Arquivo mensais:fevereiro 2015

AMAR OU ODIAR A VIDA? DESTINO, NADA, ILUSÃO…. OU A HIENA DO CIORAN

O. Spengler

O. Spengler

S. Freud

S. Freud

A. Schopenhauer

A. Schopenhauer

S. Kierkgaard

S. Kierkgaard

 

B. Spinoza

B. Spinoza

 

 

 

 

 

Não sei qual teria sido, efetivamente, a imagem da humanidade, dos homens, que pensadores como Spinoza, Nietzsche, Schopenhauer, Freud, Cioran, Kierkgaard, um Spengler, um Pessoa ou, mesmo, em época muito mais distante, um Demócrito, um Sêneca…. em outra direção e tradição, como Jó, por exemplo, descreveria essa criatura que infestou a superfície terrestre, onde possível, e transformou todas as paisagens com que teve contato…. qual seria a imagem mais interessante (sim, porque verdadeira nenhuma é. A verdade sequer sabemos o que seja)?

Ao longo da ‘história’ dessa criatura no planeta que ela mesmo denominou Terra, que mudanças foram significativas nela, a criatura, que justifique alterar a imagem que, hoje, poderíamos ter dela, uma imagem que nos remetesse mais rápida e consistentemente ao coeur, ao ‘espírito’, do que que seria ou a que estaria propenso a ser essa criatura. Será que existe algo a que se poderia denominar ‘natureza humana’? algo que dure e sem o qual não nos reconheceríamos como humanos? Ou a cada momento o que nos caracterizaria (estruturaria?) muda tanto e tão fortemente que não se pode dizer que aquilo que ontem era o homem, o humano, hoje o seria mais? Será que apenas o pensamento religioso consegue pensar o humano como permanente? Somos vazios de sentido (e significados) e tudo que somos depende de algo fora de nós, exógeno? A tecnologia, por exemplo? A suposta natureza humana diria respeito apenas a uma certa capacidade de, a partir da técnica, de mecanismos inventados, ir alterando o que somos enquanto espécie? A história seria apenas a descrição de alguns dos momentos nos quais uma certa tendência, por acaso, dadas as circunstâncias (igualmente aleatórias), tornou-se disponível e, coisa que jamais saberemos, hegemônica? Podemos aceitar a ideia girardiana de que somos seres miméticos, os mais miméticos na ‘Natureza’, de forma que isso favorece tanto a violência quanto o laço social e, do mesmo modo, portanto, a fixação de tendências, de modelos, que imitamos sem darmo-nos conta?

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nietzsche

F. Nietzsche

Se Nietzsche, em certo momento, entende que a melhor aposta é no amor fati, na aceitação do mundo (mas não um render-se ao mundo):

“Minha fórmula para a grandeza no homem é amor-fati: não querer nada de outro modo, nem para diante nem para trás, nem em toda eternidade. Não meramente suportar o necessário, e menos ainda dissimulá-lo – todo idealismo é mendacidade diante do necessário -, mas amá-lo” (Ecce Homo, § 10)

“Amor fati: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!”

(Gaia Ciência, § 276)

A alternativa do odium fati, como em Emil Cioran, parece igualmente razoável, bem como a sua decorrente imagem da vida:

cioran

E. Cioran

“A ‘vida’ é uma ocupação de inseto” (Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1991, p. 55).

“Alguém emprega continuamente a palavra ‘vida’? Saiba que é um doente” (Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1991, p. 33).

“A vida, esse mau gosto da matéria” (Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1991, p. 56).

“Repetir-se mil vezes por dia: ‘Nada tem valor neste mundo’, encontrar-se eternamente no mesmo ponto e rodopiar tolamente como um pião…” (Breviário de decomposição. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1989,. p. 96)

“O pessimista deve inventar cada dia novas razões de existir: é uma vítima do ‘sentido’ da vida” (Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1991, p. 16)

“Quando me lembro que os indivíduos são apenas gotas de saliva que a vida cospe, e que a vida mesma não vale muito mais em comparação com a matéria, dirijo-me ao primeiro bar que encontro com a intenção de nunca mais sair dele. E, no entanto, nem sequer mil garrafas me dariam o gosto da Utopia, dessa crença em que algo ainda é possível” (Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1991, p. 86).

“há coisa mais vil do que dizer sim ao mundo?” (Breviário de decomposição. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1989, p. 67).

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Dizer sim ou não dizer sim ao mundo, à vida? Como permanecer vivo se um certo e intenso pessimismo nos controlar? Como não desejar a morte a conviver com aquilo que julgamos, todo o tempo, sem sentido, uma anedota de mal gosto do acaso? Como suportar os companheiros de viagem quando não se acredita na viagem e se os vê, aos companheiros, como excrecência, com nojo, com repulsa, a suas crenças, a seus amores fingidos, a seus scripts ruins, a suas performances pouco convincentes, a sua covardia, a sua apatia…?

Matar-se seria a única saída?

Talvez esses pensadores, por sua condição ‘burguesa’, por não terem tido de trabalhar duro, de terem tido tanto tempo para pensar (e não desconsideremos, claro, que viveram momentos de transição muito ricos em seu tempo e lugar), podem ir tão longe e nos lançar olhares tão duros, vendo ovelhas e gente fraca onde outros poderiam ver homens e mulheres lutando para sobreviver.

No entanto, sinto que para alguns esse tipo de reflexão e de ‘assalto espiritual’ por imagens tão funestas sobre a humanidade e, claro, sobre homens e mulheres concretos, seja inevitável e pode conduzir suas ações.

F. Pessoa

F. Pessoa

Não sei o que é bom ou o que é mal, e aqui apenas repito Fernando Pessoa, mas há momentos em que sentimos uma espécie de ‘despertar’, de ‘lucidez’ extrema, que nos colocam exatamente as mesmas questões acima. Por vezes, acho que seria um ‘vazamento’ da minha arrogância, mas não deixa de me assustar e de fazer-me sentir, de súbito, um profundo desprezo pela humanidade, apesar do mal estar que vem junto com tal sentimento. A verdade é que tantas vezes esse sentimento se faz presente que não consigo deixar de julgar aqueles com que meu olhar cruza pelas ruas.

Assustam-me os momentos em que tal sensibilidade toma conta de mim. Estar em uma multidão, seja em um mercado, numa feira, num evento qualquer, e ser ‘atacado’ por tal pessimismo é desconcertante e violentamente perturbador.

Não ver mais pessoas, mas partes de um rebanho, homens e mulheres mal cuidados, adolescentes imbecis, crianças vazias, homens vazios, mulheres imbecis, crianças obesas (gordura demais, virtudes de menos; maus hábitos demais, compaixão de menos)… criaturas que, supostamente, são fruto de uma longa linhagem, que estariam na ponta mais extrema de um longo e penoso processo civilizatório, tanto quanto da ‘seleção natural’.

No olhar dessas criaturas enxergar apenas desejos vãos, vontade alguma, mentes vazias, pensamentos tolos, palavras limitadas, uma ‘compreensão’ acrítica, frágil…. e novas imagens se fazem presentes: a caverna de Platão, Matrix, o ciborgue, mas também outras, advindas da ‘história’: guerras, genocídio, ódio étnico, ódio religioso, assassinatos, crianças mortas, mulheres violadas, torturas, escravidão….. será que o bem que fazemos ou fizemos consegue equiparar-se às desgraças que trouxemos e continuamos trazendo a este mundo?

Fosse apenas uma questão do que sente meu espírito, talvez sequer perdesse tanto tempo remoendo tais imagens. No entanto, essas criaturas, mesmo as travestidas de hábitos e atitudes mais ‘civilizadas’, racionais, éticas, são capazes de promover (mesmo por inação) dor e sofrimento aos outros, isso aqui e agora, em níveis micro e em níveis macro. Quando junto isso com a questão do poder, do dinheiro, tudo se torna tão mais sem sentido que o dia fica denso e quase irrespirável… ao longe, continuo ouvindo fofocas, comentários fúteis, energia desperdiçada, afrontas à ‘necessidade’ criadora, mais imitação, um ‘prazer’ em participar do jogo de cena, de executar papeis tão pequenos, de fazer discursos elaborados sobre coisas insignificantes, de defender ideias alheias, de condenar terceiros, de trair, de defender as ficções sobre as quais, dia após dia, tenta enquadrar-se e convencer os demais ser a verdade sobre si….

Amor fati ou odium fati? Sim ou não à vida? Será que amanhã, esses demônios já não atormentarão mais?