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Ser normal = ser saudável ou ser justo? (por JG Pinheiro)

UM COMENTÁRIO DO MEU AMIGO JG PINHEIRO, NUM POST NO FACEBOOK, RESULTOU NUM TEXTO QUE ACHO VALER A PENA LER E RELER (MESMO QUE EU VALORIZASSE OUTROS VIESES, E ATÉ ISSO ME CHAMOU MUITO A ATENÇÃO). TEMOS AQUI UM BOCADO DE COISA: SE É INEVITÁVEL NASCER EM UMA CULTURA, ISSO NOS DEVE IMPEDIR DE (RE)PENSÁ-LA? QUE É SER NORMAL? NOSSO DESTINO É UMA VIDA COMPLETAMENTE MEDICADA? OU COMO JÁ PERGUNTOU-SE EM OUTRO LUGAR: “PRA TUDO TEM (REALMENTE) REMÉDIO?
O CONTEXTO DO POST ERA O RESPEITO À DIVERSIDADE RELIGIOSA. EU ATAQUEI COM A “DIABOLIZAÇÃO” DO OUTRO, PROCESSO PELO QUAL TRANSFORMAMOS O OUTRO, DIFERENTE DE NÓS, EM REPRESENTANTE DO PRÓPRIO MAL, O QUE NOS AUTORIZARIA, NO EXTREMO, A ANIQUILAR O OUTRO SEM REMERSO (AO CONTRÁRIO, ATÉ MESMO COM UM CERTO ORGULHO DE TER AGIDO “EM NOME DE DEUS”). VAMOS O JG PINHEIRO:

 

JG Pinheiro

JG Pinheiro

O problema (…) é que os profissionais de saúde mental, assim como as próprias ciências que estudam a psiquê, sobretudo hoje em dia, são muito bem policiadas e não têm lá, digamos, tanta liberdade para criticar costumes aceitos, preceitos cerimoniais ou ético-religiosos, principalmente aqueles que sugerem que quem respeita, defende e vive a vida de acordo com dogmas religiosos — como o código de Moisés segundo o qual Deus não tem rosto, portanto todo aquele que adora imagens ou pratica sua fé em meio a estátuas estaria compactuando com Satanás e vivendo na iniquidade, seja lá o que isso for… –, enfim, todo aquele que reflete bem os costumes e mentalidades do grupo ao qual pertence é, via de regra, uma figura modelo, uma pessoa funcional, psicologicamente equilibrada, normal e acima de qualquer suspeita.

E vai dizer que não, que nem sempre é…! Uma vez que alguém se adequou perfeitamente ao seu meio sociocultural, não se pode, em vista disso, considerar tal pessoa doente ou desequilibrada. É tabu! Nem mesmo sabendo que o meio ao qual ela se adequou acredita que é dever de todo temente à Deus ser intervencionista, “consertar” a vida alheia em nome de tudo o que há de mais sagrado, segundo aprenderam a crer, enfim, combater a serpente, ciumenta do próprio Criador, livrando assim a Terra de todo o pecado, blá-blá-blá e coisa e tal…! Ao ponto de que não se pode, oficialmente, declarar problemática uma pessoa de descendência judaica, por exemplo, que nasceu em Tel-Aviv, em tempos pós-OLP, numa família hassídica (putz!), e que torce pela destruição do povo palestino em nome de Deus e de Israel… o que se faz é evitar a questão, esquivar-se do assunto e jamais perguntar: “será que ser normal significa, via de regra, o mesmo que ser saudável ou justo?”

Pais de determinadas denominações religiosas, como testemunhas de jeová, por exemplo, podem impedir filhos de receber vitais transfusões de sangue ou transplantes de órgãos, podem forçar parentes por meio do bullying familiar a passar por perturbadoras terapias de cura gay, podem adotar o uso e forçar outros a usar aparelhos de tortura atados à partes do corpo, coxas, testículos etc., como uma estratégia de superioridade perante os demais, os infiéis, podem hostilizar e tramar contra vizinhos e até amigos ou parentes que professam credos antagônicos, e toda uma longa lista de absurdos corriqueiros e diários, que ocorrem diante de um academicismo amordaçado, enquanto todos concordam que ser cético e experimentador, discordar da benevolência inquestionável de certas más ideias, questionar à vontade, ser tolerante e até amistoso com a diferença, buscar o novo, querer aperfeiçoar as circunstâncias de nossas vidas são características irresponsáveis, egoístas, superficiais, que remetem à falta de solidariedade e ao desrespeito pelo meio no qual você nasceu, além de um desprezo que só pode ter causas patológicas com relação a tradições acima de qualquer suspeita, crenças e caros costumes pelos quais gerações inteiras no passado escolheram (voluntariamente, isso é importante) se sacrificar e até doar a própria vida. É mole?

Eu já vi alguém reclamar (acho que o dr. John Breeding, autor e colaborador do canal psychtruth.com) que, por mais difamadas que fossem, consideradas subversivas e inconsequentemente anti-status quo, os melhores índices de cura da história da saúde mental pertencem às psicoterapias alternativas, muitas vezes baseadas em nomes tão geniais quanto perseguidos, tais como Kinsey, Wilhelm Reich etc., dos anos 1960 e 70.

Tudo aquilo foi tão radicalmente revelador que, talvez, considerando o modo como o stabilishment está blindado hoje em dia, tal dinâmica jamais volte a acontecer. Mas, bem, ela nos deu o direito (a capacidade?) de questionar a veracidade ou a eficiência de qualquer mentalidade ou crença, nos deu o divórcio, nos deu a noção de que religião, Estado e família não são instituições infalíveis, acima de qualquer suspeita, nos deu a união conjugal inter-racial, uma maior aceitação e maior entendimento da diversidade sexual e, só para encurtar, a impressão de que lutar pelos próprios direitos, bem como defender os direitos de minorias perseguidas ou desprivilegiadas, é um ato nobre e louvável.

Talvez como reação a toda essa “escorregadia” e “irresponsável” época, como um tipo qualquer de defesa, o que nós temos agora são apenas as intermináveis e onerosas sessões de terapia comportamental e drogas psiquiátricas corrosivas e viciantes que possuem, comprovadamente, o impressionante índice de cura de 0% em décadas de aplicação exclusiva, e terapeutas cujo melhor conselho que têm para o futuro da humanidade é que nós deveríamos nos manter medicados desde o berçário até o cemitério!

Pronto! Aí sim, quem sabe, a gente pode ter a chance de ser tudo aquilo que a gente mesmo inventou que é correto e saudável ser. Estando ou não com a razão, claro…


Para ver no facebook, no contexto original:

https://www.facebook.com/erivan.raposo/posts/856198321058875?

 

 

O Perverso

“o perverso é aquele que se consagra a tapar o buraco no Outro” (Lacan)
Lacan
Lacan
“A maldição de um ato perverso está justamente em que ele, por sua vez procriando, dê à luz a perversidade” (Friedrich Schiller)
Schiller
Schiller
“The heart prefers to move against the grain of circumstance; perversity is the soul’s very life.” (John Updike)

 

Updike

Updike

 

 

 

 


 

Ele não era amoral, sabia disso. Ele se importava com o que pensariam dele, tinha um modelo vago do que era necessário ser para ser aceito, para conviver. Angustiava-se com a possibilidade, por exemplo, de que um ser extraterrestre, com poderes especiais, fosse capaz de captar-lhe, com um único olhar, todas as inconsistências e incoerências, seus defeitos, sua falta de consistência. Isso era seu maior pesadelo. Não ele não era amoral.

Ser imoral era outra história, isso agradava. Não foi sempre assim, mas em algum momento, aquilo apareceu como um antidoto à expectativa alheia, que continuava sendo-lhe um peso, sem dúvidas, mas agora bem mitigado.

Desde pequeno tinha um problema com as expectativas alheias, não sabe porquê, mas gostava de pensar que um certo abandono dos pais, por causa dos irmãos mais novos, tinha um pouco de culpa nisso. Adotou uma estratégia de não se misturar, de não se parecer, de ser diferente. Falava pouco, aprendeu a usar as palavras, isso parecia importante. Não aceitava o erro, nem seu nem do outro. Irritava-se quando errava e ficava irado quando o outro percebia. Pior ainda se o outro fizesse chacota, um espírito quase assassino apresentava-se e ele não hesitava em ser violento, em partir pra cima, independente do tamanho do outro, isso era difícil controlar.

Com o tempo, já adolescente, aprendeu que poderia usar a seu favor outras coisas, criando um personagem agradável aos adultos, mas continuava sendo intolerante com os erros. Não queria atrair para si nenhum olhar reprovador, isso era quase a morte, um espírito perturbado.

A religião veio em boa hora, essa energia foi canalizada e o ideal de santidade parecia interessante, era uma questão de exercício, bem ao estilo de muitos santos. Isso domou parte da energia negativa, já não sentia vontade de retaliar, passou a adotar a postura de reconhecer o erro, publicamente, como uma ‘virtude’, o que fortalecia sua autoimagem. Era bom ser reconhecido como alguém no controle da situação, de si mesmo, capaz de buscar o caminho certo, mesmo contra si.

Essa imagem do santo, porém, depois tornou-se um fardo e a religião pura opressão. As coisas se inverteram, queria, no íntimo, mostrar que não era santo, que era outra coisa, completamente diferente…. mas ainda agradava-lhe que os outros o olhassem com admiração, como cultivar as duas coisas? Não havia possibilidade de isso dar certo, mas seu espírito o levou onde conseguiu ir.

Renegar deus era fácil, muita gente o fazia, e não havia lucro nisso. Melhor era apenas deixar pra lá. Passou a investir, sem que se desse conta, em situações que o deixavam em risco, sempre, no limite do errado, não, não, do moralmente inaceitável. Mentir não era o maior problema, isso muita gente faz e nem sente que é moralmente ruim. Há os que justificam mentir…. não, isso apenas era parte da questão.

Não tinha realmente tesão ou prazer com a pornografia, que poderia até ser excitante, mas era mais excitante saber da possibilidade de ser flagrado… quase tornou-se um voyeur, mas isso era pouco. Gostava de marcar encontros com garotas de programa, todos os detalhes, saber delas, mas não era pelo encontro, aos quais nunca foi, mas era o fato de sentir que isso seria visto, que, uma vez flagrado, sua imoralidade apareceria…. Não, ele não queria ser flagrado, queria a sensação de perigo, de estar fazendo algo ‘errado’….

Depois, passou a usar um tipo de agressividade verbal que era puro exercício de contestação ao outro, principalmente se esse outro se mostrasse muito pudico. Tinha prazer em ‘desmascarar’ o que considerava pura hipocrisia… ele, o maior dos hipócritas.

Por outro lado, continuava exercitando seu lado ‘santo’, gostava de ouvir as histórias dos outros, de tentar entender o que se passava nas mentes e corações, ficava tentando se encaixar, imaginando como seria participar de verdade daquelas histórias. Tinha particular predileção por histórias de sofrimento, principalmente sofrimento ‘de amor’.

Calculava, friamente, como aproximar-se, conquistar o outro, aproveitar-se da fragilidade ou da delicadeza da situação. Na verdade, ele se importava, mas achava-se tão grande que, ao se colocar na história, poderia alterar o sofrimento, o final da história…. era um desafio, sentia-se um arquiteto, um poeta, um perito da ficção….

Aliás, passou a achar que o mundo era isso mesmo, pura ficção. Histórias que contamos e recontamos todos os dias para preencher nosso vazio, ou os vazios da alma. Somos todos artificiais, acreditava e repetia. Assim, pelo menos ele, sabendo o que era, podia decidir que tipo de ficção contar para si e para o outro. Hoje uma, amanhã outra, de acordo com o momento e a oportunidade.

Não se sentia vil ou um perverso…. na realidade, sabia-se perverso, gostava do lixo, que achava ser toda a humanidade, gostava do reprovável, gostava de estar ali, no limite, pronto para cair no abismo….. tinha medo de passar o resto da vida caindo, sem jamais chegar ao fundo desse abismo, por isso não queria cair. Se era para viver no vazio, que fosse esse que conhecia ou achava conhecer.

Não se sentia um coitado, embora às vezes sentisse-se mal por ter escolhido certos caminhos, mas cultivava esse momento do mesmo jeito que cultivava outros, como possibilidade e aproveitava a dor para tentar expurgar o medo de estar errado sobre o vazio, sobre o depois, sobre a possibilidade de, sim, existir um julgamento sobre o que fazemos aqui e agora.

Mas isso não dura muito, e mais um dia coloca-se diante dele e tudo que consegue ver é que esses seres a sua frente são tão ignóbeis e frágeis, tão cheios de crenças que se tornam dignos de pena, mas, por isso mesmo, merecem e precisam de que alguém lhes conduza para algum lugar, já que lugar não existe (mas eles não sabem). Esse é seu papel, continuar iludindo e contando suas histórias, ao mesmo tempo em que atua em outras, sempre na esperança de que caia ele mesmo em contradição, que as máscaras caiam, que luz se lance sobre sua performance, que descubram o ator…. essa tensão é o que continua dando sentido ao viver, é puro tesão.

Tudo é atuar, tudo é fingir, até crer é fingimento…. de vez em quando, parece compreender sua perversão, mas ele simplesmente não consegue ver-se distinto disso que é, ou será que apenas gostou mais dessa ficção? Quem sabe está na hora de outro personagem? É cansativo viver com a certeza de que apenas você enxergou a verdade (e que ela é a afirmação da mentira)…. ah! Se tivesse vocação para suicida, mas ele ama viver, mesmo assim, ainda assim.

Isso é um show e ele é um artista, essa imagem agrada. Um prestidigitador, um ilusionista, que faz pose de deus, empoderado, que sabe que é puro truque, mas que gosta de dar o seu melhor e fazer acreditar que é possível que o truque não exista, que a magia seja real….. e por quê não?

The Grateful Summoning of Familiars for Sexual Perversity

The Grateful Summoning of Familiars for Sexual Perversity

 

 

Acidentes de percurso – a religião (e a teologia), a ética, a antropologia e outras loucuras – ELEMENTOS QUASE BIOGRÁFICOS III

Hoje, tão distante daqueles anos 80, em que respirava religião e me inspirava nela para moldar minha vida, os modelos que pretendia seguir, em que a ingenuidade era uma força e não uma fraqueza, em que chorava com histórias como a de Francisco de Assis, mas também das tantas histórias de terror nos grotões da América Latina, em que o ecumenismo era um ideal, em que viver era cumprir o que acreditávamos ser a mensagem do evangelho: viver para os pobres (que interpretávamos já como qualquer um que fosse oprimido, exemplificados na Bíblia pela viúva, o órfão e o estrangeiro – mas também o doente, a prostituta, as crianças).

Mural (São Felix do Araguaia), by Mino

Mural (São Felix do Araguaia), by Mino

Embora tenha ficado claro logo que teologia e interpretação da Bíblia, para nós, só fazia sentido em chave muito especifica, aquela do Êxodo, de um Deus que ouve o clamor do povo e ordena que se o resgate, que se o liberte, ainda ousei adentrar por searas diferentes, pois queria entender, pois meu espírito curioso e a certeza de que a espiritualidade disponível ainda era insatisfatória, mantinha fortes amizades com Espíritas (e o Kardecismo jamais me convenceu, mas tinha muito respeito por meus amigos e por sua jornada), protestantes (admirei por muito tempo os presbiterianos, luteranos e anglicanos – tentei entender os metodistas, mas em Brasília isso não foi possível) e, dentro da Igreja Católica, ficava intrigado com a Renovação Carismática.

Já nesse tempo, a sociologia da religião, bem como a história das religiões, entrou definitivamente em minha vida (o que, mais tarde, seria fundamental para a perda, também definitiva, da ingenuidade necessária para sentir-se parte de uma comunidade religiosa). Li o que pude sobre a origem do pentecostalismo, assim como já tinha devorado dezenas de livros (e não eram tantos os disponíveis) e artigos sobre a teologia da libertação, até acessar documentos que poucos deviam conhecer (e eu aproveitei bem a biblioteca da CNBB), inclusive sobre o duro inicio da Renovação Carismática Católica no Brasil.

uma banda tipica da RCC

uma banda tipica da RCC

Duro, porque num momento em que a Igreja deve se posicionar firmemente em relação à ditadura militar, foi inevitável uma crítica aos movimentos de massa e às espiritualidades aparentemente (o que descobrimos ser EFETIVAMENTE, mais tarde) descomprometidas com a realidade, com a opção preferencial pelos pobres, no espírito de Medellin e de Puebla e que, ainda, parecia ‘protestantizar’ o catolicismo. Olhando hoje a realidade da RCC e de comunidades como Canção Nova, quão distantes estão daquele final dos anos 60 e inicio dos 70, distantes inclusive no espírito de acolhida, que tanto exigiam, do diferente.

Nunca me senti totalmente parte daquilo, mas integrei-me a um pequeno grupo da RCC na Paróquia São Paulo Apóstolo, com a ilusão de poder convencer, de um modo indireto, os jovens ali presentes a direcionarem-se para outras coisas. Não funcionou, claro. Mas foi muito importante para mim. Fiz amizades que permanecem até hoje. Meu amigo do coração, Francisco Otaviano, cearense de Crateús, mas também de Ibiapaba, dos sertões, comunicador por vocação, fonte preciosa de tantas histórias e memórias. Com ele, a música foi longe, enfrentamos nossos limites, criamos e nos reinventamos. Com ele também, uma experiência até hoje forte de disseminar a leitura. Em consignação com as Paulinas e com a Editora Vozes (em Brasília), mas também com a distribuidora do ministério (protestante) Vencedores Por Cristo, vendemos muitos discos, fitas e livros. “tiramos” muitas músicas das dezenas de discos que passamos a consumir. E a banda, foi fantástico aprender a trabalhar em grupo, saudades de todos e em particular do Zé, marceneiro de profissão e baixista por vocação, engraçado e feliz por natureza, a dureza da vida o levou cedo demais. Saudades.

Ao mesmo tempo, as músicas das Campanhas da Fraternidade e dos encontros de CEBs e círculos bíblicos Brasil afora, ajudava a consolidar uma certa visão de mundo e de religiosidade que foi fundamental. Uma espiritualidade assentada na ideia de profetismo (dos Profetas, que enfrentam os poderosos para dizer a verdade e anunciar as mudanças necessárias, mesmo com o risco de perder a própria vida). Esse espírito  colocou-nos em situações nem sempre fáceis, pois jovens não são sempre fáceis, por sua ousadia e determinação.
Assim, apesar de termos recebido sempre muita atenção dos padres Josefinos, congregação responsável pela Paróquia São Paulo Apóstolo no Guará I, a vida em comunidade caminhava para colidir com outros interesses e para uma luta por poder que, contudo, nós nem desejávamos e da qual tínhamos ideia muito vaga. Mesmo um padre tão interessante como o foi pe. Antonio Tomiello, professor de inglês e latim, atualizado sobre a doutrina da Igreja, particularmente com a Doutrina Social (e até onde sei também simpatizante da Teologia da Libertação), era alvo dos mais conservadores na paróquia e foi vitima das fofocas tipicamente paroquiais (aqui caiu como uma luva), sendo removido depois de anos de trabalho (se não me engano, ele chegou ao Guará em 1969, em 1985 levou um pé na bunda, embora ninguém admita isso, claro, e foi enviado para o Sul). Era uma pessoa boa, viveu de modo simples e era muito transparente, o que, provavelmente, não agradava todo mundo. Faleceu em 2005.

O grupo Juliber perturbou tanto os componentes do Conselho Paroquial que forçou os padres (nem todos, sejamos justos – e aqui meu parabéns ao pe. Valdir Susin, que muitos diziam não bater bem da cabeça) a voltarem-se para o Direito Canônico, e repensarem a organização paroquial, para bloquear ideias postas pelo grupo, como a de uma Assembleia Paroquial (democratização?). Fizemos, apesar disso, a primeira assembleia paroquial e eu fui um dos que presidiu a mesa, foi uma experiência muito valiosa, mas os adultos, os ‘donos’ do Conselho Paroquial, junto com o padre José Perona (um italiano que era professor de grego e um biblista fenomenal, de quem me aproximei num primeiro momento, dado meu interesse em aprender o grego – e porque outros religiosos tinham falado muito bem dele – e ele nos acolheu muito bem, repito, num primeiro momento) prepararam uma armadilha para nós. Foi uma confusão danada a assembleia, embora tenha sido concluída (sem sucesso em muitos aspectos), o que viria depois dela foi uma sequencia de acusações e ações para nos acuar e retirar espaço na Paróquia.

Paróquia São Paulo Apóstolo, fachada atual

Paróquia São Paulo Apóstolo, fachada atual

Paróquia São Paulo Apóstolo, Guará I/DF (interior)

Paróquia São Paulo Apóstolo, Guará I/DF (interior)

Até hoje não consigo entender o que se passava na cabeça daquelas pessoas, adultos, maduros, com muito melhores condições de compreender a ansiedade e a vontade daqueles jovens em fazer o bem, em querer mudanças, em querer mais, em exigir mais, de si e dos outros. Ao invés de aproveitarem a energia dos jovens, de ajuda-los a encontrar um caminho, em ‘aproveitá-los’, eles preferiram massacrá-los, tentaram enfraquecer suas almas, humilha-los, bloquearam suas ações, até sentirem-se estranhos e indesejáveis. Uma maldade, uma falta de sensibilidade que marcou meus últimos momentos na paróquia.

Lembro que a Campanha da Fraternidade de 1988, ano em que veríamos ser promulgada uma nova Constituição para o país, foi dedicada à questão do negro e uma linda canção se fez hino para todos nós, Negra Mariama. Nesse ano, a questão do negro ficou clara para mim como nunca antes. Era um ano de embates dentro da paróquia e, mesmo, na diocese de Brasília como um todo. Estávamos numa fase avançada do cerco que se fazia ao nosso grupo.

Apesar disso, tínhamos o padre Gervásio que, se não nos apoiava incondicionalmente, nos dava alguma liberdade e aconselhamento. Ele era o celebrante da famosa missa das 20h, aos domingos, ultima do dia e plena de jovens. Nós, por tradição – e por questões históricas de que não me dou conta agora, éramos os responsáveis pela animação da missa. Tocávamos as musicas e, na parte final da missa, inovamos e, junto com os comunicados e reflexão final, quase que fazíamos outra homilia.

Bom, inesquecível esse ano de 1988, para além do fato de que a Constituição estava prevista para ser concluída, mas porque a queda de braço com os adultos se consolidou aí. Estamos ensaiando as musicas da Campanha da Fraternidade, todas elas com ritmos que tentavam resgatar algo da negritude e para as quais estávamos usando atabaques, pandeiros, e até um berimbal.

Negra Mariama

Negra Mariama

Pois em pleno ensaio, eis que adentra a sala o sr. João Batista, naquele momento, se não me engano, o coordenador do Conselho Paroquial e nos comunica que estávamos proibidos de usar atabaques ou tambores e qualquer coisa que lembrasse ‘macumba’ ou outra religião. Foi uma cena esquisitíssima. Eu o confrontei e perguntei quem havia decidido isso e por quê. Bom, não é necessário dizer que ele se irritou e que disse que o aviso estava dado. Eu disse algo como “vamos ver”.

Que fizemos? Não usamos os instrumentos, mas não ficou de graça.

Colocamos um cartaz de cada lado do altar, com a figura de Jesus Cristo, com um X, feito de fitas adesivas, na boca do filho de Deus, sinalizando que ele foi calado. Na hora das oferendas, fizemos uma procissão do fundo da Igreja até os pés do altar, carregando os instrumentos ‘silenciados’ e os entregamos como oferenda, para ódio dos adultos pertencentes ao conselho (mas também de outros que acompanhavam de perto nossa atuação na paróquia). Mas não encerrou aí, no final da missa, deixamos um recado claro sobre o processo deliberado de calar os jovens, os negros e o clamor por justiça…. aqui também é desnecessário dizer que isso não iria acabar bem.

Cristo amordaçado

Cristo amordaçado

Eu era catequista, tinha uma turma de crismandos sob minha responsabilidade. A coisa desandou de tal forma que fui proibido de continuar com a turma, sem nenhuma justificativa que não fosse a mera perseguição. Não havia o que os padres e responsáveis pudessem fazer e, mesmo, estavam divididos quanto ao grupo. Nesse momento havia alguns seminaristas josefinos, a maior parte vinda do sul, passando um tempo em Brasília. Seguiam cursos no seminário maior da diocese (que, no ano de 1988, vai ser alçada à condição de Arquidiocese e seu Bispo a Cardeal – o cearense Dom Falcão será o agraciado) e passaram a ser presença constante nas atividades da paróquia, incluindo a catequese. Celso Copetti, sangue de italiano; Marcelino Modelski, o polaco; Geraldo Canever (com sua cara de menino, era chamado de Geraldinho), barriga verde; Sestino (Serafino) Sacco, do Rio de Janeiro – mas acredito que morava em Brasilia; (Francisco) Jacó, esse era mineiro, mas acho que também morava em Brasília; Jeronimo de Paula Pessoa, cearense de Quixadá, amigos de tantas lutas, inclusive de algumas apenas sonhadas.

Padre Francisco (Jacó)

Padre Francisco (Jacó)

Padre Marcelino

Padre Marcelino

Padre Geraldo

Padre Geraldo

Padre Celso Copetti

Padre Celso Copetti

Padre Sestino

Padre Sestino

Padre Jeronimo

Padre Jeronimo

Nesse momento, uma riqueza de pessoa, que ganhou meu coração e o tem para sempre, tia Nita (ou Anita, como alguns a chamavam), catequista, moradora da Vila dos Parafusos (uma ‘invasão’ no Setor de Indústria e Abastecimento de Brasília, local próximo ao Guará), que carregava (e carrega, ainda hoje com seus mais de 80 anos) a paz, que se despejava por meio de sua voz mansa e gestos suaves. Acolheu a todos nós e nós à comunidade. Conviver com os moradores da Vila foi fundamental. Desde as crianças, algumas das quais bastante maltratadas pela vida (mães que tem de ‘criar’ os filhos sozinhas são presença constante mundo afora, ali não era diferente), por ficarem por sua própria conta e risco a maior parte do dia. Não era um local perigoso, mas também não era um paraíso, principalmente no período de chuva.

Junto com os seminaristas, crescemos com a comunidade, até o momento em que o governador Joaquim Roriz, inventou a Samambaia e já dava um jeito de eliminar todas as invasões dentro do Distrito Federal, nem sempre por motivos nobres. Os locais em que estavam essas “invasões”, muitas delas, como a do SAI, nascidas quase junto com Brasília, eram cobiçados e valiosos, motivo pelo qual a desocupação era importante (pois significava empreendimentos e, quiçá, financiamento de campanha).

Num mês chuvoso, lembro bem do dia, mas não do mês, nem do ano exatamente (até onde vai a memória, Samambaia tem sua origem já em 1985, mas foi oficialmente alçada à condição de cidade satélite em 1989. Lembrar que a Constituição Federal é de 1988 e que não tínhamos eleição no Distrito Federal até então. Joaquim Roriz, governador indicado por Sarney, usou a criação da Samambaia para os removidos das invasões, mas nós já detectávamos – com as entrevistas que fazíamos com vários moradores, que havia uma quantidade enorme de migrantes. Não tenho dúvidas de que Roriz criou as condições para sua eleição com a promessa de casas para milhares de pessoas, todas jogadas em Samambaia), acordamos de madrugada e fomos para a Vila dos Parafusos pois a remoção das casas seria feita naquele dia, e os moradores, quase todos (grande parte se recusava a sair, pois trabalhavam no próprio SIA, Guará, Plano Piloto e, agora, teriam que vir de tão longe… e esse era o menor dos problemas) começaram a ‘derrubar’ suas casas e preparar-se para carregar os caminhões contratados pelo GDF, com sua mobília, mas principalmente com a madeira e telhas que seriam reaproveitadas nos terrenos vazios que o governo destinou a eles.

Samambaia, vista aérea

Samambaia, vista aérea

Samambaia, ainda se erguendo

Samambaia, ainda se erguendo

Foi um dia de muito trabalho, ajudando as pessoas naquele louco trabalho de colocar abaixo, mas com cuidado, suas casas, casas em que moravam, alguns, há décadas. Fomos sair de lá, em cima de um caminhão, por volta das 17h ou um pouco mais. Chegamos ao anoitecer e depois de tudo despejado, começou a cair uma chuva fina. Lembro de uma vizinha de Tia Nita, amiga, cujo nome também me foge agora, que tinha uma mãe doente e, além dos dois filhos pequenos, um menino e uma menina, tinha o irmão como encargo. O marido não sei se o teve alguma vez, o certo é que estava sozinha naquela batalha. Ela olhou para suas coisas amontoadas no lote vazio, luz de lanterna, sem um lugar para dormir, e começou a chorar, desespero e medo.

Tia Nita (e eu)

Tia Nita (e eu)

Precisamos acalmá-la. Montamos barracas e erguemos o que foi possível para dar um pouco de proteção a todos, e assim passamos a primeira noite em Samambaia. [Depois ficamos sabendo que o pessoal da Boca da Mata, uma das primeiras invasões a ser removida, sofreu muito mais. Inicialmente ficariam perto do que hoje é a SHIS da Samambaia, por sua vez, próxima do que era o setor de mansões de Taguatinga, cada um tratou de fazer ingerências para que os ‘favelados’ da Boca da Mata e os que viessem depois ficassem bem longe. Por esse motivo, foram colocados em outro lugar, cujo declive transformou-se num inferno para os moradores. Em dias de chuva, não raro, por muito tempo, havia casas que alagavam, e os moradores além do risco de afogamento, perderam moveis mais de uma vez].
Quanto a nós, ajudamos a erguer alguns ‘barracos’, cavamos fossas, animávamos os amigos, celebrávamos a vida. Essa experiência foi marcante. Não era o grupo de jovens aqui, embora alguns estivessem engajados nessa empreitada também. Havia uma mistura, uma amiga de outro grupo de jovens, os seminaristas, um dos mais novos do meu grupo, mas alguém que admiro até hoje por seu engajamento, com tão pouca Idade, Alexandre, e outros jovens, da comunidade da antiga Vila dos Parafusos, que aderiram ao trabalho com um circulo bíblico que passamos a promover algum tempo antes da remoção.

Nessa época, o grupo Juliber já estava condenado, mas eu continuava engajado em outras coisas, como esse trabalho com círculos bíblicos. Bom, com isso, algum tempo depois, num terreno destinado a uma nova paróquia, conseguimos erguer, com doações (muitas do próprio bolso) uma ‘igreja’ (um templo) de madeira, cujo piso, lembro até hoje, fizemos tão fino que as cadeiras que usamos furou alguns lugares. Conseguimos deixar a igreja pronta antes do Natal e celebramos ali a vida nova daquele povo que, agora, era maior que a Vila dos Parafusos.

Por um tempo, os padres do Guará assumiram esse compromisso de ir à Samambaia, mas o bispo logo designou um padre para o local. Ele já tinha informações sobre muitos de nós (coisas não muito boas e, como ele mesmo admitiu depois, teve mesmo a orientação do bispo para nos retirar do trabalho pastoral), mas entendeu como éramos comprometidos e teve, em Tia Nita, uma aliada importante para fazer a comunidade crescer.

Padre Gervásio

Padre Gervásio

De todo modo, eu já estava num processo de desencantamento muito adiantado. Não conseguia imaginar deixar meus amigos e aquele trabalho que me consumia, com prazer, os fins de semana e tantas noites e madrugadas. Mas estava chegando a hora de abandonar tudo isso.
As coisas no Guará se tornaram insustentáveis. Como estava ainda muito envolvido com os ideais da pastoral de juventude e tinha criado fortes vínculos com os seminaristas josefinos no Guará (para desespero do pároco, pe. João Bonetto, e loucura do pe. (Giuseppe) José Perona), o contato com a Paróquia Santa Rita de Cássia, em Planaltina se tornou compulsória – embora já tivéssemos, fazia algum tempo, por causa dos Círculos Bíblicos, conhecido algumas pessoas envolvidas com Comunidades Eclesiais de Base, lá e em Ceilândia, outra cidade satélite considerada perigosa, mas, na realidade, deixada à própria sorte pelos governos que se alternaram em Brasília.

Padre José Perona

Padre José Perona

Padre João Bonetto

Padre João Bonetto

Pois bem, num final de semana de cujo ano não quero nem tentar recordar, fui convidado para explanar a grupos de jovens e a outros seminaristas, se não me falha a memória aqui também, em Planaltina. O local exatamente não saberia precisar (acho que era em uma escola), mas foi um convite interno, da paróquia. Quando lá cheguei, havia um clima de tensão, pois o pe. José Perona havia se articulado para impossibilitar minha presença e minha fala, inventando algumas estórias sobre mim e apresentando-me como perigoso (ou coisa do gênero). Acabei apresentando alguma coisa aos jovens presentes, mas meu coração estava já a mil.

Na primeira oportunidade, não sei se no dia seguinte ou se no final de semana seguinte, lá estava eu na Paróquia São Paulo Apóstolo. Lembro bem. Estava conversando com minha amiga Sandra, que, vindo da RCC, havia se engajado nos trabalhos de circulo bíblico com a gente. Estávamos posicionados entre o novo templo e o antigo, que se transformou num salão de festas e reuniões, quando o padre José Perona sai pela porta de acesso à casa paroquial. “Surtei”. Parti para cima dele e o confrontei sobre o episódio de Planaltina (eu sabia o que tinha acontecido), ele negou de pés juntos, e dirigindo-se, embora assustado, para a Sandra, disse que eu estava possuído (ou algo similar). Lembro de ter dito que ele é que era do diabo, e que o processaria por calunia.

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No dia seguinte, entreguei uma carta ao pároco na qual afirmava que, nos termos da lei (e citei a Constituição e o Código Civil, mas não me perguntem o quê exatamente, pois não guardei cópia disso), iria acionar a justiça, contra o padre José Perona e a paróquia por calunia e difamação. Na mesma semana, padre João Bonetto foi à minha casa, melhor à casa dos meus pais, solicitou minha presença e tivemos, meu pai, minha mãe e padre João (não lembro do pe. José Perona) uma conversa. O que foi dito exatamente não me recordo mais. Apenas me vem a imagem da minha mãe e do meu pai, que não pareciam compreender muito bem tudo aquilo, afirmando confiar em mim. O pe. João pediu para que eu desistisse da ação e que deveríamos nos conciliar blá blá blá.

Esse foi o fim. Pouco antes, os antecedentes desse confronto foram: a) sermos acusados de produzir um documento contra a organização paroquial e ter induzido outros grupos a assinar o que eles classificaram como ‘libelo’, e b) uma espécie de portaria do pároco na qual se proibia qualquer manifestação e divulgação das pastorais ou paroquianos de ideais que não tivessem permissão explicita do pároco. Depois desse embate, toda vontade de participar de qualquer coisa que fosse, na paróquia, tinha sido levada como folhas em uma enxurrada.

Minha atuação pastoral ficou circunscrita à Samambaia e, mesmo assim, por pouco tempo. Tínhamos os círculos bíblicos e a missa, mas eu já tinha meu coração apostando em outras coisas. Não lembro bem como cessou tudo, mas ainda guardo com carinho as noites de chuva, pés encharcados, casas simples, pessoas simples, e a palavra de Deus, como acreditava naquele momento, servindo de alento e chave de leitura para a vida. De repente, tudo isso ficou para trás e, quando menos esperava, já não tinha fé, mas também não tinha mágoa, nem raiva, nem me coloquei como um inimigo. Simplesmente, acabou. A teologia deu seu lugar à filosofia, já não mais só à filosofia da libertação, que abandonei por um tempo, mas à filosofia da ciência, aventura que já havia sido iniciada fazia algum tempo e que, agora, tomou conta definitivamente dos meus pensamentos.

PAUSA

O trabalho com a Pastoral de Juventude trouxe-me coisas interessantes. Acabei me envolvendo, mesmo com medo, com a coordenação da PJ no Distrito Federal. Padre Graziano Stablum, um pavoniano, era o responsável pela pastoral da juventude em Brasília naquele momento, vista com alguma desconfiança pela diocese, o que nos obrigou a manter alguns encontros com o bispo (lembro de uma visita à casa de Dom José Freire Falcão, foi uma espécie de batismo no trato com autoridades, em que, parece com sucesso, tentamos mostrar que o trabalho da PJ não era alheio às orientações do bispo e que tinha pretensões de melhorar a organização dos grupos em Brasília). Assumi, mesmo que, pelo que lembro, por um tempo muito menor do que o que esperavam de mim, a responsabilidade pelas cidades satélites do Guará I e II, Núcleo Bandeirante, Candangolândia e Cruzeiro. O que me obrigou dedicar boas horas durante a semana para visitar as paróquias e seus grupos de jovens, sempre buscando a integração dos grupos às orientações e ideais de uma Pastoral de Juventude, conforme pensada naquele momento pela CNBB e no ideal e grupos de base, como os descrevia o Padre Jorge Boran, uma espécie de teórico desse modelo de PJ – com quem tivemos algum contato um tempo depois).

Padre Jorge Boran

Padre Jorge Boran

Padre Graziano

Padre Graziano

Não lembro muito bem o que de efetivo consegui com esse trabalho, mas ele me rendeu conhecer muitas pessoas e forçou-me articular cada vez melhor ideais e a aprender a representar um papel, a apresentar para terceiros, para além das minhas próprias ideias, diretrizes, um projeto – além de convencer grupos já formados sobre a importância de fazermos parte de uma coisa maior. As primeiras assembleias gerais vieram, outro aprendizado. Um final de semana inteiro, internados em uma chácara, com jovens de todos os lugares do DF, para discutir projetos comuns e para aprender com outros desde dinâmicas até teologia. Celebração da vida também, coisas que nos fortaleciam e nos convenciam ser parte de algo muito maior. Participando da coordenação da PJ em Brasília, seria indicado representante do Centro Oeste na PJ Nacional. Não lembro bem o processo, mas isso me assustou um pouco, acho que não me dava bem com posições que me distanciavam dos grupos, da pratica, que era como eu via uma ‘carreira’ dessa (reuniões, assembleias, viagens). Sei que minha participação na PJ, nesse momento estava por encerrar-se. Passei a bola, com algum receio, pois gostava do sisudo padre Graziano e da sua luta para fazer a PJ funcionar.

Fiz amigos nessa época que são hoje como irmãos. Não há como não agradecer por isso, mesmo sem ter fé e a mesma disposição daquele tempo, sem ter a mesma perspectiva, sem ter a mesma vontade de pertencer. Continuam sendo meus irmãos. Alice, Álvaro, Jaqueline, Adriana, Wolber, Márcio, Jaqueline (outra mais que querida, minha comadre), Takamasa … e os familiares que passaram a ser pais e mães de todos. Fora os grupos da minha própria Paróquia, Javé, Juac, e um outro advindo do Focolares. Era uma grande festa de jovens, e, tirando um ou outro, talvez, todos eram economicamente não abastados, suas famílias se classificariam no que chamamos de classe média hoje (talvez, classe C). Mas era comum que tivéssemos uma formação que não era, em geral, tão ruim. Muitos filhos de professores, muitos com algum capital cultural (para usar uma expressão já banal hoje), mas acima de tudo, jovens com vontade de fazer acontecer, ingênuos como sói ocorrer com os que acreditam, gente bonita, alegre, talentosa (tantos músicos, tantos atores, poetas….). É uma experiência tão rica que tentarei, em outro momento, dar conta dela, de forma mais paciente e carinhosa. Tudo que sei é que essa aventura dentro da Igreja Católica propiciou para mim e para muitos outros as condições necessárias para amadurecer e capacitar-se, foi ali que, como já disse, aproximei-me da sociologia da religião, mas muito antes, da teologia, incluindo aquela que marcou para sempre meu olhar, a teologia da libertação. Ao mesmo tempo, foi também ali que descobri a Filosofia da libertação, e que sofri tentando entender o que Enrique Dussel dizia.

Sem competência e formação, já por volta dos 17/18 anos (e aqui esclareço que os eventos de que trato aqui estão absolutamente embaralhados, não apresentados de forma cronológica), fez-se luz (e hoje sei que entendia apenas parcialmente o alcance daquelas ideias), e a ética da libertação, uns 2 anos depois, parece que tomou conta de mim e, nunca esqueci, fiz minha primeira tentativa de explica-la para minha amiga, Leila Barros, que, pelo menos me resta isso na memória, teria ficado encantada como eu estava (se não ficou, sua recepção foi fundamental para que eu seguisse dali por diante em busca de mais e mais conhecimento, e não parei de consumir Dussel desde então).

FIM DA PAUSA

Do ponto de vista acadêmico, depois de um vestibular frustrado na UnB, para biologia, passei para o curso de Geografia no Ceub e aceitei o desafio. Não deveria ter desistido da biologia, mas não parecia que tínhamos tempo para tentar. Era preciso cuidar logo de arrumar um emprego.

Um curso noturno numa faculdade particular (ainda não era uma universidade), não era coisa fácil de manter. Eu ganhava quase nada com aulas de violão. Meu pai bancou por um tempo, mas eu preferi trancar meu curso, no terceiro semestre. Estava animado com a possibilidade que a Geografia nos colocava. Naquela época, o Ceub tinha um corpo de professores de primeira no curso de Geografia, e a geografia era uma disciplina crítica, além de me apresentar formalmente às ciências sociais.

Foram necessários 3 anos para que eu retornasse ao curso, depois de um tempo já como servidor público. Meu primeiro concurso, como agente administrativo no Executivo. Lotado no Ministério da Indústria e Comércio, graças ao incentivo de uma amiga querida, Ilda, naquele que foi meu local de crescimento profissional, retornei ao curso de Geografia.

Estava mais maduro, tinha lido muito, a filosofia já era mais fácil de degustar, a história tinha se tornado parte obrigatória da minha auto-formação, e uma outra experiência fundamental entraria na minha agenda, o Curso Logos.

Bom, a Geografia, que dizer desse campo. A Geografia crítica, geografia humana, era o que me interessava, ficou fácil escolher. A geografia urbana abriu minha cabeça e, se tivesse continuado a jornada, seria hoje um urbanista, alguém preocupado e atuando com planejamento urbano. Meu trabalho final de uma das disciplinas, feita em dupla com uma colega, foi sobre a viabilidade do uso do Veiculo Leve sobre Trilho (VLT) nos moldes que se propunha para Brasília naquele momento. Já era claro para mim o como a política e a economia andavam juntas e como elas interferiam em nossa vida de maneira profunda. (lembro de ter utilizado o método analético, como o definia Dussel, mas o professor não entendeu nada e disse que não existia, deveria usar o café com leite: indutivo, dedutivo e, no máximo, dialético – para não dizer marxista. Ele estava enganado e acredito termos justificado bem o uso, mas serviu para fortalecer em mim a desconfiança sobre os que estão em posição de poder, particularmente na academia, um suposto saber (não o do Lacan) que marca a distância e impede questionamentos).

Mas foi uma disciplina obrigatória no curso de geografia que mudou minha perspectiva de uma vez por todas. Tínhamos dois semestres de Antropologia Cultural (na realidade, o nome era inadequado – inclusive pela nossa tradição, o correto seria Antropologia Social) e o professor (Miguel Vicente) Foti era uma figura. Com seu cigarro (nessa época não era crime fumar dentro da sala – embora eu mesmo não gostasse), e o prazer que parecia sentir em fumar e produzir formas com a fumaça. Um sujeito interessante, embora nem todo mundo gostasse da disciplina.

Devo muito, no entanto, a ele. Um livro muito chato (porque não o entendi completamente naquela época) do Roberto da Mata (Relativizando) não foi suficiente para tirar de mim o gosto pela disciplina. Do próprio DaMatta, indicação também do Foti, li e reli Anthropological Blues, um artigo publicado no livro Ensaios de Antropologia Estrutural (Editora Vozes), encantou e marcou-me profundamente e eu dizia, depois disso, sem dúvidas, que “era isso que eu queria fazer”. Outro ensaio nesse mesmo livro era uma análise do texto “O Diabo no Campanário”, de Edgard Allan Poe. Juntas, literatura e antropologia, Allan Poe e DaMatta, não havia o que mais desviasse meu coração. Mas a coisa rendeu e, também como indicação para a disciplina, devorei um livro para o qual se liga pouco, mas que me apresentou o antropólogo brasileiro, José Carlos Rodrigues, Antropologia e Comunicação. Marcel Mauss entrou na lista, assim como Goffman, graças a esse livro, mas foi muito mais.

Ensaios de Antropologia Estrutural

Ensaios de Antropologia Estrutural

Roberto DaMatta

Roberto DaMatta

Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Erving Goffman

Erving Goffman

Antropologia e Comunicação: Princípios Radicais (José Carlos Rodrigues)

Antropologia e Comunicação: Princípios Radicais (José Carlos Rodrigues)

Foi assim que, ao terminar o curso de geografia, imediatamente me dirigi à Universidade de Brasília e não poderia ser outra a história. Segui novo curso e me formei em Antropologia (na realidade, Ciências Sociais, com habilitação em Antropologia) e logo em seguida o Mestrado em Antropologia Social (após ter sido ‘desclassificado’ na primeira tentativa, apesar da revolta de meu ‘orientador’ na graduação, professor Tarlei que, talvez para me consolar, dizia que nunca tinha visto um projeto tão bom para o mestrado em anos).

Aproveitei para seguir, um pouco mais folgado, duas disciplinas como aluno especial. Amigos valiosos nesse tempo, mas coração dividido com outras coisas, como a filosofia, a linguística e a psicanálise. Ao terminar meu mestrado, melhor, um pouco antes de terminá-lo, submeti-me ao concurso para doutoramento, recém criado no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados sobre as Américas (PPG/CEPPAC), pois a confusão no departamento de antropologia e a política departamental me faziam mal. Eu desejava seguir na academia, acho que sempre tive vocação para a pesquisa, mas meu estomago nunca deu certo com intrigas pequenas por questões de gestão, luta por espaços de poder. Eu não conseguia alcançar, acho hoje, o significado daquilo. E ver aqueles homens e mulheres tão inteligentes se digladiando, embora disfarçadamente, me incomodava muito.

Roberto Cardoso de Oliveira

Roberto Cardoso de Oliveira

Tentei o CEPPAC e cheguei até a entrevista, mas, embora o meu sempre mestre maior Roberto Cardoso de Oliveira tenha tentado me ‘proteger’, a outra professora (que hoje não consigo lembrar quem era, mas não era brasileira) pegou pesado comigo e devo admitir que não estava preparado para uma entrevista daquela (mas não tenho dúvida de que seguiria bem o doutoramento). A burocracia e a percepção da professora me barrou. Eu desisti naquele momento da vida acadêmica. Embora a vida, mais a frente, bem mais a frente, me cobre por isso.
Minha orientadora, mulher fantástica, pesquisadora exigente, Lia Zanotta, me fez seguir uma reflexão sobre a modernidade (antes de ser minha orientadora – numa disciplina intitulada Antropologia da Modernidade) que foi fundamental para o modo como eu passaria a encarar a antropologia daí por diante. Modo geral, devo muito às professoras do Departamento, além da professora Lia, gratidão à Rita Segato, argentina nem sempre fácil, exigente, o que foi ótimo – Miréya Suárez, fundamental no inicio do curso, carinho e reconhecimento; Carla Teireira, exemplo e incentivo (Alfred Schutz foi apreendido com ela); Tânia Mara, antropologia da religião em cena; professoras Eurípedes da Cunha Dias e Alcida Rita Ramos, por motivos diferentes. Quanto aos professores, de coração, Stephen Baines, José Jorge de Carvalho (muito mais do que ele possa imaginar) e, na graduação, professor (Luis) Tarlei (de Aragão), já falecido, que foi simplesmente um amigo e incentivador, bonachão e bon vivent, não deixou de ser excelente professor. Martin (Alberto Ibanez)- Novión e sua antropologia da saúde, fantástico, inclusive por parecer tão a parte de toda aquela maluquice departamental; Luis Roberto Cardoso de Oliveira, filho do Roberto Cardoso de Oliveira, sempre acolhedor; (Wilson )Trajano, teorias bem apreendidas; Klaus Wortmann, exigente e exigente; Luiz Fernando Dias Duarte, apresentou-nos um seminário que, junto com a Lia Zanotta, e colocou-me no rumo de fixar-me em compreender adequadamente a Modernidade; e Roberto Cardoso de Oliveira, com suas aulas sobre metodologia, comprovou sua grandeza e me fez acreditar muito mais na necessidade de dar conta dos fundamentos.
As quase compulsórias 600 páginas semanais, num dos mestrados mais difíceis que tinha notícia (pela quantidade de créditos e quantidade de leitura), exatamente quando meus filhos chegaram (gêmeos, prematuros), testou-me até o último minuto. Posso dizer que não tirei licença para concluí-lo (mas tive a complacência das minhas chefes quanto aos meus horários, inclusive para seguir as disciplinas de cada semestre – que foram menos dolorosas porque eu havia seguido duas delas como aluno especial). O teste foi de fogo e, acredito hoje, que não sai ileso dessa aventura, em vários sentidos.

Outros campos entraram na minha vida e neles tentei me fixar um pouco, às vezes mais, noutras vezes para rapidamente abandonar. Foi o caso da psicanálise, da linguística, do Direito, das ciências da informação, da ciência política, mas também da medicina, que namorei por um tempo.

As ciências da informação abandonei com gosto (embora esteja envolvido com seu objeto cotidianamente, inclusive por motivo profissional). A medicina seria um mundo em que mergulhar se julgasse poder utilizá-la adequadamente para ajudar as pessoas, mas provavelmente a biologia seja mais provável para mim. A ciência política sempre esteve rondando e inventei de arriscar-me nesse rio caudaloso, que se revelou um riacho raso e sem sentido. O Direito, como ele se apresenta entre nós, dá-me enjoo só de pensar, mas, via filosofia, tenho tentado ainda permanecer por perto, há algo aí que talvez ainda precise ser adequadamente digerido. A psicanálise ainda continua me demandando, eu é que não dou conta, mas não a abandonei de vez, nem pretendo, por enquanto. A linguística vem junto com outras coisas e, no meu caso, não poderia rejeitá-la, quando penso tanto na antropologia quanto na psicanálise.

E a política? A religião, ficou claro, foi abandonada, menos como campo de estudo. E a política? Bom, como a maioria dos que conheço e que tinham algum tipo de engajamento, alguma militância, houve tanto um relaxamento quanto um desencantamento. O mundo mudou, o Brasil mudou, veio a abertura política, o Partido dos Trabalhadores ganhou um espaço que eu mesmo não acreditava poder ganhar, os sindicatos, parece, se transformaram (e, em alguns casos, em negócio), os movimentos sociais (com exceção do MST) parece que perderam a identidade ou, pelo menos, sua visibilidade. Amadurecemos e entramos naquilo que mais temíamos: ser adultos padrão: com suas famílias, empregos, lutando para ‘conquistar’ conforto, ‘criar seus filhos’, ‘crescer’….. e Belchior e Elis, com a fantástica “Como Nossos Pais”, parecem cantar para nós. A militância praticamente se reduz a boca de urna, os diretórios foram reduzidos, eu cheguei a me filiar, mas já estava desanimado com o que conhecia sobre o funcionamento interno dessas organizações, como conheci a gana das pessoas por poder quando organizamos o sindicato dos servidores públicos (nunca vou esquecer de uma cena – que somente algum tempo depois fui entender – na qual vi a Maria Laura (que foi deputada pelo PT/DF) chorando… a questão era de ‘trairagem’ (como dizia um amigo), os companheiros de partido, mas de corrente distinta, disputando espaço no novo sindicato, evidentemente porque isso importa para quem tem interesse em atuar politicamente com outros papeis, como o de deputado). A ideia de que o mundo estava mudando e que o socialismo real, uma vez ‘vencido’ como proposta alternativa, não dava margem a seguir com utopias.

Elis Regina

Elis Regina

Belchior

Belchior

Esse “desânimo” com a política (e com a política partidária em particular) talvez tenha sido responsável pelas apostas na pesquisa, no estudo, na docência, pois sem a religião e sem a política, restava o sem sal da luta cotidiana para ser igual aos demais, o que sempre me fez parecer inadequado.

No próximo post tentarei dar conta dessa relação estranha com o PT e com seu líder maior, Lula.