Arquivo mensais:junho 2015

Um país sem partidos (?) – Parte 1 (o estranho caso da Escola Sem Partido)

Miguel Nagib

Miguel Nagib

Segundo Miguel Nagib, advogado (e, parece, procurador do Estado de São Paulo), afirma que a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) estaria promovendo, por meio dos governos de países onde teria influencia, uma nova escala de valores. O objetivo por trás disso seria proceder a uma ‘reengenharia social’. Nesse sentido teriam culpa o governo federal, particularmente o Ministério da Educação, e as Secretarias de Educação nos estados que sucumbem a esse plano maléfico.

Miguel Nagib fundou a ONG Escola sem Partidos, que ele diz apenas coordenar. Mais, explica que tomou a decisão de agir em prol de uma escola na qual os professores pudessem ser melhor controlados pelos pais após a ousadia de um professor de história ter comparado São Francisco de Assis com Che Guevara em uma aula na turma de sua filha mais nova, em 2003.  Teria tentado, em vão, a partir de uma carta aberta ao professor, chamar a atenção da comunidade escolar para o comportamento ‘inaceitável’ do professor, como isso não funcionou motivou-se buscar outra estratégia.

Sustenta o sr. Nagib que a escola teria negado o fato (que seria, ainda segundo ele, apenas um exemplo entre tantos do procedimento ‘equivocado’ do professor de história). Mas o que o levou a querer ultrapassar o mero ato de um pai indignado com um professor teria sido a reação, sempre segundo ele, dos alunos da escola (o sr. Nagib teria distribuído cópias da tal carta aberta na escola) que o teriam hostilizado, ‘ficando do lado do professor’.

Para o procurador, isso indicava que aqueles alunos estavam sofrendo de algo como a ‘síndrome de Estocolmo” (geralmente define isso o final do processo que culmina com um estado psicológico, no qual o sequestrado acaba se identificando ou, até mesmo, se apaixonando pelo sequestrador). Ou seja, teria se revelado a ele a questão da DOUTRINAÇÃO. Podemos deduzir que para ele, então, os alunos teriam sofrido uma espécie de “lavagem cerebral”.

Daí até a fundação da ONG Escola Sem Partido não demora muito. O sr. Nagib relata que foi procurando outras pessoas que entenderiam o problema como ele, entre pais e alunos, e teria descoberto, no meio do caminho, a ONG norte-americana NO INDOCTRINATION*, que teria formatado um site no qual alunos relatavam (na realidade, denunciavam) casos nos quais teriam sido vitimas do preconceito, ou viés, ideológico de seus professores.

Já voltamos a isso.

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Este ano, 2015, lançaram-se muitos olhares para a ONG por causa de uma minuta de projeto de lei (acesse AQUI) que a organização tem incentivado deputados e vereadores a adotar. Casos emblemáticos como o do Rio Grande Sul, por ter sido apresentado pelo controverso deputado estadual, pelo PP, Marcel van Hattem, fundador do igualmente controverso Movimento Brasil Livre; de Brasília, apresentado pela deputada distrital Sandra Faraj (do Solidariedade); na Câmara dos Deputados pelo deputado do PSDB do DF, Izalci Lucas.

dep. Izalci Lucas (PSDB-DF)

dep. Izalci Lucas (PSDB-DF)

Sandra Faraj (SD-DF)

Sandra Faraj (SD-DF)

Marcio van Hattem (PP-RS)

Marcio van Hattem (PP-RS)

 

 

 

 

 

No caso do deputado Izalci, uma vez que os holofotes sobre o parlamento federal é sempre mais luminoso, torna-se importante sua atuação pelos instrumentos de divulgação e disseminação do projeto e das ideias da ONG. Não sem planejar, o deputado propôs e fez aprovar um requerimento de Audiência Pública, na Comissão de Educação da CD, para discutir o tema do projeto. Oportunidade de ouro para que a agora não tão pequena ONG do sr. Nagib amplifique seu discurso e defenda ideias que vão muito além do que afirmam estar propondo com o projeto.

AUDIÊNCIA PÚBLICA NA CÂMARA DOS DEPUTADOS SOBRE A ESCOLA SEM PARTIDOS

O deputado Izalci Lucas é tudo menos bobo. Para a audiência (que pode ser vista aqui: Gravação Audiência Pública) , foram convidados:

Manuel Palácios

Manuel Palácios

– um representante do Ministério da Educação (compareceu o Secretário de Educação Básica do Ministério da Educação, Manuel Palácios (o único, em tese, que apresentaria um contraponto à tese por trás do projeto de lei);
– a presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), Amábile Pácios (ou seja,

Amábile Pacios

Amábile Pacios

representante dos DONOS de escola que têm pavor de professor, principalmente sindicalizados, pior ainda se forem filiados a partidos de esquerda) ;
– o presidente da Associação Nacional dos Centros Universitários (Anaceu), Paulo Antonio Gomes Cardim (compareceu, representando o sr. Cardim, Celso da Costa Frauches, que leu um texto do presidente da Anaceu que, por sua vez, praticamente diz que a culpa da miséria da educação deve-se aos comunistas, marxistas – vale a pena ouvir, quem tiver estômago, para entender o estado de espírito dessas pessoas);

Paulo Antonio Gomes Cardim

Paulo Antonio Gomes Cardim

Celso da Costa Frauches

Celso da Costa Frauches

 

 

 
– o promotor de Justiça de Defesa do Consumidor, do Ministério Público, Trajano Sousa De Melo (foi o que se mostrou, ou quis parecer, mais neutro, apontando que já existe legislação que assegura proteção à criança e ao adolescente e que há outras instâncias para se resolver conflitos, ou seja, não se ganha nada judicializando a educação – no final das contas, ele diz que infelizmente isso É NECESSÁRIO, ou seja, faz um discurso num sentido, mas para apoiar a iniciativa);

Trajano Sousa De Melo

Trajano Sousa De Melo

 

 
– o coordenador do Movimento Escola Sem Partido, Miguel Nagib;
– o professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Luiz Lopes Diniz Filho (o professor é autor do livro Crítica à Geografia Crítica. Um pouco mais leve, lembra a mentalidade de um Antonio Marco Villa, que relê a história brasileira para afirmar que (supostamente a esquerda, os marxistas) nos fizeram acreditar que o golpe militar e a ditadura militar não foram tão ruins, não são o diabo que se pinta.

Bom, o professor Diniz Filho acha que houve também na Geografia uma apropriação por pseudo intelectuais de esquerda – como de resto de todas as ciências humanas), mas ele se dedica também a ajudar a desmistificar a ilusória importância da AGRICULTURA FAMILIAR, e a denunciar o PT e sua insana tentativa de a tudo aparelhar – da internet ao jornal do bairro, segundo ele; (confira-se AQUI a exaltação que o professor Diniz faz ao Instituto Millenium e seu papel na difusão de ideais liberais no Brasil);

Luiz Lopes Diniz Filho

Luiz Lopes Diniz Filho

 

 
– o professor de Sociologia do Departamento de Educação da Universidade de Brasilia (UnB) Bráulio Porto de Matos (esse talvez seja o defensor mais articulado, no sentido de ter criado um discurso (supostamente) baseado em pesquisa para ‘comprovar’ que existe sim uma também articulada militância dentro das escolas que visa a doutrinar nossas crianças e jovens para que adotem outros valores e posições políticas de esquerda (ele fala mesmo de uma doutrinação marxista e Paulo Freire seria um ideologo de esquerda nada mais – por isso ele considera cartazes toscos como o que se viu nas manifestações deste ano, com dizeres tais como: “Chega de doutrinação marxista! Basta de Paulo Freire!”, um diagnóstico dos mais lúcidos da crise política que vive o país) – um doutor em sociologia que é amigo de e cita Olavo de Carvalho para dar ‘peso’ a seus argumentos,  no mínimo, deve ser ouvido com parcimônia. No final, revela-se muito básica sua argumentação.) (confira AQUI o texto da ‘palestra’ do professor Bráulio na Audiência Pública);

Bráulio Porto de Matos

Bráulio Porto de Matos

 

 
– a educadora Ana Caroline Campagnolo (a piada é chamar a moça de ‘educadora’. Bom, a srª Campagnolo tem agora por volta de 24 anos de idade, precoce educadora então. Em seu perfil, apresenta-se como professora de história, vlogueira, ex-covarde, reacionária, cristã e anti-feminista. Não é necessário ir muito mais longe, o discurso da vlogueira é exaltado hoje por Jair Bolsonaro, Rodrigo Constantino et caterva. Em seu Vlog (Vlog da Ana Carolina), encontramos o que ela tem sustentado e que, na audiência pública, apenas sintetiza sua visão sobre a existência de um projeto de Doutrinação Ideológico-Partidária nas escolas e universidades – que deve ser combatido, evidentemente). É o estilo dela que interessa, e que se tornou comum principalmente na revista Veja.

Ana Caroline Campagnolo

Ana Caroline Campagnolo

 

 

 

 

O que essas pessoas têm em comum, tirando, talvez, o promotor e o representante do MEC? eles, parece, leem e citam Olavo de Carvalho, tendo-o, alguns pelo menos, como uma autoridade, como filósofo. Não precisamos levar a sério a fala dos representantes dos donos de escola e centros universitários, faculdades particulares, esses veem nisso uma oportunidade de controle. Devemos levar a sério, no entanto, o fato de eles terem visto essa oportunidade e de aproveita-la. Um projeto desses, da Escola Sem Partido, pode voltar-se contra os professores de inumeras formas: podem começar a exigir algum tipo de teste para verificar posicionamento ideológico, podem demitir professores a partir de ‘denúncias’ de pais e alunos (mesmo que falsas), seria mais um instrumento para minimizar a força dos sindicatos (que, de alguma forma, seriam também parte do plano para promover uma ‘reengenharia social’, um antro de marxistas, de gente sem moral ou de moral duvidosa).

Sobre os demais, professores Luiz Lopes Diniz Filho, Bráulio Porto de Matos e Ana Caroline Campagnolo e o sr. Nagib, todos têm espaço no Instituto Millenium. Isso é demérito? Não, mas indica que eles têm uma declarada posição política e em relação ao Estado e ao Mercado. São liberais, mas todos eles assumiram que devem ser também MILITANTES.

Voltaremos a isso depois.

Finalizo chamando a atenção para o fato de que o sr. Nagib afirmar ter sido inspirado pela ONG norte-americana NO INDOCTRINATION, mas esta, embora incentive os alunos a apresentarem testemunhos do que consideram tentativas de impor visões inviesadas ou preconceituosas (principalmente políticas) em sala de aula, não promovendo o debate portanto, nem chega aos pés do que o sr. Nagib faz no Brasil, a ponto de ‘perseguir’ professores e, pelo jeito (também diferente da similar norte-americana) sem o cuidado de ouvir o outro lado.

Para se ter uma ideia de como os ânimos são distintos lá e cá, vejamos o que diz a srª Luann Wright, fundadora do No Indoctrination: (AQUI e AQUI)

“Claro que todos nós temos um viés (somos preconceituosos)” (…) “este site serve para quando professores mostram vieses hostis (preconceitos hostis), como quando o professor ignora pontos de vista alternativos ou impede a expressão de pontos de vistas distintos do seu”

“eu apenas dou espaço às  queixas que dizem respeito a preconceitos excessivos, ela diz. Não tenho nenhum problema com pontos de vista controversos, exceto quando eles são inadequados no contexto do curso”.

Não parece ser esse o problema (embora no discurso talvez) do sr. Nagib e seus colaboradores. Trata-se de uma cruzada contra aqueles que querem, como a Unicef, destruir os ‘valores’ da sociedade brasileira (seja lá o que isso signifique, mas imagino que tenha a ver com um certo modelo de família, de religiosidade, contra ‘ideologias de gênero’ e visões perversas sobre política e economia – mas também de humanidade, como o marxismo).

Imaginemos que mesmo sendo mais ‘suave’ do que a ONG brasileira, a No Indoctrination costuma ser acusada de covarde e de tola, por permitir o anonimato e por não convencer sempre de que faz o correto papel de chegar as histórias antes de publicá-las, e por não permitir que outros alunos com visão distinta dos ‘denunciantes’ exponham seu ponto de vista. Aqui, no Brasil, a Escola sem Partidos é muito mais agressiva, belicosa mesmo, pois trata-se, afinal, de uma guerra contra a degeneração de ‘nossos valores’. Os professores ‘militantes’ são apenas uma parte do problema.

Por esse motivo, diferente do que afirma o sr. Nagib e seus colaboradores, a ONG Escola Sem Partido, inclusive por sua estrutura, lembra mais uma outra iniciativa norte-americana, a Accuracy in Academia (AIA).

A AIA surgiu em 1985, por iniciativa do colunista e ex-economista da Federal Reserve, Reed Irvine, como um braço, se podemos dizer, da organização conservadora, também criada por eles, Accuracy in Media.

A AIA se opõe à educação multicultural, assim como se contrapõe a certas aplicações das emendas à educação (de 1972) que dão suporte à política de educação nos EUA. Isso quer dizer, por exemplo, que a AIA ataca o feminismo supostamente presente na proposta de eliminar a discriminação contra a mulher no ensino superior, porque consideram que a lei propõe um direito à custa dos homens.

Ela é criticada pela Associação Americana de Professores Universitários, que a considera uma ameaça à liberdade acadêmica principalmente por causa da estratégia adotada pelo grupo de recrutar alunos para ‘denunciar’ professores pela prática de ‘desinformação’. Assim como a Escola Sem Partidos no Brasil se coloca a missão de conter a ‘doutrinação marxista’ nas escolas, a AIA busca conter o viés LIBERAL na educação.

Seja lá, seja aqui, é importante perceber que esses grupos tem sido canalizados para diversos fins. Ainda resta entender o papel de todos os atores envolvidos.

Infelizmente, não temos no horizonte nenhum grupo, organização ou mesmo partido que dê conta de analisar e enfrentar adequadamente o que ONGs como a Escola Sem Partido vem propondo (o que, diga-se de passagem, da forma como vem sendo divulgado e a capacidade de arregimentar colaboradores e simpatizantes, tem recebido apoio que muitos não compreendem).

Os professores são desarticulados, os sindicatos respondem de forma amadora e pouco crítica, não compreendendo o tamanho do problema e quem, de fato, estão enfrentando. Os partidos de esquerda riem como se tratasse apenas de uma piada, igualmente sem compreender que há em curso um conjunto de iniciativas que a médio e longo prazo tende a criar no pais o mesmo clima de caça às bruxas, do Macarthismo norte-americano, cujo sucesso deveu-se ao fato de que o cidadão comum, como no nazismo ou no fascismo italiano, compreendeu a mensagem e acreditou na capacidade explicativa dela, identificando inimigos de uma forma muito simples, eficiente e, por isso, sentindo-se parte de um projeto de (re)construção de um país, uma nação, uma sociedade.

O discurso moral não deve ser ignorado. Não vejo, porém, no horizonte, quem dê conta disso, quem se disporia a construir o contradiscurso. Falta dinheiro, mas falta competência e disposição para enfrentar isso adequadamente. Xingar ou repetir velhos chavões não vai adiantar. Passou da hora de entendermos que com voluntarismos e amadorismo não iremos longe, seremos devorados.

A continuar.

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Sugestão para leitura:

HAMILTON, Neil;HAMILTON, Neil W. Zealotry and Academic Freedom: A Legal and Historical Perspective. New Jersey: Transaction Publishers, 1995.

MARGESSON, Robert J. A Rhetorical History of Academic Freedom: from1900 to 2006. A Dissertation Presented to The Faculty of Social of University of Denver (doctor PhD), 2008.

MACIEL, Raul Lucas Tanigut Brisola. A impossibilidade da ideologização do ensino. Artigo publicado na Gazeta do Povo em 12 de dezembro de 2014. Acesso em http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/a-impossibilidade-da-ideologizacao-do-ensino-ehawxgry08f7e9rbwmf3u10lq

Olavo de Carvalho

Olavo de Carvalho