Especulações. Um comentário a um post desesperançoso de um amigo. Lula e a política (nós) são maiores que o golpe.

Tenho convicção (embora seja complicado afirmar isso hoje em dia 🙂 ) de que não prendem o Lula (e não é porque não o desejem). Primeiro porque Lula recusou-se a ir para o sacrifício, ser o bode expiatório. Depois, por isso mesmo, fez o que todos nós deveríamos fazer todos os dias, Política.
O Golpe deveria ter sido dado em 2005, com a AP 470, pelo próprio STF e com a batuta do mesmo MPF golpista de sempre. Não conseguiram, as coisas se complicaram e, mais uma vez, Lula fez política. Ele já tinha projeção internacional e apoio popular acima da média. Enfraqueceram o PT e prenderam ninguém menos que José Dirceu e José Genoíno, dois nomes de respeito e força.
Para não ir mais longe, digo que apostaram que esse enfraquecimento seria suficiente para derrotar Lula. Enganaram-se de novo. Depois, bateram em muitas lideranças, com José Dirceu já fora do páreo, acreditaram que não seria possível que o PT emplacasse mais alguém, embora houvesse suspeita de que um nome de fora da legenda poderia ser apoiado, como Ciro Gomes ou Eduardo Campos.
Lula mais uma vez surpreendeu, fez a Dilma e fez também Haddad.
Então, fizeram mais uma aposta, Dilma não dura e se durar o governo vai ser tão ruim que não será reeleita, chegou a hora do PSDB (que já tinha levado pau com Serra e com Alckmin).
Enganaram-se de novo. Boicotaram o governo Dilma, Ministros caíram aos montes, ela não teve direito sequer à clássica Lua de Mel. Bateram nela até não mais poder e Lula adoeceu.
Mas Dilma surpreende e ainda pode colher frutos dos dois mandatos de Lula. O Brasil vai bem, a expectativa sobre o pré-sal é enorme, Lula saiu com a maior popularidade da história da Republica e isso ajudou a Dilma. E Dilma encontrou um caminho, mostrou ter uma fibra, uma segurança, uma capacidade de trabalho que os adversários subestimaram.
Dessa vez, o Golpe seria dado nas urnas, com muito dinheiro. O PSDB, que deveria reduzir sua bancada, gasta muito dinheiro em São Paulo, no Paraná e no Goiás, pelo menos. Deu certo, pelo menos no parlamento. Além disso, houve investimento externo pesado em pseudo movimentos como o MBL e VemPraRua e incentivo a malandros como o Revoltados OnLine e aos cretinos de sempre, como Diogo Mainardi et caterva.

A Globo exerceu seu papel com maestria, poluindo o ar com ódio e com a criminalização das esquerdas e dos movimentos sociais. Demonizou o governo Dilma como sabe fazer também muito bem.

Acontece que o dinheiro gasto não conseguiu reverter, como acreditaram (quem não se lembra da comemoração antecipada dos tucanos e da torcida de ministros do TSE?), a vitória do PT mais uma vez.
Hora do Plano B, meio atabalhoado e dependente de alinhamento com o PMDB. Tiveram que ceder às chantagens de Eduardo Cunha e gastar muito tempo e dinheiro para preparar o circo do falso impeachment, pois seria necessário dar ares de legalidade e fazer propaganda negativa de Dilma e do PT. Boa hora, uma vez que a Lava Jato já estava no horizonte. Hora de apostar no caos e dar corda para o MPF de novo. Elegeram Moro para conduzir a cruzada e gastaram um ano para produzir o projeto do impeachment (que quase não saiu e teria sido derrotado se não tivessem conseguido impedir o Lula de assumir a Casa Civil – acontece que Lula não pretendia mais envolver-se diretamente com a política de Estado, de Governo, e houve um erro de cálculo: acreditaram que os golpistas não iriam tão longe).
Havia alguém inteligente e calhorda o suficiente para conduzir o golpe. Alguém paciente e que conhece os meandros do parlamento e das estatais como ninguém: Eduardo Cunha. Foi alimentado com dinheiro suficiente para comprar 200 parlamentares (cujas eleições financiou). A ideia já era, no mínimo, manter o governo refém do parlamento e de políticas que minariam a governabilidade até as próximas eleições, mas não tiveram paciência e a Lava Jato acabou se descolando dos seus patrocinadores (também é possível que alguns tenham ficado gananciosos, como a Globo – que pode ter calculado ser melhor ficar com o controle total da narrativa, assim, poderia barganhar com quem quisesse nos termos que bem quisesse).

O porém, mais uma vez, é que apostaram alto demais e acreditaram que teriam o domínio da realidade (e das narrativas) por muito tempo, tempo suficiente para fazer um novo governo surgir. Apostaram errado também com o PMDB no comando. Há aves de rapina muito sedentas e, no meio de coisas combinadas, começaram a aparecer as mesquinharias de sempre. Lambuzaram-se e lambuzam-se, ao mesmo tempo em que, repita-se, a Lava Jato procura descolar-se e decolar, com apoio da mídia – para tentar controlar os lobos que tomaram conta do governo.

Esse quadro nunca foi pensado assim, as consequências não buscadas quando aplicado o Golpe geram outras consequências e cada vez mais fica complicadíssimo ter o monopólio da narrativa, de prever movimentos (dos adversários principalmente, mas também dos aliados).

Não esqueçamos também, o que é muito importante, é que interesses externos sempre estiveram presentes no GOLPE, inclusive no seu planejamento. Os agentes externos têm mais paciência, e ganham de qualquer jeito, com o sucesso ou insucesso do golpe. Muitas vezes o que se quer (queria) era reduzir a importância do país, a confiança no país. Claro que há interesse em compra de terras, na exploração do petróleo, na prestação de serviços, na venda de bens, de insumos, na redução de preços, em juros altos para especulação, mas não fariam guerra direta por isso. Sempre há aliados e sempre há ganhos, maiores ou menores. Abrem-se fendas, caminhos, aguarda-se.

Evidentemente, há a possibilidade de investir-se para prolongar o caos. Mas mesmo isso não implica apoiar os golpistas atuais, ao contrário. Um Doria ainda está muito fresco e um Bolsonaro é muito tosco, mas quem sabe numa próxima eleição (2022)?
Além disso, um país enfraquecido vai ceder, mesmo com um governo aparentemente forte (se estiver endividado e não conseguir devolver a confiança), vai ser devorado por organismos internacionais e vai, repita-se, ceder em muitas negociações.

Tudo isso para voltar à Lava Jato e a Lula. A Lava Jato já cumpriu seu principal papel e já incomoda os tubarões. Ela já não terá apoio sequer da imprensa, que tem juízo nesses casos – ela não deseja uma ditadura do judiciário.

Lula faz política como poucos. Tem apoio internacional. A narrativa do Golpe foi vencedora. E hoje o desgoverno não tem apoio de praticamente ninguém.

Vão tentar emplacar reformas? claro, não custa tentar, o ganho seria grande se passassem, para o mercado, para os endinheirados. E empobreceria o país, o que é bom para a direita e para certo tipo de empresário.

Mas a expectativa de que ou vence Lula ou vence um outsider, incontrolável (mas igualmente impeachmável se não obedecer os donos do poder), não são boas para os financiadores do golpe.

Lula é mais palatável, acreditem, pois já provou ser capaz de diálogo e não fez nenhum avanço radical (infelizmente) que prejudicassem os rentistas ou, mesmo, os donos da opinião publicada.

Lula está vivo e colocou a todos em situação delicadíssima. E os golpistas ajudaram, pois se Temer estivesse bem, se o desgoverno agradasse, se tivessem apostado em outro tipo de estratégia, talvez Lula não tivesse a importância que têm hoje, talvez o discurso dele não fosse tão relevante.

A lição é não abaixar a cabeça, fazer política todo dia, disputar a narrativa com todas as armas disponíveis (mesmo que o adversário jogue baixo, como a imprensa em geral e movimentos (MBL) e partidos (PSDB, PP, DEM), com investimento em boatos, ataques pessoais, desmoralização de pessoas e instituições, em contrainformação). Manter a mobilização e responder no mesmo tom, e na mesma hora, todo e qualquer ataque. O principal é acreditar na verdade e na capacidade de as pessoas a compreenderem. Mais fundamental ainda é não desacreditar no povo.