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Pensar e agir politicamente, único modo de lidar com a tragédia da vida

ANOTAÇÕES (E REVISITAÇÕES) AO TRÁGICO DA VIDA E À POLÍTICA

Como sustenta Clément Rosset, a realidade é singular, ela é cruel. Intrinsecamente dolorosa e trágica, ela é cruel também porque sua unicidade nos deixa sem remédio.
Apesar disso, para aquele autor, há uma “ética da crueldade”.

Principio_crueldade

Clément Rosset

Clément Rosset

 

 

 

 

Para apresentar essa ética, ele a provê de dois princípios: 1 – O princípio da realidade suficiente e 2 – o princípio da incerteza. Esses dois princípios, em Rosset, não devem ser confundidos com o principio da razão suficiente de Leibniz (a quem faz a homenagem) e o princípio da incerteza de um Heisenberg (aqui ele pensa mais em David Hume e Montaigne).

Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592)

Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592)

 

David Hume (1711-1776)

David Hume (1711-1776)

 

 

 

 

 

A realidade se basta a si mesma, de modo que um fato se basta e não sua constante reiteração. Daí ele falar em unicidade do real. Se é assim, compreender esse real ultrapassa a faculdade humana de compreender e de ser afetado por ela.

A história é comprida, mas vale a pena ser seguida, eu acho. Se posso arriscar dizer, ao que o autor quer chegar (talvez como o tenha feito Nietzsche) é à aceitação do real (e isso não é banal). É aceitar o trágico da vida.

nietzsche

Friedrich Nietzsche (1844-1900)

A Incerteza, para mim, decorre do próprio fato da unicidade do real, de ele se apresentar ‘novo’ a cada dia, sem possibilidade de ser previsto (verdadeiramente). Para Rosset, “o gosto pela certeza é frequentemente associado a um gosto da servidão. (…) Incapazes de considerar certo o que quer que seja, mas igualmente incapazes de acomodar-se com a incerteza, os homens preferem, na maioria das vezes, confiar em um mestre que afirma ser depositário da verdade à qual eles próprios não têm acesso(…)”.

 

Em tempos de ‘pós-modernidade’, costuma-se lançar mão do CAOS como um princípio também. O Caos não seria exatamente o trágico, nem a incerteza de que nos fala Rosset. Em verdade, da ideia de caos costumam apropriar-se muitos agentes, muitos mestres, acenando com a possibilidade de criar o novo ou de fazer surgir uma ordem, ou a ordem.

Eduardo Grüner

Eduardo Grüner

 

Quando pensamos no trágico, e isso já nos lembrou mais de uma vez Eduardo Grüner, pensamos no fundamento do político. Porque a vida é tragédia, precisamos da política. No caso do caos, os técnicos podem apresentar-se como aqueles que colocarão ordem nas coisas, esclarecendo, dominando o azar. Na incerteza própria da tragédia, precisamos administrar cada dia, inventar todos os dias um plano e agir, sem garantias de que uma tal coisa como a ‘ordem das coisas’ emergirá.

 

Os adoradores de ídolos precisam de profetas, ou de técnicos, de alguém que domine o caos. Os que aceitam o trágico da vida, têm a oportunidade de liberar-se da ilusão da certeza e gastar energia para a (re)invenção diária de um modo de viver que nos permita permanecer mais um pouco, enquanto não somos sugados para o Nada. Que fazer enquanto estamos aqui (e amanhã a guerra pode nos levar, mudanças bruscas nas condições do Planeta podem nos matar a todos, o Sol pode explodir, um meteoro nos atingir….)?

 

Há os que acreditam em modelos salvadores. Costumamos apostar que economistas, matemáticos, cientistas, podem, com seus modelos, com suas teorias, não apenas explicar o que nos levou ao caos, mas como dominá-lo, como enquadrar as coisas em modelos para nos livrar da catástrofe eminente. Economistas são pródigos nisso. Sua pregação não cansa de alertar para o que tanto temos feito de errado e o que é preciso fazer para ‘voltar à ordem’.

Um discurso quase religioso. Não é muito diferente do que nos dizem os idiotas travestidos de profetas, todos os dias: a culpa é nossa, pecamos, fizemos coisas erradas, precisamos nos converter e voltar para o ‘caminho’, basta ouvir e seguir a ‘palavra’ (de Deus).

Os economistas, todos os dias, nos dizem exatamente a mesma coisa: pecamos, fizemos muitas coisas erradas, se quisermos voltar para o ‘bom caminho’, devemos renunciar a nossa vida de ‘pecado’ e seguir a ‘receita’.

 

Mais fácil é ceder, adequar-se, cumprir ordens, ouvir atentamente os técnicos e ignorar os políticos (os culpados pelo caos – no discurso dos que acreditam poder restabelecer a ordem). Se podemos traduzir o que talvez seja o problema central, há uma recusa a pensar. O Real não nos interessa, a tragédia não entra no vocabulário. Trata-se apenas de administração, de técnica, portanto basta seguir as orientações. Valoriza-se o técnico e demoniza-se o político.

 

Estamos aqui na seara do que ficou conhecido como ‘pensamento único” que, alguém traduziu bem como não-pensamento. É o não pensar como pensamento único.

A recusar a pensar é a recusa a fazer (a política). Não é possível fazer a política sem, antes, pensa-la. Em verdade, a própria resistência à tragédia (assim como aos modelos que nos tentam impor os soberanos e seus tecnocratas) começa como resistência no pensamento, somente quando somos livres podemos pensar, contra nós mesmos inclusive, a resistência. Sem antes pensar a resistência, não resistimos (politicamente) de fato, não a podemos colocar em ação. Tudo mais seria apenas aceitação ou mera correção dos modelos.

Mas não é qualquer pensamento, é pensamento político. Ou seria possível agir politicamente sem pensar politicamente?
De certo que, diante da crueza e da crueldade dessa realidade que nos escapa, completamente, da incerteza que se ri de nós, o desafio da reinvenção não é banal – nem mesmo em um contexto institucional, onde devemos estar cientes de que a ‘instituição pensa’, que nós não decidimos sozinhos (para lembrar Mary Douglas, “em situação de vida e morte”).

Mary Douglas (1921-2007)

Mary Douglas (1921-2007)

 

instituições_pensam

 
Um dos meus maiores incômodos, pelo menos para mim, advindo desse sentimento de impotência nesse cenário em que a condução das coisas está completamente fora de nossas mãos, é que o pensamento (político) não se apresenta como possibilidade visível, disponível, assim como o de ação coletiva. Não vislumbrar nada além da espera do abate, do tombar das árvores, da contemplação dos edifícios sendo erguidos ali onde plantáramos tantas frutíferas, tantas flores, em que havia sombra e lugar para a esperança.

No entanto, voltando a Rosset, talvez seja a incerteza (como o é na verdade filosófica) medicinal, nos tira do conforto e nos obriga a repensar, talvez a negar o pensamento e a inventar outro(s). Remédio amargo, mas acredito que o único, a ser continuamente aplicado. Renunciar ao não pensar. Pensar e agir politicamente. (e isso não exclui outras tantas e tão importantes coisas que a vida nos possibilita, apesar da tragédia).