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Excesso de (des)informação e a caricatura de Brasil que temos disseminado (parte I)

Em tempos de excesso de “informação” (que, aqui e alhures, tem sido confundida ou misturada com ‘opinião’, com ‘alegação’, com ‘divagação’, com ‘releitura de’…), tem sido difícil levar a sério os meios de comunicação quando dão voz a ‘analistas’, ‘especialistas’, doutores, consultores, quando não a certos ‘jornalistas especializados’. Não é porque temos muita informação e podemos contrastar com o que é divulgado ou ressaltado pelos poderosos jornais e revistas, televisivos, radiofônicos, impressos e digitais, mas porque esses meios de comunicação (e aqui não entrarei no mérito, importante, das opções políticas e ideológicas, pelo menos não em si mesmo – que uma dada revista apoie um partido X ou uma ideologia Y) nem sequer, em grande medida, dão-se conta de como replicam (não quer dizer que não saibam bem em muitos casos), por meio de seus agentes, “informação” inútil, incorreta, baseada em intuição ou puro achismo (ou preguiça dos ‘analistas’), lixo… que acaba sendo ‘copiada’, como acontece hoje nas melhores famílias acadêmicas. Apresentadas por senhores e senhoras respeitáveis, o lixo parece obra de arte.

Manipulacao-Opiniao-Publica

 

A coisa toda perde o controle e, em cascata, o que era mera suposição ou chute, ou uma boa intuição (mas baseada em dados insuficientes ou equivocados), torna-se explicação para fenômenos complexos. E todo mundo passa a repetir a ‘explicação’ e, não raro, isso pode ter impacto sobre o que se pretende explicar.

Não vou fazer ou tentar perder tempo com isso, não o tenho agora, mas gostaria de utilizar algumas ferramentas para mapear algumas dessas informações ou explicações, desde quando foram pronunciadas pela primeira vez, até se tornar ‘senso comum’, na voz dos jornalistas, por exemplo. Ao mesmo tempo, tentar desnudar como certa visão de mundo, que valoriza a ideia de individuo, e.g, que ao anunciar ‘sociedade civil’ inclui todos (inclusive os que estão à margem e sem voz nessa sociedade), que lê a história, inclusive a que se desvela aqui e agora, a partir de uma certa classe social e/ou gênero, religião (classe média, masculino, ‘educado’, cristão…) e ‘transforma’ isso em base ‘epistemológica’ para julgar, avaliar, criticar, propor intervenções, o que reforça o próprio ponto de vista, a cosmovisão, os valores que a sustentam.

Sem caminhar para algo muito abstrato, exemplos simples do que se vomita, via rádio/televisão/revistas/jornais sobre, por exemplo, os “‘novos’ movimentos” no Brasil (cujo marco, para a mídia e que, parece, todos repetem agora sem parar, seria junho de 2013), não explica nem indica caminho algum para compreender minimamente o Brasil de hoje. Salvo um ou outro (cientista social, que realmente pesquisa), a maior parte dos que tentam dizer algo (e se animam com os microfones e câmaras), continuam na pura especulação (que não se pretende testar ou comprovar, ela basta, para os jornalistas basta – desde que tenha sido bastante repetida e, por isso, ‘verdadeira’).

A crença que se pretende firmar mais e mais de que vivemos um tempo absolutamente diferente, uma era do conhecimento (blá), em sociedades de informação (?), num mundo globalizado (sem conseguirmos explicar isso e a insistente existência de resistências no mundo todo em tornar-se pasteurizado), um mundo dominado pela internet (que tem um papel importantíssimo, mas que os números demonstram não ser isso tudo que tentam fazer acreditar e querem que seja). Por falta de comparação adequada (o que dá trabalho), inclusive histórica, assentado no desejo de que esse mundo seria da juventude (coitada), que houve uma revolução tecnológica tão radical que as novas gerações (adoro isso, mas nunca consegui entender o que o ‘analista’ que utiliza a expressão quer realmente dizer), criadas num mundo em que os pais estão mais ausentes, em que a escola e as redes sociais seriam mais fundamentais para formar a identidade e os modos de subjetivação do que grupos mais ‘tradicionais’ (incluindo sindicatos, partidos, família, ‘igrejas’ (?)), que essas novas gerações estariam cansadas do ‘modo como as antigas gerações atuam e gerenciam esse mundo’ (daí uma descrença em partidos políticos, por exemplo, e nas instituições modo geral – aqui também é muito interessante não conseguirmos entender exatamente o que os ‘cabeças’ querem dizer)…

Na exaltação de uma nova geração (sim, há coisas novas aí, há outras motivações e outros modos de individuação, de subjetivação, de identificação, mas o que se diz e reproduz ad nauseam na mídia não esclarece nada, ao contrário, desvia o olhar – e aqui indico ser a afirmação mera suspeita, mas baseada em pesquisa, em observação atenta) que, na realidade, não existe, pelo menos não como é apresentada. Faz-se um recorte e a classe média torna-se representativa. Ignora-se completamente as diferenças, incluindo a importante diferença de capital social/cultural e econômico.

Não, não é verdade que a juventude brasileira , em massa, tenha um smartphone na mão e esteja conectada 24 horas por dia. Uma parcela considerável da juventude possivelmente tenha smartphones, assim como adultos de todas as idades. Uma parcela da juventude possivelmente passe muito tempo conectada na internet (principalmente se puder pagar ou frequentar locais com wifi liberado, como alguns shoppings centers), mas muitos adultos também. NO entanto, a maior parte da população brasileira ainda não tem acesso à internet, muito menos banda larga, nem pode pagar (e não teria por que) por um smartphone. O acesso via computador também é limitado. É possível mapear tanto por região como por categorias o acesso, no caso brasileiro, o que nos mostrará uma concentração no sudeste, exatamente como outras concentrações (diminuindo e se deslocando nos últimos anos, como a do consumo).

Jovens de classe média? Alta? Estudantes de escolas particulares? Bilíngues? Com hábitos de consumo semelhantes às de um americano médio? Que não tem nenhum ou quase nenhum gosto por cultura brasileira, que acreditam em meritocracia e no livre mercado? Que tem tempo livre e ‘competência’ para produzir conteúdo em portais (e não no facebook), conteúdos sobre estilo de vida, saúde, economia, religião, política? Jovens apartidários?

As perguntas não tem uma lógica nem um encaminhamento, mas são dúvidas sobre de quem se fala ao falar-se de juventude, de novas gerações, de ‘novos movimentos’, do uso das ‘redes sociais’. Que tanto a juventude como as redes sociais tenham algo a nos ensinar parece difícil negar, mesmo sem precisar seu significado. Mas até mesmo o conceito ‘rede social’ foi apropriado e desfigurado nessa lambança de excesso de ‘informação’.

Onde está a juventude da periferia, que trabalha duro, que está envolvida com movimentos ‘tradicionais’, que milita em partidos, que tenta organizar-se nas universidades, que está nas igrejas (encontrando-se fisicamente, promovendo debates ao vivo e a cores, promovendo ações continuadas, ligados a outros grupos, locais, nacionais e internacionais), que não tem smartphones e nem computador, que acessa internet nas lan houses e centros ‘telemáticos’ espalhadas por todo lugar, a juventude que circula apenas na ‘comunidade’, por falta de grana ou porque ali ‘acontece a vida’, a juventude que ainda usa o samba, o pagode, o rap, o forró, o funk para dizer algo…?

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Posso estar enganado, mas uma parte considerável das ‘análises’ reflete o desejo do ‘analista’ de que o país não seja esse, real, das favelas, das periferias, da festa, do encontro, de gente desconectada ou pobremente conectada (porque são pobres), muitas vezes uma caricatura do outro lado da avenida. Ao invés de explicitar isso, como alguns comentaristas da GloboNews fazem, simplesmente tornam invisível o de que não gostam (quando aparecem é para apoiar um ponto de vista favorável a seus desejos).

Exagero? Pode ser. Mas não é de hoje também que, embora o complexo de vira-latas nos ronde e pressione, que pensamos o país como algo singular e valorizamos tanto isso que nossas explicações devem, obrigatoriamente, apoiar as teses da singularidade brasileira. Mas esse é tema para outro lugar.

Minha motivação para iniciar essa provocação (a mim mesmo) é ver que mesmo veículos e comunicadores que tendem a ser mais cautelosos e neutros reproduzem essas visões distorcidas e replicam ‘explicações’ tortas ou incompletas como se fossem a verdade sobre. Isso acontece quando selecionamos determinadas questões para debate, selecionamos ou damos ênfase em certas perguntas, convidamos certos ‘especialistas’, e não damos vasão ou espaço para o contraditório ou explicações alternativas.

Mais ainda, perturbou-me nas ultimas semanas a constatação (além da minha ingenuidade) – e aqui cabe bem a frase nelsonrodrigueana já tornada senso comum: “a intimidade é uma merda” – de que pessoas que admiramos podem ter facetas desagradáveis ou contraditórias, caretas e conservadoras até (e isso cabe em relação a nós mesmos). Testemunhei alguns jornalistas por quem ainda tenho algum respeito – inclusive pela capacidade de analise, da critica e atenção a armadilhas como as que indiquei acima – que desfilaram seu conservadorismo sem dó (em outro momento, se tiver tempo e disposição, falarei sobre isso) ou, mais recente, reproduzem bobagens, chavões e conduzem entrevistas de uma maneira que tornou a manutenção da admiração problemática (ou seja, onde ainda achava poder encontrar, nos meios de comunicação, algum alento acabou de vez).

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A situação não é muito diferente nos blogues. Eu replico muita coisa, estrategicamente às vezes, mesmo achando que o tom, a linguagem não são as mais adequadas. Faço isso para possibilitar outras vozes, embora eu mesmo talvez fizesse diferente. Tenho alguns blogueiros de preferência, que considero sensatos e que, a despeito de seu engajamento, são capazes (e isso tem se comprovado) de reconhecer excessos, incorreções etc.

No final das contas, minha convicção de que temos de construir alternativas para tornar visível o Brasil em todas as suas dimensões e para disseminar visões de mundo que valorizem a comunidade, o pensamento crítico, a ‘ciência’ (ou o espírito cientifico que nos obriga a duvidar e exigir evidências, fatos, dados…), ferramentas de análise, pensamentos dissidentes…. A internet é fundamental, mas não é tudo e nem dá conta de tudo (não hoje).

As manifestações ocorridas no Brasil ainda estão para ser melhor compreendidas, inclusive sobre sua efetiva e real importância (e sua real dimensão física). Ficar nas beiradas, valorizando instrumentos como o facebook e a partir disso inferir o sentido delas não nos deu nada de convincente e honesto de volta, a maior parte do que se disse, nessa linha, é pura bobagem. Desconsiderar os manifestos em outras partes do mundo, anteriores, ou forçar uma correlação exata entre eles, também não ajuda, mas antes tentar buscar um fundamento comum do que insistir que ‘o caso brasileiro’ é excepcional.

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Repetir a ladainha de uma ‘crise de representação’ e de uma ‘generalizada’ desconfiança das instituições, particularmente dos partidos políticos e do parlamento, também não explica nada (na realidade, ao insistir que essa é a explicação, que se antecipa no discurso, tudo mais vira uma busca de evidências para comprovar a tese, ignorando sistematicamente o que aponta alternativas na compreensão).

Romper com isso não é fácil, mas urgente como replica um mote do Fórum Mundial Social: “um novo mundo é possível, urgente e necessário”. A levar a sério nossos ‘analistas’, o FMS acabou, os sindicatos acabaram, os partidos podem ser enterrados, as associações podem preparar-se para serem atropeladas por um certo anarquismo, e seu título de eleitor será desnecessário. O bom é que o voto poderá ser dado via Facebook ou Twitter, o problema vai ser identificar o candidato fake ou imaginar como será governado o mundo com tanto ‘curtir’ e ‘descurtir’ produzidos por robots (e quem não é nas ‘redes sociais’?).

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o Brasil indígena e rural também não aparece em lugar algum, os problemas do campo não existem para a midia e, assim invisíveis, somente existem para nós como entraves ao Brasil desenvolvido, urbano.

 

Próspero e o Fenômeno, ou sobre o Brasil que nos envergonha.

cartãovermelho_ronaldoRonaldo, o Fenômeno. Ídolo do futebol brasileiro e internacional, ex-garoto pobre, um em um milhão (dos que foram salvos de destino triste e violento – o da maioria das crianças e jovens das periferias do mundo, mesmo do mundo não periférico).

Craque, alçado à condição de modelo de superação das adversidades, no negócio milionário em que se tornou o futebol, alcançou também fortuna e, com isso, a possibilidade de viver a vida daqueles para quem dinheiro não é problema, ou para quem problemas materiais, de segurança ou sobrevivência não existem.

Embora muitos dos que, tendo alcançado/herdado fortunas, dedicam-se a tentar tornar esse mundo melhor, a transformar a vida dos menos afortunados, dando-lhes oportunidade de superar a vida miserável que levam, sabemos que homens de negócio não têm tempo de pensar na má sorte dos outros – talvez algumas vezes, enquanto degustam um Richebourg ou um Romanée Conti, e se deliciam com um banquete no Le Meurice ou no Masa (ou no Kitcho), pensem na infelicidade e nas agruras do viver.

Ronaldo Luís Nazário de Lima não existe mais. Se fosse possível, talvez ‘Fenômeno’ seria transformado em sobrenome. Hoje é uma marca.

No processo de metamorfose, Ronaldo patinou bastante, exagerou aqui e ali, envolveu-se com alguns escândalos, daqueles que costumam derrubar ou manchar celebridades, mas tem sido salvo pela opinião publicada, pois é um exemplo vivo de como o individualismo que sustenta as ideias liberais seria pertinente. Por ‘mérito’, o pobre Ronaldo Luís “chegou lá”.

PAUSA

Aimé Césaire

Aimé Césaire* (1913-2008), poeta e político da Martinica, que, junto com o senegalês Léopold Sédar Senghor (1906-2001), iniciou e deu forma à ‘negritude’, qua ideologia (e movimento) – aliás, foi ele o primeiro a utilizar a expressão, dando-lhe um sentido positivo – escreveu, em 1969, uma adaptação da peça de Shakespeare, A Tempestade, em que a questão pós-colonial se coloca brilhantemente.

Na adaptação de Césaire, temos como personagens principais: Próspero, o mestre, o senhor, que submete outros dois a seu domínio: Caliban e Ariel. Tanto um quanto outro almejam a liberdade e a tentam obter de modos diferentes: Ariel apela à consciência moral de Próspero, enquanto Caliban rebela-se.

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Léopold Sédar Senghor

Caliban é um nativo da ilha em que aportam Próspero e Ariel. E desde o primeiro momento é visto como estranho, inferior, um bárbaro, a quem cabe sim submeter, dando-lhe, com isso, uma oportunidade de ser algo mais que a nulidade que era (estranha construção essa) antes desse ‘encontro’. Está em jogo a relação senhor-escravo, a mesma descrita por Hegel (1770-1831) e tão bem analisada por Alexander Kojève (1902-1968), cujo final de processo resulta, mesmo com a libertação, na anulação do escravo, cuja alma já é do senhor.

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Hegel

No caso de Caliban, frustrada as suas tentativas de libertar-se, restam as palavras:

“Próspero – (…) Afinal de contas, Caliban, eu o amo… Vamos façamos a paz… nós vivemos dez anos juntos e trabalhamos lado a lado dez anos. Dez anos, isso conta! Acabamos por nos tornar compatriotas!

Caliban – não é a paz que me interessa, você sabe muito bem! É ser livre. Livre, está me ouvindo! (…) Próspero, você é um grande ilusionista, a mentira, isso você conhece. E de tal modo você mentiu para mim, mentiu sobre o mundo, mentiu sobre mim, que acabou por me impor uma imagem de mim mesmo: um subdesenvolvido, como você diz, um incapaz, eis como você me obrigou a me ver, e essa imagem eu a odeio. E ela é falsa! Mas agora, eu o conheço, velho câncer, e eu me conheço também.”

A expressão “Espelho de Próspero”, presente na obra shakespeariana, e, desde o século XIX, já presente em reflexões latino-americanas – como a de Ruben Darío ou José Enrique Rodó, refletindo (olha o espelho) nossa estranha condição de admiradores dos que nos dominam, inclusive intelectualmente, fazendo-nos acreditar que somos subdesenvolvidos, bárbaros, incapazes, a ponto de odiarmos a nós mesmos, quando deixamos revelar que não somos nada além de um reflexo do senhor.

Muito antes de Nelson Rodrigues cunhar a feliz expressão de Complexo de Vira-Latas, outras expressões, como a de complexo de Calibán, ou a maldição de Malinche, já nos ajudava compreender parte do processo que nos tem feito, faz muito tempo, acreditar sermos inferiores, não apenas materialmente, mas espiritualmente também.

FIM DA PAUSA

Ronaldo, o Fenômeno,  que aceitou a incumbência de comandar o Comitê Organizador da Copa 2014, passando a ser uma espécie de embaixador da Copa no Brasil também, e, nesse papel, defendeu (como não podia deixar de fazer) a realização do Mundial no país, a ponto de fazer declarações infelizes tais como “não se faz Copa com hospitais”, e ter se mostrado realmente um entusiasta, mas,  repentinamente, mudou seu discurso.

Assim como as “celebridades” anêmicas e descerebradas da Ellus, diz estar envergonhado, que a imagem de país que vamos “passar” para o resto do mundo é ruim. Por causa de quê? Ah! Dos atrasos nas obras, segundo nossa imprensa. É o discurso da Fifa e da oposição política no país. A Fifa, contudo, não precisa de defensores, porque já encheu os bolsos e sem risco algum. A oposição política ao atual governo (embora a Copa não seja uma questão de governo, nem de Estado, nem um problema Federal apenas, pois sua concretização depende igualmente dos Estados e dos municípios em que os jogos vão ser realizados), pode lucrar com um fiasco ou com uma visão de incompetência na gestão do evento. Não à-toa, o Fenômeno declarou que seu candidato é Aécio Neves (ninguém pode definir em quem o outro vai votar, mas da posição que ocupa nesse momento, qualquer um deveria abster-se de fazê-lo – para o bem ou para o mal).

Mas essa é outra questão.

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O que Ronaldo, o Fenômeno, representa nesse momento?

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A elite envergonhada, que está atemorizada com o fato de que ‘todo o mundo’ saberá que não somos o de que gostamos pensar ser (uma caricatura do que acredita-se ser um europeu ou um norte-americano ‘padrão’), mas que não liga a mínima para os fatos, esses sim vergonhosos: -de que nossos presídios estão abarrotados de pobres (e pretos), muitos dos quais sem um julgamento; de existir no país trabalho infantil e uso de mão de obra escrava – o que alguns consideram uma ficção (afinal seus filhos, quando trabalham, começam a fazê-lo depois dos 30, com o término de seu ‘pós-doc’); -que minimizam os problemas advindos da miséria a que estão submetidas milhares de pessoas (e a história se perde em séculos), submetidas a condições subumanas, morrendo de fome e de doenças curáveis, em toneladas; -que não se afetam com as milhares de meninas submetidas à prostituição, porque são pobres; -que jovens sejam mortos todos os dias nas periferias das grandes cidades; -que trabalhadores rurais e seus defensores sejam assassinados no campo e nas florestas, durante todo o ano, todos os anos, simplesmente porque insistem em mostrar a face perversa dos latifúndios; -que a desigualdade entre nós é um escândalo, mas aceita por permitir que tenhamos nossas mucamas, pajens, serviçais, mulas… o que nos faz parecer nobres em relação a essa ralé.

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Não, Ronaldo não faz referência ao como a Fifa transformou o futebol em um grande negócio. Não critica a armadilha na qual têm caído os países sede, literalmente dominados pelas garras afiadas dos donos do futebol. Não fala dos problemas reais e que afetam, verdadeiramente, a vida das pessoas, como a remoção de moradores nas áreas próximas a estádios ou alcançadas pelas obras de infraestrutura. Não consegue também apontar o dedo para os problemas com os processos que envolvem o desafio de preparar um país para um evento desses, presos à ganância de empreiteiras, ao olho grande de empresários e políticos de todos os matizes (mas hoje facilmente identificáveis), mas também a problemas históricos dos países (coisa que ele desconhece ou esqueceu).

Ronaldo tem vergonha porque percebeu que não dá para esconder, como sempre fez certa elite, as mazelas do país, país que, é bom dizer, tem avançado muito e melhorado em muitos aspectos, inclusive na redução da desigualdade (embora em ritmo menor do que muitos de nós deseja e por meios que muitos de nós não concorda). Ronaldo tem vergonha, pois, diferente do Caliban de Aimé Cesaire, ele não se rebelou jamais, antes aceitou bem seu papel, transformou-se na imagem de Próspero e, ver essa imagem embaçada, prejudicada, revelando, um pouco que seja, não ser ele, de fato, Próspero, mas um bárbaro subdesenvolvido é assustador.

Ronaldo recusa-se, como tantos (ou todos) de nós parecem não conseguir – como o Caliban de Aimé Cesaire, odiar a imagem de incapaz, de subdesenvolvido, que Próspero impõem, de forma nada sutil, e compreender que se trata de uma imagem criada e cultivada. Assim como Ronaldo, e as ‘celebridades’ da Ellus, odeiam não ser Próspero. E a ‘imagem’ que refletem suas mensagens, em camisetas e declarações midiáticas, deixam claro que não o são. Agora falamos em “susto Brasil”, em “país mais corrupto do mundo”, “no país mais violento do mundo”…. mas nos calamos sobre a desigualdade e sobre o papel que certa ‘elite’ tem em sua manutenção.

Ronaldo tem vergonha porque sabe que o Brasil de onde ele vem é pobre, tem fome e que o destino dos que o habitam não costuma ser benévolo, e ele não quer lembrar disso. Infelizmente, sua alma já é de Próspero.


 

*Franz Fanon (1925-1961) e Edouard Glissant (1928-2011) foram alunos de Aimé Césaire.

Como os Cuna podem nos ajudar a (re)pensar (a) nós mesmos.

“Copiedness is redolent in these mimetic worlds. Sherzer draws our attention to the way that repetition, retellings, and quotation form an outstanding set of features, not only in these chants but in everyday Cuna speech as well. Cuna speakers, he affirms, “tend to present facts, opinion, argument, not as their own but as retellings and reformulations of what others or even they themselves have previously said. Discourse of all kind is heavily embedded with speech that has previously occurred, typically in the form of first person direct quotation” (which itaussigs what I myself am doing myself right now). (202) In other words, there is a decisive mimetic component built into Cuna speech. Sherzer goes on to state that Cuna “grammar does not readily make a distinction between direct and indirect quotations. The great majority of all quotation is direct-speakers are constantly uttering words that are nor their own (and) it becomes very difficult,” he notes in connection with Cuna chanting, “at each moment of the narration to decode exactly who is speaking.” (202·203) This difficulty holds for outside analysts (such as himself) as well as for native members of the community. He quotes a chant in which the chanter is quoting his teacher who is quoting a mythical hero who is quotjng a Chocó Indian who is quoting a chief in the spirit world who is quoting God. (And I am quoting him quoting this chanter who . . .). We are constantly made aware of the constantly mimetic sensibility of Cuna speech, of Cuna Being; that Cuna speech is always one or more Steps, to quote Sherzer, “removed from the actual speaker and that what one is listening to at a given moment is always a retelling, a rehearing, a reviewing, or a reinterpretation of something said before. ” (210) These words deserve retelling themselves, With what nonchalance they estrange, making the new old, the oft-said new, undermining mimesis itself, crating (as Benjamin would have it, in his addiction to quoting) new forms through doubling mimetic doubling such that, as Sherzer points out, “retellings blend into interpretations” (205)”

TAUSSING, Michael. Mimesis and Alterity: a particular history of the senses. New York/London: Routledge, 1993, p. 109-110)

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*Joel Sherzer, antropólogo e linguísta (Universidade do Texas), especializado em etnografia da fala e discursos, e arte verbal, estudou os Cuna (ou Kuna), índios do Panamá. Michael Taussing, também antropólogo, ao tratar do que ele denomina “mundos miméticos” (e suas “contrapartes invisíveis”), retoma parte das descobertas de Sherzer, no capítulo citado acima.


 

O que me chamou a atenção, ao voltar para esta obra do Taussing (que não é um antropólogo sempre bem recebido em seu meio, embora adorado por seus estudantes), não tem exatamente um vinculo direto com o objeto do autor – eu, na realidade, não tinha dado muita atenção a este livro (como para outros livros do autor).

Fiquei pensando nos Cuna e no como podemos olhar seu “caso” para pensar a nós mesmos em tempos de opinião publicada, em tempo de redes sociais, em que podemos vislumbrar tão facilmente o como transformamos (digo isso porque a tentação ou a armadilha está posta para todos) o discurso de terceiros (particularmente aquele construído hoje pela mídia, seja por meio de articulistas, jovens jornalistas bem treinados a seguir instruções, ou pela repetição de opiniões de “especialistas” que são transformados em vozes privilegiadas pelos canais televisivos, em entrevistas rápidas, talk shows ou como comentaristas, nas revistas “especializadas”, nos semanários ou jornais diários) em nosso discurso, nossa visão, nossos argumentos… de uma maneira tão rápida, tão absurdamente “natural”, que, caso David Hume vivesse agora (e não na Escócia do século XVIII) teria motivos de sobra para continuar acreditando em sua teoria de que nós, por uma necessidade psicológica (inescapável, portanto), saltamos rapidamente de um caso particular para uma generalização (o que alguns chamariam de “apressada”) – só para lembrar que foi por causa dessa “descoberta” de Hume que Imannuel Kant teria “acordado de seu sono dogmático” e teve que socorrer-nos desse “problema da indução”, inventando os seus famosos “a priori”s. (do meu ponto de vista, nem mesmo Popper, já no século XX, resolve satisfatoriamente a questão – embora, do ponto de vista de uma ciência ideal, ele tenha sido perfeito. O fato é que continuamos parecendo papagaios e chegando a “conclusões” e fazendo afirmações tão rapidamente quanto seja possível, sem assegurar-nos de que nossas bases sejam seguras ou, pior, sem sequer entender a questão – simplesmente vemos causa onde ela não existe ou preferimos acreditar, para não pensar (?), em nossos sentidos ou sentimentos, na honestidade de quem nos contou (porque tinha uma cara bonita, parecia confiável, era um “doutor”) – enfim, Hume não teria dificuldade em apontar farto material em favor de sua tese)).

Em tempos de eleição presidencial  – e para todo o Executivo nacional, fica fácil flagrar isso (mesmo da pena ou da boca de quem supostamente, por ter “preparo”, tempo, capital social e cultural, se podemos dizer, não deveria – ou deveria de maneira mais crítica ou menos intensa – fazê-lo). Mas, se isso é importante, pois trata-se de como pensamos a vida social e política, nossos valores, nossa capacidade de pensar por nós mesmos ou, pelo menos, escolher nossas fontes, deveríamos acordar também de nosso sono dogmático (e da ilusão de que somos mais espertos do que realmente somos).

Quais são nossas fontes? Temo que, em grande medida, Giovanni Sartori esteja certo quanto a seu pavor sobre o papel da TV na “determinação” de nossa visão de mundo e de nosso julgamento sobre questões tão fundamentais como a democracia, direitos, as instituições, a política, a economia, valores….

Além de escolher melhor e mais criticamente nossas fontes, sermos capazes de compreendê-las efetivamente, refutar suas bases ou conclusões competentemente é algo que me parece cada vez mais difícil, uma vez que não somos educados para tal, nem na educação fundamental, nem no ensino médio, tampouco na universidade. E não falo por “uma sensação de que seja assim”. Após alguns anos lecionando e tendo filhos em idade escolar, motivo pelo qual constantes embates com escolas, professores, psicopedagogos, diretores etc – graças a um interesse legitimo e constante sobre o em que se tornou a educação e a escola em nosso mundo (não é um problema brasileiro – o problema do Brasil é copiar e sempre mal, somos capazes de piorar aquilo que já é ruim, tantas vezes – embora também façamos o contrário – infelizmente, no geral, as poucas experiências boas em educação e modelos de escola são realmente exceção), posso dizer com alguma reflexão, detida, ponderada, que é aterrorizante o que se vê nas universidades, publicas e privadas, no Brasil e em quase todo o mundo (porque transformamos a educação em mercadoria, porque somos pressionados a padronizar, porque o “mercado” exige isso ou aquilo, porque não conseguimos pensar fora dos “altos padrões” das universidades de “ponta” e do quadro posto por seus especialistas – e, de novo, pelo mercado).

Voltarei a isso, em breve. Por hora, a vontade de entender melhor o que se passa para fugir das respostas prontas e das analises fáceis (que descrevem e pintam um quadro, mas pouco explicam ou, quando tentam, é para fixar uma tese – nem sempre posta de forma honesta ou intelectualmente honesta). Para consumo particular.

 

Mafessoli e o conhecimento comum (sobre a insistência em achar que a vida pode ser medida, e que isso bastaria)

“A vida e sua fmaffesoliecundidade superam largamente os mecanismos de redução, as injunções de identidade. (…) Creio mesmo já haver demonstrado que a medida (grifo nosso) é justamente o que nos faz correr o risco de nos afastarmos mais e mais de nosso objeto de estudo. (…) é melhor apostar no desvio: é o caminho mais certo para a centralidade. (…) Parece-me que tal atitude, que não pretende erigir-se em consciência de uma época ou mesmo fazer as vezes de mestre-escola desta ou daquela camada social – é justamente o que permite que venham a ser evitados estes dois perigos sempre à espreita quando se trata de intelectuais: o da obsessão pelo rigor, que caracteriza o positivista típico, e o da paranóia, que, não raro, assinala o vazio dos pensamentos em moda” (MAFFESOLI, Michel. O conhecimento comum. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988, p. 72).