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A COVARDIA DOS BUROCRATAS (E A DISSIMULADA INTENÇÃO DOS TECNOCRATAS DE TOMADA DO PODER)

A COVARDIA DOS BUROCRATAS (E A DISSIMULADA INTENÇÃO DOS TECNOCRATAS DE TOMADA DO PODER)

“A atitude primordial imediata do homem, em face da realidade, não é a de um abstrato sujeito cognoscente, de uma mente pdialetica do concretoensante que examina a “realidade” especulativamente, porém, a de um ser que age objetiva e praticamente, de um indivíduo histórico que exerce sua atividade prática no trato com a natureza e com os outros homens, tendo em vista a consecução dos próprios fins e interesses, dentro de um determinado conjunto de relações sociais”
(KOSIC, Karel. Dialética do Concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976, p. 13)
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o fim do mundo“O que queremos dizer é que a democracia se opõe totalmente ao populismo de direita, e também ao que chamamos de liberalismo. A democracia implica precisamente em desconfiar dos especialistas, dos competentes – da sua objetividade, do seu desinteresse, da sua virtude cívica. Os democratas viram no discurso liberal uma máscara para uma nova aristocracia, e ainda mais perniciosa, já que reivindicava uma base universalista que, de uma maneira ou de outra, sempre tendeu a manter amplamente os padrões existentes de hierarquia. Liberalismo e democracia destoaram muito frequentemente um do outro, defendendo tendências profundamente divergentes”
(WALLERSTEIN, Immanuel. O fim do mundo como o concebemos. Ciência social para o século XXI. Rio de Janeiro: Revan, 2002, p. 132)

 

Karel Kosik (1926-2003)

(Karel Kosik (1926-2003))

Tenho visto muita gente incomodada com o ambiente ‘polarizado’ que enxergam no “Brasil” de hoje. Reclamam que esse clima de divisão entre ‘claro x escuro’, esquerda x direita, PT x PSDB, coxinhas x petralhas, a favor ou contra o impeachment, ser golpista x não ser golpista, ser vermelho ou ser verde-amarelo… os obriga a tomar uma posição, a de não tomar posição, ou de, talvez, misturar-se, pois a ‘polarização’ não é boa para o ‘país’.

Cita-se de tudo um pouco, para mostrar que o mundo caminhou para múltiplas pautas, para a diversidade, de forma que esse ‘mundo globalizado’ deve ser

Immanuel Wallerstein

(Immanuel Wallerstein)

valorizado pelas múltiplas possibilidades de ‘ser’, que se deve dar vazão às incontáveis vozes presentes nesse mundo, que ‘classe social’ não é mais uma categoria que dê conta de explicar um mundo (ou melhor, os conflitos de um mundo) em que as identidades diversas, o pertencimento diverso, não caberia (o que lembra muito a já bem conhecida ‘teoria das elites’). Reclama-se do fla-flu na ‘política’ brasileira (como se não existissem rixas ‘históricas’ em todos os estados e municípios brasileiros, desde sempre, entre ‘facções’).

Sem entrar no mérito do ganho reflexivo que algumas dessas ‘analises’ podem trazer, inclusive para uma melhor compreensão do país hoje, arrisco dizer, antipaticamente, que falta a muitos desses analistas um pé no real, uma saída dos gabinetes em que devem estar enfiados desde a graduação, passando por seus mestrados, doutorados, pós-doutorados, incontáveis seminários, mesas redondas, palestras, entrevistas…. agora já não dão conta do que se passa (já deram?) e preferem recusar a entrada no Campo e em campo, negação freudiana, o caos não é bom, o dissenso incomoda, então exigem o direito de ficar onde sempre estiveram, confortavelmente: longe das ruas. Neutros. Em cima do muro de categorias que lhes permitam lançar sombras sobre qualquer lado, a depender da posição do sol, sem que pareçam inconsistentes.

É o direito de não ter que lutar, ou apenas, que seja, sujar as mãos, os sapatos, de não suar, sentir o cheiro das ruas, do povo, de não ter que bater o pó, de livrar-se da lama, de não impregnar-se com o odor da pobreza, da concretude da luta por manter-se vivo, mais um dia… incrível que não se perceba a polarização real, concreta, inevitável, em todo e qualquer pedaço do país (e do mundo, evidentemente). Não entendem como o povo organiza sua vida, as categorias que forja para dar conta d’o mundo’, desse mundo que não é nunca capturado de forma adequada nas descrições dos pálidos doutores sentados em suas cadeiras confortáveis.

Linhas e mais linhas, páginas e mais páginas, para justificar uma insatisfação intelectual e o direito de não se envolver ou, como acontece tantas vezes, de não se envolver diretamente, sob o argumento de que a abstenção propicia, e até garante, uma melhor explicação sobre o que ‘está acontecendo’.

Os intelectuais, especialistas, especializados, tão duramente preparados, apartados para serem melhor treinados, capacitados, têm essa missão de esclarecer os ignorantes, os dedicados ao trabalho braçal ou de menor exigência intelectual, esclarecer o que é a vida (essa a que recusam e se recusam experimentar).

Burocratas ou tecnocratas, às vezes bem travestidos, indignados por verem suas teses, suas brilhantes ‘descrições’, suas teorias, sofrerem tantos revezes, pouco ou nada explicarem e, pior, serem pressionados a ‘tomar posição’. Isso é demais, é muito. Tanto trabalho para eliminar o coletivo, para dar voz ao indivíduo, a um sujeito de categorias genéricas (e de novas demandas nesse ‘novo mundo’, globalizado, interligado), veem-se obrigados a justificar seu afastamento de sujeitos concretos, párias, putas, pretos, pobres, o resto, e da execrada categoria ‘classe social’. Absurdo. Nisso não diferem muito de Margaret Tachter (e sua visão liberal do mundo), para quem não existia essa coisa chamada ‘sociedade’, mas apenas o ‘indivíduo’ (e como são indivíduos, podem pensar o mundo a partir de si mesmos).

No final das contas, essa voz ‘critica’ dos que ‘denunciam’ uma polarização extremada, ao mesmo tempo em que reclamam o direito a manter-se num lugar em que não tenham que escolher lados, mas, ao contrário, a manterem-se abertos para toda e qualquer ‘posição’, ‘estilo’, ‘gênero’, ‘modo de vida’…. é um jeito de fazer política recusando a política, é o hedonismo envergonhado de que fala Slavoj Zizek, do café descafeinado. Prefere-se falar da inautenticidade da vida, criticar as ‘grandes narrativas’, acusar a insuficiência das categorias universalizantes, combater “a alienação da vida cotidiana, a ‘mercadorização’ do consumo, a inautenticidade de uma sociedade de massa em que ‘usamos máscaras’ e sofremos opressão sexual e outras etc”[1]. Tudo em nome, honesta e firmemente, da liberdade e do direito de sermos o que quisermos ser (?), e de uma ‘crítica do social’, claro.

Slavoj Zizek

Essa postura, anunciada de maneira elegante, acompanhada ou não de cigarros sem nicotina ou de um café descafeínado, em que se defende uma política despolitizada, mostra um desconforto com a política concreta, apaixonada, um inconformismo com o engajamento político. Em defesa das ‘vozes divergentes’ (inclusive – e muitas vezes apenas elas – dos excluídos do sistema mundo vigente, das minorias, das culturas não ocidentais – o que não deixa de ser irônico), naturaliza-se o fato de a luta pelo poder (inclusive econômico) continuar fazendo vítimas – justificada como resultado legitimo da história, da qual todos participam, ricos ou pobres, indígenas, negros e brancos, jovens e velhos, homens e mulheres. A nós cabe apenas garantir que a voz de todos apareça na descrição da história (que seja sangrenta e injusta não nos cabe ponderar, senão ex post facto).

Apesar da ironia que aparece aqui e ali nessa minha crítica, a mim mais irônico parece a postura aparentemente sóbria e solene com que defendem, citando categorias altissonantes, autores e teorias pops, sua covardia ou, aceito, incompreensão do que está em jogo. Como gostam de citações, como as com que iniciei o presente texto, termino esse parágrafo com uma de que gosto muito, de Peter Woit (comentando uma expressão usada pelo físico Wolfgang Pauli (1900-1958)): “I use ‘not even wrong’ to refer to things that are so speculative that there would be no way to know wether they’re right or wrong’[2].

peterwoit

(Peter Woit)

Os burocratas e os tecnocratas, filosoficamente são meio platônicos e bastante kantianos (em outro momento, avanço nessa caracterização). Os tecnocratas de um lado e os intelectuais burocratizados do ‘mesmo lado’ – afastados uns dos outros por uns poucos atributos, usam a critica ao real, pobremente polarizado dirão, perigosamente polarizado, como desculpa para intervir nele desprezando e criminalizando a política ou, do lado dos burocratas, negando qualquer intervenção, qualquer ação, ao mesmo tempo que recusam aceitá-lo, ao mundo, em nome de um outro mundo, mais amplo, mais diverso, mais plural, mas irreal, descrição idealizada do mundo concreto (como toda descrição)… Como a intenção aqui não é fazer um inventário dessas descrições (são múltiplas) nem uma critica exaustiva (que não daria conta) das ilusões mais comuns, apenas introduzo aqui a questão.

Para hoje, aqui e agora, interessa deixar claro que refuto as desculpas para não se engajar (e alguns até falam em não ficar em cima do muro, enquanto insistem em ficar ‘acima do muro’ – ou seja, a recusa das categorias que lembrem qualquer lado dos muros, lá em baixo). O momento [3] não pede justificativas metodológicas ou alguma espécie de neutralidade epistemológica (piada), mas simplesmente tomar posição quanto ao que interessa, concretamente. Isso nada tem a ver com (continuar a) pensar o mundo, distanciando-se metodologicamente dele. A não ser que a ideia seja viver uma vida de monastério. Que seja, então. Ao invés de gastarem seu tempo se desculpando, usem o silencio para meditar ou rezar, pedindo paz e justiça para o mundo. Menos confuso e, talvez, mais efetivo.

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NOTAS:

[1] ZIZEK, Slavoj. Crença na Utopia (…). 2008. Disponível em http://zizek.weebly.com/textos.html. Acesso em 22 de janeiro de 2011.

[2] Abstenho-me de ‘explicar’ essa citação assim como as duas que aparecem como epigrafe. A ideia é deixar aberta a interpretação, mas a esperança é que a ironia presente seja incomodamente percebida por aqueles que se encaixam na minha caracterização, seja como burocrata ou como tecnocrata (mais dificilmente, sei).

[3] O momento é de lutar para que não haja retrocessos em termos de direitos (trabalhistas, sociais), em nosso sistema garantista de justiça (que ainda assim já é injusto com os que menos tem, com os jovens, com os negros, com as mulheres, com as minorias em geral), é momento de lutar pela democracia. Não se trata de apoiar ou não governos concretos, mas de denunciar o golpe em curso e de assumir um lado, que seja o da democracia (de forma generalizada). Não é momento de gastar recursos e tempo para proteger-se, colocar-se num lugar confortável. Pode não ser o caso, mas o fascismo, a intolerância, o mal banal de que falou Hannah Arendt, são menos refinados e não perdoarão essa suposta neutralidade. Questão de tempo.