Comentário ao texto ‘DUAS CATEGORIAS DE JUÍZES’, da juiza Ludmila Lins Grilo, TJ/MG


Uma juíza de primeiro grau, do TJ/MG, indignada porque muitos têm criticado a ‘Justiça’ brasileira, fez uma defesa de si e de uma classe de juízes (segundo ela existem duas classes, os ‘juizes’ indicados (politicamente, segundo ela) e os concursados).
Para ela, os sem vergonhas que são indicados, como os Ministros do STF seriam moralmente inferiores e dados a cometer injustiças, a manipular o sistema, para beneficio próprio ou dos seus cupinchas.
O juiz concursado é justo e não deveria ser comparado a essa outra classe de magistrados.
A defesa da Juiza Ludmila Lins Grilo, TJ/MG, criminaliza a política, comme d’habitude, ressalta os valores de uma certa classe média, exalta a tecnocracia, repete bordões conservadores e dá-se ares de isenção.

O texto é ruim. Não resisti e respondo a ela:
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Li seu texto, intitulado DUAS CATEGORIAS DE JUÍZES. Li e não gostei.
 
Não é o modo como acessaram o sistema de justiça na condição de membros – seja indicação, pelo quinto constitucional, listas triplices ou sextuplas no STJ, indicação do/a Presidente/a da Republica, concursados, que faz um bom ou mal juiz, nem uma suposta ‘justiça de verdade’ faz essa diferença.
 
Posso concordar com a facilidade com que se identifica as merdas feitas pelo STF ou pelo STJ, mas convenhamos que há muita porcaria da lavra dos TRFs e TJs da vida (juízes de primeira instância em todo canto do país).
 
Isso não muda o fato de que o sistema de justiça que incorpora advogados ou membros do MP, pelo quinto constitucional por exemplo, seja interessante – embora o corporativismo da OAB e do MP, e o lobby portanto, tenha tornado em grande parte esse recurso algo inútil ou objeto de barganha bem perigoso.
 
Isso não muda também o fato de termos juízes de primeiro grau cheios de preconceito contra pobres, pretos e putas, conservadores até o ultimo fio de cabelo ou da careca, que sejam preguiçosos, que sejam covardes, que ‘julguem’ com seus valores de classe média, que se indisponham a questionar o trabalho porco e violento da polícia, que mantenham inocentes presos mesmo convictos de estarem sendo injustos, que não se deem ao trabalho de fundamentar suas muitas péssimas decisões (ou falta delas).
 
Claro que há idealistas, há excelentes técnicos, há vocacionados, há os que fundamentam suas decisões de forma correta, o mais isenta possível, o mais solidamente possível; há os corajosos, há os que têm de fato como missão aquela de serem ‘justos’, de se colocarem acima de seus preconceitos, de suas vontades, sabendo muito bem que os/as têm.
 
Mas ao ler algo assim, se é verdade, de uma ‘juiza’, vejo que a concursada não entendeu nada ou entendeu muito mal o que está em jogo, inclusive entendeu mal o seu próprio papel.
 
Está fazendo coro com o espírito fascista e conservador que se dissemina no país, graças sobretudo a nossa imprensa chapa branca, que criminaliza a política (como se o discurso dela não fosse ele mesmo político) e transforma o ódio ao diferente e à defesa dos Direitos Humanos, às minorias, ao diverso, aos movimentos sociais, às garantias – porque a criminalização da política leva a isso inevitavelmente.
 
Não dou um centavo por moralismos baratos e para uma defesa de castas de semideuses, de justiceiros, de tecnocratas, de ‘filósofos’ (bem ao estilo platônico), de salvadores da pátria. Embora, repito, seja claro que um STF possa conter Ministros que deem vergonha, por sua covardia ou ousada militância em prol de amigos e ideais pouco republicanos, os juízes de primeira instância, concursados, são responsáveis por muito da injustiça que reina no país e pela descrença dos mais pobres no sistema de Justiça (ou a senhora acha que o povo desconfia do judiciário por causa de Ministros do STF?).
Menos, doutora, menos.