Arquivo mensais:março 2016

Uma reflexão sobre o sentido da Páscoa.

Santa Ceia

Santa Ceia

Uma reflexão sobre o sentido da Páscoa:

Como ilumina esse momento de ódio generalizado no país

A festa mais importante para o cristianismo é a Páscoa, como é importante o Pêssach para os judeus. Em ambas, de toda forma, o sentido de passagem de uma condição de opressão, na qual não se pode afirmar a própria identidade, por não ser livre, é um aspecto fundamental. A saída do Egito, mesmo que não tenha sido realizada do modo como a Torá (ou o Antigo Testamento) relata, não foi uma mera concessão do Faraó aos hapirus, mas resultado da intervenção de Iahweh, aquele que ‘ouve o clamor’ do povo e o liberta.

 

Passagem

Preparando-se para a passagem do ‘anjo da morte’

As pragas lançadas sobre o Egito e seu povo pode ser lida de muitas formas, até mesmo como ações do tipo guerrilha, mas o que importa é que a ultima ‘praga’ é a ‘passagem’ do anjo da morte, que faz sucumbir os primogênitos dos egípcios, a fim de que os (futuros) judeus tenham uma vida nova.
Interessante lembrar que esse amontoado de gente que ‘foge’ do Egito, enquanto o Faraó chora a morte de seu filho e os egípcios choram as de seus primogênitos, somente vai se tornar um povo depois de uma longa e sofrida caminhada, por anos, até que alcancem um lugar para chamar de lar (e não precisamos entrar na discussão do quão violento foi tomar posse desse lugar). Muitos não viveram para entrar na ‘terra prometida’, mas os que lá chegaram, moldados pela dura jornada, pelas dificuldades, pelas tentações de caminhos mais fáceis (retornar ao Egito, por exemplo), se transformaram em um povo.
Jesus, judeu, celebrava o Pessach com os seus – celebração que já devia ter cerca de 1200 anos, se estão certos os arqueólogos e estudiosos da bíblia e da Torá. Não é à-toa que Jesus escolhe o momento de celebração do Pessach para anunciar e sofrer sua paixão. Ele subverte a Pessach, que lembra um deus vingativo, que não hesita em matar os primogênitos dos egípcios, nem em matar os cananeus para dar posse aos (futuros) judeus. A terra prometida foi conquistada sobretudo com a violência, com o sangue dos cananeus.

 

O pão e o vinho, corpo e sangue

O pão e o vinho, corpo e sangue

A subversão se dá quando Jesus oferece-se para ser sacrificado, não mais para sacrificar outros. Deveria ser o último sacrifício, uma denuncia, se está certo René Girard, ao assassinato de inocentes, como sempre acontecia com os sacrifícios. “Esse é meu corpo (…), esse é meu sangue, que é derramado por vós para o perdão dos pecados”. Que maior pecado há que matar um inocente?

 

René Girard

René Girard

Para além das crenças de cada um, sobre o sentido estritamente religioso que cada cristão ou judeu carregue consigo sobre esse momento chamado Páscoa, queria reter, para encerrar a reflexão, um sentido que é mais ‘filosófico’ (e um algo mais), lembrando, ainda, o que nos pode ensinar René Girard em seu “O Bode Expiatório”. Para ele, os homens, por seu caráter mimético, produz e reproduz, a partir do desejo, a inveja (do desejo e desejado pelo outro), num circuito que, em algum momento, leva a uma crise (mimética), na qual há um sentimento generalizado de vingança, na realidade, da certeza de que é necessário vingar-se de algo ou alguém, sobre o qual se coloca toda culpa pela crise (que é real, todos a sentem e ‘veem).
Os linchamentos são os melhores exemplos de como isso se dá. Não importa se uma pessoa ou uma coisa, hoje talvez uma instituição, é má ou tenha feito efetivamente algum mal. Na crise mimética, todos passam a acreditar que sim. É por isso que a turba não hesita em capturar e assassinar, violentar, destruir aquele ou aquilo que consideram o causador de todo o mal, o caos vivido pelo grupo. Participar do linchamento é catártico, a destruição do outro libera o desejo de vingança, abre-se a oportunidade de voltar à normalidade, de encerrarmos a crise.
Aquele que é linchado não precisa ser, de fato, um pervertido, um bandido, um criminoso, um ser depravado, culpado por muitos crimes, o que importa é que a horda, a turba, o grupo acha que é (geralmente, há um componente de preconceito na seleção: cor, raça, hábitos, origem, classe social, algum defeito físico, mas pode ser apenas azar: lugar errado, hora errada). Não raro mata-se o inocente. Acontece que, depois do assassinato, há um recurso interessante, de criar uma narrativa que transforme o linchamento em um ato heroico e o linchado em um ser abominável. Assim, a narrativa é repetida ad nauseam até que seja incorporada por toda a comunidade e o bode expiatório seja demonizado a tal ponto que todos acreditam que seu assassinato, em verdade, foi um sacrifício necessário para restaurar a ordem, trazer a paz, fazer a justiça.

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Jesus, o Cristo, é um problema. Ele é a vítima inocente, mas sobre ele não se conseguiu produzir uma narrativa para torna-lo mau, portador do mal. Ele subverte definitivamente essa lógica e traz para o primeiro plano uma verdade dolorosa: Somos todos assassinos. Matamos todos os dias inocentes. Não é mais possível esconder esse fato. Matamos o inocente e libertamos, muitas vezes, o violento, o mal, sem nenhum constrangimento.
Vivemos uma crise terrível no país. Parte dela advém de uma crise econômica de nível global, mas a parte mais importante, e que mais impacto traz sobre nossas vidas, é a crise política, alimentada diariamente por pessoas, instituições, e pelos responsáveis em pautar a Opinião. Dissemina-se uma narrativa que praticamente nos exige vingança, nos direciona a alvos que podem ser sacrificados, porque representam o mal, são a causa de todos os males (não importa que nem saibamos nomeá-los ou explica-los, nem que facilmente, em condições normais, reconhecêssemos serem de origem e vigência muito mais antiga, talvez mais velhos que nós).
O processo em curso, que talvez surpreendesse até René Girard, nos levou a diabolizar o outro, por sua discordância quanto ao que estamos vivendo. Essa discordância, nos diz a narrativa ‘oficial’, é que provoca a permanência do ‘caos’. Esse outro, agora diabolizado, satanizado, é a ignorância viva, ignorância que pode impedir que façamos o sacrifício derradeiro e nos livremos dessa crise. A resistência em compreender e em ceder, permitindo o sacrifício, deve ser vista como um crime, uma adesão ao mal, o que autoriza sacrificar também esses ignorantes. Por isso, não há mal algum em persegui-los, marca-los, violenta-los, execrá-los, expulsá-los, humilhá-los, mata-los, enfim. São indignos. São culpados por ‘tudo que está aí’.
Exagero? Não creio, infelizmente. Espero que o outro lado não comece a ver o mesmo, mas, ao contrário, faça como Jesus, que, renunciando à violência, sem renunciar à denuncia, torna possível a ressurreição. Não é necessário, de fato, assassinar o inocente, há outra alternativa, há um caminho mais digno e mais efetivo, caminho que coloca a vida em primeiro lugar. Não é menos doloroso, mas é mais glorioso. Ele não promove a morte, mas a denuncia. Promove a vida e convoca a todos a tê-la em primeiro plano.

prometida
Que essa Páscoa nos permita, sejamos cristãos ou não, religiosos ou não, ponderar sobre o sentido maior de viver com os outros, no desafio de lutar pela vida, apesar de tanto desejo por promover a morte, único movimento que pode garantir,por mais tempo, nossa permanência nessa ‘terra prometida’.

 

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post scriptum:

A padre Josimo, a Dom Oscar Romero, a Camilo Torres, irmã Dorothy e tantos que, acreditando no sentido da cruz e da ressurreição, me fizeram crer no sentido da Páscoa, mesmo não crendo em mais nada.

Ocupação do o perímetro irrigado Jaguaribe-Apodi (maio de 2014), por cerca de 800 famílias de agricultores e agricultoras dos municípios da região Jaguaribana - parceria com movimentos sociais, pastorais e paróquias da Diocese de Limoeiro do Norte.

O QUE VEM POR AÍ? (ARANTES, Paulo)

QUE VEM POR AÍ?

(ARANTES, Paulo. Extinção. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007, pp. 263-266)

Extinção (P.Arantes, 2007)

Extinção (P.Arantes, 2007)

Paulo Arantes

Paulo Arantes

Houve um tempo em que a esquerda podia se dar ao luxo de contabilizar ilusões perdidas como ganhos reais. Ainda pensávamos assim quando o sistema soviético desabou. O espantoso é que continuamos a raciocinar segundo a lógica dos grandes desenganos produtivos quando, a rigor, ninguém mais tinha qualquer ilusão a perder acerca daquela formação social execrável. Nossos cálculos de progresso foram então refeitos como nos tempos em que a história parecia funcionar a favor da humanidade. Justiça seja feita, também a direita se equivocou redondamente quanto à natureza de seu triunfo acachapante. Tampouco a paz perpétua prometida pelo Ocidente deu o ar de sua graça, muito menos o renascimento moral do mundo profetizado pelos dissidentes do Leste europeu. Pelo contrário, como registrou um observador próximo, “desde a queda do socialismo, é possível verificar um aumento empírico da crueldade; por toda parte impera uma maldade incompreensível”. Não se trata, portanto, de constatar trivialmente que a derrota do campo comunista empurrou o mundo ainda mais para a direita, mas de esfregar bem os olhos e admitir que a extirpação de um organismo gangrenado pode simplesmente inaugurar um novo ciclo degenerativo. Essa a dissonância sombria que nos interessa identificar. A miragem do fim da história então era isso: decididamente ela não se encontra mais do lado de ninguém, vencedores ou perdedores. Tudo se passa como se o mundo tivesse ingressado em uma era de falsas superações espetaculares.

Passando da desgraça planetária à recente patologia nacional, pode-se dizer que algo dessa incongruência de fundo transparece na sensação difusa de que só agora caiu nosso Muro de Berlim. De novo não eram muitas as ilusões a perder. Mesmo assim, a analogia mais do que plausível entre os dois desmoronamentos recomenda se preparar para o pior. Como no resto do mundo depois da queda, juntos, os vencedores de sempre e os arrivistas da velha esquerda estão livres de novo para odiar, assim mesmo, intransitivamente, ainda que o alvo do paradoxal ressentimento dos dominadores seja a costumeira massa dos espoliados.

O sinal de alarme soou com o ato falho de um cacique da velha direita boçal, referindo-se à esquerda como uma “raça” da qual o país se veria enfim livre por uma geração. Um estudioso do passado tenebroso dos homens de mando neste país, o historiador Luiz Felipe de Alencastro, foi dos primeiros a antever a onda reacionária que esse recalque do preconceito de classe, temporariamente amortecido pela eleição de um ex-retirante e metalúrgico para a Presidência da República, prenuncia. Vem por aí uma explosão de raiva antipovo, raiva de pobre, raiva de negro, raiva de trabalhador[1]. Só agora o povo pobre, além de feio, sujo e malvado, é também corrupto. É que se comprovou, na figura de seus representantes políticos no poder, uma antiga calúnia sociológica tucana. Como se há de recordar – ou melhor, ninguém se lembra, graças ao mito da transição civilizada -, por ocasião da primeira reforma da Previdência, a tucanagem intelectual descobriu que o simpático e imprevidente povo brasileiro era, além do mais, um fraudador contumaz da Previdência, enfim, um agente catalisador da corrupção nacional, o principal avalista da naturalização da trambicagem coletiva. Outra maneira de consagrar o crime de colarinho-branco como prática duplamente popular. Não por acaso os civilizados tucanos paulistas estão arregaçando as mangas. Para não chover no molhado, deixo de lado o governador – cruzado da Opus Dei, inspirador de milícias à norte-americana, multiplicador da população carcerária etc. Muito mais alarmante me parece o new look do prefeito da capital[2]: foi-se a máscara desenvolvimentista, o jogo de cena com os rivais da ortodoxia econômica, para dar lugar à linha dura orçamentária, ao higienismo antipobres e antivelhos, às terceirizações galopantes, sem falar no tropeço memorável dos uniformes escolares com logomarca de patrocinador.

Quanto ao governo federal, embora seja trivial contornar a crise puxando ainda mais para a direita todas as suas políticas, não é menos revelador que sua estratégia defensiva esteja sendo traçada por um advogado criminalista. O referendo sobre o comércio de armas, por exemplo, é marola que vem de antes, mas foi encorpando conforme se adensava no horizonte o novo clima punitivo. O que se viu foi a “população honesta” marchando em defesa da sociedade dos homens bons ou coisa pior, porém dividida quanto a saber se seria preferível se armar contra os pobres-bandidos ou desarmar os bandidos-pobres. Com receio do cidadão a seu lado, de cor escura e malvestido, o classe-média, alvo do medo administrado, logo se juntará ao primeiro bando musculoso que passar ao ato. Uma hipótese para avaliar o estrago: como não é nada implausível que essa onda de choque reacionária provoque um contragolpe populista clássico, na pessoa de algum caudilho redentor dos estropiados e ofendidos, tem muita gente de esquerda torcendo para que a direita mais esclarecida não permita que o núcleo racional do petismo se desintegre. Não se poderia fechar melhor a equação dos novos tempos: no mercado conservador do medo, não haverá empreendedor que não encontre seu nicho.

Sempre se poderá dizer que o que vem por aí não é assim tão novo. Que as classes torturáveis – pobres, negros, presos comuns – nunca deixaram de comer o pão que o diabo amassou. Que os movimentos sociais, de um modo ou de outro, acabam sempre criminalizados. Que talvez a novidade de uma nota infame em que, para variar, a mídia pedia punição exemplar para o MST esteja apenas no título, associando involuntariamente preconceito e guerra preventiva: “Prevenção”[3]. Que as classes proprietárias nacionais nunca deixaram de mandar arrebentar e matar, se as circunstâncias assim o exigissem. Que tais circunstâncias se converteram em política de Estado em 1964. Não direi que não, estou apenas reparando que, tal como em 1964, justamente os donos de sempre do poder estão novamente livres para odiar – voltando ao golpe de vista do jornalista Paul Hockenos em viagem pela Europa oriental nos primeiros tempos do pós-comunismo. Mas principalmente acrescentando que, com a patética colaboração dos antigos comissários do povo, os generais golpistas finalmente conseguiram demonstrar o que era totalmente falso há quarenta anos: que o colapso do populismo culminaria com a revelação da simbiose entre subversão e corrupção. Para ficar na crônica dos partidos do ciclo que está se encerrando: de fato, o desenvolvimentismo só abortaria nos anos 80, levando consigo o PMDB; uma década depois, era a vez da tucanagem ser engolida pela vala comum; por fim, ruiu o muro do petismo lulista. Não custa insistir: o que vem por aí?

 

[1] Luiz Felipe Alencastro, “Falência do governo Lula pode trazer uma ‘onda reacionária’” (entrevista a Flávia Marreiro), Folha de S. Paulo, 19 de setembro de 2005.

[2] Gilberto Kassab (na época, pelo DEM)

[3] O Globo, 28 de setembro de 2005.