Arquivo mensais:maio 2015

As bases da nova direita (Antônio Flávio de Oliveira Pierucci )

Antonio Flávio Pierucci (19454-2012)

Antonio Flávio Pierucci (19454-2012)

Antônio Flávio Pierucci(1), em artigo publicado na Revista Novos Estudos (do CEBRAP), em dezembro de 1987, apresenta o perfil de eleitores de ‘direita’ na cidade de São Paulo. O artigo toma como base a analise de 150 entrevistas gravadas, com malufistas ou janistas (ou ambos), eleitores de Maluf e/ou Jânio Quadros.

Interessante a avaliação pois localiza-se no inicio da abertura política. Fica a tentação de atualizar o trabalho, pois algumas questões parecem dissonantes, mas outras são, no mínimo provocativas (para pensar). Afinal o que é ser de direita? faz sentido perguntar isso? a turma que bate panela e vota em Alckmin (para ficarmos com São Paulo ainda),  ainda se encaixaria no perfil traçado por Pierucci? O anticomunismo parece em voga novamente, mas talvez apenas como uma estratégia discursiva?

Um aperitivo:

“Seu tique mais evidente é sentirem-se ameaçados pelos outros. Pelos delinqüentes e criminosos, pelas crianças abandonadas, pelos migrantes mais recentes, em especial os nordestinos (às vezes, dependendo do bairro, por certos imigrados asiáticos também recentes, como é o caso dos coreanos), pelas mulheres liberadas, pelos homossexuais (particularmente os travestis), pela droga, pela indústria da pornografia mas também pela permissividade “geral”, pelos jovens, cujo comportamento e estilo de pôr-se não estão suficientemente contidos nas convenções nem são conformes com o seu lugar na hierarquia das idades, pela legião de subproletários e mendigos que, tal como a revolução socialista no imaginário de tempos idos, enfrenta-se a eles em cada esquina da metrópole, e assim vai.

 Eles têm medo. Abandonados e desorientados em meio a uma crise complexa, geral, persistente, que além de econômica e política é cultural, eles se crispam sobre o que resta de sua identidade em perdição, e tudo se passa como se tivessem decidido jogar todos os trunfos na autodefesa. “Legítima defesa” é, assim, um termo-chave em seu vocabulário. Esta autodefesa, que é prima facie a proteção de suas vidas, de suas casas e bens, da vida e dahonra de seus filhos (suas filhas!), sua família, é também a defesa de seus valores enquanto defesa de si. (Mas isto é ser de direita?) Eles não apenas votaram nas candidaturas mais à direita nas duas últimas eleições políticas realizadas no município de São Paulo; eles trabalharam por essas candidaturas. São ativistas da direita; não necessariamente militantes partidários, mas ativistas voluntários de pelo menos uma das campanhas, a de Jânio Quadros em 1985 e a de Paulo Maluf em 1986. A maioria deles o foi das duas. Não se trata, portanto, de simples eleitores, nem chegam a ser militantes partidários propriamente ditos. O nome ativistas sazonais, ou ativistas de campanha, denota com mais precisão o grau de envolvimento político-eleitoral dos entrevistados, assim como seu nível de informação política e de estruturação ideológica.

(…)

Mas que direita é esta? E até que ponto é “nova”? Questões complicadas. O medo e a agressividade em relação aos outgroup, como se sabe, não têm nada de novo como ingredientes de síndromes de extrema direita. Não têm nada de novo, é verdade, mas por outro lado conseguem orientar com segurança o diagnóstico, apontando na direção da extremidade direita do leque político: estamos às voltas com indivíduos arregimentáveis para causas antiigualitárias radicais e soluções autoritárias de direita. Estranhamente, porém, são favoráveis às greves dos trabalhadores e ao direito de greve, embora não façam greve e tenham cisma de que as greves degenerem em bagunça. Defendem a reforma agrária e, deste modo, estão bem longe da UDR; reprovam contudo as invasões de terras urbanas. Querem gastos públicos com a mesma veemência com que exigem as penas mais severas para o crime. Segurança policial e seguridade social são consideradas direitos urgentes de todos os cidadãos decentes e homens de bem: querem mais efetivos policiais, mais equipamentos e mais modernos, para o combate ao crime, maiores salários para os policiais; querem sobretudo a ROTA, emblema das decisões de polícia tornadas decisões de justiça. Mas querem, também, serviços públicos de saúde, escola, creches, orfanatos, reformatórios, internatos, às vezes campos de concentração com trabalhos forçados, transporte coletivo estatizado, seguro desemprego e aposentadoria condigna, tudo isto e muito mais eles querem do Estado. O papo liberal anti-welfare, claro está, não é com eles.

 

Do comunismo como fantasma assustador, velho pânico das direitas de um modo geral, do sobressalto ante a revolução socialista ali ao dobrar da esquina, nem sombra. Anticomunismo, quando há, é dos chefes, não das bases, assim como o pouco que se encontrou de neoliberalismo econômico provou-se minguante quanto mais longe das cúpulas das máquinas eleitorais ou partidárias se achava o entrevistado. De um lado, pois, o comunismo como um bicho-papão evanescente, que não mais atemoriza; do outro, o welfare state, que não convence como fantasma e alvo de ataque: nova direita sem reaganismo e sem thatcherismo? O fascínio que o neoliberalismo exerce sobre certos chefes partidários da direita, por enquanto, não reverbera nos ativistas de base.”

O artigo na integra pode ser acessado AQUI

 

(1) – Pierucci é bastante conhecido por seus trabalhos em sociologia da religião. No entanto, em 1988, apresentou interessante sugestão de interpretação sociológica das bases sociais das forças políticas de direita no contexto metropolitano no Brasil dos anos 80, tomando como base o município de São Paulo. Cf. http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_10/rbcs10_03.htm

Biopolítica e tanatopolítica, algumas notas

Os Retirantes (Portinari)

“Os Retirantes”, de Portinari

 

 

 

A Inversão da lógica de fins e meios:

  • A vida humana torna-se um meio
  • A eficiência torna-se o fim

A lógica instrumental da técnica moderna transforma os meios – a eficiência e a lucratividade – em fins.

Reduz-se o fim, a vida humana, a mero meio

 

O cuidado da vida humana – categoria ético-política central da modernidade reduz-se a um princípio formal da política moderna

  • cuida-se da vida quando é útil
  • abandona-se quando torna-se inútil

Há desdobramentos (não previstos) na objetivação da vida humana pelos dispositivos de poder.

(A Modernidade aponta para a POTÊNCIA (da e na vida)) –>

A política (que, por meio do direito) captura a vida traz em si a própria insurgência contra os dispositivos que tendem a controla-la.

As novas lutas políticas, então, são cada vez mais lutas biopolíticas
Os dispositivos do governo tendem a se confundir com técnicas de administração de Recursos Humanos.
O que pode ser considerado uma ‘boa invenção’ do Ocidente e da modernidade, os Direitos Humanos:

  • apontam para um contra discurso moderno: a vida humana como potência –> política insurgente.
  • despontam como discurso contra os dispositivos de controle.

Biopolítica, então, cada vez mais, seria uma política DA e não PARA a vida.

  • Política DA vida –> política como recurso funcional para a eficiência institucional –> a vida como um meio –> a política entendida como GESTÃO, é o FIM.
  • Política PARA a vida –> a vida humana seria uma alteridade irredutível em cada sujeito e um critério ético da política –> a vida é um FIM em si mesma –> a política seria MEIO para conseguir seu pleno desenvolvimento.

A TANATOPOLÍTICA –> O Estado como um corpo –> os problemas são tratados como doenças –> extirpar os agentes patológicos que ameaçam a existência do corpo (o Estado)

Uma diferença de tratamento:

  • POVO –> Cidadão –> Política –> Democracia
  • POPULAÇÃO –> Corpo –> Biologia –> Demografia

O Estado populacional de que nos lembra Foucault é aquele que trata os cidadãos como população, pois interessa muito mais saber como gerir, administrar os corpos, torna-los úteis, adaptados. Mais importante portanto seria a demografia, a estatística, a gestão, do que a vida qualificada, politicamente qualificada, a quem o Estado deveria servir e não servir-se.

AUTORES A (RE)CONQUISTAR:

Giorgio Agamben, Roberto Sposito, Judith Butler, Michael Foucault, Antonio Negri

Walter Benjamin

Walter Benjamin

Judith Butler

Judith Butler

Hans Kelsen

Hans Kelsen

Carl Schmitt

Carl Schmitt

Roberto Sposito

Roberto Sposito

Giorgio Agamben

Giorgio Agamben

Michael Foucault

Michael Foucault

 

 

 

 

 

Antonio Negri

Antonio Negri

 

 

 

 

 

TEMAS A CONECTAR:

Soberania e Estado de Exceção (Agamben, Carl Schmitt, Hans Kelsen, Walter Benjamin)

Amigo/Inimigo (Carl Schmitt)

Economia, filosofia da libertação, sacrificio (Enrique Dussel, Franz Hinklamert, Hugo Assmann, René Girard)

René Girard

René Girard

Hugo Assmann

Hugo Assmann

Franz Hinklamert

Franz Hinklamert

Enrique Dussel

Enrique Dussel