Arquivo mensais:setembro 2016

Sobre Akrasia, manipulação e outros bichos esquisitos – Ou sobre porque devemos investir em melhores formas de compreender e agir

 

Sobre Akrasia, manipulação e outros bichos esquisitos
Ou sobre porque devemos investir em melhores formas de compreender e agir

Ora, decerto, ninguém escolhe voluntariamente o caminho para as coisas más, nem para as que pensa serem más. Uma atitude dessas, querer ir atrás das coisas que se pensa serem más, preferindo as que são boas, não é, pelo que me parece, própria da natureza humana. 358d E quando é forçoso que se escolha uma de duas coisas más, escolhe alguém a maior, podendo escolher menor?
(Diálogos de Platão, Protágoras, § 358c e 358d)

Uma clássica discussão sobe se ‘pode um homem agir contra seu melhor conhecimento’ (1) remete-nos aos registros de Platão sobre as ideias socráticas, mas foi enfrentada por Platão e posteriormente por Aristóteles, todos de maneira ligeiramente distintas, mas todos concordando que o homem não age contra seu melhor conhecimento. Ou seja, alguém age ou encaminha-se para o mal por ignorância, nunca como fruto do seu conhecimento.(2)
Temos vislumbrado em nosso país centenas de manifestações que facilmente poderíamos classificar como más, como visando ao mal, visando ferir ou até destruir pessoas, ideias, instituições, símbolos, contra os fundamentos da boa convivência, do respeito, da dignidade humana, da diversidade, do bem comum. Antes, vemos muitos usando tais fundamentos para justificar suas más ações.
Afinal, quem (há um) é culpado pelas manifestações de ódio, pelos ataques fascistas, por essa gente maluca babando nas ruas e pedindo intervenção militar, por mentiras e canalhices reproduzidas por Diogo Mainardi, Reinado Azevedo, Marco Antonio Villa, Kim Kataguri, Revoltados Online, bolsonaretes, Felicianos, Malafaias, paneleiros e cidadãos de bem mandado a Presidenta da República ir tomar no cu? Quem é culpado por essas barbaridades e centenas de outras que temos testemunhado pipocarem no país?
E quem é culpado pela ignorância e ódio do cidadão ‘comum’ pela ‘política’, pelos partidos, pelos governantes, pelas instituições?
A televisão, a imprensa, é capaz de criar sentimentos tão negativos e duradouros nas pessoas? E por que não atinge a todos?

Teun von Dijk

Teun van Dijk, especialista em análise de mídia e linguagem do discurso político, no IV Simpósio Internacional sobre analise do discurso (SIAD), ocorrido esse mês de setembro na UFMG, mostra como O Globo, por meio de seus editorais, teria manipulado seus leitores para criar uma imagem negativa, muito negativa, sobre o governo Dilma, sobre Lula e sobre o PT, criminalizando-os e, assim, colaborando para motivar as pessoas irem às ruas manifestar-se contra esses personagens.
Não fica claro como é que O Globo, e qualquer jornal, rádio ou televisão, obtém sucesso na empreitada manipuladora, mas indica alguns elementos presentes nos discursos do jornalão e que estariam na base dessa manipulação.
A questão não é, porém, se há ou não manipulação. Os jornais claramente manipulam informações, abusam de imagens, de palavras, de certas construções sintagmáticas, de ‘dados’ dispostos de uma certa maneira, tudo para gerar uma certa disposição nos leitores. Isso sendo feito de maneira sistemática, continuada, provavelmente predispõe o leitor mediano a certas crenças, aproxima-o de certos valores.
No entanto, devemos nos perguntar:
1 – É possível mesmo que se faça ‘lavagem cerebral’ em alguém por meio dos jornais impressos, radiofônicos ou televisivos? Que seja, então, pela ‘educação’ (na escola) ? (coisa de que acusam costumeiramente a esquerda de fazer)
2 – como explicar tal fenômeno de maneira consistente, descrevendo os mecanismos acionados e seu funcionamento no processo de ‘lavar o cérebro’?
3 – Como demonstrar que os jornais, revistas, rádio e televisão (ou, de novo, mesmo a educação formal) são bem sucedidas em sua empreitada de ‘manipular’ as pessoas? Na conversão das pessoas a certas crenças (ideológicas) ?
Dizer, pura e simplesmente, que as pessoas são manipuladas não nos ajuda a melhorar nossa compreensão nem a combater de forma efetiva tal ‘manipulação’.

 

Steven Michael Lukes

Steven Lukes, já na década de 1970, ao tratar a questão do poder, alerta para a dificuldade de entendermos como as pessoas atuariam contra seus interesses, que seria a ideia por trás da manipulação. Como as pessoas chegam a aceitar uma visão falsa de seus próprios interesses?
O pressuposto é que seriam socializadas para tal, por meia da ‘mobilização de vieses’, em um dado sistema político, de forma que essa mobilização ultrapassaria a esfera das escolhas intencionais. Ou seja, nem tudo é conscientemente escolhido, e nem sempre as escolhas implicam os resultados pretendidos.
De todo modo, as pessoas protestam, criticam, afirmam coisas outras que vislumbramos nas ‘manipulações’. Devemos levar a sério, sem dúvida, o papel da imprensa, do rádio e da TV, mas devemos abandonar o discurso comum sobre o poder que esses meios teriam de manipular e impor uma ideologia por meio, simplesmente, do discurso, da repetição sistemática de certas afirmações. Há algo que nos escapa e que parece, intuitivamente, importante.

Os sentimentos e as ações decorrentes da exposição à ‘manipulação’ não são na maior parte das vezes explicados pela ‘manipulação’ mesma. O ódio não poderia nascer da manipulação (salvo se lançássemos mão de uma psicologia rasteira (3) para relacionar, quase pavlovianamente, um comando escondido em sinais, palavras, frases, musicas, imagens, cores etc que ativaria organicamente, quem sabe quimicamente, os mecanismos que propiciam – nas pessoas – o sentimento de ódio). (4)
As pessoas consentem e permitem-se o ódio e as ações violentas. Elas concordam com os fundamentos que os sustentam, não são coagidas. Então, talvez, seja hora de pararmos de acusar um suposto consórcio midiático de produzir (sozinho) nossos fascistas, nossos ‘odiadores’, nossos conservadores, nossos misóginos, nossos racistas, nossos queimadores de índios, nossos jagunços, nossa PM violenta….
Há algo que está em outro lugar, quem sabe na ‘cultura’ (e, mesmo assim, devemos ainda continuar com as perguntas:  ela não está, de toda sorte, circunscrita ou mais circunscrita a uma classe social, a grupos determinados). A violência política é uma constante e deve igualmente pesar em nossa avaliação sobre os fenômenos que genericamente denominados de manipulação (e até de alienação).


NOTAS:

[1] Em grego o termo Akrasia (ἀκρασία), com o sentido aproximado de ‘falta de comando’ (comando de si) ou algumas vezes, equivocadamente, como fraqueza de vontade. Geralmente traduzido como a incapacidade de agir conforme o melhor conhecimento da pessoa.

[2] Sócrates é claro nesse ponto, impossível que o homem, ciente do bem, faça o mal. Platão, diante do fato indiscutível de que o homem faz constantemente o mal, precisa explicar as diferenças entre os homens e demonstrar que há homens ignorantes por ‘natureza’. Aristóteles chama a atenção para a possível racionalidade num ato que parece mal, mas que visa a um bem que desconhecemos quando apenas o observámos de maneira distanciada.

[3] Bem sendo que Freud, em seus trabalhos que têm como objeto a cultura e a política,

Sigmund Freud

também aposta na irracionalidade (ou o que ele escolheu para estudar tem caráter aparentemente irracional, como os fenômenos autoritários de massa). Como explicar o fascismo e o nazismo? Não é nosso ponto aqui, mas ficam as interrogações.

 

[4] E aqui temos uma questão adicional que merece ser discutida em separado, num texto especifico, que seria a compreensão da própria política. Se o ódio a que nos referimos têm por objeto, por alvo, o Estado ou o governo, um Partido ou o sistema partidário como um todo, as instituições publicas, políticas publicas, personalidades publicas, agentes públicos, estamos no campo do político. Nesse caso, a ontologia do político interessa ao pesquisador, ao analista, em duplo sentido: como ele mesmo entende a política, como ela aparece para ele e, por outro lado, como esse campo, como a Política emerge na vida do cidadão (inclusive na desse que ‘odeia a política e os políticos’). O ódio é irracional? E a política? Pura tradição? Algo sempre irrefletido, no campo da paixão ou de uma moral coletivamente incorporada? Ou é instrumental, racional? Dependendo da resposta, vamos tratar o fenômeno do ódio de uma maneira ou de outra.


Notas fora de lugar
Um ultimo ponto. As acusações igualmente genéricas que utilizam indeterminados para indicar o culpado pela manipulação, pelo ódio, pela violência, pelo golpe, pela inação, pelos erros de estratégia, por TUDO, enfim. TUDO, ALGUÉM, ELES, OS GOLPISTAS, OS FASCISTAS, OS COXINHAS, OS CONSERVADORES, são termos comuns que encontramos em nossas opiniões emitidas, nossas avaliações. Mesmo quando denominamos um grupo, como o Movimento Brasil Livre, ou um partido, como o PSDB, o PMDB, perdemo-nos na generalização por indeterminação.

Alfred Schutz (1899-1959)

Que seja inevitável, aqui e ali, lançarmos mão de tipificações, porque isso facilita a classificação e nos impede de perder tempo em minúcias, permitindo que rapidamente enquadremos o desconhecido, é aceitável, como descrição do nosso modo de interagir, de interrelacionar, de capturar o mundo num determinado momento de nossa experiência dele e nele (é o que nos vai indicar Alfred Schutz, por exemplo), mas isso não serve para a reflexão sobre o mundo e sobre a própria experiência. Isso serve (e não é objeto de questionamento) enquanto estamos inseridos no círculo, no sistema, e estamos tratando de ‘sobreviver’, mas a reflexão implica afastar-se do circulo, olha-lo de fora, envelhecer – segundo ainda, Schutz.
Questões para outro texto, gostaria de reter o incomodo no mal trato que damos às categorias, aos conceitos, aos termos que usamos. Damos pouca atenção aos fundamentos, entregamo-nos a uma inesgotável sequencia de opiniões sobre tudo e todos e com isso podemos até conseguir nos aliviar temporariamente de angustias, compartilhar sentimentos de desesperança e, até mesmo, acreditamos, de boas explicações sobre o que se passa no país, na economia, na escola, nas manifestações, na cabeça dos jovens, no interior das instituições, como já fazemos com o futebol, com os relacionamentos amorosos, com a educação, com a ‘criação de filhos’ etc.
Nada disso é mal, nós emitimos opiniões, nós falamos abobrinhas, interagimos por meio de chistes, de blefes, até de mentiras. Apenas acho que não se pode transformar isso em estilo de vida e que isso impeça a reflexão, que isso nos condene à inação, que nos mantenha confortáveis com nossas opiniões inteligentes sobre TUDO, que nos convença de que fazer política limita-se ao campo discursivo e por aí vai.
Então, precisamos de alguma direção para aprimorarmos as análises ou voltarmos a fazê-las de uma forma mais sistemática. Isso implica enfrentar certas ilusões e implica igualmente um enorme esforço para superar essas ilusões. Um dos modos possíveis seria lançar mão de instrumentos analíticos mínimos, de termos boas teorias (que as dominemos e deixemos que elas conduzam nossas analises), de sermos minimamente fieis a certas categorias (que devemos dominar), de evitarmos que o senso comum (travestido na opinião publicada) informe até o modo de descrevermos os problemas que enfrentamos.

__________

Indicações:

1 Site de Teun von Dijk (Discursos em Sociedade):
http://www.discursos.org/

2 Texto de Steven Lukes: Power: A radical View:
http://isites.harvard.edu/fs/docs/icb.topic1458086.files/lukes_power.pdf

3 Artigo de revisão bibliográfica sobre Alfred Schutz, para quem quer iniciar-se e aproveitar as indicações bibliográficas.

CASTRO, Fábio Fonseca. The phenomenological sociology of Alfred Schutz. In Ciências Sociais Unisinos48.1 (Jan-Apr 2012): 52-60. Disponível em http://revistas.unisinos.br/Findex.php/ciencias_sociais/article/download/Fcsu.2012.48.1.06/839/3436

4 – sobre akrasia há muito material disponível, por isso faço uma unica indicação:

Artigo Akrasia: conocimiento y práctica , de José Leonardo González Valderra. Disponível em http://aprendeenlinea.udea.edu.co/revistas/index.php/versiones/article/viewFile/11039/10110

 

EDUARDO CUNHA NÃO FOI CASSADO PORQUE MENTIU OU POR SER CORRUPTO

Eduardo Cunha

Eduardo Cunha

“O grande triunfo do pensamento institucional
é tornar as instituições completamente invisíveis”
(DOUGLAS, 1998. P. 104)
“Context (…) is defined by a number of potentially relevant attributes”
(FALLETI; LYNCH, 2009, p. 1143)

 

 

Se eu tivesse que apostar[1], diria que Eduardo Cunha não foi cassado porque mentiu ou porque seja corrupto, nem mesmo porque tenha se tornado um homem perigoso para a República, ele foi cassado porque tornou-se um perigo para a lógica institucional vigente (no Congresso Nacional).

A Câmara dos Deputados do Brasil tem uma história de mais de 190 anos, ou seja, quase dois séculos, tendo sua memória preservada e órgãos internos que funcionam desde sua criação[2], bem como procedimentos igualmente bem estabelecidos, herdados por cada novo deputado eleito. Podemos afirmar que há uma lógica própria, da instituição, que ultrapassa os atores particulares que nela, ou a partir dela, atuarão, bem como que há papeis previamente estabelecidos os quais, inevitavelmente, espera-se sejam assumidos pelos atores.

É o que acham Blomgren e Rozenberg (2012, p. 9-10), ao apontarem a existência de papeis parlamentares, estáveis no tempo, alguns deles já estabelecidos em scripts e ‘peças de teatro’:

Como os mesmos padrões de comportamento parecem se aplicar por décadas, ou mesmo séculos, existiriam razões para concluir que parlamentares se conformam a específicas expectativas compartilhadas.

Da mesma forma, em relação ao parlamento brasileiro, Timothy Power e Cezar Zucco Jr. (2011, p. 305-306), afirmam ter o Congresso Nacional[3] uma lógica própria que seria, como afirmamos acima, independente, até certo ponto, dos indivíduos que estariam ocupando os cargos públicos em um determinado momento:

Ao que parece, a classe política possui uma memória coletiva e um world view que resiste a efeitos conjunturais; por exemplo, aqueles gerados pelo ciclo eleitoral. Mudanças há, sem dúvida, mas (….) dentro desse cenário de relativa estabilidade, as evoluções de opinião são lentas, pequenas e graduais. Se, de um lado, uma estabilidade atitudinal da classe política pode ser positiva para o desenvolvimento institucional do Legislativo, de outro lado, ela pode se tornar um obstáculo a iniciativas específicas, como, por exemplo, as várias propostas do atual debate sobre reforma política.

 Power e Zucco complementam ainda, sustentando que, apesar de essa memória coletiva e essa visão de mundo parecerem resistentes a mudanças, o mesmo não ocorreria no que diz respeito tanto a opiniões quanto a comportamentos dos parlamentares, que variariam com a posição conjuntural (situação ou oposição) em que se encontram[4].

No entanto, se houver uma tensão estruturalmente importante entre a memória coletiva, a visão de mundo compartilhada, atitudes esperadas, e as opiniões e comportamentos particulares, vai prevalecer o coletivo, o compartilhado.  Se um comportamento individual ameaçar, de forma efetiva, a lógica institucional, colocando em xeque os papeis estabelecidos e os comportamentos esperados – aqueles que garantem a confiança, a confiabilidade, a instituição vai agir no sentido de mitigar a ameaça[5]. Somente em situações de crise, de mudanças estruturais advindas de questionamentos externos (e com força suficiente), teremos possibilidade de mudanças nessa lógica institucional (sem garantias de que sejam profundas)[6].

O Parlamento, conforme a análise de Pierre Bourdier (2014), é um ambiente de discursos e performances reguladas, e subverter de maneira radical esse ambiente é exigir dos atores que se afastem também de maneira radical do que lhes confere identidade e segurança para atuar. Isso afeta o sistema de conhecimento, sua dimensão epistemológica, que, em última análise, modelaria a atuação parlamentar na arena legislativa.

Eduardo Cunha ousou subverter a ordem, ao assumir o papel de autoridade máxima na interpretação das normas internas, ao remodelar órgãos, ao centralizar as indicações de cargos, ao controlar com lupa todos os movimentos realizados pelos parlamentares nas comissões e no Plenário, quase que anulando, em inúmeros momentos, o papel dos líderes partidários. Controlava também a TV, a Rádio e o Jornal Câmara, ameaçava com retaliação qualquer sinal de seus, agora, colaboradores que contrariassem uma ordem. Assumiu o papel de algoz do governo, mas, para isso, impôs-se superpoderes que nenhum outro presidente da Câmara dos Deputados ousou assumir, não deixando margem para negociação das pautas e manipulando os resultados toda vez que lhes desagradassem.

Ademais, impôs também um ritmo de trabalho intenso aos colegas, com sanções que antes jamais haviam sido tão rigorosas, de forma que manteve os parlamentares que o apoiavam sob rédeas curtas – e aos demais sob tensão constante. Perseguiu servidores e adversários políticos, permitiu que a fama de chefe de famiglia se firmasse (de forma que circulava a história de que havia seguidores fieis que faziam o trabalho sujo de ameaçar e efetivamente castigar os desafetos).

No momento em que, por causa de um evento externo (a decisão do Ministro Teori Zavascki), Eduardo Cunha é afastado da função de Presidente da Câmara, abre-se espaço para que o peso da memória institucional recoloque para os parlamentares o caminho mais fácil do exercício de papeis bem conhecidos[7] – e nos quais sentem-se confortáveis, de um ambiente com animosidade mais controlada, permitindo avaliar o agora afastado Presidente da Casa como um ser perigoso – porque se coloca em posição liminar (que utiliza do velho para fundar um novo que ele e somente ele compreende com perfeição – e ao qual controlaria de forma absoluta).

Nesse momento, depois de meses de presidência interina, em que os parlamentares são identificados, pela opinião pública e publicada, com esse ser perigoso, sobre o qual pesam acusações terríveis[8], e a instituição se vê dividida e numa guerra de facções, abre-se a possibilidade de colocar um fim ao que agora é visto como uma crise a ser superada, um ambiente de guerra a ser pacificado. Isso só é possível se o símbolo da crise, da guerra, do caos interno, for eliminado.

Cunha foi cassado porque se construiu tal possibilidade, tanto na opinião pública, quanto na arena do jogo político, e nesse sentido foi, repetimos, uma construção – o que mostra que, a despeito das incertezas dos resultados, não há outro caminho senão o da ação. Mas foi cassado principalmente porque, do alto de sua arrogância, ousou subverter, em benefício de um projeto grande demais para um só homem, a instituição[9] que, por sua vez, mostrou quem efetivamente manda.

Não precisamos advogar em favor da análise racional, mas não há dúvida de que não se pode fazer ciência do social sem pressupor, no mínimo, papel relevante para a racionalidade dos sujeitos, mas também dos sujeitos em contextos institucionais (dentro dos quais, agem racionalmente). A racionalidade limita os indivíduos e as organizações. Isso não é um juízo de valor e não se considera tal limitação negativamente. Teria a racionalidade em contexto institucional[10], entre outras, a função de ampliar a capacidade de os indivíduos para lidar com as informações (DOUGLAS, 1998)[11].

Por outro lado, e isso nos interessa, os indivíduos ficam impedidos de tomar decisões relevantes (ou não conseguem), aqueles que Mary Douglas chama de ‘decisões relativas à vida ou morte’. Nesses casos, os indivíduos decidem a partir de uma base compartilhada do conhecimento e de padrões morais.

No caso da cassação de Cunha, a decisão sobre a ‘morte’ do ex-presidente da Câmara dos Deputados, contou, para seus ex-aliados, com o apoio dessa base compartilhada.


NOTAS

[1] Falo em aposta, pois há uma possibilidade que não se pode descartar: a cassação ter sido negociada com o próprio Cunha (o que o número de deputados que votaram pela cassação parece dar margem a especular). Por que motivo ou que plano desenhou Eduardo Cunha, não há elementos suficientes para imaginar.

[2] As últimas grandes alterações na Câmara dos Deputados datam do ano 1970. Após a entrada em vigor da Constituição de 1988, houve nova edição do Regimento Interno da Casa com impacto importante sobre o trabalho das Comissões, valorizando-as, além da inclusão de competência na análise das concessões (e suas renovações) de rádio e televisão. Ou seja, essas adequações na estrutura já contam entre 30 a 40 anos de existência.

[3] O sistema político brasileiro como um todo.

[4] O que não implica, de toda sorte, que essa variação crie novos papeis ou altere a lógica institucional. A bem da verdade, costumam ser previsíveis, manifestando-se dentro de um espectro de expectativas esperadas.

[5] No caso, o indivíduo que a coloca em risco.

[6] Nada impede de analisarmos essas mudanças como o fazem, por exemplo, Thomas Khun ou, mais ainda, Lakatos, ao tratar dos paradigmas nas ciências. Devemos, portanto, procurar entender tanto o que facilita ou permite a permanência de certos papeis e atitudes, como compreender as mudanças, mas sempre no contexto institucional. Ou seja, a instituição importa (para ficar com o mote clássico dos neoinstitucionalistas).

[7] Embora não se deva ignorar a entrada de novos atores na arena legislativa, deputados de primeiro mandato, o fato é que estes não conseguem desviar-se com sucesso dos papéis estabelecidos ou evitar a lógica institucional. Nenhuma decisão importante é tomada sem que o pensamento institucional o permita. Há uma curva de aprendizagem, mas que pode ser encurtada pela imitação e pela agregação de assessores já devidamente treinados e conhecedores das minucias da ação parlamentar. Rapidamente, lá estarão os novos membros atuando como os demais. Quem foge do script torna-se um outsider e essa marca quase sempre leva ao insucesso na arena parlamentar.

[8] O que não difere de grande parte de outros parlamentares, sobre os quais pesam acusações de todo tipo. Portanto, não seria esse um fator preponderante, embora, na narrativa, possa ter um peso relevante.

[9] Evidente que Cunha conhecia bem a lógica institucional, mas não completamente para entender que a instituição é maior do que o que analises de conjuntura permitem capturar e que ela não responde a um indivíduo.

[10] Mais que isso, as instituições conferem uniformidade, assim como, aos indivíduos, conferem identidade. A importância das instituições (de sua análise) pode ser vislumbrada facilmente no fato de os indivíduos envolverem-se com a sua construção (das instituições) já a partir do início do empreendimento cognitivo, pois toda instituição responderia a uma tentativa de manter o vínculo social, a rigor sempre preexistente ao indivíduo.

[11] Apenas para mais um registro fora de lugar, lembremos que no modelo de escolha racional, os constrangimentos estruturais são importantes porque “tornam o repertório de cursos de ação abstratamente possíveis, reduzindo-os a um subconjunto infinitamente menor de ações exequível” (ELSTER, 1988, p.113). A ação racional, nesse sentido, diria respeito a ganhos, enquanto uma ação guiada, por exemplo, por normas sociais referir-se-ia a padrões compartilhados de comportamento, sustentados por aprovação ou desaprovação, sempre por meio de sanções externas ou, ainda, por sentimentos internalizados. (ESLTER, 1990).  Essa nossa avaliação, portanto, está em conformidade com tal modelo.


BIBLIOGRAFIA

BLOMGREN, M.; ROZENBERG, O. (ed). Parliamentary Roles in Modern Legislatures. London and New York: Routledge, 2012.

BOURDIEU, P. Sobre o Estado: Cursos no Collège de France (1989-92). São Paulo: Cia das letras, 2014.

DOUGLAS, Mary. Como as Instituições Pensam. São Paulo: Edusp, 1998.

ELSTER, Jon. Ulysses and the Sirens: Studies in rationality and irrationality. Cambridge: Cambridge University Press, 1988.

————. Nuts and Bolts for the Social Sciences. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.

FALLETI, Tulia G.; LYNCH, Julia F. Context and Causal Mechanisms in Political Analysis. In Comparative Political Studies, vol. 42, nº 9, September. Sage Publications: 2009.

POWER, Timothy; ZUCCCO JR., Cezar. O congresso por ele mesmo: Autopercepções da classe política brasileira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011