Arquivo mensais:junho 2016

O GOLPE como um jogo e como teatro, os diversos jogadores e atores (reflexões iniciais)

Verdade seja dita, não temos uma ‘explicação’ ou uma análise de todo convincente sobre o golpe de 2016. Todos sabem tratar-se de um golpe, mas poucos acreditavam que ele fosse sequer chegar tão longe e que estaria, por outro lado, tão perto de ter um desfecho, consolidando-se.

Também não nos preparamos, ingênuos, para lidar com o fundamentalismo, com o pensamento conservador (mesmo convivendo com ele desde sempre), com a criminalização da política, com o florescimento de um espírito fascista, com o ódio de classe, mesmo com todos os sinais, em neon, todos os dias nos alertando do perigo.

Permitimos, com isso, que fundamentalistas e loucos de todo tipo assumissem mandatos, legislatura após legislatura, sem acreditarmos na força de seus argumentos toscos, de sua visão limitada e odiosa do mundo, do ser humano, das instituições. Fomos incapazes de prever um Eduardo Cunha e esse Congresso Nacional. Brincamos com a existência de um Bolsonaro e um Feliciano, e não levamos a sério, como devíamos, por exemplo, o Instituto Millenium. Apenas rimos do Rodrigo Constantino e fizemos chacota do Olavo de Carvalho. A Escola sem Partido sempre pareceu uma invenção malucos (e é) e romanticamente acreditamos que ela fosse cair no ostracismo, por ser tão ridiculamente falsa, assentada em inverdades e numa teoria de conspiração (supostamente liderada pela Unesco para impor uma ‘nova ordem mundial’).

Se não compreendemos antes, não compreendemos agora. Sequer conseguimos medir o papel de cada ator envolvido no jogo. Nossa reação tem sido igualmente uma surpresa, muito boa, mostrando, por outro lado, que temos muito mais do que em alguns momentos acreditávamos ter. Fica claro que estamos vivos, que nos movimentamos, que resistimos, que somos capazes ainda de fazer coisas em comum, juntos. Há coletivos de todo tipo. Há movimentos organizados, desorganizados, há consciência do que nos espera se não reagirmos – mesmo que não seja tão claro como isso iria acontecer.

O golpe parece que foi fruto do ‘improviso’, mesmo que tenha havido alguma coordenação por parte de alguns atores (como admitiu, sem vergonha alguma, o deputado Heráclito Fortes – que diz terem planejado o impeachment por mais de 1 ano). Manifestações foram incentivadas e até financiadas, tendo como marco fundamental o ano de 2013, quando o clima (que não pode ser visto como natural, mas também criado) tornou-se propicio  para que grupos como MBL, Revoltados OnLine, VemPraRua et caterva ganhassem as redes sociais e as páginas de revistas e jornais, preparando um caminho para que o candidato da oposição, Aécio Neves, pudesse ter sucesso nas eleições presidenciais de 2014.

Muito dinheiro entra em cena, para além das campanhas. E parte do empresariado que já vinha financiando a disseminação de uma visão liberal no país – inclusive com bolsas de estudo, com palestras, com prêmios, com editoriais, e com seus programas de televisão – são incentivados a financiar também uma crise econômica e política, em grande medida artificial (ou amplificada artificialmente).

A reeleição de Dilma Rousseff atrapalhou os planos. Mauricio Macri, representando a direita e uma virada liberal, venceu na Argentina e seria fundamental que no Brasil o PT fosse afastado do poder central também, pelas eleições. As mudanças na América Latina seriam conduzidas mais facilmente, com o mesmo discurso de que a ‘crise’ (sempre despersonalizada e tão abstrata que pode significar qualquer coisa) nos alcançou de maneira irreversível. Os interessados em uma nova fase de ‘abertura’ de mercado da América Latina e consequente enfraquecimento do Mercosul, da Unasul, e também e principalmente, dos BRICS, todos conhecemos. Com a vitória de Dilma Rousseff, houve uma movimentação para inviabilizar o governo.

Os americanos ou conglomerados de todo o tipo, além dos donos do sistema financeiro internacional, participaram do golpe? Parece improvável que o tenham feito de forma direta, exagerado pensar que o fizeram, mas não é absurdo afirmar que no que lhes coube facilitaram e incentivaram. Torceram, no mínimo.

Se não podemos dizer com firmeza que houve uma conspiração dos norte-americanos (teoria que agrada muitos), quais seriam, então, os atores fundamentais? Houve mesmo um golpe?

Não, não entendam mal. Claro que é um golpe esse falso impeachment. A pergunta visa a estabelecer se houve um planejamento, passo a passo, coordenado portanto, que culminou no desfecho que vivemos ou o que era descoordenado, e voluntário em grande medida, foi se afinando, e permitiu que alianças fossem sendo feitas, com a ajuda de um ator capaz de direcionar as ações, as energias, de juntar grupos, de dar-lhes um objetivo comum e disseminar uma narrativa adequada? Acredito que houve ‘conspiração’, mas que a sorte, o acaso foram essenciais, assim como a mídia, que construiu a narrativa e deu aos diversos atores um caminho cada vez mais afinado e coerente.

Há coisas excepcionais que merecem nossa atenção, como Eduardo Cunha. Como, igualmente, o juiz Sergio Moro, a Procuradoria Geral da Republica e seus procuradores em Curitiba, além de certos delegados da Polícia Federal.

Se os EUA não podem ser acusados de planejar e executar um golpe de estado no Brasil, não podemos ser ingênuos a ponto de negar todos os indícios de que estavam trabalhando, independente de governos, na destruição de empresas brasileiras e na ajuda aos nossos ‘idealistas’ justiceiros para ‘combater a corrupção’, visando ao enfraquecimento das lideranças políticas e da confiança dos brasileiros na política. A Lava-Jato não é a causa do golpe, mas foi fundamental o modo como a utilizaram para atacar os que poderiam impedir o golpe. Será fundamental compreender se houve e como se deu a vinculação dos responsáveis pela Lava-Jato com o Departamento de Estado Americano (e com a CIA, por exemplo, via treinamento, via financiamento, ‘troca de informações’ etc).

Não importa muito agora, no entanto. Importa que fomos incapazes de nos preparar, de compreender o que estava em jogo. O ‘nós’ indica todos os democratas, os partidos de esquerda, as lideranças políticas, o governo federal (sob liderança do PT), intelectuais de todos os matizes.

Essa incapacidade não impediu de tentarmos descrever da melhor maneira possível o que estava ocorrendo, principalmente nos lances finais, com o processo de impeachment já definido. Muitas análises tentando dar conta do fato e denunciando a farsa do impeachment e indicando os atores principais envolvidos nela, a farsa. O problema de muitas dessas análises, a despeito de cumprirem muito bem seu papel de denuncia, de desvelamento do golpe, restringiram-se na maioria dos casos ao processo mesmo do impeachment e limitando-se, até por falta de dados, de informações, de teoria, a denunciar alguns atores, nem mesmo seus movimentos são plenamente conhecidos para serem denunciados adequadamente, apenas supostos. Muito dessas ‘denuncias’ dependem da própria imprensa chapa branca e do que nos oferece os condutores da Operação Lava-jato.

Produziu-se boa reflexão sobre a criminalização da política e sobre o movimento e papel do Judiciário e do MP no estabelecimento das condições necessárias para a primazia, a preponderância do judiciário e do jurídico, sobre o legislativo/executivo e a política. Ainda estamos, porém, no campo da denuncia e de uma descrição ainda insuficiente para fazer avançarem ações relevantes para conter o fenômeno. Já há sinais mais efetivos no horizonte, como organizações de juristas sendo estabelecidas, reação de magistrados, mas nem sempre é claro que isso se deve à percepção clara do que está em jogo (ameaçando a democracia, a política, o político).

Por outro, em nível continental, nosso discurso ainda não inclui de modo satisfatório os interesses regionais e nossa descrição sobre o impacto do que ocorre no Brasil (e aconteceu, com menor alarde e interesse no Paraguai e em Honduras) – e o que está em curso na América Latina como um todo – é frágil, pouco consistente, ideologicamente difusa. Isso, em grande medida, deve-se ao desinteresse que o Brasil (refletido em nossas universidades) tem pela AL. Claro que, devemos reconhecer, o golpe em curso forçou-nos a pensar o continente e, no continente, muitos se colocaram a tentar explicar o golpe a partir de outros locis, dando-nos uma perspectiva mais abrangente.

Não conhecemos todos os atores, nem mesmo qual é o jogo, afinal de contas. Temos que apagar focos de incêndio – e isso pode piorar as coisas, pois não temos muito tempo para refletir, discutir e, mesmo que tivéssemos, isso também não muda o fato de que não nos preparamos e não temos ferramentas adequadas para tratar disso.

A reação, a resistência ao golpe, é fantástica e parece que não vai arrefecer, mas mesmo isso vamos precisar entender adequadamente. Há muito o que fazer. O Golpe está dado, ele pode ter impacto nas eleições municipais (será que não era isso o que se pretendia mesmo?), vai ter impacto nas próximas eleições presidenciais, afetou políticas publicas fundamentais (que mesmo podendo ser revertidas, mostrou-nos a fragilidade das próprias políticas, por não existirem garantias, proteção à sua permanência, em longo prazo). Em 4 (quatro) semanas, fizeram ensaios para destruir a educação pública, a autonomia das universidades e escolas, o sistema de saúde, as telecomunicações (e sua universalização), políticas culturais, agricultura familiar, reforma agrária, política indígena, políticas para as mulheres, para os jovens, para as crianças, para os negros, aquelas destinadas a minimizar a desigualdade, para distribuir renda…. E nós não acreditamos que isso pudesse acontecer, estamos atônitos.

Criticas ao PT, às esquerdas, a personagens e personalidades, são importantes, mas além de não tornarem melhores nossas analises agora, tendem a promover divisões que não ajudam em nada a proposição de saídas. Ora, se concordarmos não ter condições agora de apontar minimamente os atores (embora possamos nomear muitos, não temos certeza de seu papel, de sua função no jogo), a incapacidade de firmar alianças estratégicas pode ser elemento fundamental para impedir uma nossa reação à altura.

Algumas questões se me impõem: É mesmo o cenário internacional importante para compreendermos o golpe? Qual a melhor descrição desse cenário? Quais os atores relevantes? Em nível regional, latino-americano, há eventos e elementos importantes para compreender o que se passa no Brasil? Em que nos ajuda, nesse momento, compreender isso? As manifestações de 2013 e os grupos que se fixaram no cenário nacional a partir daí são realmente relevantes para entendermos 2015/2016? Hoje, aqueles grupos são relevantes? Como a Operação lava-jato nasceu e transformou-se em algo tão gigantesco? Como não previmos isso? Qual seu papel no golpe? O empresariado teve papel relevante? Qual foi esse papel? Os partidos de oposição (ao Brasil) tiveram papel ativo? Planejaram efetivamente o golpe? São os atores mais relevantes? Atores específicos, como Eduardo Cunha, planejaram o golpe, passo a passo, previram tudo o que aconteceu? Que atores externos, ligados a governos e multinacionais, a grandes bancos, petroleiras, seriam relevantes para compreender o golpe? E os que reagiram e conturbaram o jogo? A imprensa internacional, a juventude, intelectuais, coletivos de mulheres, estudantes, artistas, os movimentos sociais como o MST e o MTST, os cidadãos comprometidos e temerosos quanto a retrocessos, seu papel e importância, qual seria? Qual seu peso, uma vez que, do ponto de vista prático não constrangeram os envolvidos com o impeachment, por exemplo?

A percepção que tenho, e não me proponho oferecer nada mais que isso, é que o golpe é um jogo em construção. Os vários atores envolvidos foram levados a uma coordenação mínima, mas eficiente, em momentos fundamentais e foi a mídia que exerceu o papel de coordenação, que forçou em grande medida a aproximação de atores diferentes (e inicialmente ou aparentemente com interesses diferentes) para dar força a uma narrativa de criminalização da política, do Partido dos Trabalhadores em particular e de Lula especificamente. No entanto, houve alianças estratégicas promovidas pelos próprios atores e que hoje se tornaram problemáticas, como entre partidos, empresários e movimentos como o MBL e VemPraRua (esses ‘movimentos’ tornaram-se atores menores agora, descartáveis e, ouso apostar, irrelevantes).

Chegou-se a uma coordenação perfeita no momento da votação do impeachment na Câmara dos Deputados, mas logo em seguida isso começou a ser desconstruído, pactos foram desfeitos e certos atores agora já não se mostram mais relevantes ou não parecem que terão alguma importância para o que vai ser ainda construído quando o golpe se consolidar.

Então, sim, o impeachment é uma farsa e isso tem sido demonstrado dia após dia – e não se pode esperar que o Supremo Tribunal Federal e seus ministros sujem as mãos para corrigir a lambança. Para muitos, inclusive, o STF é um ator relevante, um participe do golpe. Que alguns ministros não têm o menor pudor de manifestarem-se, atacando partidos e o governo, é claro, mas falta-nos esclarecer como instituições seriam atores, elas mesmas, em um golpe como esse. Não é uma dúvida, é uma chamada a que nos esforcemos para dar conta dos aspectos mais sociológicos, históricos e ‘políticos’ e que deixemos de lado, temporariamente que seja, os aspectos mais psicológicos (o que individualmente move certos ministros, por exemplo). Se há racionalidade nisso, devemos ser capazes de dar conta de uma explicação minima.

Tudo isso é mera especulação de minha parte, claro, movido pela esperança de que esse golpe nos leve a construir instâncias duradouras para pensar o país e propor estratégias de médio e longo prazo – para nos proteger contra retrocessos que nos inviabilizem como nação, que nos permita recolocar na mesa a ideia de projeto civilizatório (não eurocêntrico), que blinde – ou fortaleça – nossa democracia contra futuros ataques, que promova a educação política e a participação popular, que nos leve a profundas mudanças no sistema político. Já perdemos tempo demais.