não sejam poucas as vezes que se tente calar vozes incomodas).

Aqui, apenas indico uma preocupação que tenho tido com o grande número de jovens conservadores que se apresentam, dia após dia, como vozes ativas, quase sempre ácidas, violentas e, não raro, preconceituosas. Inteligentes, bem preparados, comumente bem apresentados, bonitos, “descolados”, mas politicamente conservadores, de direita e liberais em sua concepção da economia e do Estado.

Provocações inteligentes e criticas bem fundamentadas são (deveriam ser) muito bem vindas. Seja para permitir mudar de posição, abandonar teorias e explicações (mas também posições politicas), melhorar nossas hipóteses e nossa atuação. Deve nos obrigar também a sair do conforto e abandonar as meras opiniões, que nem sempre sabemos como defender ou apresentar.

De toda forma, não sejamos ingênuos sobre o significado dessa onda de jovens conservadores, novos heróis de um grande, enorme, publico, igualmente jovem, e agora sem vergonha de ser liberal ou conservador (o que devemos mesmo discutir). Além disso, por trás de grande número destes, não podemos esquecer, existem instituições para as quais devemos, aí sim, dirigir nossa atenção e nossa energia para conhecer e combater, se for o caso.CONSERVADOR

Aqui, listarei algumas dessas organizações, mas também alguns blogs (indicando parte desses jovens conservadores ou liberais – nem sempre a mesma coisa – e outros não tão jovens assim), que merecem, como disse, atenção e algum tempo para acompanhar. Em futuro não muito longínquo, poderão essas organizações e esses jovens fazer muita diferença, para o bem e ou para o mal:

 UM PEQUENO APANHADO:

Instituto de Estudos Empresariais

http://www.iee.com.br/

Fórum da Liberdade

http://forumdaliberdade.com.br/

Estudantes Pela Liberdade

http://epl.org.br/

Libertários pela Liberdade de Escolher

http://libertarios.org.br/liber/

Portal Libertarianismo

http://www.libertarianismo.org/

União Conservadora Cristã (UCC)

http://uniaoconservadoracrista.blogspot.com.br/

Juventude Conservadora da UnB:

http://unbconservadora.blogspot.com.br/

Estudantes pela Liberdade:

http://epl.org.br/

Instituto Millenium:

http://www.imil.org.br/

Instituto Ludwig von Mises Brasil

mises.org.br

Ordem Livre:

http://ordemlivre.org/

Instituto Carl Menger (ICM)

http://icmenger.blogspot.com.br/

Instituto Liberdade (RS):

http://www.il-rs.org.br/site/home.php

Instituto Ling

http://www.institutoling.org.br/

Escola Austríaca de Brasília

http://escolaaustriacadf.blogspot.com.br/

Grupo de Estudos da Escola Austríaca

http://escola-austriaca.blogspot.com.br/

Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista

http://www.cieep.org.br/

The Center for a Stateless Society (C4SS)

http://c4ss.org/

Instituto Shibumi

http://institutoshibumi.org/

Instituto de Formação e Educação – IFE

(segundo informações do próprio IFE, o instituto é uma associação sem fins lucrativas e nasceu da vontade de seus fundadores, depois de estudarem as ‘grandes obras da cultura ocidental’ e, entendo, movidos pelo desejo de combater a mediocridade que se instalou em nossas universidades, de oferecer uma alternativa de formação a quem queira. Por isso lançaram a Revista  Dicta & Contradicta, cujos colaboradores são todos, embora não seja uma revista de economia ou de política apenas, liberais. Não por outro motivo, os fundadores são convidados do Instituto Millenium ou colaboradores de outras organizações liberais).

http://www.ife.org.br/

OUTROS GRUPOS E SITES DE DIVULGAÇÃO DE NOTÍCIAS OU IDEIAS

A SPOTNIKS

(portal de ‘informação’ que reproduz notícias e publica artigos que ‘justificam’ uma visão liberal do mundo e a condenação de toda e qualquer experiência socialista, social-democrata, de esquerda… sob a roupagem de ‘jornalismo’ e analise de fatos, esconde-se o objetivo de disseminar opinião negativa sobre governos não liberais. NÃO HÁ QUALQUER INDICAÇÃO DE QUEM MANTÉM O SITE NO AR E QUEM PAGA PELAS REPORTAGENS E ARTIGOS – AQUELAS E AQUELES QUE NÃO SÃO MERA REPRODUÇÃO)

http://spotniks.com/

Movimento Endiretar:

http://www.endireitar.org/

Associação Brasileira de Defesa

http://www.defesa.org.br/

Brasil pela Vida

http://www.brasilpelavida.org/bpv/

Rádio Vox

http://radiovox.org/

Mídia sem Máscara

http://www.midiasemmascara.org/

Grupo Inconfidência

http://www.grupoinconfidencia.org.br/sistema/

A Esquerda Libertária (Mercados Libertos e Voluntarismo)

http://aesquerdalibertaria.blogspot.com.br/

Escola sem Partido

http://www.escolasempartido.org/

Site Humanitatis

http://humanitatis.net/

Nota Latina

http://notalatina.blogspot.com.br/

Observatório Latino (com Graça Salgueiro)

http://radiovox.org/programas/observatorio-latino-com-graca-salgueiro/

Comentário Conservador

http://conservador.wordpress.com/

BLOGS

Bruno Garschgen

http://www.brunogarschagen.com/

Padre Paulo Ricardo

https://padrepauloricardo.org/

Rodrigo Mezzomo

http://rodrigomezzomo.blogspot.com.br/

Ubiratan Jorge Iorio

http://www.ubirataniorio.org/

A Verdade Sufocada

http://www.averdadesufocada.com/

Conservadorismo Brasil

http://conservadorismobrasil.blogspot.com.br/

Diplomatizzando (Paulo Roberto de Almeida)

http://diplomatizzando.blogspot.com.br/

Francisco Razzo

http://www.franciscorazzo.com/

ATAQUE ABERTO

http://ataqueaberto.blogspot.com.br/

O Camponês

http://www.ocampones.com/

http://robertolbarricelli1.wordpress.com/

O Implicante

http://www.implicante.org/

Caffeine Cult

http://flaviomorgen.blogspot.com.br/

ARLINDENOR (Blog com Ensaios e Textos Libertários)

http://arlindenor.com/

Blog de José Lamartine Neto

http://joselamartine.blogspot.com.br/

Perca Tempo – o Blog do Murilo

http://avaranda.blogspot.com.br/

Blog do Testa

http://bdtesta.blogspot.com.br/

O Bico do tentilhão (blog de Andre Assi)

http://www.andreassibarreto.org/

Reaçonaria

http://reaconaria.org/

Rodrigo Constantino

http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/

Everaldo Leite

http://everleit.wordpress.com/author/everleit/

Diário de um ex-comunista

(que de ex-comunista não tem nada, o autor não se apresenta, e o blog é feito para popularizar as caricaturas sobre os comunismo, sobre o socialismo, sobre a esquerda, e apresentar de forma palatável as ideias do neoliberalismo, autores, indicação de sites e posts anti esquerda etc).

http://diariodeumexcomunista.blogspot.com.br

 

BLOG DO PIM (Felipe Moura Brasil)

(não iria incluir os colaboradores da Veja, pois ela só dá voz a conservadores, mas esse Felipe Moura Brasil, antes de ter seu blog cooptado – por afinidade, de certo, tinha e mantém esse espaço para ‘esclarecer’ e ‘descontaminar’ os que acreditam em qualquer coisa que lembre, de longe, a ‘esquerda’).

http://www.felipemourabrasil.com.br/

 

 

A Democracia existe, abaixo a democracia

Democracia, ninguém parece duvidar seriamente disso, é provavelmente uma das maiores ‘invenções’ do espírito humano (mesmo que um espírito humano ocidental).votar

Todos sabemos, no entanto, que, embora possamos concordar com uma ideia de democracia, en general, nem o seu significado para sociedades específicas nem a forma como deva ser (e é) implementada, efetivada, mantida, parecem coincidir sempre.

Os liberais, tomemos o termo de forma mais neutra, liberal no sentido político, ou filosófico se preferir-se, mas não necessariamente econômico, acreditam que a única democracia possível é a liberal, representativa (embora outros liberais, mesmo que travestidos, como Habermas, falem em uma democracia de consenso, baseada no discurso, traduzido como a possibilidade de uma multivocalidade na tomada de decisão).

igualdadeO fato é que a teoria democrática tem grande importância entre os acadêmicos, mas importância nenhuma no mundo real (salvo como categoria explicativa usada por certos atores em busca de garantir seus interesses ou de seu(s) grupo(s) – dando uma colher para os pluralistas), onde a luta para garantir mais um dia: de vida, de saúde, de trabalho, de menos fome, menos dor, menos humilhação; onde a luta por pertencer, por ter direitos, para se afirmar, para superar preconceitos e limites; onde a luta pra ser ouvido, para garantir um “pedaço de chão”, para garantir que seus filhos/filhas não percam sua vida na dura labuta por uns trocados, para garantir um mínimo de sanidade; onde se sobrevive, esquecido pelo Estado e pela “gente rica” da cidade…. nesse cenário, nessa arena, nesse palco, a teoria democrática é apenas arma nas mãos de uns poucos. Quem não tem nada ou quase nada age pragmaticamente, vende seu voto se preciso, vota em quem lhe mandam se achar correto, não vota… os que se organizam, talvez , possam agregar outros valores a esse instrumento que nos ilude sobre o poder de decidir, mesmo quando “ganham” nossos candidatos (que, não raro, terão muito menos poder e capacidade decisória do que imaginamos). E vamos sendo conduzidos por esse caminho….

O certo é que, de toda forma, em um momento ou outro, esse instrumento pode conduzir mudanças, até profundas, mas logo serão reapropriados, o instrumento e o Estado. Do final do século XIX até os anos 60 do século XX, não esqueçamos, democracia era quase sinônimo de capitalismo (e de liberalismo, aqui o sentido é o econômico) e sonhar com democracia não significava sonhar com distribuição de renda, por exemplo, mas, no máximo com um Estado mínimo, controlado muito mais pelo Capital do que pela sociedade civil (outra categoria estranha e constantemente (re)apropriada) – alguns dirão que a sociedade civil é a condição para que o Estado emerja, outros dirão que é seu contraponto e um a posteriori, o que pouco importa aqui.

estadoSão as lutas por direitos civis nos Estados Unidos, na década de 60 do século passado, ou a abertura nos regimes comunistas na década de 80, com a reconfiguração do estado de bem estar social na Europa, as mudanças no continente latino-americano, também principalmente na década de 80, que dão um sentido distinto para o que hoje chamamos democracia. Autores há que chamam isso, no caso da Europa pós-comunista e da América Latina pós ditaduras militares, de Terceira Onda de Democracia. Mais teoria, mais descrições.

Convém ressaltar que o que está em jogo é uma ressignificação do termo Democracia, é uma (re)valorização de certas categorias e a fixação de uma nova ficção em torno do em que o mundo estava se tornando. A liberdade assume de vez um lugar mais importante que o da igualdade, ressalta-se a importância das instituições, como o Parlamento e o Judiciário (a representação é também ressaltada como fundamental), a sociedade civil aparece como ator fundamental, mas também se reforça, por isso mesmo, o Direito civil e o Direito Penal (o direito político deixa de ser um problema, pois agora se pode votar, se pode ter partidos etc): cuida-se da propriedade e dos contratos e se pune aqueles que não as respeitam[1].

neoliberalismo-1O Estado, seja lá como o adjetivarmos, inclusive como “democrático de direito”, é o Estado “burguês” (seja no sentido de Hegel ou de Marx e Engels), que, ao formalizar a igualdade entre os cidadãos no Direito, na Lei, na Norma, e deixar de fora qualquer discussão sobre a propriedade e sobre igualdade em termos materiais, concretos, é perfeito para os que têm propriedade, os donos do Capital, os que não precisam da igualdade formal do direito, uma vez que materialmente são desiguais e, para piorar, são eles que “interpretam” o Direito.

Ao que tudo indica, voltamos ao marco zero: a Democracia (representativa) Liberal continua a ser quase sinônimo de Capitalismo e de Liberalismo (econômico). Democracia radical é uma ilusão, a consensual é um nome bonito para o céu na Terra. Qual é a alternativa?

Ora, se continuamos a proferir aos quatro ventos que não há alternativa, como vamos busca-la? Se a história chegou ao fim, que mais construir? Se a utopia é algo inútil, de mentes doentias, como sonhar um mundo diferente? Se naturalizamos uma invenção humana e a blindamos de qualquer crítica (séria e exigida pela vida real e não nascida nos gabinetes), como poderemos enfrentar as debilidades e sequer aventar sua reinvenção ou destruição? Se o ponto de partida é uma supervalorização, um investimento (quase libidinal) constante numa imagem da democracia que quase se a iguala à de civilização ou de humanidade, como pensar uma nova civilização e repensar a humanidade? Se o Estado Democrático se tornou uma espécie de nome santo, como blasfemar, como profaná-lo sem estar cometendo um pecado, sem ser culpado de atentar contra a ordem sagrada das coisas?

Manifestacion Democracia Real Ya


 

[1] Os direitos sociais, e o direito do trabalho sem dúvida, são ganhos marginais, de um capitalismo que podemos chamar de administrado. O Estado se adequa de forma a incorporar um pouco mais de garantias a certas categorias, mas não sem alguma luta, para que tudo permaneça, em essência, o mesmo.

Sobre a televisão e a democracia

Dois liberais e um critico do liberalismo, todos parecem concordar com que a televisão, como se impôs a nós (e nem precisamos incluir a discussão já clássica de Adorno e Horkheimer sobre a indústria cultural), é um risco para a política, para a democracia.

Vejamos:

De fato, penso que a televisão, através dos diferentes mecanismos que me esforço por descrever dBOURDIEUe maneira rápida – uma análise aprofundada e sistemática teria exigido muito mais tempo -, expõe a um grande perigo as diferentes esferas da produção cultural, arte, literatura, ciência, filosofia, direito; creio mesmo que, ao contrário do que pensam e dizem, sem dúvida com toda a boa-fé, os jornalistas mais conscientes de suas responsabilidades, ela expõe a um perigo não menor a vida política e a democracia”

(BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997. pp. 9-10)

“A proposta que aventei não tem apenas um caráter de urgência, corresponde também a uma necessidade absoluta do ponto de vista da democracia. Eis, resumidamente, a razão: a democracia consiste em submeter o poder político a um controle. É essa a sua característica essencial. Numa democracia não deveria existir nenhum poder político incontrolado. Ora, a televisão tornou-se hoje em dia um poder colossal; pode mesmo dizer-se que é potencialmente o mais importante de todos, como se tivesse substituído a voz de Deus. E será assim enquanto continuarmos a suportar os seus abusos. A televisão adquiriu um poder demasiado vasto no seio da democracia. Nenhuma democracia pode sobreviver se não se puser cobro a esta onipotência. E é certo que se abusa deste poder hoje em dia, nomeadamente na Iugoslávia, mas esses abusos podem ocorrer em qualquer sítio. O uso que se faz da televisão na Rússia é igualmente abusivo. A televisão não existia no tempo de Hitler, ainda que a sua propaganda fosse organizada sistematicamente com um poderio quase comparável. Com ela, um novo Hitler disporia de um poder sem limites.

POPPER
Não pode haver democracia se não submetermos a televisão a um controle, ou, para falar com mais precisão, a democracia não pode subsistir de uma forma duradoura enquanto o poder da televisão não for totalmente esclarecido. De facto, os próprios inimigos da democracia apenas possuem uma débil consciência desse poder. Quando tiverem compreendido verdadeiramente o que podem fazer com ele, utilizá-lo-ão de todas as formas, inclusivamente nas situações mais perigosas. Mas então será tarde de mais. É agora que devemos tomar consciência desse risco e submeter a televisão a um controle através dos meios que indiquei”.

(POPPER, Karl. Televisão: Um Perigo Para a Democracia. Lisboa: Gradiva, 1999, pp. 29-30)

 

SARTORI“No hay duda de que los noticiarios de la televisión ofrecen al espectador la sensación de que lo que ve es verdad, que los hechos vistos por él suceden tal y como él los ve. Y, sin embargo, no es así. La televisión puede mentir y falsear la verdad, exactamente igual que cualquier otro instrumento de comunicación. La diferencia es que la «fuerza de la veracidad» inherente a la imagen hace la mentira más eficaz y, por tanto, más peligrosa. La vídeo-política está a sus anchas en los llamados talk-shows, que en Estados Unidos y en Inglaterra están realizados por periodistas realmente buenos e independientes. En el debate bien dirigido, al que miente se le contradice enseguida, pero esto sucede porque en los talk-shows (como su propio nombre indica) se habla y, por tanto, en este contexto, la imagen pasa a segundo plano. Siempre cuenta el hecho de que las personas sean poco fotogénicas, ya que hay rostros que no traspasan la pantalla (que rio llegan al público). Pero lo que de verdad cuenta es lo que se dice y cómo se dice. Esto es así en la televisión que mejor nos informa que es, desafortunadamente, una televisión atípica. En la típica, todo se centra en la imagen, y lo que se nos muestra —repito— puede engañarnos perfectamente. Una fotografia miente si es el resultado de un fotomontaje. Y la televisión de los acontecimientos, cuando llega al espectador, es toda ella un fotomontaje.”

(SARTORI, Giovanni. Homo Videns: La sociedad teledirigida. Buenos Aires: Taurus, 1998, pp. 99-100)

OS “INIMIGOS” ESTÃO ENTRE NÓS, OU SOBRE UM DESABAFO EXAGERADO SOBRE A BANALIDADE DO MAL

midia_mercadoEstou cansado de gênios, seja em economia, contabilidade ou análise política (e recentemente em história) – o resto é mais difícil enrolar (ciências duras e, um pouco, as ciências sociais, quando se trata de pesquisa)  e Direito é uma floresta de discursos e ego que se anulam sozinhos.

Até agora a única conclusão possível que posso tirar de coisas que a imprensa brasileira consegue publicar é que são loucos ou vendidos, vivem um mundo irreal (ou virtual) e acreditam mesmo nessas maluquices que pronunciam, como se estivessem lendo o evangelho em um culto sagrado, ou, como Platão, querendo nos fazer crer que o Bem é uma essência no mundo das Ideias e nós, os ignorantes, jamais veremos a verdade, porque não conseguimos perceber tal essência (só os iniciados são capazes, por isso eles deveriam governar, ser ministros, professores….).

Ignoram a história, ou a contam como bem querem (até recontam, imitando mal certa moda europeia, como um Marco Antonio Villa – não canso de afirmar: uma praga), não sabem o que é conjuntura, ou melhor, usam aquilo que valida suas teorias, adoram previsões (embora vivam tentando dar novos sentidos ao passado e a decisões tomadas no passado para justificar suas “interpretações” do presente e suas projeções do futuro).

folha_pau_de_araraNão sabem o que é vida (real, a vida nua, que se arrasta pelas ruas das grandes cidades, que é estuprada nos lugares sem luz ou civilidade, que se consome nas cracolândias, nas jornadas de trabalho insanas, nas plantações de sisal ou cana-de-açucar, nas carvoarias, nas florestas, nos becos sem nome ou de nomes terríveis das favelas, nos alagados, com lama nos pés, aquela que sente  dor, fome, medo, que se perde todos os anos no campo, por valer menos que gado ou madeira, cuja ética é a da injustiça, cujo direito é o da violência), seu negócio são teorias assépticas, são tabelas, planilhas, habitadas por números mágicos, divinos que fazem os olhos brilhar, suas categorias são o lucro, demandas, necessidade, racionalidade (do mercado e do homo economicus), a única coisa realmente relevante é o Mercado, esse deus que tudo determina. Viver é especular no mercado de ações, é contar moedas, abrir e fechar empresas, seu tesão é a variação entre alta e baixa nas bolsas de valores mundo afora. Não são humanos, não podem ser.

homeless.si_-485x272Contabilidade é um instrumento (porque existem regras e é preciso dela, assim como do Direito, para manipular, esconder) e Economia não é ciência, é a linguagem para dominar o mundo (da vida), é um novo evangelho que prega ser o reino de deus o Mercado…. é pura teologia. O soberano, aquele que determina a Exclusão, como já nos deixou claro Carl Schmitt, um dos ideólogos apropriados pelo Nazismo, não é mais o Estado, não é ele que diz quem é o inimigo. Quem nos diz quem é o inimigo é a mídia e seus especialistas, é o mercado financeiro, são os organismos internacionais, são as fundações (que dizem que é democracia, que é qualidade da democracia, defendem a propriedade privada, a liberdade (de seus fundadores primeiro, claro)), são as agências de risco, são as grandes empresas multinacionais. Recentemente um desses loucos, travestido de jornalista, afirmou que a violência nas estradas no Brasil era culpa dos pobres (e do Lula) por agora poderem comprar um carro e viajar. O pobre é o inimigo.

Em todo o mundo vigora o governo da exceção. Os pobres são auschwitzhomo sacer. Os ciganos, os migrantes, os muçulmanos, os africanos, os orientais, pretos, homossexuais, prostitutas, a juventude (principalmente pobre), pretos… todos homini sacer, todos declarados, pelo soberano, os mesmos que dizem quem é o inimigo: o mercado,  a mídia… mas também o sistema educacional que privilegia a “competência” para o mercado, o Ocidente cristão, fascistas de todo tipo, os bancos, o sistema financeiro – esse que idolatra o dinheiro virtual – que ele nunca perde – e os paraísos fiscais, as grandes redes hoteleiras…… nomes diversos, formas diversas, para o mesmo: o soberano, aquele que declara a exceção, ou seja, aquele que declara quem não tem mais direito a direitos, que está fora da ordem jurídica, que pode ser torturado, cuspido, assassinado, estuprado, escravizado, usado e depois ignorado, deixado para morrer, para ser morto, sem que isso implique ser um crime. É o resto.

Essa gente acusa os que desejam e tentam pensar criticamente o mundo, mas também dele par-death_and_taxesticipar – engajando-se em lutas de grupos, comunidades, causas, pessoas, solidarizando-se com suas dores, com suas perdas, com sua invisibilidade – de loucos, utópicos, mas também de ignorantes, de comunistas (como se fosse um xingamento terrível), de intelectualmente pervertidos, ideologicamente insanos, perturbados, aliciadores de almas frágeis (tal qual Sócrates em relação à juventude ateniense de seu tempo), mentirosos, aproveitadores, depravados e tudo mais que se possa imaginar em termos de adjetivos degradantes e “degradativos”.

Essa gente, na realidade, parecemedia-manipulation ser apenas uma ponta, talvez os peões que estão aí para bater e apanhar em nome do soberano. Jornalistas e carreiristas de todo tipo, alguns acreditam sinceramente estar engajados numa cruzada contra o mal, contra a ignorância. Sua missão é convencer a todos de que não há mundo melhor que esse. A história acabou ou pelo menos não há alternativa real para a economia (mas também para a política). O Capitalismo é bom para os pobres, dirão (a despeito de o sistema mundial já ter declarado que precisa apenas de cerca de 1 bilhão de consumidores – e de produtores, se entendemos bem,  os outros 5 a 6 bilhões de seres humanos são resto, estão sobrando, não importam).

Essa gente, bem alimentada, com suas casas confortáveis, bons salários, de hábitos ‘luxuosos’, bem ‘educadas’,morte no campo muito capital social e cultural, inventou termos como “esquerda festiva”, “esquerda caviar”, “petralhas”, que tentam tornar vulgares em suas colunas semanais e suas performances televisivas patéticas e preconceituosas, disfarçadas em palavras difíceis e citações de ‘clássicos’ (ao mesmo tempo, nos bastidores, sem máscaras, riem de garis, zombam do povo, achincalham a justiça, montam estórias para destruir pessoas, suas famílias, seus ideais, simplesmente porque podem, porque a vida delas é vazia e a preenchem com o mal). Muitos não moram mais no país, odeiam o país e transformam esse ódio em combustível para seus projetos pessoais (a maior parte não tem projeto algum para o país, para seu Estado ou município, não acreditam na Justiça, não acreditam no povo, não suportam ‘comunidades’ ou pobres, por isso não podem ter qualquer tipo de projeto contra a desigualdade, contra a miséria, pois não acreditam que seja possível mudar o que para muitos deles é natural, uma obra de deus ou da natureza – eles têm sorte de serem bonitos, bem sucedidos, educados, viajados, bem relacionados, de terem um bom emprego, de serem tão inteligentes, sagazes, espertos, ter tempo e dinheiro de sobra para conhecerem e comprarem o mundo…. se o mundo é assim, que fazer?).

imprensa vendida   Mesmo aqueles que nem tem um status realmente diferenciador, parecem gente comum, mas ilustrada, com suas especializações, seus MBA, Mestrados, Doutorados e Pós docs, que vão a teatro, falam pelo menos um idioma estrangeiro, conhecem literatura, aparentemente são educados em pesquisa e filosofia, estão isentos desse mal, o que já foi explicado de muitos modos e com muitas metáforas. Penso agora apenas na imagem hegeliana do Senhor e do Escravo, em Caliban e Próspero (e a releitura de Césaire da obra de Shakespeare, A Tempestade), em Nelson Rodrigues e seu Complexo de Vira-latas, na história de Malinche, nos vai e vens das tentativas de nos apropriarmos ou nos livrarmos do nosso mesticismo, a invenção de uma especificidade e originalidade tropical, cabocla quiça, enfim, essa relação de amor e ódio à imagem que o mundo parece ter de nós e que tantas vezes renegamos porque desejamos ser iguais ao mundo “desenvolvido”, “civilizado”, e outras vezes anunciamos em alto e bom som porque achamos que a diferença nos torna especiais). Essa elite consumidora de teorias a varejo, das “melhores universidades” europeias e norte-americanas, não precisa mais processar isso, ela odeia a imagem de um pais mestiço e tão distante dos padrões “exigidos” pelo “mercado”, ou seja, aquele definido em conformidade o mundomoney for education platônico, indicado mais acima, de “qualidade”, meritocracia, responsabilidade fiscal (pois os bancos e os especuladores tem que saber onde pisam para continuar ganhando muito), estado mínimo (só faz aquilo que é necessário para que o Mercado continue funcionando bem, que a propriedade privada seja garantida e a família burguesa prospere).

Essa elite tem seus representantes na mídia e agora nas redes sociais, de forma mais ou menos engajada. São por vezes os mais ferozes nos ataques a qualquer defesa de direitos sociais, inimigos mortais de qualquer política afirmativa. O triste é que há intermediários, que se espelham nessa praga e estão nas escolas, atuando como professores, diretores, que sustentam faculdades. Mas deixarei esses para um outro momento.

Nas redes sociais, com suas linguagens polidas e aparentemente neutras, muitos tentam justificar suas preferências, o que é desnecessário, isso é claro. No entanto, reproduzem, fazem circular, as histórias parciais, a indignação seletiva, o ódio (aos pobres, aos trabalhadores, aos partidos de massa, às ONGs que são declaradamente anti agronegócio, pró indígenas, pró camponeses, pró educação universal de qualidade e gratuita, anti mercantilização da saúde), muitas vezes apenas porque, repito, acreditam mesmo serem portadores de uma boa nova ou de uma percepção do mundo que os ignorantes que não pensam como eles, incluindo o povo, os pobres, não tiveram a felicidade de possuir, de acessar. Ah! se o mundo funcionasse como eles imaginam e sabem ser o melhor, o Parlamento seria perfeito, o Executivo um primor e o Judiciário talvez desnecessário, tamanha a justiça no país.

Eles riem de pessoas como eu, que cita autores latino-americanos, africanos, ou críticos europeus e norte-americanos (genericamente denominados de comunistas, ou esquerdistas, esquerda doentia, marxistas etc) que acredita que a filosofia (a ética em particular) pode nos ajudar a decidir melhor, uma filosofiazapatistas que rompa com as categorias que o Ocidente tem utilizado para dominar o resto do mundo e, dentro do Ocidente, aos seus cidadãos. Seus heróis são Friedrich Hayek, Milton Friedman, Samuel Huntington (com quem aprendi um bocado, confesso),  Forbes…. acreditam em concorrência perfeita, em tendência ao equilíbrio (do Mercado), legitimidade, indivíduo, direito (de propriedade e contrato). Em seu mundo perfeito, sem desemprego, sem fome, sem empregos desgastantes, humilhantes, sem problemas com saneamento, com transporte, com seus bons restaurantes, bebidas caras, onde o bom gosto é exercitado ao extremo, com seus carros importados, casas confortáveis, segurança (a sensação de insegurança não é a insegurança real, aquela da periferia das grandes cidades, em que os jovens são violentados todos os dias, mortos todos os dias, às vezes na porta de suas casas), empregadas domésticas, escolas “de ponta”, lazer abundante, têm a receita perfeita para o mundo (incluindo o da maioria que não é essa ilha da fantasia).

Muitos desses serão juízes, desembargadores, ministros, promotores, procuradores, médicos, técnicos em nosso liberacionBanco Central, especialistas (consultores) em política pública, professores universitários, âncoras de telejornais, comentaristas, analistas etc etc, muitos jamais terão contato com a pobreza, salvo com suas empregadas domésticas (mas as agências servem para tornar a relação mais objetiva e neutra, não é mesmo?) que, contudo, em seus uniformes bem passados e a distância necessária, jamais deixam qualquer indicação de sua condição social, de suas mazelas, de suas dores, de suas lutas. Esses são os em que depositamos a confiança para que “façam justiça”, curem-nos, decidam os rumos do país, nosso orçamento, ensinem nossos filhos o que é o mundo, que nos digam o que é o Brasil, que é o bom, o bonito, o adequado, a quem imitar, o que vestir, o que comer, o que sonhar.

É ou não é uma desgraça?

O Ser e o Messias (José Porfírio Miranda)

Javé nJPMiranda02ão é, mas será. Se as nossas categorias ontológicas nos impedem de compreender, a boa hermenêutica nos diz que é a nossa ontologia que deve mudar, não a mensagem da Bíblia. Para compreender esta afirmação – Javé não é, mas será – deve-se enfrentar frontalmente a passagem mais “futurista” de todo o Antigo Testamento: Jr 31, 31, 34 (a nova aliança). Promete-se à nova humanidade: “Eu serei Deus para eles e eles serão povo para mim”, e, como consequência, se afirma que todos conhecerão Javé, todos, do menorzinho ao mais velho. O sentido da futuridade de Deus depende do sentido da expressão “conhecer Javé”. Cometeu-se erros metodológicos mais prenhes de consequências quando se interpretou esta passagem – que nos remete em cheio ao Novo Testamento: 2Cor 6, 16.24; 1Cor 11,25; Lc 22, 20; Mc 14, 24; Mt 26, 28 – prescindindo da definição de “conhecer Javé”, formulada no próprio Jeremias nove capítulos antes:

"Fazia (Josias) justiça e direito,
e isto é bom.
Defendia a causa do pobre e do indigente,
e isto é bom.
Não consiste isto em conhecer-me? Diz Javé" (Jr 2,16)

“Conhecer Javé” é um termo técnico, como observaram muito bem Mowinckel, Botterweck e H. W. Wolff e como não pode deixar de observar quem examinar as passagens seguintes Os 4,1-2; 6, 4-6; 2, 22; 5,4; 6,3; Is 11,2 (cf. vv. 4-5) Is 1,3 (cf. vv. 5-9); Ab 2,14. “Conhecer Javé” é um termo técnico e significa fazer justiça e direito, defender a causa do pobre e do indigente.

Portanto, para Jr 31, 31-34, dizer que Javé será Deus significa dizer que entre os homens reinará a compaixão, a solidariedade, a justiça. Por isso o Deus da Bíblia é um Deus futuro, pois, de fato, somente no futuro, no fim da história, os homens reconhecerão no grito e na alteridade do próximo aquele imperativo moral absoluto em que consiste Deus. É isto que significa, para a Bíblia, conhecer Javé. Ao contrário dos nossos objetos ontológicos, o Deus da Bíblia não é antes, para ser conhecido depois; é justamente enquanto é conhecido. Não se deixa transformar em objeto. Cessa de ser Deus assim que saímos da relação moral com o próximo. Segundo a ontologia ocidental (“filosofia da injustiça”, como diz Levinas), o objeto primeiro existe e depois é conhecido, e existe independentemente de ser conhecido ou não. (…)”

JOSÉ PORFÍRIO MIRANDA. O SER E O MESSIAS: UM ESTUDO SOBRE O MESSIANISMO DE JESUS. SÃO PAULO: EDIÇÕES PAULINAS, 1982, pp. 45-46)o ser e o messias

Mimetismo e violência… ou sobre um modelo de homem não violento?

girard“Os procedimentos que permitem aos homens moderar sua violência são todos análogos: nenhum deles é estranho à violência. Poder-se-ia pensar que todos eles se encontram enraizados no religioso, (…) [uma vez que] o religioso coincide certamente  com esta obscuridade que envolve em definitivo todos os recursos do homem contra sua própria violência, sejam eles preventivos ou curativos, com o obscurecimento que ganha o sistema judiciário quando este substitui o sacrifício. Esta obscuridade não é senão a transcendência efetiva da violência santa, legal, legítima, face à imanência da violência culpada e legal” (p. 38).livro girard
“o pensamento moderno, como todos os pensamentos anteriores, busca explicar o exercício da violência e da cultura em termos de diferenças. É este o mais enraizado de todos os preconceitos, o próprio fundamento de qualquer pensamento mítico: apenas uma leitura correta do religioso primitivo pode dissipá-lo” p. 380).
(GIRARD, René. A violência e o Sagrado. São Paulo: Paz e Terra e UNESP, 1990)

A Educação depois de Auschwitz (Adorno) – sobre o CALOR HUMANO

adorno“Não me entendam mal. Não quero pregar o amor. Penso que sua pregação é vã: ninguém teria inclusive o direito de pregá-lo, porque a deficiência de amor, repito, é uma deficiência de todas as pessoas, sem exceção, nos termos em que existem hoje. Pregar o amor pressupõe naqueles a quem nos dirigimos uma outra estrutura do caráter, diferente da que pretendemos transformar. Pois as pessoas que devemos amar são elas próprias incapazes de amar e por isto nem são tão amáveis assim. Um dos grandes impulsos do cristianismo, a não ser confundido com o dogma, foi apagar a frieza que tudo penetra. Mas esta tentativa fracassou; possivelmente porque não mexeu com a ordem social que produz e reproduz a frieza. Provavelmente até hoje nunca existiu aquele calor humano que todos almejamos, a não ser durante períodos breves e em grupos bastante restritos, e talvez entre alguns selvagens pacíficos. Os utópicos frequentemente ridicularizados perceberam isto. (…) O apelo a dar mais calor humano às crianças é artificial e por isto acaba negando o próprio calor. Além disto, o amor não pode ser exigido em relações profissionalmente intermediadas, como entre professor e aluno, médico e paciente, advogado e cliente. Ele é algo direto e contraditório com relações que em sua essência são intermediadas. O incentivo ao amor – provavelmente na forma mais imperativa, de um dever — constitui ele próprio parte de uma ideologia que perpetua a frieza. Ele combina com o que é impositivo, opressor, que atua contrariamente à capacidade de amar. Por isto o primeiro passo seria ajudar a frieza a adquirir consciência de si própria, das razões pelas quais foi gerada.” (Theodor W. Adorno. A Educação depois de Auschwitz. Em Educação e Emancipação. São Paulo: Paz e Terra, 2006, 134-135)

Esse animal que não deu certo surpreende pela quantidade de ficções que cria sobre si e como, quase devocionalmente, volta-se para tais ficções: a família nuclear (leia-se: burguesa, cristã, europeia), monogamia, o homem como obra de Deus, sua especialíssima Razão, a consciência como marca do humano, o amor romântico, o amor desinteressado…. Há ficções nobres, talvez como modelo devessem mesmo ser seguidas, perseguidas, mas melhor saber que o fazemos como responsáveis por nossas escolhas, pois não há, de fato, uma natureza boa (nem má) do homem, não há uma justiça que nos transcenda (podemos deseja-la, mas isso não a torna real), a democracia, igualdade (incluindo de gênero)…

Admitir que somos um projeto aberto e resultado de experimentos, de (antropo)técnicas que inventamos, de modelos que  concebemos, constitui passo necessário para que nossas apostas em modelos mais interessantes e responsáveis, considerando aqueles que ainda não existem, aqueles que virão, sejam feitas da melhor maneira possível. Não podemos abdicar de nossa responsabilidade (moral) com o planeta, com a vida, com a herança que vamos deixar para os que virão, humanos e não humanos. Um modelo de homem que não aceite a frieza e o individualismo autocentrado talvez seja uma aposta mais adequada, o modelo que nos foi legado tem nos deixado à deriva, incentiva nosso egoísmo, ridiculariza o amor, exalta o gozo sem mais (ainda egoísta), concorda com a coisificação do outro, valoriza a irresponsabilidade e uma ativa negação da consciência.

Especulações sobre o sentido da Páscoa

O anjo da morte veio e levou, dos egípcios, seus primogênitos, deixando apenas choro e desespero.

Os hebreus, guiados por Moisés, partiram do Egito rumo a uma terra que não conheciam, mas cujas imagens os faziam crer valer a pena a longa e perigosa jornada. Não 1 dia, não 1 semana, não 1 mês, não 1 ano, mas 4 décadas, gerações nasceram e morreram no transito, na jornada. Moisés não viu a Terra Prometida, mas acreditou nela.

Os Egípcios viviam em sua terra prometida, eles não precisavam acreditar. Os hebreus e os egípcios não eram inimigos, eram diferentes e desejavam coisas diferentes. Os egípcios não precisavam repensar sua vida, ela estava bem definida, o que não impediu as pragas, nem a morte dos seus. Os hebreus desejaram uma vida nova, pois aquela que viviam não estava boa, a despeito das cebolas que tinham em abundância.

Ao que tudo indica, os hebreus – pelo menos o grupo que de fato estava no Egito em torno de 1200 a.C, e que teria saído de lá rumo a Canaã (ou Canã) – não tinham realmente uma vida ruim, eram bem tratados, não eram escravos ou servos como se conta no Antigo Testamento, mas isso não impediu que saíssem em massa das terras férteis do Nilo e, pelo deserto, rumassem para um outro lugar onde construiriam uma nova vida e constituiriam-se um novo povo (incluindo, para isso, a eliminação de outros povos – não! a história toda não é bonita).

Os egípcios, talvez, fossem mesmo ser afetados com a saída dos apirus (os pobres da terra), os hebreus, mas não há evidência arqueológica que indique uma reação violenta ou uma batalha para não permitir a saída deles. Se houve, porém, foram derrotados os egípcios, talvez por táticas de guerrilha utilizadas pelos apirus (o sangue nas águas, as pragas e a morte dos primogênitos podem não ter sido ação de Iahweh, mas dos homens).

Não importapessach1-2012_ilustracao muito qual é a verdade histórica (nem sociológica), mas o que tudo isso costuma representar: mudanças são dolorosas, sejam elas planejadas, desejadas ou não. Não sabemos nunca se elas ocorrerão como imaginamos. Quando elas dizem respeito a uma coletividade, haverá sempre os que recuarão e os que jamais testemunharão o momento em que julgamos as mudanças teriam se completado.

Uma lição possível da Páscoa hebraica: Muito melhor assumirmos a mudança e executá-la nós mesmos, que seja guiados pela visão de uma terra em que mana leite e mel, que seja pela convicção de que a vida que se leva não é satisfatória (porque podemos e queremos mais), porque as mudanças vão acontecer, com ou sem a gente.

O sofrimento é inevitável, mas ele faz parte do processo, faz parte da viagem, nos lembra que em nenhum momento nosso olhar deveria se desviar do ‘projeto’, do destino (talvez intangível, inalcançável em uma vida). É a viagem, é o estar em movimento que importa.

Talvez as cebolas do Egito sejam mesmo suficientes para muitos, talvez o medo de não chegar seja aterrorizante, imobilizador. A Páscoa não é uma história com final feliz. Ela não tem um final. É somente o meio dela. O ponto de partida talvez seja o menos importante. Para onde olhamos talvez seja fundamental. Mas é o meio, a caminhada, o que realmente faz a diferença.

Feliz Páscoa.

A Democracia não existe, viva a democracia

Vez e outra somos provocados, positivamente, por comentários ou reflexões de amigos (ou amigos de amigos), inclusive nas redes sociais. Nesses casos, em mim, vem logo uma torrente de pensamentos, de conexões… e uma coceira para transformar isso em um texto, muito menos para fixar uma outra verdade ou visão, mas para não deixar passar, desaparecer ou enfraquecer imagens que, no momento se mostram, para mim, relevantes ou pertinentes.

O tempo, porém, não ajuda muito – quero dizer a falta de tempo (melhor ainda, o fato de querermos fazer coisas demais com um recurso tão escasso). Por isso estou em débito com dois textos a serem produzidos (de outros desisti), talvez de forma mais ampliada, talvez na forma de simples comentário, como resposta a duas provocações. Em breve.

Aqui, neste texto, “respondo” a uma provocação veio por um desabafo de um amigo de uma amiga, num simples post no Facebook, que, sem querer ser preciso, tratava da democracia “dos antigos” e do sentimento em relação ao, se entendi bem, a “nossa (própria) democracia” hoje. Democracia que estaria sendo atacada por demagogos e aqueles com espírito tirânico (não comentarei a acusação sobre a Venezuela, porque ela não tem o menor sentido. Também não inclui a questão da ‘redemocratização’, recentissima, da América Latina e de outros tantos países, o que mal conta com 30 anos).

Vamos lá.

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Encontramos na história ocidental uma tensão constante entre o antigo (o passado) e o presente. Que pode nos orientar? O que veio antes de nós, por sua qualidade, ou o que está a nossa frente, também por sua qualidade. Olhar para o passado, para o antigo, como modelo, porque os antigos teriam sido mais virtuosos, talvez mais sábios, seu modo de vida seria um exemplo. Olhara para o futuro, ou mesmo para o contemporâneo – como ponto de chegada a um certo (ex)futuro, como superação do passado, do antigo, com suas mazelas, seus erros, sua ignorância, sua leitura equivocada da Natureza, inclusive a dos homens.

Em momentos de crise (e quando a humanidade não esteve em um?), vamos buscar luz em uma dessas direções, como se tivéssemos perdido a nós mesmos, à nossa natureza, nossa essência, ou como se tivéssemos sido incompetentes em usar adequadamente o nosso conhecimento atual, as possibilidades que se põe aqui e agora e que, sentimos, serão maiores no futuro, graças principalmente à tecnologia.

Saudade ou esperança.

Nos dois casos, acredito, temos oportunidade de repensar os modelos que temos, em vigor, para nós individualmente, para a sociedade, para o Estado. Oportunidade de sair do fluxo e conseguir perceber a contingência, a relatividade e fragilidade das invenções humanas, incluindo o próprio Homem.

Olhar para o passado é sempre mais complicado, pois juramos que o conhecemos, quando, na realidade, nós o inventamos por inteiro. Por mais interessantes sejam as imagens que conseguimos reproduzir, por mais “evidências” históricas, arqueológicas, tenhamos, no final das contas, as relações causais jamais serão plenamente estabelecidas, nós não somos coisas. As relações de poder, as lutas, o papel dos homens e mulheres comuns, o impacto das ideais em cada tempo – sobre as ações dos indivíduos e das coletividades, o fato mesmo de que a ideia de indivíduo não ser universal (não estou falando de pessoa) – ao mesmo tempo em que nossa historiografia trabalha quase que totalmente com a crença de que indivíduos existem e sempre existiram… e a verdade sobre o Ocidente ser uma invenção tão recente e, também, só muito recentemente ter deixado de ser periferia do mundo, de a menos de 200 anos ter conseguido disseminar ideias econômicas, filosóficas, políticas que hoje parecem quase eternas, válidas desde sempre, sem as quais nem nos compreendemos como ‘civilizados’, isso tudo deveria nos tornar muito céticos quanto ao que efetivamente vale sobre nossas imagens do passado e o quanto elas podem nos ensinar.

Um desses vínculos, tão caros ao Ocidente, que ao inventar uma História Universal, vincula diretamente a Europa Moderna à Grécia antiga (passando pela Roma antiga), atravessando os séculos, culminando numa sociedade iluminada, e iluminiassembly_mla1sta, cheia de si, descrita por Hegel como comprovação da grandeza do Espírito. A Europa, ou os alemães pelo menos, seria aquela que, consciente da história, a toma em suas mãos e assume o papel de conduzir a humanidade para o cume, lá onde os homens, de todas as nações, seguindo os passos dos ocidentais poderão compreender seu papel e alcançar o máximo progresso. Tanto Karl Marx quanto Max Weber, e já estamos no final do século XIX (inicio do XX), vão ajudar a consolidar nossa visão “evolucionista” sobre a ‘sociedade humana’, a ideia de progresso (mas perfeitamente identificável), com reflexos na ‘história’ que se fixará e se ensinará no Ocidente (e hoje no mundo todo) e a de que existiria, desde a antiguidade, caso de Weber, uma distinção entre uma “cidade ocidental” e a “cidade oriental”.

hegel marx2weber(Hegel, Marx e Weber)

Os gregos impressionaram muito, aos OCIDENTAIS, com sua filosofia e sua experiência democrática, embora seja claro hoje que os egípcios talvez tenham sido os verdadeiros mestres dos gregos, e os egípcios, como outros semitas, talvez tenham aprendido muito com a Índia. Sem nos alongarmos muito nessa critica mais geral, é fácil comprovar o quanto as ideias dos gregos nos afetam até hoje (com razão, evidentemente) e o quanto impressionaram pensadores de toda sorte nesse que hoje reconhecemos ser o Ocidente (insisto nisso para lembrar que o Ocidente é a imagem invertida do Oriente – categoria inventada primeiro e que, na busca por identidade, fez os povos que hoje compõem o que chamamos Europa, pela primeira vez, enxergarem-se a si mesmos como distintos).

Não raro, a afamada ‘democracia grega’ se transforma em objeto de reflexão e serve para, mesmo sendo negada como modelo válido para hoje, fazer (re)pensar a(s) democracia(s) que conhecemos hoje ou ontem (nesse ponto, temos que reconhecer que uma história de nosso passado recente parece mais provável de ser feita, ou sua ficção pode ser mais facilmente ampliada por conta de visões múltiplas e excesso de registros, do que uma História antiga).

Que foi a democracia grega, de fato, não sabemos, mas fixamos muitas imagens, de momentos da história da Grécia antiga (que é uma ficção ela mesma – nunca existiu uma Grécia antiga). ‘Sabemos’, no entanto, que Atenas foi excepcional pela presença tanto de ‘filósofos’ quanto de políticos igualmente excepcionais. E de lá costumamos capturar algumas de nossas mais caras imagens da democracia ‘grega’.

A Histfustel_capaória antiga nasce no século XVIII , da qual Fustel de Coulanges (1830-1889) – autor citado no post que provocou essa ‘resposta’ aqui – é um renovador. É sua a crença de que a origem da cidade antiga (leia-se: greco-romana) é uma suposta (outra ficção) comunidade religiosa indo-europeia que se identificaria pelo culto ao fogo doméstico e culto aos ancestrais. Para o autor francês, seria uma família que progressivamente se ampliaria e modificaria, graças à evolução das ideias religiosas. Essa crença inevitavelmente acompanhará o autor no desenrolar de sua descrição.

Apesar disso, é o próprio Fustel que, na introdução do livro aqui em questão (A Cidade Antiga) que nos alerta (embora, parece, isso não causou o efeito desejado):

“A ideia que tivemos da Grécia e de Roma muitas vezes perturbou as nossas: por ter mal observado as instituições da cidade antiga, imaginou-se fazê-las reviver entre nós. Apenas nos iludimos sobre a liberdade dos antigos, e por isso o único resultado foi que a liberdade dos modernos tem sido colocada em perigo”.

Acusa aquilo que se denominou ‘classicismo’ e ser responsável pelo equivoco. E, parecendo estar falando dos dias de hoje, critica o sistema educativo que “nos faz viver desde a infância no meio dos gregos e dos romanos e nos acostuma a compará-los continuamente a nós”.

Nesse ponto, esse rascunho de reflexão já foi longe o bastante para o que objetivo. Nem os gregos, nem os romanos existem como costumamos imaginá-los. Os magistrados gregos, mas também os juízes descritos na Torá, não são extraterrestres, não são anjos, não são santos, nem sequer virtuosos perfeitos (que para Aristóteles teriam transformado suas vidas num exercício constante para fazer-se digno do fim a que estamos ou deveríamos estar destinados, por e pela natureza).

A digniplatão e aristotelesdade moral, pelo menos parece possível concluir da leitura de Aristóteles, Platão e contemporâneos, para os gregos, têm a ver com a finalidade de nossa vida que, no caso, não é por nós escolhida, embora possamos nos desviar dela (e por isso seríamos infelizes, talvez menos humanos). Viver bem seria cumprir bem, estar de acordo com, nossa finalidade, com nosso telos.

O cosmo teria uma ordem e a cada um caberia um lugar nessa ordem. Saber qual é o seu lugar é descobrir seus talentos, ou a(s) virtude(s) que lhe cabe. A natureza (ou o cosmos) é que distribui esses talentos, a nós só resta lidar com isso. Não podia ser diferente, essa distribuição de talentos, de virtudes, que não controlamos e contra a qual não podemos nos colocar, implica uma hierarquia política entre os homens, de forma que os que tem virtudes não compatíveis com o governo, por exemplo, e que, também, não se mostram dignos, por não se exercitarem em busca da excelência, estão condenados a um lugar inferior na escala social. Desigualdade de talentos equivale aqui a uma desigualdade moral. Na modernidade, isso mudará, mas na Grécia antiga, para manter a ficção, não.

Assim, a democracia grega era uma democracia, mas não de todos. Os cidadãos não são iguais, a ideia de igualdade não faz o menor sentido para os gregos antigos (ainda a ficção), pois a diferença é natural, inafastável, impactando todas as dimensões da vida. Se a distribuição das virtudes, dos talentos é desigual, haveria, portanto, por natureza, virtudes e talentos melhores que outros, ou pelo menos pessoas que alcançariam a excelência e outras que sequer almejariam tanto.

As mulheres e os servos não eram cidadãos. Não participavam do destino da cidade. A Grécia antiga conheceu um período em apenas os donos de terra determinavam os destinos, depois a aristocracia, apenas homens, desde que alfabetizados (depois dos 20 anos), em algum momento, com Péricles, por exemplo, houve algo como uma ‘isonomia’, em que de fato a cidadania incluía a quase totalidade dos gregos (homens). A ideia mesma de democracia não era tão simpática a pensadores importantes, como Platão, para quem os mais preparados, os mais sábios, é que deveriam governar e ponto final.

Vemos que não há santos aqui. Não há anjos. Nunca houve. Não existiu a democracia grega como sonhamos. Os legisladores ou os magistrados, gregos ou romanos, não eram santos, nem anjos, eram homens. Enquanto tal tinham interesses ou representavam interesses.

O ideal de democracia está, contudo, aí. Encanta-nos e deve estar no horizonte, sempre, para não nos deixar esquecer o com que realmente sonhamos. Isso, no entanto, não nos deve fazer esquecer que a democracia real é fruto da luta, do conflito, de visões diferentes do que seria a cidade, o Estado, se preferir-se. E hoje, diferente do que foi na Grécia, acreditamos que a desigualdade natural entre os homens, com talentos e virtudes diferentes, não determina nossa dignidade moral, nem nos fixa em alguma posição numa escala social e política. Acreditamos na igualdade, que seja a igualdade em poder decidir por nós mesmos para onde ir. Todos têm direito de decidir por si, inclusive quanto ao como deseja ver seu país ser governado. O passo seguinte é a ação.

Os legisladores de ontem, os magistrados de ontem, os governantes de ontem, são iguais aos de hoje. São homens. São afetados pelas mesmas questões, inclusive porque lidam com coisas semelhantes muitas vezes e, sobretudo, com o poder.

O que há de diferente é exatamente nossa crença de que somos iguais, porque somos livres (dos desígnios da natureza, do Cosmo, dos deuses), para usar nossa razão (uma ficção também, mas mais interessante do que a que diz que somos determinados ao nascer, por um deus). Liberdade decisória, eis o que nos iguala a todos.

Quando olhamos para o passado em busca de homens exemplares, de santos, parece que estamos dizendo que nossos problemas hoje são de ordem puramente moral. É o discurso que ouvimos com frequência na avaliação dos políticos e da política: uma degeneração moral, a corrupção é a culpada de tudo, falta honestidade, falta caráter…. Onde estão os gregos? Eles sim é que sabiam o que era necessário para governar: homens probos (ou sábios) no comando da cidade.

Isso é, de uma forma ou de outra, dizer que o projeto da modernidade falhou também aqui. Que o ideal de autonomia, de livre decisão, de aposta na razão, não condiz com a verdade sobre os homens. Eles nunca serão ou não querem ser responsáveis por sua história. Continuam esperando o Messias, continuam dependendo de profetas, querem seguir alguém, um santo, um líder ‘nato’, um sinal dos céus. Não são responsáveis, não querem ser, pelo mundo em que vivem. Leviatã é a melhor invenção?

A questão de saber se também esse projeto de homem e de humanidade não é, ele mesmo, um ideal inalcançável fica para uma próxima reflexão (adianto que ele está em plena continuidade com a ficção de um Ocidente pai da modernidade, que, por sua vez seria a comprovação da especialíssima posição dos ocidentais nos planos senão mais de Deus, do Espírito).