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De onde vim – como o ponto de partida pode ser fundamental. ELEMENTOS QUASE BIOGRÁFICOS II

De onde vim – como o ponto de partida pode ser fundamental

Minha história não tem nada de excepcional, mas como a de todos nós, para o próprio percurso que fazemos nesse curto espaço de tempo na Terra, o ponto de partida pode ser fundamental na “determinação”, senão de todo o percurso, de parte relevante dele.

Nasci na metade dos anos 60, o que significa que, no Brasil, a Ditadura estava prestes a fazer aniversário e a América Latina era um laboratório de caudilhos. Meio do processo de urbanização generalizada, mas um mundo ainda bastante rural. Brasília já era uma realidade e para cá vieram brasileiros de todos os cantos do país, a maioria gente que contava basicamente com seu esforço físico para erguer a Capital, outros removidos do Rio de Janeiro para dar conta da burocracia federal, nos três poderes, outros logo encaixados na máquina estatal encarregada da gestão do Distrito Federal.

Uma aventura como a construção de uma cidade inteira, no centro do país, produziu sorte e azar, vida nova e morte, abusos e esperança. História que ainda estamos tentando entender e que ficou mais obscurecida pela, mal inaugurada a nova Capital, ditadura que se instalou no país.

Bom, meu pai, um sujeito que saiu de casa menino, filho de um funcionário publico no interior do Rio Grande do Norte, um fiscal de tributos, “seu Raposinho“, era segundo em idade – o mais velho tornou-se seminarista, mas abandonou a vida religiosa para tornar-se contador, adotando o Recife como seu lar. Meu pai foi o outro a abandonar o interior das terras potiguares e ir, menino, para a capital, Natal. Foi para estudar, mas também para trabalhar. Fez um bocado de coisas, mas antes da aventura em Brasília, foi uma espécie de vendedor misturado com caixa e contador de um armazém.

Veio, com a cara e a coragem para o centro do país e nunca mais deu notícias para os seus, pais e irmãos, seja no Apodi, seja no Recife. Talvez nem ele consiga dizer bem o que o motivou mais a vir para esse lugar estranho e inóspito e, também, a deixar por anos os familiares sem notícias, a ponto de acharem que havia morrido, o que era possível.

O fim da história é que a vida não era fácil e, provavelmente, lutar para manter-se em Brasília tenha consumido tanto da energia e da atenção que, somente depois de achar que a vida estava bem estabelecida, com família formada, com uma casa (construída em mutirão na recém criada cidade satélite do Guará), ele pode pensar na família que havia deixado pra trás no Nordeste. Quando a sorte parece ter sorrido para grande parte dos que permaneceram na capital e eles foram incorporados seja nas empresas do Governo do Distrito Federal ou do Governo Federal, meu pai optou por fazer parte dos quadros da Companhia Energética de Brasília (CEB) e lá iria se aposentar.

Minha mãe tem uma história mais típica do mundo rural. Uma entre uma dezena de filhos do seu Zé Lázaro, de origem desconhecida, mas provavelmente vindo da Bahia para Minas, onde circulou até mais ou menos assentar-se em região próxima à Patos de Minas, mas também de Vazante (cidade mais nova), de fato num lugar mais perto do “Retiro da Roça” por que passei uma vez, mas que nunca soube se ‘existia’ de verdade, como município ou parte de algum distrito. Coisas de Minas Gerais.

A verdade é que seu Zé Lázaro era analfabeto, como costumava ser essa ‘gente’, mas um curandeiro bastante conhecido, seja por suas garrafadas, seja por suas benzeduras, suas orações (e espantavam desde cobra até mau olhado). Mas isso era um talento extra, o outro era de ser mesmo trabalhador braçal, incansável, destino que seguiram seus ‘filhos homens’ tanto quanto as mulheres. Moravam na “terra dos outros”, com permissão, e tanto plantavam como colhiam: algodão e milho. Mas seu zé lázaro também fez cercas, muitas cercas….

AQUI UMA PAUSA

Foi uma das visões mais impressionantes que tive na vida e que marcaram meu espírito de forma definitiva. Ainda adolescente, por volta dos 14 anos, se não me engano, primeira visita, numa interminável viagem de ônibus, para o interior de Minas Gerais, com minha mãe e meus irmãos (uma dessas coisas que só mesmo uma mulher corajosa e determinada faria: juntou dinheiro do seu trabalho de lavadeira e passadeira e carregou os 6 filhos para visitar o seu ‘passado’, sem meu pai – e sem o dinheiro dele (que era pouco, diga-se de passagem), com a cara e a coragem, nos apresentou aquele mundo (tivemos a sorte de ser bem recebidos por antigos patrões – e ainda patrões de pelo menos dois tios – em suas fazendas).

Ali, numa extensão de terra tão grande que minha mente hoje não saberia precisar, vi, pela primeira vez, de perto (outras tinha visto na estrada pela janela do ônibus), uma imensidão de cercas, com arrame farpado e morões de madeira, muitos formatados a machadada. Meu avô fez grande parte daquilo.

Nesse momento já se formou em mim uma visão que, alguns poucos anos depois, voltou com toda clareza: o camponês explorado, sem terra, ajudando a demarcar as terras a que jamais terá acesso salvo como escravo. Literalmente, meu avô morreu trabalhando. Talvez com doença de Chagas, talvez de outras doenças, mas com grande possibilidade de decorrerem do ‘estilo de vida’, modo chique de dizer doença típica de pobre (ou agravadas pela pobreza).

Não morreu revoltado, acredito, apenas crente de que seu destino era aquele mesmo. Minha mãe cresceu assim, trabalhando “na roça”, na colheita, ou na casa dos outros, cozinhando, lavando roupa, mas com a alegria de uma família grande. Ela é a madrinha de muitos irmãos, que ajudou “a cuidar”. Apanhou, porque a ignorância dos pais incluía castigos severos até para o fato de ousar-se fazer perguntas. As loucuras, hoje isso é claro, da minha avó materna, forjou um casamento da minha mãe, adolescente, com um homem bem mais velho, um pouco a contragosto do meu avô, que, contudo, não evitou a situação trágica de tantas meninas no interior desse país.

A coisa não funcionou, ainda bem, minha mãe fugiu, mas somente mais tarde fugiria mesmo desse ambiente. Não sabemos exatamente o que motivou a partida, mas imagino como deve ser sofrido para uma garota, que mal sabia ler e escrever algumas palavras, sair de perto dos seus e daquilo que, por mais duro que fosse, era conhecido e “seguro”, para aventurar-se, primeiro em Minas Gerais mesmo, e depois em Brasília, aonde chegou carregando esperança e medo, fugia do passado e do homem com quem havia se casado. Não tinha medo de trabalho, aceitou o que apareceu, até que encontrou meu pai e a história desses dois, uma história improvável, teve início, com vários momentos em que o final da história se manifestou.

Não saberia como descrever as angustias, o medo, a luta para conseguir equilibrar-se nesse fim de mundo que era Brasília. Sei que logo nasceu minha irmã mais velha e, um ou dois anos depois, não nasceu meu irmão, abortado pela mesma angustia que a visão de futuro sofrido provocava, substituída depois pelo remorso, pela dor…. eu vim depois e, depois de mim, mais quatro, incluindo os gêmeos que nasceram 11 meses depois que eu tinha feito minha aparição neste mundo.

Os gêmeos vieram num janeiro chuvoso, exigindo dedicação e muita atenção, inclusive dos pouquíssimos vizinhos. Cultivo, desde então, com apenas 11 meses de idade, um sentimento de que este mundo não tem o menor interesse por nós, de que depende de nós, e só de nós, conseguir sobreviver, de que o mundo dos adultos tem uma lógica própria que é cruel, mesmo que não pretenda sê-lo.

Moramos em uma espécie de acampamento, lembro bem das casas de madeira, onde hoje é o Setor de Indústria e Abastecimento, vagamente imagens daqueles com quem convivemos por alguns anos, incluindo crianças e adolescentes. Minha mãe transformou-se naquilo que, talvez, fosse um de seus temores: uma ‘dona de casa’, agora eram 4 filhos e logo a quinta viria. Nesse momento estávamos prontos para a qualquer momento ir para a recém criada cidade satélite do Guará (I), na Quadra Interna 5, conjunto F, o segundo conjunto a ser levantado pelos próprios moradores, em regime de mutirão, com a ajuda do GDF.

Meu pai pretendia concluir os estudos, queria terminar eletrônica, ser um eletrotécnico formado, mas os sonhos de estudar foram abandonados com a dura jornada no trabalho acompanhada do trabalho em mutirão. 1968, estávamos de mudança. Ano tão importante para o mundo, tudo de que me lembro é de uma casa sem muros, e do cipreste que plantamos para servir de cerca viva, e dos poucos vizinhos que começavam a tomar posse das casas.

Acredito hoje que as mulheres, em sua maioria donas de casa, não enlouqueceram porque criaram um forte laço entre si, as vizinhas logo viraram comadres e os filhos afilhados. Todos cuidavam de todos e assim suportaram os anos, ao mesmo tempo em que testemunhavam as mudanças na cidade, e sentiam-se protegidas daquilo que, em um momento ou outro, sabiam estar acontecendo no país. Mas a ignorância do significado maior da situação do país provavelmente colaborou com a pouca preocupação em relação ao futuro dos filhos.

Logo viria a escola, mas antes, a sorte nos brindou com vizinhos que tinham filhos bem mais velhos. Uma vizinha era professora ou pelo menos tinha formação para isso. No quintal da casa, organizou um espaço onde a criançada se alfabetizou, onde aprendemos a ler e escrever. Era um espaço feliz, de encontro com os amigos de rua, onde havia carinho e atenção. Hoje tenho certeza de que isso foi fundamental para meu processo de aprendizagem, por gostar de ler e não ter medo de escrever.

Quando fui para a escola, já sabia, como muitos na época, ler e escrever, o que me deixou, estranhamente, confuso. Não entendia porque a professora desenhava as letras das vogais e tentava fazer com que repetíssemos aquilo. Fiquei muito apreensivo e, apesar timidez – que me acompanhou por quase toda a vida escolar, falei para a professora que já conhecia as letras e sabia ler. Com a direção da escola, providenciou minha transferência de turma. Lembro de ter chorado muito, pois não entendia porque tinha que ser transferido, acho que inicialmente recebi aquilo como um castigo.

A verdade é que as escolas públicas no Guará, naquele momento, ainda estavam plenas de professores com vocação e não posso dizer que tenha sido uma educação formal ruim, muito embora, até hoje, tenha convicção de que o que aprendi na escola tenha sido muito pouco. Nunca deixei de ter certo pavor do sistema. Sofri com alguns colegas (acho que, por ser pequeno e franzino, era um alvo clássico dos meninos e meninas maiores). Duas vizinhas de quadra foram verdadeiros carrascos para mim, nunca esqueci – elas provavelmente não lembrem (e talvez não fosse nada tão importante mesmo – mas marcou-me dolorosamente).

Não era louco pela escola, mas não tinha problemas com ela. Não resistia. E tínhamos a rua, os amigos, o futebol, o pique-esconde, o pique bandeira (bandeirinha, como chamávamos), a queimada, a carniça, a mimica, o teatro, a capoeira, e os jovens mais velhos que cuidavam de nós, nos ensinaram a ‘pegar passarinho’ com arapuca e visgo, fazer estilingue, pescar, pegar piabas nos córregos na mata próxima à nossa quadra, tomar banho nesses córregos (para desespero das mães), andar de bicicleta, fazer e soltar pipas (ou papagaio, como chamavam alguns), fazer cerol (quando não tínhamos mesmo o menor juízo), montar fogueiras…. uma vida deliciosamente despreocupada, em plena época de repressão violenta no país, da qual não sabíamos absolutamente nada.

Era um tempo no qual tínhamos que cantar o hino nacional e hastear bandeira, toda semana, tempo em que o Exercito Brasileiro oferecia ‘colônia de férias’ para as crianças e adolescentes, em que havia, no final de ano, cestas de natal e encontros no ginásio de esporte (lembro de um desses em que os Trapalhões animaram a festa), com direito a sorteio de brinquedos…..

Meu pai era um sujeito interessante. Comprava tudo que era livro oferecido por vendedores ambulantes. Gostava de literatura típica de sua terra, com os autores potiguares e suas metáforas engraçadas contando e recontando a história do Rio Grande do Norte e seus personagens, mas também, num tempo em que se montavam enciclopédias e livros por meio da coleção de fascículos em bancas de revistas, era freguês de carteirinha de seu conterrâneo, seu Pedro, dono da banca Guará-Rio (deveria ser Rio Grande do Norte, claro), banca que aprendi a frequentar e de onde suguei revistas em quadrinho, fascículos de dezenas de livros que colecionei, livros de bolso de faroeste, as fotonovelas é os livros para publico feminino, em papel barato (estilo “Sabrina”), que minha irmã mais velha adorava (mas que eu li de cabo a rabo)…

Lembro de uma coleção que fiz (graças a meu pai, claro) que se chamava O Mundo em que Vivemos, que após encadernação dos fascículos (era assim, comprávamos semanal ou quinzenalmente os fascículos e em um dado momento a CAPA que serviria para acondicionar o conjunto dos fascículos vinha junto, então, deveríamos pagar par encadernar. Quem providenciava isso era o dono da banca de revista, que recebia de nós o material e o pagamento e repassava para a gráfica responsável, então era uma loucura esperar até que o volume voltasse pronto, no formato de livro), resultava em dois grande volumes e mais um pequeno, feito das contracapas que, nesse caso, era o Diário de Bordo do Beagle, de Charles Darwin. Assim, ainda adolescente, sabia que a ciência era o que eu queria para minha vida. Fascinado por botânica, mas também por paleontologia, acreditava que seria biólogo ou paleontólogo, depois, por causa principalmente de Jacques Cousteau (e imagino que muitos da minha geração tenham tido o mesmo desejo), achei que seria Oceanógrafo. Cheguei a fazer um cursinho, mais tarde, para um ‘concurso’ para a Escola Naval, Uma furada, mas valeu para compreender que os sonhos de viver como pesquisador eram sonhos que não condiziam com minha classe social.

Lembro de que, numa época em que a enciclopédia Barsa era quase unanimidade, termos adquirido outras coisas como “Grandes Personagens da Nossa História”. Depois, por minha própria conta, fiz, por duas vezes a coleção de Os Pensadores, mas a glória foi ter comprado a Enciclopédia Britânica (que namorei por anos e que adquiri parcelada em 12 vezes, junto com os Greats Books – no qual se inspirou nosso Os Pensadores).

A banca de revista, porém, era fonte de muito prazer com seus gibis (li toneladas de Tio Patinhas, Mickey, Pato Donald, Recruta Zero, mas também Tex Williams, Conan, Fantasma, os Sobrinhos do Capitão, depois Maurício de Souza, assim como Agatha Christie – creio ter lido quase todos os pouco mais de 80 livros que me caíram em mãos, fora os livros de bolso de faroeste, que dizíamos ser coisa de peão, mas que eu devorava em questão de poucas horas, às vezes mais de um por dia, quando estávamos de férias (até hoje me recordo de 7 noivas para 7 irmãos que, depois, vi em formato de musical na televisão). Mas consumi alucinadamente os livrinhos de ficção do Perry Rodhan. As coleções da Abril Cultural, de literatura, foram essenciais. Foi por causa dela que descobri Edgar Allan Poe, de cuja obra nunca mais desgrudei.

Na escola, anualmente recebíamos os catálogos das Edições Ouro, que também, apesar da grana curta, era objeto de desejo de todos nós e que, ocasionalmente, com algum sacrifício, meu pai ou minha mãe consentia em comprar.

Sempre tive um espírito com múltiplos desejos e múltiplas vocações, creio. Gostava de musica, e fiz minha mãe ir até a Escola de Música de Brasília e tentar matricular-me, o que era possível e um pouco menos complicado do que hoje. No entanto, havia questões referentes a horário e necessidade de documentos que não tínhamos no momento. Lembro vagamente do que ocorreu, embora tenha ficado com muita raiva naquele momento, inclusive da minha mãe coitada que, para sair assim, de ônibus, cujos horários eram difíceis e tendo que andar bastante para alcançar uma parada, ainda deveria deixar os outros filhos, inclusive as menores ou carregar a penca toda, o que não era viável se tivesse que pagar passagem para um ou dois a mais.

Sei que não voltamos à Escola de Música de Brasília, o que eu faria somente muito tempo depois, já sozinho, e consegui ainda seguir por dois semestres um curso diurno, que tive que interromper quando a necessidade de trabalhar bateu à porta, ao final do Ensino Médio e quando as aulas de violão que cheguei a oferecer por um tempo, a um par de alunos, tornava inviável qualquer sonho, seja de artista, seja de cientista, seja de ser mágico (desejo que, infelizmente abandonei rápido demais, apesar de ter consumido o manual do mestre Fun Man Chu – que fiz meu pai comprar depois de muita importunação, via correio). Restava o comércio, ser vendedor.

Antes disso, porém, houve o encontro com a religião.

FIM DA PAUSA

Não éramos uma família religiosa. Hoje, minha mãe é uma típica católica praticante, ministra da Eucaristia, catequista, Filha de Maria, mas quando fiz 15 anos, idade em que já deveria ter, como católico, feito a “primeira Eucaristia” e iniciado a Crisma, não tinha nem chegado perto disso e as missas não eram exatamente parte da nossa rotina.

Bom, pressão feita, vizinhos em massa ‘matriculados’ na catequese, lá fui eu fazer um dois em um: Primeira Comunhão e Crisma, tudo junto.

O grupo de catequistas era fantástico, jovens que, diferente dos de minha geração, tinham noção do que acontecia no país e que não eram carolas, queriam tanto um país diferente quanto uma igreja diferente. Havia um seminarista (hoje bispo) que foi meu catequista e que se tornou meu padrinho. Ele é ‘culpado’ por muito do que vem depois dessa passagem pela ‘catequese’.

Talvez por causa de minhas perguntas, meus questionamentos, o então seminarista, Ronaldo, depois de ter me crismado e já entrando o ano seguinte ao da consumação do sacramento, eu, ainda novato em termos de violão, mas insistente, recebi não um, mas vários convites do meu padrinho para participar de um grupo de jovens, recém formado, composto de jovens que haviam, como eu, feito a Crisma, e que se encontravam, se não me engano, aos sábados na Paróquia São Paulo Apóstolo, lugar que se tornaria uma segunda casa para mim.

Como os convites não paravam, uma dia pensei que seria melhor ir conhecer o grupo e depois de uns dois ou três encontros, inventar uma desculpa e desaparecer. Eis que a vida se complica, e qualquer plano pode simplesmente ser atropelado e, sem mais, ficarmos presos numa armadilha.

Fiz exatamente isso: fui a uns 3 encontros, achei interessante uma parte, mas chatas outras, inclusive porque não entendia muito bem o sentido do grupo. Decidido a não mais voltar, eis que acontece uma reviravolta. Os catequistas, alguns dos quais eram responsáveis pelo grupo de jovens que eu estava frequentando, eram responsáveis pela “animação” de uma das missas mais movimentadas (20 horas), e, pelo que entendíamos naquele momento, se rebelaram contra certas determinações e se afastaram tanto da missa quanto do trabalho pastoral, ou seja, o grupo de jovens ficou ao “Deus dará”.

Que fazer? Fui pego de surpresa, pois pretendia, naquela semana, fazer minha ultima aparição nas reuniões do grupo, mas aquele encontro foi marcado pela discussão sobre, exatamente, o destino do tão jovem grupo de jovens. Alguns diziam que não tinha o que fazer, teríamos que desistir, pois sem um adulto para acompanhar não dava, outros insistiam que poderíamos procurar outra pessoa para se responsabilizar. E a discussão seguia.

Até hoje não entendo bem o que me motivava, mas descobri (embora somente muitos anos depois isso ficasse realmente claro para mim) que tinha um problema com autoridade. Não gostava de que dissessem o que poderíamos ou não fazer e, mais, descobri que poderia ser um líder (a despeito de eu sempre ter procurado me distanciar de grupos, de gostar de ficar sozinho). Meu discurso indicava que poderíamos muito bem seguir sozinhos e que entre nós escolheríamos um coordenador e que não havia motivo para desistir (logo eu que estava pronto para desaparecer). A coisa pegou e o grupo não se dissolveu.

Fui o primeiro coordenador do Juventude Libertadora (JULIBER), grupo que, anos mais tarde, daria trabalho idêntico ao dos catequistas recém “expulsos” da paróquia (ou que se retiraram, anunciando isso em plena missa). Na condição de coordenador, senti-me na obrigação de estudar, de me aprofundar no sentido de uma pastoral de juventude. Eu deveria ter entre 1 a 2 anos a mais que a maioria dos membros do grupo, que não passava de uns 10 naquele momento. Entre esses o meu, hoje irmão, Ricardo Spindola Mariz, cujos pais eram ativos na paróquia e, talvez, por isso, ele tenha também, embora tão novo, assumido responsabilidades grandes demais com o grupo. Nosso primeiro responsável pela “espiritualidade”, ou seja, aquele encarregado de nos brindar com reflexões sobre a própria religiosidade que o grupo deveria ter.

A história desse grupo é longa e fundamental para minha vida. Quero reter aqui, apenas, a memória de uma virada cada vez mais para a esquerda que, senão o grupo como um todo, muitos de seus membros, acabou fazendo. Inevitável foi ser contaminado pelo ideal de um grupo de base, de se encantar com as comunidades eclesiais de base (CEBs) e, a partir daí, descobrir o sofrimento do povo nesse Brasil imenso e, logo em seguida, descobrir a América Latina, sua cultura, mas igualmente sua dor. Agora já tínhamos plena consciência do que vivíamos e não tardou para conhecermos outras experiências pastorais importantes, como a da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Pastoral Estudantil, a Universitária, sobre o que já comentei acima.

 

Mais impactante, foi resgatar a memória dos mártires, primeiro dos religiosos, como Dom Enrique Angel Angelelli, bispo de La Rioja (Argentina) morto em 1974, Rutilio Grande, jesuíta salvadorenho morto em 1977, Dom Oscar Romero, Bispo de El Salvador, morto em 1980 (quando celebrava a missa – esse foi um dos fatos mais chocantes de que tenho lembrança), e saber, já agora dentro do trabalho pastoral, do assassinato dos jesuítas na Universidade Católica de El Salvador em 1989, quando morreu Ignacio de Ellacuria (que aprendi a admirar por seus escritos e pelas notícias de sua coragem), do assassinato de Padre Josimo, das inúmeras ameaças de morte. De ter conhecido pessoas, do Bico do Papagaio, por exemplo, que na semana seguinte haveriam de ser assassinadas.

Nessa altura, era impossível que a mensagem da teologia da libertação, mas de uma leitura libertadora da Bíblia acima de tudo, não nos motivasse a participar da política. Se não foi logo na primeira hora, não tardou muito para que alguns de nós se aproximasse do Partido dos Trabalhadores e começasse a participar das reuniões de diretório, no Guará I. Eramos os igrejeiros, expressão que visava muito mais nos marcar negativamente do que diferenciar uma “corrente” dentro do PT, mas que, entendo hoje, foi boa para evitar a contaminação da qual, infelizmente, nem todos escaparam.

Essa é uma fase nova e rica, que vai definir um modo muito próprio de se relacionar com política e com partidos políticos.

Variação n° 1000, sinfonia do viver

Um só desejo, gênio

Um só destino, daimon

Triste seria ter que escolher

Terrível ter que aceitar

 

Quantas encruzilhadas?

Como saber em qual nos perdemos?

Quantas vidas se apagaram?

Como saber por qual caminho não ir?

 

Viver dilemas que não escolhemos

Cumprir papeis com roteiros  ruins

Agarrar-se a invisíveis fios de esperança

Para não ter que enfrentar o sem sentido de viver

 

Que desejar, gênio?

Para onde ir, daimon?

Analfabetos políticos, essa é nossa condição natural

Não existiu uma sociedade (ou pelo menos não podemos provar que tenha existido) na qual seus membros tivessem plena consciência de seu “funcionamento”. Melhor, raramente os homens e mulheres não compartilham as crenças mais comuns sobre os “fundamentos” de sua sociedade, quase sempre naturalizados, “essencializados”, se podemos dizer, que justificam a distribuição de poder e a hierarquização dos membros do grupo.

Considerando o Ocidente apenas, parece certo que aceitar seu lugar no corpo social foi o que sempre se esperou de qualquer um. As tensões quase sempre diziam respeito a como outros grupos, alienígenas portanto, conturbavam a “ordem”, e as guerras eram a única coisa que colocava em xeque as divisões internas, mas para logo instalar outras, nas quais, raramente, os que estavam na base da pirâmide (parece que a pirâmide é uma boa imagem desde sempre) ascendiam ao topo, talvez um degrau ou outro, se não fossem transformados em objeto de diversão. (não entrarei no mérito de uma leitura marxista da história ou de visões que vejam o conflito como natural nas sociedades – com o que concordo, mas não modifica isso os argumentos que apresento aqui, apenas como um ponto de partida para pensar).

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Karl Marx

 

Sem ir mais longe na digressão, não parece também certo acreditar que, em algum momento, tivemos um “povo” com consciência política ou cívica sequer satisfatória, muito menos amplamente disseminada. Consciência política é uma categoria típica do pensamento ocidental e, somente depois das mudanças pelas quais passou o Ocidente, pós Revolução Francesa, Revolução Americana e, talvez, bem antes, revolução(ões) inglesa(s), podemos imaginar uma sociedade formada por “iguais” (pelo menos do ponto de vista de direitos, uma igualdade formal), o que, de fato, jamais se efetivou.

Se nunca existiu uma sociedade (estou excluindo o “Oriente”, sobre o qual posso falar pouco agora e as “sociedades tradicionais”, a que, somente com um malabarismo intelectual, poderíamos aplicar conceitos típicos de sociedades complexas e atingidas no seu âmago pelo projeto da Modernidade ocidental) na qual os seus membros, em sua totalidade, tivessem efetivamente consciência política (no sentido do senso comum, que tantas vezes ouvimos na boca dos que se preocupam com a “alienação” de certas categorias de pessoas – que variam, a gosto do freguês, desde os mais pobres até a classe média (não lembro de ter visto alguma análise, ou comentário sequer, no qual a “elite” ou “os mais ricos” fossem avaliados como “analfabetos políticos” ou “sem consciência política” – talvez algum hegeliano, mas de um outro ângulo)).

Alfred Schutz

Alfred Schutz

Não parece absurdo afirmar que a condição mais “natural” é, ao contrário, ainda hoje, depois de tantos testes de fogo para o projeto moderno, o da alienação. Creio que uma das análises mais interessantes que vi sobre nossa condição em grupo, pensando nas sociedades complexas, foi a de Alfred Schutz (a quem Erving Goffman deve muito): no drama do viver, nossa performance se dá com papeis que vamos assumindo (papeis já dados), e que são naturalizados. Para que ocorra da melhor forma possível, lançamos mão de tipificações e compartilhamos preconceitos que nos livram da necessidade de não só pensar sobre o viver, sobre o social, problematizando-os, como nos fazem sentir parte de um projeto que se desenrola, aparentemente controlado por nós, do começo ao fim, num fluxo continuo.

Erving Goffman

Erving Goffman

Sair do fluxo é que é problemático, é olhar para a própria vida,  e para os valores que assumimos, do lado de fora. Esse processo, diferente do que gostamos de acreditar, evitamos a todo custo. Uma outra linha teórica chamaria de alienação, mas a verdade é que fazemos um esforço danado para que a nossa vida, o nosso projeto de vida, não sofra mudanças de rumo ou que as mudanças estejam absolutamente sob nosso controle (e, quando pensamos nelas seriamente, não haveria como não admitir serem absolutamente comuns, parte de um repertório do qual não podemos fugir sem sofrer).

Dessa maneira, ser analfabeto político, como dizia Bertold Brecht, parece ser nossa condição mais comum, desde sempre. A ideia de uma reflexividade generalizada é um ideal que nos assombra, nos cobra, mas que burlamos constantemente. (e aqui poderíamos traçar uma longa linhagem no pensamento ocidental que pouco a pouco vai colocado a Razão no lugar especial que, até hoje, têm – mas também dos contrapontos e visões alternativas sobre o ser humano).

Bertold Brecht

Bertold Brecht

A novidade, pelo menos no Ocidente, é que o sistema econômico que foi alçado à condição de único possível, a que chamamos capitalismo, entra na história para complicar um pouco o quadro. Nem precisamos falar de classe social exatamente, para nos auxiliar a compreender uma certa distribuição de consciência política, como o faria Karl Marx, nem imaginar que os “proletários” (e os seus herdeiros nesse século XXI) como portadores da verdadeira consciência histórica e do projeto de emancipação da humanidade desse “sistema escravizador”.

Hegel

Hegel

Aqui, basta, para o de que gostaria chamar atenção, pensar que o surgimento de uma classe ou uma categoria de pessoas (hoje chamamos “cidadãos”) que se localizaria no meio da pirâmide (em sociedades mais antigas, das quais temos alguma informação mais precisa, nem sempre vamos vislumbrar uma “classe média”, como vamos chamá-la hoje, integrante da “burguesia”, outra categoria inventada ou apropriada tardiamente, já no século XIX (com o sentido que passou a ter depois de Hegel e, principalmente, com Marx) – a divisão podia se dar por funções, por exemplo, pelos talentos (lembrar os gregos da época de Platão) – na Índia, ainda hoje, o status por nascimento é fundamental).

A classe média, ou, antes, certa parcela da burguesia, seria a portadora da “consciência política” e de uma correta “interpretação da história”, ela produziria as análises e os instrumentos teóricos fundamentais para as mudanças. Viriam dela os “intelectuais orgânicos”, em socorro aos explorados, proletários, miseráveis, desgraçados de todo tipo, que não teriam condições nem materiais nem teóricas par compreender e transformar esse mundo que os consome, dia após dia.

mafalda_-_democraciaPois bem, até hoje, essa percepção de que uma certa categoria de pessoas tem mais condições de governar, de dizer o que é o certo, o justo, o politicamente, o economicamente, viável, possível, categoria que tem sua base, na classe média ou acima, continua vigente, inclusive entre os “dominados” (“um milhão” de análises sobre esse “fenômeno” já foram feitas). Interessante perceber que, para ficarmos com o Ocidente ainda, e com os gregos (que os ocidentais adoram dizer serem seus “pais”), mais especificamente com Platão, para quem apenas o Filósofo estava em condições de governar adequadamente a República (não há diferença substancial entre o que pensa Platão e nós hoje).

Platão

Platão

No século XXI, a tecnologia de comunicação e informação, a facilidade em disseminar ideias (inclusive falsas), o poder da comunicação de massa, o cinema, o rádio, a tv, a internet, tudo isso complica, e muito, as coisas. Necessário um distanciamento e novas categorias para fazer jus ao que de fato vivemos e ao que de novo podemos ou deveríamos ressaltar. De toda forma, mesmo hoje, parece que podemos continuar afirmando que algo como “consciência política” é um ideal que jamais vai ser condição de todos os membros de nosso mundo (globalizado), ou de nossas sociedades particulares. O analfabeto político é nossa condição mais natural, o que significa que sequer podemos dizer ser negativa.

A ideia de um “analfabeto midiático” é interessante, para atualizar um pouco nossa percepção (até para direcionarmos nossos esforços de compreensão quanto ao verdadeiro poder da mídia), mas o fato de que a tecnologia ajude a disseminar certas visões, certas “verdade”, não muda o outro fato de que nunca fomos realmente críticos e nem queremos ser, pelo menos não todo o tempo – além do mais, a mesma tecnologia dissemina o contraditório, ideais alternativas. Basta analisar o quanto a religião, que, nos ideais do projeto moderno, desapareceria ou perderia sua importância radicalmente, não só continua a ser um discurso fundamental como cresceu em quase todo mundo.

Não estou dizendo que a religião em si seja sinônimo de “alienação”, mas não se pode dizer que religião seja compatível com mudanças (não estou falando de “mudanças pessoais”, “interiores”). Ao contrário, religião exige a crença em um mundo minimamente ordenado, que tem uma essência, que tem um centro ordenador, portanto compreensível e (por quê não?) capaz de alcançar um equilíbrio (porque é obra de uma vontade racionalmente superior, no mínimo, e que “sabe” a verdade sobre sua própria criação, portanto a domina e conduz quando “desejar”).

As sociedades tradicionais e seus mecanismos para dar conta dos conflitos, como os rituais, talvez tornem problemáticas algumas conclusões a que chegamos aqui, mas, também, pode nos mostrar um esforço comum a todos os humanos: contornar os conflitos, mesmo à custa da liberdade e da igualdade.

sociedadetradicionalPolitizar-se é um ideal que podemos incluir no projeto da modernidade ocidental, é um modelo, decorrente do próprio projeto, mas não quer dizer que de fato desejado (pelo menos pelos que assumem o poder político e econômico).

Bom que se possa discutir isso com frequência. Bom seria, também, que assumíssemos ser uma utopia, um projeto se acharem melhor, para que nem nos frustrássemos, nem nos julgássemos de forma inadequada (nos dando mais do que realmente temos, inclusive poder). Há salvação? Quem sabe?

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A Sociedade Contra o Estado (Pierre Clastres)

Em tempos de crise (parece que eterna, não é mesmo?), prestar contas para seguir. ELEMENTOS QUASE BIOGRÁFICOS I

logo_prapensarA ideia de um blog vem de longe. Na realidade, graças a meu amigo Márcio Borges, já pensávamos no final dos 90, quando tínhamos que montar as páginas editando o código HTML e depois aprendendo a usar as CSS, um sistema cuja interface nos liberasse de ficar pensando em formatação e que agregasse coisas que hoje são banais, como um formulário para contato. Algo com que me diverti um bocado, embora não fosse (e não sou) da área (nem de tecnologia, nem de design), era um curioso que tinha um amigo fera de quem sempre podia roubar ideias e o socorro necessário para os problemas mais sérios e para um atalho na compreensão do que estava por trás desse novo mundo que era a internet.

Chegamos aos sistemas de gestão de conteúdo (eu usei o Xoops por anos, embora tenha usado por um curto período o Blogspot, até chegar ao WordPress). Tudo sem muita pretensão (ou muita, pois a gente acaba acreditando que ‘estar na rede’, por si só, nos dá visibilidade). O fato é que pretendia usar isso tudo como um diário e, ao mesmo tempo, um livro sem fim, onde publicaria crônicas, poesias, insights e reflexões mais ‘acabadas’. Essa ilusão de que teria algo relevante a dizer motivou-me muito. Agradeço não ter sido desmascarado logo de inicio ou que alguém me atropelasse com argumentos e evidências da minha inutilidade e da pouca importância do que escrevi. Com isso, melhorei um pouco e não abandonei de vez o hábito de encadear as palavras em busca de comunicar e provocar.

Se posso dizer algo hoje sobre essa experiência, é que as expectativas são terríveis e nos frustramos muito rapidamente, além de, por esperarmos em alguns momentos mais do que de fato a ferramenta pode dar (incluindo aí leitores e comentadores críticos), exageramos na avaliação de nosso projeto e, se nos abrimos, podemos perceber facilmente quão ambiciosos podemos nos tornar, mesmo sendo tão pequenos, tão comuns. Meus amigos me leram, publiquei bastante ‘coisas’ minhas, divulguei e compartilhei, muito antes do Orkut, do Facebook, MySpace e cia, artigos, poesia, crônicas, músicas, minhas e de terceiros. Acho que foi bom, mas sei que, ao expor certas preferencias dessa forma, acabamos por criar tanto simpatia quanto antipatia, ou, pelo menos, parece que damos aos outros (que porventura tenham lido ou acompanhado um pouco o projeto) alguns elementos para que acreditem nos conhecer e, aos mais chegados, motivo para nos cobrar (coerência, inclusive – o que, na vida, é algo complicado). Podemos e devemos mudar. Algumas coisas, porém, não mudam. E sobre isso, reflito um pouco agora.

Os anos 80 e 90

Essa experiência inicial tinha um contraponto fundamental, sem o qual, o uso de uma tal ferramenta, cujo domínio, Pra-Pensar. org, eu registrei faz anos, não teria serventia ou sentido. Naquele momento, estava engajado de forma muito intensa em um projeto de vida que norteava tudo. Como católico, naquele momento, mas também, como a maior parte dos meus amigos, ligados à consolidação do Partido dos Trabalhadores em Brasília, dividíamos o tempo com atividades mais religiosas, círculos bíblicos, catequese, pastoral da juventude, pastoral da juventude estudantil, a animação de uma missa, as peças de teatro, os festivais de música cristã, o contato com a Pastoral da Terra (CPT) e com a Pastoral Universitária (PJU) depois, reuniões do diretório do PT no Guará, a fundação e participação no Sindicato dos Servidores Públicos (Sindisep), o Cine Clube, os mutirões, o trabalho comunitário em ‘invasões’… as primeiras decepções com a política partidária, a desilusão com a vida acadêmica e sua distância da vida, das pessoas comuns, seus dramas, dores e esperança.

marx2povo de deus Enquanto religioss, embora simpático e engajado desde o inicio com trabalhos mais comunitários, com a catequese renovada, rejeitávamos Marx, assim como Freud, sem que jamais os tivéssemos lido, nem a seus ‘seguidores’. O socialismo, portanto, não fazia parte do horizonte (estávamos exatamente dentro da tradição católica, da Doutrina Social da Igreja, uma espécie de terceira via: nem capitalismo, nem comunismo).

A Pastoral da Juventude, naquele momento, era bem crítica e, por isso mesmo, mal vista por muitos dentro da própria Igreja (e a Diocese de Brasília era tida como conservadora) e pelo regime militar. O processo de abertura política, que o país iria começar a experimentar um pouco mais a frente, apenas ajudou a aprofundar a sede que tínhamos de compreender melhor o que estava acontecendo no país. Começamos a ler tudo que nos caia em mãos, incluindo relatórios da CPT, discutíamos com seminaristas rebeldes as dificuldades enfrentadas dentro da Igreja, entramos em contato com a Teologia da Libertação e com as Comunidades Eclesiais de Base (que eram a inspiração para os Grupos de Base que a Pastoral da Juventude incentivava nos anos 80). O método Ver –Julgar –Agir nos preparou para uma leitura mais radical da própria espiritualidade e da realidade sócio-política do país (a questão econômica apareceria depois). A história alcança um lugar privilegiado.

Enfim, entre os anos 80 e 90, passamos da teologia para a filosofia, de uma leitura apenas religiosa ou inspirada na religião para uma leitura também materialista da realidade. Um marxismo light tornou-se presente e já não tínhamos medo do comunismo e dos coernestomedores de criancinha, ateus e representantes do demônio. A Revolução Sandinista foi uma inspiração sandino(embora, efetivamente, só a conheceríamos um pouco depois de sua vitória – mas ainda bem que antes de sua derrocada). Ernesto Cardenal foi um personagem marcante. João Paulo II se transformou numa figura dúbia, por sua quase condenação à Teologia da Libertação, mas também por ter mantido a Opção Preferencial pelos Pobres como um principio da Igreja Latino Americana. A segunda (a terceira, se contarmos a inaugural no Rio de Janeiro em 1955) Conferência Episcopal Latino Americana, em Puebla, em 1979, confirmava muito do que se tinha conquistado em 1968, em Medellín. Esses eram tempos de renovação, muitos bispos latino-americanos colaboraram com o Concílio Vaticano II e foram fundamentais em 1968, em Medellín. A ideia de renovação estava presente, mas a sensibilidade com o sofrimento no continente, já tomado pelo terror das ditaduras militares e pela crueldade dos latifundiários (o continente ainda era bastante rural nesse período), dava o tom (apesar de exemplos contrários, como na Argentina, cuja Igreja, ou muito de seus membros, não hesitou em apoiar e continuar apoiando a ditadura e posturas conservadoras).

Mesmo sem termos vivido de perto a maior parte disso, respirávamos a tal Opção Preferencial pelos Pobres, os ideais das comunidades eclesiais de base, a leitura bíblica feita em comunidade e com uma chave libertadora, a chamada para um engajampueblaento social e para uma compreensão adequada da história e da conjuntura política. O fato de termos a Confercebsência Nacional dos Bispos do Brasil com sede em Brasília ajudou muito, inclusive porque tinha uma excelente biblioteca (de onde lemos grande parte do que escreveram os teólogos da libertação).

Conhecer o Cehila (Comissão para o Estudo da História da Igreja na América Latina e Caribe) foi uma verdadeira revolução. A história de Bartolomeu de las Casas (mas também de Antônio de Montesinos) reforçava minha fé na igreja, pelo menos por um bom tempo). Nesse momento, entrei em contato com o teólogo, filósofo e historiador Enrique Dussel (o que transformou minha vida definitivamente), mas também, a partir deste pensador argentino, uma dezena de pensadores (todos cristãos nesse momento) abriram-me o mundo (em outro momento, tentarei fazer um apanhado mais justo desses autores, mas agora indicarei apenas os que me vem naturalmente à cabeça): Gustavo Gutierrez, Pablo Richard, Jürgen Priën, José Oscar Beozo, Eduardo Hoonaert, Martin Dreher, Paulo Suess, Riolando Azzi, Antônio Gouveia de Mendonça,Milton Schwantes, Joseph Comblin, Leonardo Boff, Clodovis Boff, José Honório Rodrigues, Hugo Assmann, Leonardo Boff, Thales de Azevedo, Rubem Alves (outro que se tornaria fundamental na construção da minha identidade)…. O Departamento Ecumênico de Investigação – DEI, na Costa Rica, outra descoberta fundamental, revela-me a figura de Franz Hinkelammert, uma exigência para leituras mais profundas, uma pegada sociológica mais séria. Um choque para mim, para encerrar essa tempestade cerebral instantânea, foi, além do Dussel e do Rubem Alves, José Porfirio Miranda, que indicou um caminho para a leitura de Marx de uma maneira que não sentia contraditória com os evangelhos e com o Êxodo, que parecia mais radical do que, inclusive, o marxismo (minha ainda ingênua leitura de Marx).

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Hinkelammert

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D. Oscar Romero

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pe. Ellacuria

Dussel

Enrique Dussel

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pe. Josimo

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Gustavo Gutierrez

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Hugo Assmann

Milton Schwantes

Milton Schwantes

assassinato josimo

Pe. Josimo assassinado

Devo dizer que, num momento já de transição, quase de “saída” da Igreja Católica, o contato com a Comissão Pastoral da Terra, foi fundamental. Além de colocarmo-nos em contato mais direto com o drama dos agricultores, dos camponeses por que não dizer, dos conflitos no campo, com os assassinatos de lideranças e ‘testemunhas’ dos desmandos do latifúndio no país, principalmente no Norte, conhecer a mãe de Padre Josimo, morto havia poucas semanas, e Padre Ricardo Resende (que reforçou minha determinação em seguir a justiça acima de tudo, e a proteção dos mais fracos mesmo com o risco de morte), fez-me admirar mais e mais Dom Pedro Casaldáliga,  Dom Tomás Balduíno, Dom Erwin Kräutler… e a olhar a vida de tantos religiosos, mas igualmente tantos e tantos leigos, no Brasil e mundo afora, com um respeito que me tocava profundamente. Assim foi com Dom Oscar Romero, padre Josimo, os jesuítas em San Salvador, entre eles Ignácio Illacuria, cujos escritos muito me tocavam, e a morte da irmã Dorothy Stang bem depois, quando já não respirava mais o ambiente eclesial, doeu-me tanto quanto, mas com uma sensação de derrota muito intensa. Essa gente, disposta a morrer pelo outro, por sua fé, mas também por seu amor ao mais pobre, ao desamparado, numa América Latina que não cansava e não cansa de derramar sangue inocente, deixou uma marca que, quando parece querer apagar, dou um jeito de ressaltar (melhor seria dizer que se ressalta em mim, sem que perceba).

Pe. Ricardo Rezende

Pe. Ricardo Rezende

Dom Erwin Kräutler

Dom Erwin Kräutler

Dom Tomás Balduino

Dom Tomás Balduino

Dom Pedro Casaldáliga

Dom Pedro Casaldáliga

Essas são as fontes e o ambiente que se instalou para mim, a partir dos 17 anos e que, inevitavelmente, marcou o resto da minha vida. Mesmo hoje, momento em que não tenho mais fé ou vinculo com o cristianismo institucionalizado, difícil negar a simpatia pela vida de tantos mártires, de tanta gente simples que fez/faz de sua vida um serviço aos demais, mas também de tantos militantes-intelectuais, vivos e já falecidos, coerentes, dedicados, luz no horizonte. Seus erros, até de avaliação quiçá, não mudam o fato de a maior parte, até hoje, tantos anos passados, tantas lutas, tanta perseguição, tanta incompreensão, manter uma vida simples, engajada, próxima a movimentos populares, sensível ao sofrimento do povo, e prontos a emprestarem suas vozes aos mais fracos e, por isso, serem sim modelo de uma vida mais elevada. Utópicos? Com certeza, e esse é o segredo, acredito hoje.

É isso mais que uma crença cega na ‘esquerda’, no ‘marxismo’ (hoje para mim cada vez mais importante) é o que ilumina o que me parece um tempo obscuro, de dúvidas (grande parte procedente) sobre caminhos a seguir. Não há ingenuidade aqui. Acredito que tudo isso, que um dia ajudou a ver com clareza quem eram as vítimas e o ‘lado’ a escolher, o caminho a seguir, ainda é o que de melhor tenho para justificar as escolhas atuais, ao menos, posso dizer, é o mesmo espírito.

Não há pretensão de tornar isso, que muito tem de acidental, em algo excepcional ou em dar algum tom especial a minha vida ou em dar mais valor às minhas opções. Nem tenho mais valor pelo que vivi (que considero pouco), nem pelas opções teóricas e práticas tomadas (que podem sempre ser tanto equivocadas quanto erráticas) e, igualmente, vividas, mas, sentindo que precisava prestar contas a mim, para não esquecer, para fortalecer-me nesse momento que julgo crítico (pelo ceticismo generalizado, pela confusão entre os que se colocam ou julgam à esquerda no espectro político, pela ousadia da ‘direita’ em querer fazer esquecer a quem ela sempre serviu neste continente e alhures, para ajudar a ponderar melhor o que é essencial), decidi arriscar essas linhas.

LIÇÕES DA ESCOLA, OU SOBRE A IMPORTÂNCIA DE ALGUNS SEGUNDOS EM NOSSAS VIDAS

Chego à escola por volta das 6h56min. Alguns pais, que chegaram um pouco antes e outros que chegaram no mesmo horário que eu, mas por uma via diferente, fazem o trânsito parar, pois sua educação parece insuficiente para que percebam estar impedindo o trânsito de fluir (e aos demais carros, de chegarem ao estacionamento), pois acreditam, imagino, poder parar seus carros “na porta” e esperar seus filhos saírem para poder seguir, afinal, eles podem, ou têm direito, ou, mesmo sabendo não ser correto, pensam que ‘um minutinho não faz diferença’. Faz.

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Resultado: 6h58min10s, consigo estacionar (foi rápido, pois evitei a fila que se formara, por causa dos pais ‘educados’, no acesso ao estacionamento principal). Bom, entre abrir porta-malas e os dois filhos saírem, uns 30-40 segundos, e uma caminhada rápida rumo ao portão. Fiquei observando.

A exatos dois passos largos para alcançar o portão, meu filho, que seguia à frente da irmã (que vinha a uns 2 outros passos atrás dele), um senhor de gravata (não o conheço, mas pareceu ser o comandante ou algo do gênero – sim, é um colégio militar), praticamente fechou o portão “na cara” do meu filho, que havia diminuído o ritmo, creio, quando se aproximou da autoridade que bloqueava a passagem.

Bom, assim, 7h00min05s, ele e a irmã ficaram do lado de fora, para aguardar a liberação, mas somente depois de serem “anotados”. Uma mãe, que chegaria 7h2min50s (depois de verificar que seu filho ficara também do lado de fora) reclama do fechamento do portão, dizendo que é um absurdo, pois há o trânsito, há os pais que param na entrada do estacionamento etc. O senhor de gravata responde em tom baixo e pouco preocupado que ‘eles vão entrar, depois de serem anotados’, vira as costas e segue para dentro do colégio, sem aparentar qualquer duvida sobre o procedimento.

7h03min40s, os retardatários podem entrar, mas ficam no hall e, um a um, são “anotados” por um dos militares (bombeiros) que trabalham no colégio. Decido ficar mais um pouco para processar o ocorrido e, quem sabe, aprender alguma coisa.

7h8min48s toca o “sinal” (deveria tocar 7h10m00s). Os alunos ainda estão no local e perderão a primeira aula, pois não cumpriram a regra, a saber, adentrar o portão antes do colégio antes de 7h00min00s.

Por 5 ou 10 segundos, perde-se uma aula inteira, aula de 40 minutos, para que aprendam a “respeitar” regras. Os alunos não parecem muito preocupados, inclusive porque os que tinham prova marcada puderam entrar, depois de serem “anotados”, claro.

Saio de lá exatamente às 7h19min13s, pouco tempo depois de um grupo enorme de alunos chegar, talvez porque tenham vindo de ônibus e algum problema os atrasou, mas isso não importa. Serão “anotados” e, se não tiverem prova, ficarão no hall até o inicio da próxima aula.

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Interessante é que alguns dias antes, por causa de um engarrafamento despropositado, no qual ficamos presos por quase meia hora, chegaram atrasados em quase 10 minutos (nesse dia não estava tão preciso como hoje, não lembro de minutos e segundos – e não tinha o relógio do colégio para me ajudar a controlar o tempo), mas lhes foi permitido entrar, inclusive porque a aula começaria mesmo dentro de 1 minuto e porque havia trabalho a ser entregue.

Lições:

1) sempre sair mais cedo, bem mais cedo, de casa – e torcer para não ser surpreendido as 6h20 ou 6h30 da manhã com um engarrafamento do qual não se possa escapar;

2) respeitar as regras, quando se aceitou o jogo – mesmo que elas não tenham o menor sentido ou quando seu sentido, contrastado com o real, exijam ser relativizadas e não o são (deixar as reflexões e as críticas para outros momentos e instâncias, se valer a pena);

3) embora seja difícil averiguar o estado psicológico (ou o estado de espírito, se preferir-se) de alguém, parece certo que ele interfira diretamente na leitura do tempo (cronológico) e nas tomadas de decisão. Por isso, é importante ficar atento aos sinais. (A coisa é tão séria que 7h00min30s pode ser interpretado como 7h ou 7h01min ou, simplesmente, como: “perdeu, moleque”, atrasado, especialmente quando se está de mal humor, determinado a “ensinar uma lição” (no caso, imaginei que o ‘comandante’ ou a autoridade ali presente estava tentando “ensinar” aos subordinados como eles deveriam agir), ou porque o domingo não foi bom, ou porque a insônia não permitiu uma boa noite de sono, ou, talvez, uma irritação – por ter sido chamado a atenção, ou, porque não, o sentido de dever;

4) como é difícil avaliar situações assim. Há obrigação de seguir uma norma, o que implica organizar-se (e fazer com que os filhos sejam organizados e respeitem horários – coisa que costuma enlouquecer muitos pais). Mesmo que sejamos organizados e seguimos horários à risca, acidentes acontecem, o trânsito nas cidades grandes podem ser um transtorno, nada a fazer quanto a isso, senão respirar fundo e relaxar. Há pessoas muito mal educadas e sem qualquer senso de cidadania ou respeito ao outro. Acreditam ter “direitos” e que suas atitudes são condizentes com uma lógica válida de “ser mais esperto”, “ter chegado primeiro”, “é só um pouquinho”, “também, não há estacionamento adequado”, e não conseguem imaginar estarem causando qualquer transtorno ou que sua atitude nada cidadã, inclusive transgredindo leis de transito, seja sinal de seu individualismo e egoísmo. Há diferenças entre as pessoas, e há pessoas que se portam diferentemente em situações idênticas, umas mais outras menos afetadas por seus problemas pessoais, o que impede saber com algum grau de certeza o resultado dos encontros inevitáveis com elas. Essas pessoas podem ter uma função ou uma posição/status relevante o que, nesse encontro (como o caso de um adolescente com um oficial, que lhe fecha o portão “na cara”), pode ter um impacto mais profundo do que se pode imaginar (embora possa, para muitos, não ter importância alguma). Misturando tudo, que está certo? Qual a razão da mãe que indignada falava alto com o oficial que fez as vezes de porteiro? Como julgar os pais que, por medo da norma talvez, atrapalhavam o trânsito para que seus filhos parassem “na porta” e conseguissem alcançar o portão antes de seu fechamento? Como tratar a atitude do oficial porteiro que às 7h00min01s, corretamente (?) avalia ser o momento de “fechar o portão”?

Acho que poderia ter chegado antes e isso, sem duvida alguma, será cobrado dos meus filhos e alteraria tudo, inclusive a possibilidade de reflexão. Não pude deixar de pensar, contudo, no como o pensamento burocrático nos enrijece. Tantas vezes, produzindo um prejuízo muito maior do que o(s) benefício(s) que pretende alcançar. As outras lições dizem respeito ao como somos estranhos, coisa sobre a qual pretendo refletir um pouco mais, aproveitando o espanto para tentar salvar, um pouco que seja, a alma.