Arquivo mensais:dezembro 2014

Crises nas Universidades (comunitárias) Católicas e o caso (ou caos?) de Brasília.

As Universidades Católicas no Brasil têm sido movidas, faz bastante tempo, por crises. Estas dizem respeito ao status diferenciado que estas (e outras) têm em relação a outra instituições de ensino superior no Brasil. Elas compõem um grupo especial de ‘Universidades Comunitárias’, ou seja, embora não sejam públicas teriam uma características específica, não baseada num ideal privada, como uma empresa (imagem com que claramente identificamos as faculdades, centros universitários, universidades particulares).

Isso também as beneficia de alguma forma e delas se têm uma confiança distinta, pelo menos no caso brasileiro isso é claro, em relação a outras IES privadas.

Mas a moda das consultorias e das gestões de mudanças, quase sempre com a desculpa de adequar a ‘saúde financeira’ dessas instituições para que continuem funcionando, têm direcionado muitas dessas universidades para adequar-se também a uma educação de massa, precarizando o trabalho dos professores, técnicos e, mesmo, terceirizados, buscando superlotar salas de aula, usar disciplinas virtuais para baratear o custo (o que significa mais alunos para um mesmo professor – ou, agora é moda, tutores, além de pagar menos para esses mesmos professores ou tutores, por cada hora trabalhada, malandragem aprendida com as consultorias e maus exemplos de IES que têm enchido os bolsos nesse país).

A PUC de São Paulo demitiu muitos professores em 2006 e entrou numa grande crise, da qual, acredito, até hoje não saiu. Houve indicação de uma intervenção, mas não tenho notícia de que isso tenha levado a uma normalização e a melhores condições de trabalho, garantia de qualidade nos cursos, ou coisa do gênero. Os professores foram à justiça para reverter as demissões. Outros momentos tensos, incluindo a Greve de 2012

A PUC de Minas Gerais também tem seus problemas com salários de professores, aumento abusivo de mensalidades, greve em 2011 e, em 2012, o quadro ficou bastante crítico. Mais ameaças de intervenção. Mesmos problemas já ocorridos em São Paulo.

A PUC de Goiás ressente-se atualmente do mesmo mal-estar. Com a desculpa de adequação e ajustes, o que se tem visto, na realidade, é um abandono da missão e do ideal de educação da PUC (“Conhecimento a serviço da vida”) para alinhamento ao ‘ideal’ da mercantilização da educação. Os ajustes são sempre no sentido de otimizar os ganhos, sem nenhum tipo de discussão sobre o projeto de educação. Mantem-se a fachada humanista, mas a precarização do trabalho aparece como ‘modernização’, como mudanças nos paradigmas de gestão, “pelo bem da saúde financeira da instituição’.

O caso da Universidade de Brasília é paradigmático. Ela não é um PUC, por opção. A motivação, parece, foi manter certa autonomia em relação à arquidiocese e, assim, também do Vaticano. A UCB é uma entre outras tantas instituições de ensino sob a gestão da UBEC – União Brasiliense de Educação e Cultura (até onde sabe-se, uma das instituições que lhe dava mais ‘entradas’).

A UCB já passou por problemas de caixa ou, talvez fosse melhor dizer, por problemas de gestão do caixa. O que foi superado por uma adequação de processos e, infelizmente, demissão de professores. Não é de hoje que a UCB ataca professores que ousam falar, discutir, pedir diálogo e transparência. Diz-se que custou o emprego de muitos ousarem organizar-se em associação.

Pois bem, em 2011, por causa de divergências entre membros do conselho diretor da UBEC e, dizem as paredes, divergências entre o então reitor da UCB, Pe. José Romualdo Degasperi e o presidente da UBEC, Pe. Décio Batista Teixeira, alteraram o estatuto e inventaram uma nova forma de escolha do reitor, que seria antecipada de uma pesquisa ‘no mercado’ para escolher um profissional adequado.

Foi com esse discurso que o sr. Cícero Ivan Ferreira Gontijo foi ‘descoberto’ pela consultoria contratada pela UBEC (Passarelli Consultores.) e passou a ser o reitor da Universidade, já em 2011. Só esqueceram de dizer que o sr. Cícero Gontijo é velho conhecido do Pe. Décio Batista Teixeira (primo?).

Na realidade, tudo mudou a partir desse ponto. Com a saída do pe. Romualdo Degasperi. Houve a quase total extinção dos setores administrativos de todas as mantidas da UBEC, e os engenheiros da nova organização concentraram tudo em um Centro de Serviços Compartilhados – CSC, que se transformou num transtorno e sinônimo de ineficiência, mas, funcionando dentro das dependências da UBEC, fechou com chave de outro a decretação de intervenção permanente nas mantidas, em particular a menina de outro, a UCB. Não há mais setores financeiros, controladorias, RHs etc, independentes. Tudo se resolve via CSC, mesmo para pedir um copo d’água, parece, tem-se que pediar a benção da UBEC, via CSC. Poder maior que esse?

Dentro da UCB, é de conhecimento de todos que a UBEC firmou contrato milionário com a CM Consultoria, de propriedade do Sr. Carlos Monteiro,. A empresa apregoa ser a maior do país na área de educação, embora em seu quadro, não conste exatamente profissionais de ponta em matéria de educação. O foco, fica claro, é reestruturar para mais lucrar. Nem sempre com resultados que sirvam como troféu. A GAMA FILHO, por exemplo, cliente da CM Consultoria faliu recentemente, seguindo a cartilha. Outras passam por dificuldades. Talvez, por isso, a UBEC venha tentando esconder a matriz de sua ideia de reestruturação, inclusive porque o MEC tem estado ‘de olho’ na CM e em suas propostas.

Pois bem. Apesar das dúvidas e da novidade, e da recepção também cheia de senões, sempre se tem esperança de que as mudanças possam trazer algo de positivo. A decepção não poderia ter sido maior. Após 18 meses de uma gestão absolutamente nula (porque eram os pró-reitores que efetivamente tocavam a UCB), o sr. Cícero Gontijo ‘pede demissão’, por motivos de ordem pessoal, e assume o sr. Ricardo Mariz, como pro-tempore, acumulando a função de pró-reitor de graduação e de Reitor.

Duas coisas a esclarecer: 1) corre, a boca miúda, que o sr Cícero Gontijo, na realidade, atreveu-se a ser reitor de verdade, embora tardiamente, o e a UBEC quis cortar suas asas. Como, além de reitor, ele era Procurador do DF (sim, ele permaneceu na ativa – embora dissessem que ela estaria licenciado), teria sido ‘demitido’, mas somente com um acordo que garantisse o pagamento do que teria direito pelo restante do mandato, embolsando uma boa quantia – se é verdade ou não é menos relevante; 2) o reitor pró-tempore parece que também foi pressionado a seguir uma cartilha de ‘modernização’ (o que pode ser traduzido como: demissão, redução de carga horária etc = precarização das condições de trabalho), acabou por demitir-se também, parece que com menos sorte, sem acordos vultuosos.

Não demorou muito e um novo reitor e pró-reitor logo surgiram.

 

O professor Dr. Afonso Celso Tanus Galvão, que já era da UCB, foi ‘convidado’ a assumir a reitoria e confirmado em junho de 2013. Iniciou-se um processo turbulento para ‘reestruturar’ a universidade, seguindo um plano que misturava indicações da CM consultoria e experiências do próprio professor Galvão, uma bricolage incompreensível do ponto de vista pedagógico e administrativo, mas claríssimo quando pensamos do ponto de vista financeiro e do sentido do plano da UBEC (quer dizer, da CM Consultoria, quer dizer, do sr. Leonardo Nunes Ferreira, que foi alçado à condição, em um certo momento (por meio de uma encenação de sua capacidade de saneamento financeiro) de Superintendente da UBEC (depois, acredito, os religiosos reajustaram suas expectativas e mudaram o nome pomposo.

Um coisa curiosa. A UBEC contratou a CM, que já teve o sr. Leonardo Nunes Ferreira como palestrante em seus cursos de formação. Uma relação, no mínimo, curiosa.

 

Os planos não saíram, ainda, como planejado e as trapalhadas da nova reitoria resultaram em protestos dos estudantes, criticas dos professores, presença do Sindicato e a rejeição formal da proposta de reestruturação da Universidade Católica de Brasilia, e uma postura rebelde do reitor em relação à UBEC, ousando falar em autonomia, complicaram o quadro e, nenhuma surpresa, o professor Afonso Celso Tanus Galvão foi demitido.

Tentaram encenar, como já tinham feito com o sr. Cícero Gontijo, que seria o caso de ‘problemas de ordem pessoal’, mas o professor Afonso Galvão desmentiu em publico que teria pedido para sair. Ainda não se sabe se houve ou não, nesse caso, o pagamento de uma boa ‘indenização’ para encurtar o mandato.

Pois bem, alunos de menos entrando na UCB, péssima estratégia de captação de novos discentes, insegurança dos docentes, retirada de recursos de pesquisa, da extensão, e mudança no formato de organização dos departamentos (mesmo sem a aprovação formal da reestruturação). Uma limpeza na gestão para garantir que não se encontraria mais resistência interna. Tudo isso levado a cabo pelo novo reitor, o religioso Dr. Gilberto Gonçalves Garcia.

Com muita experiência, inclusive tendo sido o primeiro e único presidente do Conselho Nacional de Educação que não vinha de uma instituição pública, parecia uma boa surpresa, dada também sua passagem pela UNISINOS. Enganaram a todos.

Adotando uma estratégia inicialmente compreensível de não dialogar com professores e, sequer, com os responsáveis pelos departamentos, ninguém parece lembrar-se da voz do novo reitor. O recado foi compreendido muito tardiamente: eu não vim para conversar.

A surpresa veio no final de ano, com a demissão em massa de professores (cujo critério de escolha não foi declarado, mas facilmente deduzido), antecedida de uma mudança, no final do semestre letivo, de certos cargos de confiança. Isso foi feito de forma sincronizada, quase silenciosa, para, provavelmente, o elemento surpresa ser efetivo. Professores com férias programadas, alunos de férias (não podendo ‘encher o saco’), o sindicato atordoado, e alguns meses antes do reinicio das aulas para fazer esquecer a ‘limpeza’ e o novo round da reestruturação ter inicio em 2015.

Assim como começamos o texto, crise nas universidades comunitárias não é novidade, mas a UCB tem se mostrado um exemplo a não ser ignorado. O fato de interesses particulares, pessoais, serem tão relevantes no caso de Brasília, com as intrigas entre integrantes da UBEC, a briga por poder entre professores e dirigentes dentro da UCB, o papel do sr. Leonardo Nunes Ferreira, até hoje mal esclarecido. A divisão interna entre Católica Virtual e a Católica ‘real’ (cursos presenciais), com suas visões distintas sobre o processo educativo e a luta por recursos e influencia. A extinção declarada do curso de Filosofia, a ausência de mais cursos da área de humanas (um curso de Ciência Política que não deslancha, onde está o curso de Geografia? Como pode um doutor em filosofia, agora reitor da universidade, compactuar com a desarticulação das áreas que ainda promovem a reflexão crítica?). O ano de 2014 foi importante pela organização dos estudantes, pelo fato de a UCB ter sido obrigada a responder publicamente algumas questões, mas agora profissionalizaram a coisa e se não se tirar da toca os responsáveis, nada mais será iluminado.

Pensam que é pela modernização? Nome esquisito e sem sentido, pelo saneamento das finanças conjugado com uma nova abordagem da educação? Ninguém se iluda: a responsável pela Escola de Educação não sabe o que é educação e quem participou da primeira e única reunião em que ela brindou os professores dos cursos pelos quais ela é responsável ouviram bem: não há estrutura, não há recurso, não há sequer sala, nada mudou em termos de sala de aula, mas são todos convidados a fazer o melhor que puderem. Educação? Que é isso? Não perguntem, ela respondeu claramente e é uma vergonha.

Para comparar, pensem na Escola de Direito. Sabem qual foi a primeira providência do seu diretor? ‘pedir’ (obrigar?) os professores a ‘vestirem-se adequadamente’ (algo como terno e gravata, tailler etc), de forma a diferenciarem-se dos alunos, impondo o respeito necessário. Viram bem qual a visão de educação e do papel dos professores e alunos?

 

Vamos ver se alguém de fora, seja agora no final de ano, seja no começo do ano que vem, pode, pelo menos, exigir transparência (aliás, obrigatória no caso das Universidades Comunitárias – alguém ainda conhece o estatuto?), os deputados, senadores, o Ministério Público, até o sindicato (que ainda não me convenceu de nada até o momento).

O novo reitor não vai permanecer tanto tempo na sombra e mudo. Seu currículo parece interessante, vamos ver como será vinculá-lo ao do sr. Leonardo e à CM Consultoria.