Arquivo mensais:fevereiro 2018

O CARNAVAL COMO RITUAL: INVERSÃO, CONFLITO OU PASSAGEM?

O estudo de rituais tem um lugar especial na antropologia, em particular na antropologia de língua inglesa. O interesse pelos rituais vem junto com, não poderia ser diferente, a tentativa de explicar a dinâmica social. O ritual não se explica em si mesmo.

Sem problematizar explicações mais estruturais ou mais funcionais, o fato é que é um pressuposto que a ordem social é dinâmica, embora a estrutura do grupo social atue para impedir mudanças, ou pelo menos mudanças bruscas. Nenhuma novidade até aqui.

Os rituais se relacionam com a ordem social diretamente. Há ritos, chamados ‘de calendário’, que se repetem de tempos em tempos, geralmente ligados a passagens de estações, ao ritmo do trabalho (por exemplo, plantio, colheita, pesca, caça…), para relembrar eventos cujo simbolismo reforça a identidade e a coesão social, por exemplo. Mesmo em sociedades mais complexas, grandes religiões mantém rituais que se repetem em datas especificas, os mais importantes anualmente.

Esses rituais são, obviamente, coletivos. Sua realização, como nos rituais de inversão, por serem coletivos, suspendem a ‘ordem’, ou pelo menos a realidade cotidiana, transformando-a por um tempo específico.

Nesse momento, é comum a inversão de papeis, de valores, de status. O pecado é permitido, os homens se travestem de mulheres (ou assumem papeis antes exclusivos para as mulheres), mulheres se vestem de homens ou agem como se fossem homens (aqui referimo-nos aos papeis sociais mesmo), utilizando ferramentas, instrumentos, linguajar que são proibidas de acessar durante o resto do ano. Reis são transformados em párias, em escravos, havendo casos em que são maltratados, xingados, poderosos se colocam no lugar dos mais humildes, servindo-os, usando roupas mais simples ou farrapos.. enfim, o ritual de inversão altera a ordem, o mundo familiar, para depois de encerrado tudo voltar a ser como antes, quase sempre com mais força e com maior resignação.

O que fica evidente nesses rituais são os conflitos que a vida em comum gera, que os papeis sociais provocam, que a estrutura social inevitavelmente cria. Também deixar clara a compreensão da injustiça dessa estrutura, embora não avance ao ponto de expressar mudanças. Serve para descomprimir, se podemos dizer, as tensões. Os conflitos, latentes, são ritualmente expressos e ‘resolvidos’, tornando a vida um pouco mais suportável.

Se há outros motivos para a realização do ritual, sua repetição, sem dúvidas, tem muito a ver com essa necessidade de dissipar as possibilidades de os conflitos saírem do controle, que desestabilizem as estruturas estabelecidas.

Não avanço sobre a questão da luta de classes, nem reputo absurdo tratar os rituais como armas dos poderosos para manutenção da ordem, do status quo. A verdade é que o estudo antropológico dos rituais teve como foco inicial sociedades menores, em que as desigualdades não eram exatamente o problema central. Além disso, produziu-se bons estudos sobre a mudança social como fruto da dominação colonial. O surgimento de novos rituais, mas cuja estrutura assemelha-se a outros, como resultado da necessidade de lidar com crises.

Nem pretendo aqui abusar e tratar isso teoricamente, há material de sobre disponível, apenas havia iniciado um exercício (e não foi a primeira vez) de analise sobre o carnaval brasileiro, mas motivado por algumas coisas bem objetivas: a quantidade de blocos de carnaval e de foliões que, aparentemente aumentaram substantivamente, os nomes de alguns blocos e as temáticas abordadas em sambas, marchas e frevos, os protestos nos sambas enredos e fantasias em escolas de samba, atos promovidos a partir da motivação do carnaval…..

Um ponto é pacifico: vivemos uma crise. Não sei como definir ou descrever de forma adequada essa crise, talvez seja um conjunto de crises, mas ela se tornou grande por meio de um artifício, com a mídia gerando, dia e noite, mensagens que visavam convencer o maior número de pessoas, em particular à classe média, de que as coisas ‘iam mal’, na economia, na concepção do estado, no campo moral. Tudo deveria ser considerado um erro: o sistema educacional, o sistema de saúde, as políticas culturais, as políticas sociais, as estatais, as instituições de modo geral, mas particularmente o Legislativo e o Executivo. Os governos do PT deveriam ser desconstruídos, motivo pelo qual veículos como a Rede Globo gastaram dezenas de horas atacando a Presidenta Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula, líderes do Partido, além de outros partidos aliados…. a dinâmica é bem conhecida, embora a coordenação dela gere duvidas, incluindo o modo de participação de estrangeiros.

O fato é que, como em outros lugares do mundo, conflitos foram amplificados e agitadores foram financiados para criar confusão, popularizar ideias, mentiras, serem porta-vozes de criticas para enfraquecer e destruir adversários políticos.

Um GOLPE de Estado foi levado a cabo, com apoio de empresários, do Legislativo e do sistema de Justiça como um todo. Um bandido, com inteligência e disposição acima da média, elevado à condição de presidente da Câmara dos Deputados, levou a cabo a destruição das condições de uma presidenta eleita continuar governando.

Um presidente ilegítimo levou adiante um programa de desmonte de políticas sociais, da legislação trabalhista, de desmantelamento da Petrobras, da venda de estatais, da redução de recursos para todo e qualquer investimento no país. É algo assustador e promovido por um conjunto de cretinos sem compromissos com o país e com o povo.

Nesse contexto, a instituição que se mantinha, junto com as Forças Armadas, um tanto preservada da descrença da população, o Judiciário, levou a cabo, por meio da famigerada operação Lava-jato, junto com a Polícia Federal e o Ministério Público, ao que tudo indica, treinados e municiados pelos Estados Unidos (com cursos, com informações, com acordos obscuros, sabe-se lá por quanto tempo e desde quando), um projeto de destruição da política, para criminaliza-la, do sistema partidário, de perseguição a lideranças políticas, além do desmonte de empresas de grande porte, responsáveis por obras fundamentais e empregos aos milhares.

Vivemos uma crise sem precedentes. Agora a descrença, a desconfiança, atinge a todas as instituições, o progresso alcançado pelo país, inclusive de sua imagem internacional, sofrem reveses enormes. A fome volta a nos assustar, o número de desempregados chega às alturas, ambulantes, sem teto, a violência no campo e na cidade crescem em intensidade e vitimas dela avolumam-se como nunca. Falta dinheiro para educação e saúde, farmácias populares são fechadas, a população empobrece aceleradamente, as polícias reprimem violentamente, a lei é usada para perseguir, repitamos, adversários. Jovens são presos acusados até de terrorismo, lideranças populares são perseguidas, violentadas, presas, assassinadas. Professores são tratados como inimigos, com bombas, tiros de borracha, atropelados, xingados, espancados, enquanto governos estaduais atuam como aves de rapina sobre salários, fundos de pensão, previdência, estatais, merenda escolar.

Já vivemos coisas piores, não há duvida, pelo menos para as periferias, para o morro, para os camponeses, mas além da intensidade e do fato de que estávamos vivendo um dos melhores momentos de nossa história, um dos mais felizes, e a disseminação pela mídia de mentiras insanas como a de transformar os bons momentos em maus e os maus em bons, levou a todos com um pouco de senso crítico a perceber que, além de tudo, vivemos momentos de incerteza sobre a verdade, sobre o real. A mídia é tida como responsável pelo caos, pelas mentiras.

Acho que já é suficiente para nos darmos conta de que quase dois anos de mobilização, de atos, de manifestações, de enfrentamentos, nos exauriram, embora também nos tenham fortalecido e, para grande parcela da população, direcionado para a ação política como único meio de atuar eficazmente. Isso com o boicote da grande imprensa, que tenta por todos os meios dominar a narrativa, apesar de ter perdido aquela referente ao GOLPE (do impeachment) e não estar mais conseguindo manter por muito tempo sua versão isolada (embora conte com mecanismos e ferramentas muito mais eficientes, além de controlar agentes dentro das estruturas do poder do Estado).

Termos sido atropelados com as ações de Eduardo Cunha, que transformou a Câmara dos Deputados numa espécie de quartel general, do qual ele era comandante supremo, com um plano de guerra para destruir o país, depois, quando foi cassado, herdado por seus pupilos e completamente dominado pelo governo golpista e seu entreguismo desenfreado, nos deixou a sensação de impotência e de força dos golpistas, mas não arrefeceu os ânimos, a despeito de muito desespero e cansaço.

Os avanços para destruir o maior partido de esquerda do país, da América Latina, quiçá do mundo, obrigou a uma certa dispersão de energia. Os ataques ao ex-presidente Lula, os planos para eliminá-lo da vida pública, de apagar da memória seu legado e o de seu partido, foram violentos, sanguinários até, foram e continuam sendo cruéis, desleais, planos dos quais temos visto participar praticamente todo os Sistema de Justiça e aplaudidos pelos donos do poder e de seus representantes no sistema político, mas tendo a mídia, vamos reforçar, como aquela que faz a coordenação desses planos e que se encarrega de criar e reforçar a narrativa da criminalização. E não só criminalização, lembremos que houve um esforço enorme para desqualificar moralmente pessoas e projetos, incluindo uma suposta ‘ideologia de gênero’, uma suposta manipulação e ideologização da/na educação, fascistas, nazistas, homofóbicos, agressores de mulheres, racistas de toda ordem, apresentaram-se desavergonhadamente porque lhes foi preparado terreno, porque foram incentivados e protegidos, inclusive pela mídia.

Apesar disso, e por causa de Lula e da história do Partido dos Trabalhadores e seu legado, mas também porque grupos de esquerda se mobilizaram e foram incansáveis nas denuncias e na resistência nas ruas, nos locais de trabalho, nas redes sociais, na imprensa alternativa, na disseminação de uma outra narrativa para fora do país, porque, por causa disso tudo, se teve apoio internacional, de governos e grupos que compreenderam tratar-se de um golpe orquestrado desde fora, o que é um perigo para todo o mundo. Apesar disso, o GOLPE não fechou as contas e não se conseguiu destruir os inimigos.

O cansaço e a descrença, as derrotas, a violência, física e simbólica, a exacerbação de conflitos, alguns artificialmente inflados (coxinhas x petralhas, direita x esquerda), tudo isso nos leva ao momento presente, que é tenso dada a possibilidade de que o golpe da Lava-jato contra o PT e o ex-presidente Lula cheguem ao objetivo de prender o maior presidente do país, sem crime. Esse é um momento em que, ao mesmo tempo se desgastou como foi possível a crença na política e que um personagem, Lula, representa a única saída real da crise, por meio da política. A luta de classes mostra-se evidente.

Mas tanto cansaço e a quantidade de revezes, de maldades, ilegalidades, de mostras de vivermos um Estado de Exceção, deram, ironicamente, uma direção para a crise e para a avaliação sobre ela. Se há uma descrença em relação a saídas institucionais, pois vivemos um golpe, e as instituições participaram e participam dele, deve-se buscar alternativas, saídas, fora das instituições. No entanto, as instituições mesmas são vistas como inimigas, que devem ser denunciadas e, na medida do possível, destruídas ou mudadas.

Voltamos ao carnaval. Sim, o carnaval tem um papel de distensão, mas não precisa necessariamente acalmar os foliões, mas ajudar a esclarecer o que estava sendo ocultado, boicotado, apontando ou reforçando os ‘culpados’ pela crise, ressaltando que essa compreensão de quem é adversário (como o prefeito do Rio de Janeiro, por exemplo, a Rede Globo, ou o presidente Vampirão Temer, ou os patos da Fiesp e paneleiros padrão Fifa) e de quem está do lado do povo ou de um projeto melhor de país (como o ex-presidente Lula).

O fato de termos neste ano de 2018 tantos blocos de carnaval, aparentemente em todo o Brasil registrou-se aumento deles, e de criticas explicitamente políticas nas musicas e temáticas desses blocos e de Escolas de Samba, pode representar um momento em que a crise é tratada para não deixar explodir conflitos que ameacem a ordem, mas pode ser apenas um momento que trate parte da crise, aquela do cansaço e da descrença, e renove a disposição da militância e do povo em geral para as lutas que virão.

2018 iniciou como se 2017 não tivesse terminado, não sentimos a passagem, não houve descanso. Janeiro de 2018 foi tomado de nós pelos poderosos, com suas ameaças, de mais violência, de mais maldades, pelo Julgamento do ex-presidente Lula. Foi um mês tenso, tensão que se estende para fevereiro, com a Deforma da Previdência e com ameaças de prisão de Luis Inácio Lula da Silva. Então, o carnaval, parece ter marcado o rompimento com 2017 (e com 2016), e se transformado num ritual de passagem, não num mero ritual de inversão.

A crise, sua ampliação, as tentativas de resolvê-la – inclusive com as mobilizações, agora dá lugar ao ponto crítico desse esquema clássico, que é o de uma cisão completa ou um rearranjo. Como não parece que as mobilizações e nem mesmo as ofensivas dos golpistas tiveram sucesso em conter os conflitos, em fazer cessar a crise, tudo indica que há grande possibilidade de uma cisão, de alternativas novas, de que surja no horizonte, pelo menos, a ideia de soluções, de saídas outras.

De toda sorte, nesse momento terrível, temos o direito de usar todos os meios possíveis para expor nossos adversários, denunciá-los, deixá-los nus, sejam patos, paneleiros, fascistas, entreguistas, golpistas, vampiros ou não. Sabendo que isso não basta, mas que, ao fazer isso, incentivamos outros a também se manifestar e juntarem-se à festa. Compete a nós não permitir que a festa seja um fim em si mesma, que sua função ritual não se resuma a aliviar as tensões, mas a usá-las melhor, para mais e melhores mobilizações.

Viva Paraíso do Tuiuti (samba “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”), que tanta alegria nos deu nesse carnaval, viva a Beija-Flor* e seu samba Monstro É Aquele Que Não Sabe Amar (Os Filhos Abandonados da Pátria Que Os Pariu), viva a Mangueira que mandou seu recado para o prefeito evangélico, viva todas as escolas de samba do Rio de Janeiro que vão desfilar apesar do prefeito Crivella e seu partido golpista, viva todos os blocos de carnaval do Brasil, viva o bloco Quando Como se Lambuza e o bloco Tico Tico de Belo Horizonte, viva os foliões que invadiram o aeroporto Santos Dumont, viva o Pacotão em Brasília, viva o Sapo Barbudo, Os Filhos e Filhas de Marx em Pernambuco, enfim, viva o povo brasileiro. Temos salvação.

 

*apesar da musica ter um tema aparentemente crítico, a Beija-Flor, no final das contas, fez o papel da classe média coxinha, do tipo: ‘contra tudo isso que está aí’. A crítica na realidade foi criminalização da política, fez eco aos coxopatos e só faltou exaltar a Lava-Jato. Então retiro meu viva.
A Globo gostou.