Arquivos da categoria: Antropologia/Teoria Social

Quadros de Guerra (Judith Butler)

           ( Judith Butler)

“… procuro chamar a atenção para o problema epistemológico levantado pela questão do enquadramento: as molduras pelas quais apreendemos ou, na verdade, não conseguimos apreender a vida dos outros como perdida ou violada estão politicamente saturadas. Elas são em si mesmas operações de poder. Não decidem unilateralmente as condições de aparição, mas seu objetivo é, não obstante, delimitar a esfera da aparição enquanto tal. Por outro lado, o problema é ontológico, visto que a pergunta em questão é: o que é uma vida?”
BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto?. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015, pp.13-14 )

Herdeiros de Seattle. Um novo mundo é possível.

Hériter de Seattle

“”Un autre monde est possible!” est un cri. Sa puissance propre n’est pas celle d’une thêse ou d’un programme, dont la valeur se juge à leur «plausibilité ». Il n’autorise aucune mise en perspective triomphale et ne propose aucune garantie. C’est pourquoi d’ailleurs le singulier “un autre monde” convient: il ne s’agít pas d’une allusion à un monde particulier, que nous pourrions définir, ni non plus à n’importe quel autre monde (tout mais pas ça). Il s’agit d’en appeler au possible contre l’allure inexorable du processus qui s’est installé et qui, bien sur, continue aujourd’hui de plus belle. Il s’agit de briser quelque chose qui était de l’ordre de l’envoutement, de l’impuissance sidérée dont même ceux qui luttaient encore pouvaient sentir la proximité. Nous dirons que ce cri est le nom d’un événement, et que la force de cet événement est la maniere dont il fait exister, pour tous ceux, toutes celles qui lui répondent, la question : comment hériter, comment prolonger ? Comment devenir enfant de cet événement?”

PIGNARRE, Philippe Pignarre & Isabelle Stengers

(PIGNARRE, Philippe; STENGERS, Isabelle. La sorcellerie capitaliste: Pratiques de désenvoûtement. Paris: Éditions La Découverte, 2007, p. 10)

A naturalização da sociedade liberal e a origem histórica das ciências sociais (Edgardo Lander)

Edgardo Lander

II. A naturalização da sociedade liberal e a origem histórica das ciências sociais

“O processo que culminou com a consolidação das relações de produção capitalistas e do modo de vida liberal, até que estas adquirissem o caráter de formas naturais de vida social, teve simultaneamente uma dimensão colonial/imperial de conquista e/ou submissão de outros continentes e territórios por parte das potências europeias, e uma encarniçada luta civilizatória no interior do território europeu na qual finalmente acabou-se impondo a hegemonia do projeto liberal. Para as gerações de camponeses e trabalhadores que durante os séculos XVIII e XIX viveram na própria carne as extraordinárias e traumáticas transformações (expulsão da terra e do acesso aos recursos naturais), a ruptura com os modos anteriores de vida e de sustento condição necessária para a criação da força do trabalho “livre” e a imposição da disciplina do trabalho fabril, este processo foi tudo, exceto natural.

As pessoas não entraram na fábrica alegremente e por sua própria vontade. Um regime de disciplina e de normatização cabal foi necessário. Além da expulsão de camponeses e de servos da terra e da criação da classe proletária, a economia moderna exigia uma profunda transformação dos corpos, dos indivíduos e das formas sociais. Como produto desse regime de normatização criou-se o homem econômico (ESCOBAR, 1995, p. 60*).“

(LANDER, Edgardo. Ciências sociais: saberes coloniais e eurocêntricos. In LANDER, Edgardo (org.) A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Colección Sur Sur. Buenos Aires: CLACSO,  2005, p. 12)

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Autro Escobar

* ESCOBAR, Arturo. Encoutering Development. The Making and Unmaking of the Thirld World. Princeton: Princeton University Press, 1995.

The Three Worlds, or the Division of Social Scientific Labor (Carl E. Pletsch, 1981)

 

Carl E. Pletsch

“Substitutions like that of the word “traditional” for “primitive” were part of a general Western tendency to clean up the language of government, journalism, and social science in reference to the rest of the world. Terms evoking ethnocentrism, condescension, imperialism, and aggression were systematically replaced by apparently neutral and scientific terms – euphemisms. Not only did former colonies become “developing nations” and primitive tribes become “traditional peoples,” the War and Navy Departments of the United States Government were transformed into the “Defense” Department. This was also the time when “the end of ideology” was announced by Daniel Bell.’* But the simplicity of the categories-as distinguished from the euphemistic character of the new terminology-evinces the propensity for general ideas noted by de Tocqueville. It would have been simply impossible to explain the need for foreign aid and vast military expenditures in a time of peace with categories any more differentiated than those marshalled under the three worlds umbrella.” (p. 575)

[…]

“(…) let us see what can be derived from the distinctions among science, ideology, and culture. Western social scientists have reserved the concept of culture for the mentalities of traditional societies in their pristine states. They have designated the socialist societies of the second world the province of ideology.  And they have long assumed-not unanimously, to be sure-that the modern West is the natural haven of science and utilitarian thinking. Consistent with this scheme, one clan of social scientists is set apart to study the pristine societies of the third world-anthropologists. Other clans-economists, sociologists, and political scientists-study the third world only insofar as the process of modernization has already begun. The true province of these latter social sciences is the modern world, especially the natural societies of the West. But again, subclans of each of these sciences of the modern world are specially outfitted to make forays into the ideological regions of the second world. Much as their fellow economists, sociologists, and political scientists who study the process of modernization in the third world, these students of the second world are engaged in area studies. What distinguishes their area is the danger associated with ideology, as opposed to the now innocent otherness of traditional cultures. But the larger contrast is be-tween all of these area specialists, whether of the second or third world, and the disciplinary generalists who study the natural societies of the first world.” (p. 579)

*BELL, Daniel. The End of Ideology. Glencoe: Free Press, 1960

PLETSCH, Carl E. The Three Worlds, or the Division of Social Scientific Labor, Circa 1950-1975 In Comparative Studies in Society and History, Vol. 23, No. 4. (Oct., 1981), pp. 565-590. Cambridge: Cambridge University Press, 1981

O MURO DE BERLIM E O BRASIL PÓS-DILMA

O MURO DE BERLIM E O BRASIL PÓS-DILMA

Luiz Moreira Gomes Júnior[1]
Erivan da Silva Raposo[2]
Queda do Muro de BerlimQueda do Muro de Berlim
“Depois da queda do muro, o mundo não voltou a ser mais seguro. Pelo contrário: o número de conflitos sociais, guerras étnicas e religiosas aumentou. Nem a ser mais justo, pois a distância entre os mais ricos e mais pobres cresceu. A sensação comum é de caos na política mundial”
(Mikhail Gorbachev, na abertura do Fórum Político Mundial, realizado na cidade de Bosco Marengo, Itália, em 2009)

 

 Plenário da Câmara dos Deputados, votação do Impeachment (Agencia Câmara)

Plenário da Câmara dos Deputados, votação do Impeachment
(Agencia Câmara

 

No dia 09 de novembro de 2016, completar-se-ão 27 anos da queda do muro de Berlim, 155 quilômetros[3] de uma estrutura de concreto, erguida pela República Democrática Alemã (RDA) em 1961, e que se transformou num símbolo da Guerra Fria. A separação entre Alemanha Oriental e a Europa era a separação entre dois modelos de sociedade, entre dois modelos de exercício do poder, de economia e de política.

Por muito tempo, era como se esse muro dividisse não apenas países da Europa, mas todo o mundo; Osis (alemães orientais) e Wesis (alemães ocidentais) representavam coisas distintas: esquerda e direita; alinhados e não-alinhados; comunismo e capitalismo; União Soviética e Estados Unidos; o mundo polarizado fornecia certezas sobre o certo e o errado, o próspero e o atrasado, o bom e o mau, o claro e o escuro.

Em 09 de novembro de 1989, 28 anos após ter sido erguido, o muro de Berlim fora derrubado e, com ele, uma estrutura simbólica que se conjugava pela polarização, cujas categorias ajudavam a classificar as coisas, a separar as pessoas, a marcar posições, a dividir espaços e a fazer a leitura da história.

A queda do muro de Berlim representa virada na história (como a leem os ocidentais), para a qual não tardaram a decretar o fim. O fim da história[4] seria o fim de qualquer expectativa de mudanças estruturais no mundo conhecido, de qualquer modelo que não fosse decorrente do capitalismo e da narrativa liberal sobre economia e organização política. Não há nada após o capitalismo, no máximo uma nova etapa dele, que poderia significar avanço positivo da e na História.

Essa ideia de um fim da história nasceu moribunda, sendo logo desmentida pelas guerras étnicas que se multiplicaram não apenas na África, mas também na Europa. Novos movimentos foram feitos no xadrez das relações internacionais e na reorganização do poder no contexto geopolítico.

A dominação ocidental sobre o Oriente gerou violência similar ou superior à anterior, com novos conflitos instalando-se, mas dessa vez com viés religioso, utilizando categoria com a qual as anteriores divisões simbólicas passaram a conjugar os termos amigo/inimigo: o Terror.

A certeza que o Ocidente tem em relação a seus inimigos, incluindo o terror que atribui às vestes islâmicas, é inversamente proporcional à incerteza das esquerdas em relação ao modo que devem lidar com esse mundo pós muro de Berlim.

Na Europa, a pós-modernidade é a designação que filósofos[5] e certa sociologia darão à condição sociocultural e estética predominante no pós Muro de Berlim, no contexto hiper-abrangente do capitalismo.

Muitas categorias e teorias, caras às esquerdas, foram problematizadas[6], quando não descartadas como insuficientes ou inadequadas para lidar com o ‘pós-moderno’. Há quem fale no fim das esquerdas e de seus projetos, ou de uma crise de tal monta que dificilmente emergiria novamente uma esquerda como se a conhecia até então.

Houve inclusive discurso que afirmava ter o político perdido seu lugar, esvaziado de sentido e de conteúdo, segundo o qual a vitória do capitalismo (e do neoliberalismo) teria nos liberado da necessidade de ‘fazer política’, vez que não há o que a política possa fazer e o tempo passaria a ser regido por tecnocratas, reduzindo o governar a mero ato de gestão. Essa gestão seria expressão de decisões técnicas (policy) e não se confundiria com deliberações políticas (politics).

Nesse movimento de supremacia da técnica sobre a política, da gestão sobre a deliberação, são conjugados tanto um movimento de descrédito intelectual, que podemos vislumbrar já em 1973, com a publicação, por Alexandre Soljenitsyne, de seu L´archipel du Goulag, e a consequente recuperação de autores como Raymond Aron, Marcel Gauchet e mesmo Tocqueville (ONFRAY, 2004), quanto a ascensão de governos regidos por imperativos de gestão, cuja expressão maior foi o neoliberalismo, com Margaret Thatcher e Ronald Reagan.

A queda do Muro de Berlim seria, portanto, um marco simbólico desse movimento que se denomina neoliberalismo, que pode abranger mais que uma política econômica, tornando-se modelo de mundo e do homem, a partir da qual se vai poder declarar, sem dificuldades, como já apontado acima, o fim da história, em que intelectuais e formadores de opinião passaram a professar a inexistência de alternativas a esse movimento, restando o acatamento das diretrizes gestadas pela burocracia, que passa a substituir a disputa política pelo resultado derivado da concentração dos poderes.

Não por acaso, o discurso de fortalecimento da política, da democracia deliberativa e da política de inclusão é severamente combatido, implicando reação lenta e desarticulada dos partidos e movimentos de esquerda, cujo vazio foi parcialmente preenchido por críticas aos efeitos da modernidade e por demandas por direitos e análises sobre a redemocratização dos países antes classificados como ditaduras ou como regimes totalitários, com sua respectiva constitucionalização.

Nesse sentido, a constitucionalização representou o controle da sociedade civil pelos tribunais constitucionais, subordinando o processo de deliberação política pelo processo judicial, a política pela técnica, expurgando, praticamente, das tomadas de decisão politicamente relevante os atores políticos[7].

Com a queda do Muro de Berlim, esse ambiente de hipercriticidade perde força e colabora para a desarticulação das esquerdas. Houve inclusive a ampliação de ataques às esquerdas tradicionais, assumindo lugar uma ‘nova esquerda’, que dialoga com as ideias neoliberais e se adapta ao ambiente de fim da história, chegando mesmo a negar a importância do Estado[8]. Predominava, assim, a crítica às ‘grandes narrativas’, que seria uma espécie de manifesto contra outra opressão, a da teoria, a de uma certa noção de verdade que nos ‘obrigava’ a olhar o mundo também de uma certa maneira (uma maneira ‘certa’). Tempos críticos e de crítica em que havia um constrangimento generalizado contra o uso de categorias universalizantes ou de explicações abrangentes[9].

Embora demorem a reagir, os partidos e movimentos de esquerda se reinventaram. No entanto, muito se perde nesse caminho. Não sabemos se o termo crise existencial se aplicaria de forma abrangente, mas é significativa a quantidade daqueles que passaram a renegar a política, formulando críticas ácidas, e quase sempre ressentidas – e não apenas ao marxismo, substituindo a crítica ao capitalismo por questões setoriais, desarticuladas de uma contestação do sistema das necessidades.

É nesse quadro que autores como Anthony Giddens sustentam a ideia de que a sociedade atual[10] seria extremamente complexa e que a divisão tradicional entre esquerda e direita não seria mais uma referência adequada para caracterizar o presente e nem para formular políticas adequadas ao nosso tempo.

Em 1998, Giddens sistematiza o que chama de Terceira Via, a partir de um conjunto de preceitos, por meio dos quais a social democracia conseguiria reconquistar o ‘público’ de maneira ativa e socialmente eficiente. Diferentemente da esquerda ‘clássica’, essa nova ‘esquerda-do-centro’, a da terceira via, estaria menos focada em questões macro e mais nas questões micro. O indivíduo, e não a sociedade, passaria a merecer atenção, com o consequente abandono das questões estruturais e com a respectiva adoção de temas comportamentais.

A supremacia da gestão, ínsita à terceira via e ao neoliberalismo, implicou contestação das políticas públicas que produziram o Estado de Bem-Estar social e, que até os anos 1970, resultou em queda significativa nas taxas de desigualdade. Não apenas a desigualdade voltou a ser uma característica marcante no Ocidente como um todo, como a ideologia neoliberal se imunizou ante as críticas, de modo a permitir a generalização de uma passividade prática frente ao sistema geral das desigualdades (ROSANVALLON, 2011).

Essa passividade atingiu os partidos e os movimentos de esquerda, afastando-os da possibilidade de construir com a sociedade um caminho para sua resolução.

O Brasil pós Dilma

Inevitavelmente, a queda do Muro de Berlim teve seu impacto no Brasil e gerou discussão sobre as perspectivas da esquerda no país, e isso mal havíamos formulado uma nova Constituição e iniciado uma nova fase da história da República, com o fim dos governos militares, iniciado em 1964.

Uma vez, porém, que as esquerdas ainda estavam em pleno processo de reorganização e sua última experiência de governo, com João Goulart, foi o motivo mesmo do golpe militar, o impacto inicial foi mais teórico que prático. De  todo modo, os partidos e os movimentos de esquerda foram enquadrados pelo sistema político vigente e o poder deixou de ser uma questão acessível por intermédio de revoluções, e o exercício de parte do poder deveria ser disputado nas urnas, com o acatamento das regras eleitorais.

Portanto, os partidos revolucionários cedem espaço aos partidos da ordem burguesa, na medida em que as regras do jogo eram estabelecidas pelas disputas políticas, eleitoral e parlamentar.

Nas eleições de 1982[11], apenas o PDT, como partido de esquerda, conseguiu eleger um governador[12] e o PT, apenas dois prefeitos em todo o país.

Em 1986, o PT elegerá apenas um prefeito, o que ocorreu em Fortaleza. Em 1988, porém, apenas um ano antes da queda do muro, e já sob um novo regime constitucional, esse número cresce para 38[13]. É em 1989, ano da derrubada do Muro, que os brasileiros elegerão, 25 anos depois do golpe de estado que culminou em uma ditadura militar, seu primeiro presidente da República em eleições diretas, pleito do qual participaram os partidos de esquerda existentes no país.

Se a derrubada do Muro gerou dúvidas sobre o papel das esquerdas, sobre a configuração de um projeto, provocando reflexões sérias sobre sua identidade, as questões práticas a resolver, no caso brasileiro, geradas pela disputas eleitorais pelo poder, parecem ter pesado mais sobre os partidos do que as questões teóricas[14]. Aqueles partidos que, como o PCB[15] e o PCdoB, tinham maior identidade com os partidos comunistas e socialistas europeus, de matriz marxista, parecem ter tido maior dificuldade em superar os impasses surgidos em 1989.

No entanto, o sucesso eleitoral do PT não evita que se aprofunde a crise das esquerdas clássicas no país. Quando o Partido dos Trabalhadores sai vencedor do pleito presidencial em 2002, 13 anos distanciava esse feito histórico da queda do Muro de Berlim e, para muitos, já não era mais o mesmo partido idealizado no final dos anos 1970 e registrado em 1982, o que conquistara a executivo federal.

A despeito disso, os partidos de esquerda no país persistem, com alinhamentos estratégicos ocasionais, mas críticos uns dos outros. Caracterizaram as esquerdas brasileiras nos anos 1970 e 1980 as divergências, as cisões e as acusações de “aparelhamento” partidário aos que ousavam produzir análises divergentes.

O PT, por exemplo, vai ser acusado de acatar a agenda neoliberal e de fazer concessão à ordem burguesa, de pactuar com as elites. Uma das avaliações correntes é a de que o Partido dos Trabalhadores, um partido que deu unidade política a muitas concepções de esquerda, soube superar o tipo de engajamento que inevitavelmente marcou a luta contra a ditadura. Tendo surgido a partir do movimento operário e se estabelecido com um propósito não revolucionário, mas como partido da ordem e que conquistaria parcela do poder via eleições, logo, não seria marcado por aquilo que Maria Paula Nascimento Araújo (2001) chama de “vícios da clandestinidade”.

A vitória eleitoral do PT em 2002[16] – e a sucessão de reeleições até 2014, sugere, enfim, um ambiente de normalidade democrática, além de projetar ambiente de acatamento das normas constitucionais. A despeito de a conquista do poder executivo federal, pelo PT, gerar expectativas de a democracia brasileira não mais estar sujeita a rupturas, o golpe parlamentar ocorrido em 2016 demonstra a arbitrariedade a que estávamos sujeitos, sem que o sistema tivesse sido capaz de contar com guardiões.

Assim como a queda do Muro de Berlim teve impacto duradouro sobre as esquerdas, sendo explorado competentemente, de modo a impor narrativa de que não haveria saída para além do capitalismo, igualando as propostas da esquerda a fantasias e irresponsabilidade, carimbando os partidos de esquerda de infantis e perigosos, relativizando a democracia[17] de maneira a submetê-la à burocracia estatal.

Se, por um lado, os partidos e movimentos de esquerda ainda buscam respostas para uma agenda socialista para o século XXI, as forças do capital seguem uma agenda que combina protagonismo do mercado com submissão da democracia à gestão.

Independentemente das análises sobre as manifestações ocorridas a partir de 2013, ou sobre sua instrumentalização, parece haver consenso tanto sobre a fragmentação da sociedade brasileira, quanto da incompletude de sua democracia[18] e da necessidade da definição de uma agenda nacional que combine questões estratégicas (pré-sal e novas tecnologias etc.) com uma democracia de direitos[19].

Nesse sentido, ante tais desafios, é necessário produzir novo consenso político.

 

Para além de uma “Conferência Democrática”:

A formação de uma frente de esquerda

 

Um cenário de intensa disputa por hegemonia não pode se converter em retrato dos partidos e dos movimentos de esquerda no Brasil. É certo que, diante da crise de identidade pós queda do Muro de Berlim, as esquerdas se propuseram movimento para viabilizarem-se num mundo que busca convencer a todos de que não há espaço para ideologias e para propostas fora e contra o mercado. A admiração que os novos partidos de esquerda têm por experiências como a do Podemos espanhol parece não ser gratuita, pois, passados 27 anos desde a queda do muro de Berlim, foi uma das poucas experiências efetivamente novas, de esquerda, a surgir no horizonte. Contudo, é crítica às esquerdas tradicionais.

No pós Dilma, é necessário re-aglutinar as forças democráticas em torno de um projeto de soberania nacional, assentado na soberania popular e num ideal de sociedade inclusiva. São estes pilares dos quais não é possível nenhum partido de esquerda, nenhum democrata, discordar.

Em setembro de 1917 realizou-se, em Petrogrado (atual São Petersburgo), a Conferência Democrática de Toda a Rússia. Convocada pelo Comitê Executivo Central dos Sovietes, composto pelos mencheviques e socialistas-revolucionários, a fim de solucionar a questão do poder. Sabe-se que aquela Conferência não resolveu – muito pelo contrário, a divisão e luta entre Mencheviques e Bolcheviques, mostrando-se um verdadeiro fiasco, mas seu ideal era claro.

Havia um problema, diante da diversidade de atores, em como compor o novo governo revolucionário, o que permaneceu como um desafio. A conferência democrática, ou pré parlamento, visava preparar uma constituinte e decidir, democraticamente, como deveria ser formatado o novo governo.

O que impediu que a Conferência Democrática funcionasse foi a divisão facciosa, a incapacidade de ceder, a sede por tomar o poder e dirigir a construção de uma hegemonia. A grandeza do desafio não foi suficiente para pacificar as divisões e firmar um pacto.

É exatamente essa a chamada que se faz nesse momento. É necessário que as esquerdas[20] consigam escutar-se, para o bem do Brasil, e pautar as bases de uma frente que possa reagir à altura ao avanço conservador e apresentar-se novamente como uma alternativa para o país.

Não se trata, hoje, diante da crise civilizatória pela qual passamos, de um mero acordo entre as esquerdas, mas de produzir os termos de um novo pacto civilizatório, a fim de podermos ultrapassar, da melhor forma possível, os grandes impasses que atingem a sociedade brasileira.

Uma conferência democrática, nesses termos, e como primeiro passo na construção de uma frente de esquerdas, teria a tarefa de reunir os atores envolvidos nas questões mais relevantes na configuração de um novo Brasil, particularmente aquelas que dizem respeito a problemas persistentes que assolam as cidades e o campo, tais como mobilidade urbana, florestania, desenvolvimento nacional, pré-sal e Amazônia, matriz energética, soberania popular, democracia e direitos, SUS, aposentadoria e assistência social.

Se a queda do muro de Berlim gerou um vazio existencial nas esquerdas de todo o mundo, vazio até o momento apenas parcialmente preenchido, o que aqui denominamos de período pós Dilma a ele equivale, pois representa outro vazio, agora entre nós, na medida em que sequer arranhamos explicações relevantes para o golpe sofrido, muito menos sua superação. No entanto, esse vazio significa igualmente oportunidade.

É momento de configurar um projeto do qual toda a esquerda possa sentir-se parte. Mais uma vez, acreditamos que, ao contemplar três dimensões: soberania popular e direitos – naquilo que se convencionou chamar de democracia constitucional; mobilidade urbana e florestania; e as novas tecnologias que serão desenvolvidas com a exploração da Amazônia azul; seria possível firmar esse pacto e forjar, juntos, um novo e sólido projeto de país.

 

BIBLIOGRAFIA

ARAÚJO, Maria Paula Nascimento. A utopia fragmentada: as novas esquerdas no Brasil e no mundo na década de 1970. Rio de Janeiro : FGV, 2001.

FOUCAULT, Michel. A Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Grupo Editorial Record, 2014.

FUKUYAMA, Francis. The End of History. In The National Interest (Summer 1989, p. 3-18).

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GIDDENS, Anthony. Beyond Left and Right: The Future of Radical Politics. Stanford: Stanford University Press, 1994.

——–. The Third Way: The Renewal of Social Democracy. Cambridge: Polity Press, 1998.

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KECK, Margaret E. PT – A Lógica da Diferença. O Partido dos Trabalhadores na construção da democracia brasileira. Rio de Janeiro: CentroEdelstein de Pesquisas Sociais, 2010.

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ONFRAY, Michel. Des clercs médiatiques à l’Université populaire: Misères (et grandeur) de la philosophie. Em Le Monde Diplomatique, no 10, 2004.

PT – PARTIDO DOS TRABALHADORES. Resoluções de Encontros e Congressos, Partido dos Trabalhadores. Organização: Diretório Nacional do PT/Secretaria Nacional de Formação Política e Fundação Perseu Abramo/Projeto Memória. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 1998.

ROSANVALLON, Pierre. La sociétédeségaux. Paris: Seuil, 2011.

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SCHUMPETER, Joseph. Capitalismo, Socialismo e Democracia.  Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1984.

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WEBER, Max. Economia e Sociedade (volume 2). Brasília: Editora UnB, 1999

ZIZEK, Slavoj. Crença na Utopia. 2008. Disponível em http://zizek.weebly.com/textos.html. Acesso em 22 de janeiro de 2011.

 

NOTAS:

[1] Mestre em Filosofia e doutor em Direito, professor na PUC-RJ.

[2] Mestre em Antropologia e doutor em Ciência Política

[3] Eram 43 km de fronteira fechada entre Berlim Ocidental e Oriental, no meio da cidade, e mais 112 km que cercavam Berlim Ocidental pela parte externa.

[4]  O filosofo e cientista político nipo-estadunidense Francis Fukuyama publicou, ainda no verão de 1989, o artigo “The End of History?”,  na revista The National Interest (1989). Depois estende suas reflexões e publica o livro The End of History and the Last Man (1992).

[5] No Ocidente, Jean-François Lyotard (2008) será o primeiro, seguido bem de perto por Baudrillard, a analisar essa nova ‘fase’ da história. Ele e os que lhe seguem vão caracterizar o pós-moderno decorrente da crise das ideologias nas sociedades ocidentais no final do século XX, como dissolução da referência à razão (até então considerada como garantia de possibilidade de compreensão do mundo, por meio de esquemas totalizantes, traduzida em ‘grandes narrativas’).

[6] Hegemonia, luta de classes, universalidade, estrutura, história, ideologia, foram algumas das categorias objeto de contestação, de dissecação, de negação. Outras categorias, tomando o poder de uma perspectiva mais micro (FOUCAULT, 2014), vão ter proeminência, indicando um deslocamento da política e da luta política: identidade, local, gênero, narrativa, entre outros.

[7] Segundo Slavoj Zizek (2008), entram na ordem do dia: “a alienação da vida cotidiana, a ‘mercadorização’ do consumo, a inautenticidade de uma sociedade de massa em que ‘usamos máscaras’ e sofremos opressão sexual e outras etc”.

[8]Não tão recente, mas relevante para exemplificar esse espírito, é o livro de John Holloway (2002), Change the world without taking power. A tradução brasileira é de 2003: Mudar o Mundo sem tomar o poder (editora Viramundo).

[9]Já no final do século XX, instala-se uma ditadura da Globalização, na qual tudo é explicado, a favor ou contra, por esse fenômeno. Rita Laura Segato (1998, p.2) nos lembra, por exemplo, que é por conta do desgaste das noções de imperialismo e internacionalismo que se passa a chamar, de maneira eufemística, a esses processos centenários de globalização. Do mesmo modo, esvaziam-se, como já ressaltado, categorias como classe e luta de classes são substituídas por ‘grupos de pressão’, ‘coletividades’, ‘conflitos de interesse’ e exploração por ‘exclusão’.

[10] Países com ‘grau suficiente de modernidade’, segundo o sociólogo britânico (2008).

[11] Essa foi primeira eleição realizada no país após o fim do bipartidarismo imposto pelo regime militar. Ela contou com a disputa entre cinco partidos nos pleitos para os governos estaduais e para as prefeituras, para o Congresso Nacional, assembleias legislativas e câmaras municipais.

[12] O PMDB elegeu 9 (nove) governadores, assim, com o PDT, a oposição fez 10 governos estaduais, além de totalizarem maioria na Câmara dos Deputados (embora, o PDS tenha obtido o maio número de cadeiras).

[13] 30 anos depois de sua estreia no jogo eleitoral, com 2 prefeitos eleitos, o Partido dos Trabalhadores chega em 2012 ao número de 635 cidades com prefeitos eleitos pelo partido. Em 2016, o PT elegeu apenas 256 prefeitos.

[14]“As alterações na estrutura socioeconômica brasileira (com o surgimento, o rearranjo e a reacomodação de classes e grupos sociais), as reformulações do capitalismo internacional e as profundas mudanças nos países socialistas (principalmente nos países do Leste Europeu), por outro lado, obrigam o Partido dos Trabalhadores a um profundo reexame da teoria e da prática que até então vinham presidindo a luta histórica por uma humanidade livre, justa e fraterna, de modo a obter maior nitidez em sua concepção de socialismo e dos caminhos capazes de levar à transformação socialista da sociedade brasileira.” (PT, 1998, p. 428)

[15]Fundado em março de 1922, o PCB (que se denominava inicialmente Partido Comunista do Brasil) foi proscrito em julho do mesmo ano. Legalizado em janeiro de 1927, ano em que concorre à Presidência da República, não obteve registro para as eleições de 1934. Somente em 1945 o registro foi aceito para, no entanto, ser novamente suspenso em 1947. Em 1960, ainda na ilegalidade, o PCB passa a se denominar Partido Comunista Brasileiro. No dia 8 de fevereiro de 1962, ala dissidente do partido forma uma nova agremiação partidária que se denominará Partido Comunista do Brasil, adotando a sigla PCdoB. Somente em 1985, com o fim do regime militar, o PCB voltou a funcionar na legalidade. Em 1992, surge o PPS (Partido Popular Socialista) também oriundo do PCB.

[16]“A singularidade do Partido dos Trabalhadores deriva em parte de sua tentativa, no interior do processo de transição, de criar uma identidade política que rompia ao mesmo tempo com o padrão de relações que caracterizavam o período autoritário e com tradições históricas. Em outros países do Cone Sul, esse espaço organizacional foi historicamente ocupado por partidos que datavam de antes do regime militar e mantiveram um grau substancial de legitimidade entre seus eleitores. No Brasil, o problema não consistia somente em ocupar esse espaço, mas também em criá-lo.” (KECK, 2010, p. 62-63).

[17] Nesse contexto de ‘Fim da História’, não apenas o neoliberalismo se apresenta como discurso e visão única do mundo, vitória do capitalismo, mas a democracia reduz-se, porque a política perde em importância, a mero procedimento. É uma versão minimalista da minimalista concepção de Joseph Schumpeter (1984) –  e de Max Weber (1999).

[18]Segundo o ranking da UIT de qualidade da democracia, o Brasil piorou seu índice, subindo de 44 para 51 em 2015, indicando que o país estaria entre os países com democracias incompletas (seriam completas aquelas com índices abaixo de 8): cf.:http://migre.me/vlrOU . Segundo o Latinobarómetro, que também tem um index sobre a percepção a respeito da democracia, os brasileiros se mostram muito desencantados com sua democracia, de forma que no último relatório publicado, dentro da América Latina, o Brasil estaria em penúltimo lugar, atrás apenas da Guatemala, entre os que consideram a democracia o melhor dos regimes políticos: cf.: http://qualidadedademocracia.com.br/do-brasilians-appreciate-democracy/.

[19] O Brasil é conhecido por suas experiências de participação cidadã em nível municipal (bem como as experiências de conferências nacionais) e são reconhecidas experiências de movimentos sociais que lograram organizar-se de tal forma que os governos se veem obrigados a ouvi-los e por eles são pressionados (assim como o parlamento), mas as relações são frágeis, os mecanismos de participação são constantemente questionados e grupos minoritários ainda têm dificuldade de se fazer representar. Cf: Nuno Coimbra Mesquita, 2016.

[20] E aqui não se fala apenas dos partidos políticos, mas dos movimentos sociais e sindical alinhados à esquerda.

Sobre Akrasia, manipulação e outros bichos esquisitos – Ou sobre porque devemos investir em melhores formas de compreender e agir

 

Sobre Akrasia, manipulação e outros bichos esquisitos
Ou sobre porque devemos investir em melhores formas de compreender e agir

Ora, decerto, ninguém escolhe voluntariamente o caminho para as coisas más, nem para as que pensa serem más. Uma atitude dessas, querer ir atrás das coisas que se pensa serem más, preferindo as que são boas, não é, pelo que me parece, própria da natureza humana. 358d E quando é forçoso que se escolha uma de duas coisas más, escolhe alguém a maior, podendo escolher menor?
(Diálogos de Platão, Protágoras, § 358c e 358d)

Uma clássica discussão sobe se ‘pode um homem agir contra seu melhor conhecimento’ (1) remete-nos aos registros de Platão sobre as ideias socráticas, mas foi enfrentada por Platão e posteriormente por Aristóteles, todos de maneira ligeiramente distintas, mas todos concordando que o homem não age contra seu melhor conhecimento. Ou seja, alguém age ou encaminha-se para o mal por ignorância, nunca como fruto do seu conhecimento.(2)
Temos vislumbrado em nosso país centenas de manifestações que facilmente poderíamos classificar como más, como visando ao mal, visando ferir ou até destruir pessoas, ideias, instituições, símbolos, contra os fundamentos da boa convivência, do respeito, da dignidade humana, da diversidade, do bem comum. Antes, vemos muitos usando tais fundamentos para justificar suas más ações.
Afinal, quem (há um) é culpado pelas manifestações de ódio, pelos ataques fascistas, por essa gente maluca babando nas ruas e pedindo intervenção militar, por mentiras e canalhices reproduzidas por Diogo Mainardi, Reinado Azevedo, Marco Antonio Villa, Kim Kataguri, Revoltados Online, bolsonaretes, Felicianos, Malafaias, paneleiros e cidadãos de bem mandado a Presidenta da República ir tomar no cu? Quem é culpado por essas barbaridades e centenas de outras que temos testemunhado pipocarem no país?
E quem é culpado pela ignorância e ódio do cidadão ‘comum’ pela ‘política’, pelos partidos, pelos governantes, pelas instituições?
A televisão, a imprensa, é capaz de criar sentimentos tão negativos e duradouros nas pessoas? E por que não atinge a todos?

Teun von Dijk

Teun van Dijk, especialista em análise de mídia e linguagem do discurso político, no IV Simpósio Internacional sobre analise do discurso (SIAD), ocorrido esse mês de setembro na UFMG, mostra como O Globo, por meio de seus editorais, teria manipulado seus leitores para criar uma imagem negativa, muito negativa, sobre o governo Dilma, sobre Lula e sobre o PT, criminalizando-os e, assim, colaborando para motivar as pessoas irem às ruas manifestar-se contra esses personagens.
Não fica claro como é que O Globo, e qualquer jornal, rádio ou televisão, obtém sucesso na empreitada manipuladora, mas indica alguns elementos presentes nos discursos do jornalão e que estariam na base dessa manipulação.
A questão não é, porém, se há ou não manipulação. Os jornais claramente manipulam informações, abusam de imagens, de palavras, de certas construções sintagmáticas, de ‘dados’ dispostos de uma certa maneira, tudo para gerar uma certa disposição nos leitores. Isso sendo feito de maneira sistemática, continuada, provavelmente predispõe o leitor mediano a certas crenças, aproxima-o de certos valores.
No entanto, devemos nos perguntar:
1 – É possível mesmo que se faça ‘lavagem cerebral’ em alguém por meio dos jornais impressos, radiofônicos ou televisivos? Que seja, então, pela ‘educação’ (na escola) ? (coisa de que acusam costumeiramente a esquerda de fazer)
2 – como explicar tal fenômeno de maneira consistente, descrevendo os mecanismos acionados e seu funcionamento no processo de ‘lavar o cérebro’?
3 – Como demonstrar que os jornais, revistas, rádio e televisão (ou, de novo, mesmo a educação formal) são bem sucedidas em sua empreitada de ‘manipular’ as pessoas? Na conversão das pessoas a certas crenças (ideológicas) ?
Dizer, pura e simplesmente, que as pessoas são manipuladas não nos ajuda a melhorar nossa compreensão nem a combater de forma efetiva tal ‘manipulação’.

 

Steven Michael Lukes

Steven Lukes, já na década de 1970, ao tratar a questão do poder, alerta para a dificuldade de entendermos como as pessoas atuariam contra seus interesses, que seria a ideia por trás da manipulação. Como as pessoas chegam a aceitar uma visão falsa de seus próprios interesses?
O pressuposto é que seriam socializadas para tal, por meia da ‘mobilização de vieses’, em um dado sistema político, de forma que essa mobilização ultrapassaria a esfera das escolhas intencionais. Ou seja, nem tudo é conscientemente escolhido, e nem sempre as escolhas implicam os resultados pretendidos.
De todo modo, as pessoas protestam, criticam, afirmam coisas outras que vislumbramos nas ‘manipulações’. Devemos levar a sério, sem dúvida, o papel da imprensa, do rádio e da TV, mas devemos abandonar o discurso comum sobre o poder que esses meios teriam de manipular e impor uma ideologia por meio, simplesmente, do discurso, da repetição sistemática de certas afirmações. Há algo que nos escapa e que parece, intuitivamente, importante.

Os sentimentos e as ações decorrentes da exposição à ‘manipulação’ não são na maior parte das vezes explicados pela ‘manipulação’ mesma. O ódio não poderia nascer da manipulação (salvo se lançássemos mão de uma psicologia rasteira (3) para relacionar, quase pavlovianamente, um comando escondido em sinais, palavras, frases, musicas, imagens, cores etc que ativaria organicamente, quem sabe quimicamente, os mecanismos que propiciam – nas pessoas – o sentimento de ódio). (4)
As pessoas consentem e permitem-se o ódio e as ações violentas. Elas concordam com os fundamentos que os sustentam, não são coagidas. Então, talvez, seja hora de pararmos de acusar um suposto consórcio midiático de produzir (sozinho) nossos fascistas, nossos ‘odiadores’, nossos conservadores, nossos misóginos, nossos racistas, nossos queimadores de índios, nossos jagunços, nossa PM violenta….
Há algo que está em outro lugar, quem sabe na ‘cultura’ (e, mesmo assim, devemos ainda continuar com as perguntas:  ela não está, de toda sorte, circunscrita ou mais circunscrita a uma classe social, a grupos determinados). A violência política é uma constante e deve igualmente pesar em nossa avaliação sobre os fenômenos que genericamente denominados de manipulação (e até de alienação).


NOTAS:

[1] Em grego o termo Akrasia (ἀκρασία), com o sentido aproximado de ‘falta de comando’ (comando de si) ou algumas vezes, equivocadamente, como fraqueza de vontade. Geralmente traduzido como a incapacidade de agir conforme o melhor conhecimento da pessoa.

[2] Sócrates é claro nesse ponto, impossível que o homem, ciente do bem, faça o mal. Platão, diante do fato indiscutível de que o homem faz constantemente o mal, precisa explicar as diferenças entre os homens e demonstrar que há homens ignorantes por ‘natureza’. Aristóteles chama a atenção para a possível racionalidade num ato que parece mal, mas que visa a um bem que desconhecemos quando apenas o observámos de maneira distanciada.

[3] Bem sendo que Freud, em seus trabalhos que têm como objeto a cultura e a política,

Sigmund Freud

também aposta na irracionalidade (ou o que ele escolheu para estudar tem caráter aparentemente irracional, como os fenômenos autoritários de massa). Como explicar o fascismo e o nazismo? Não é nosso ponto aqui, mas ficam as interrogações.

 

[4] E aqui temos uma questão adicional que merece ser discutida em separado, num texto especifico, que seria a compreensão da própria política. Se o ódio a que nos referimos têm por objeto, por alvo, o Estado ou o governo, um Partido ou o sistema partidário como um todo, as instituições publicas, políticas publicas, personalidades publicas, agentes públicos, estamos no campo do político. Nesse caso, a ontologia do político interessa ao pesquisador, ao analista, em duplo sentido: como ele mesmo entende a política, como ela aparece para ele e, por outro lado, como esse campo, como a Política emerge na vida do cidadão (inclusive na desse que ‘odeia a política e os políticos’). O ódio é irracional? E a política? Pura tradição? Algo sempre irrefletido, no campo da paixão ou de uma moral coletivamente incorporada? Ou é instrumental, racional? Dependendo da resposta, vamos tratar o fenômeno do ódio de uma maneira ou de outra.


Notas fora de lugar
Um ultimo ponto. As acusações igualmente genéricas que utilizam indeterminados para indicar o culpado pela manipulação, pelo ódio, pela violência, pelo golpe, pela inação, pelos erros de estratégia, por TUDO, enfim. TUDO, ALGUÉM, ELES, OS GOLPISTAS, OS FASCISTAS, OS COXINHAS, OS CONSERVADORES, são termos comuns que encontramos em nossas opiniões emitidas, nossas avaliações. Mesmo quando denominamos um grupo, como o Movimento Brasil Livre, ou um partido, como o PSDB, o PMDB, perdemo-nos na generalização por indeterminação.

Alfred Schutz (1899-1959)

Que seja inevitável, aqui e ali, lançarmos mão de tipificações, porque isso facilita a classificação e nos impede de perder tempo em minúcias, permitindo que rapidamente enquadremos o desconhecido, é aceitável, como descrição do nosso modo de interagir, de interrelacionar, de capturar o mundo num determinado momento de nossa experiência dele e nele (é o que nos vai indicar Alfred Schutz, por exemplo), mas isso não serve para a reflexão sobre o mundo e sobre a própria experiência. Isso serve (e não é objeto de questionamento) enquanto estamos inseridos no círculo, no sistema, e estamos tratando de ‘sobreviver’, mas a reflexão implica afastar-se do circulo, olha-lo de fora, envelhecer – segundo ainda, Schutz.
Questões para outro texto, gostaria de reter o incomodo no mal trato que damos às categorias, aos conceitos, aos termos que usamos. Damos pouca atenção aos fundamentos, entregamo-nos a uma inesgotável sequencia de opiniões sobre tudo e todos e com isso podemos até conseguir nos aliviar temporariamente de angustias, compartilhar sentimentos de desesperança e, até mesmo, acreditamos, de boas explicações sobre o que se passa no país, na economia, na escola, nas manifestações, na cabeça dos jovens, no interior das instituições, como já fazemos com o futebol, com os relacionamentos amorosos, com a educação, com a ‘criação de filhos’ etc.
Nada disso é mal, nós emitimos opiniões, nós falamos abobrinhas, interagimos por meio de chistes, de blefes, até de mentiras. Apenas acho que não se pode transformar isso em estilo de vida e que isso impeça a reflexão, que isso nos condene à inação, que nos mantenha confortáveis com nossas opiniões inteligentes sobre TUDO, que nos convença de que fazer política limita-se ao campo discursivo e por aí vai.
Então, precisamos de alguma direção para aprimorarmos as análises ou voltarmos a fazê-las de uma forma mais sistemática. Isso implica enfrentar certas ilusões e implica igualmente um enorme esforço para superar essas ilusões. Um dos modos possíveis seria lançar mão de instrumentos analíticos mínimos, de termos boas teorias (que as dominemos e deixemos que elas conduzam nossas analises), de sermos minimamente fieis a certas categorias (que devemos dominar), de evitarmos que o senso comum (travestido na opinião publicada) informe até o modo de descrevermos os problemas que enfrentamos.

__________

Indicações:

1 Site de Teun von Dijk (Discursos em Sociedade):
http://www.discursos.org/

2 Texto de Steven Lukes: Power: A radical View:
http://isites.harvard.edu/fs/docs/icb.topic1458086.files/lukes_power.pdf

3 Artigo de revisão bibliográfica sobre Alfred Schutz, para quem quer iniciar-se e aproveitar as indicações bibliográficas.

CASTRO, Fábio Fonseca. The phenomenological sociology of Alfred Schutz. In Ciências Sociais Unisinos48.1 (Jan-Apr 2012): 52-60. Disponível em http://revistas.unisinos.br/Findex.php/ciencias_sociais/article/download/Fcsu.2012.48.1.06/839/3436

4 – sobre akrasia há muito material disponível, por isso faço uma unica indicação:

Artigo Akrasia: conocimiento y práctica , de José Leonardo González Valderra. Disponível em http://aprendeenlinea.udea.edu.co/revistas/index.php/versiones/article/viewFile/11039/10110

 

EDUARDO CUNHA NÃO FOI CASSADO PORQUE MENTIU OU POR SER CORRUPTO

Eduardo Cunha

Eduardo Cunha

“O grande triunfo do pensamento institucional
é tornar as instituições completamente invisíveis”
(DOUGLAS, 1998. P. 104)
“Context (…) is defined by a number of potentially relevant attributes”
(FALLETI; LYNCH, 2009, p. 1143)

 

 

Se eu tivesse que apostar[1], diria que Eduardo Cunha não foi cassado porque mentiu ou porque seja corrupto, nem mesmo porque tenha se tornado um homem perigoso para a República, ele foi cassado porque tornou-se um perigo para a lógica institucional vigente (no Congresso Nacional).

A Câmara dos Deputados do Brasil tem uma história de mais de 190 anos, ou seja, quase dois séculos, tendo sua memória preservada e órgãos internos que funcionam desde sua criação[2], bem como procedimentos igualmente bem estabelecidos, herdados por cada novo deputado eleito. Podemos afirmar que há uma lógica própria, da instituição, que ultrapassa os atores particulares que nela, ou a partir dela, atuarão, bem como que há papeis previamente estabelecidos os quais, inevitavelmente, espera-se sejam assumidos pelos atores.

É o que acham Blomgren e Rozenberg (2012, p. 9-10), ao apontarem a existência de papeis parlamentares, estáveis no tempo, alguns deles já estabelecidos em scripts e ‘peças de teatro’:

Como os mesmos padrões de comportamento parecem se aplicar por décadas, ou mesmo séculos, existiriam razões para concluir que parlamentares se conformam a específicas expectativas compartilhadas.

Da mesma forma, em relação ao parlamento brasileiro, Timothy Power e Cezar Zucco Jr. (2011, p. 305-306), afirmam ter o Congresso Nacional[3] uma lógica própria que seria, como afirmamos acima, independente, até certo ponto, dos indivíduos que estariam ocupando os cargos públicos em um determinado momento:

Ao que parece, a classe política possui uma memória coletiva e um world view que resiste a efeitos conjunturais; por exemplo, aqueles gerados pelo ciclo eleitoral. Mudanças há, sem dúvida, mas (….) dentro desse cenário de relativa estabilidade, as evoluções de opinião são lentas, pequenas e graduais. Se, de um lado, uma estabilidade atitudinal da classe política pode ser positiva para o desenvolvimento institucional do Legislativo, de outro lado, ela pode se tornar um obstáculo a iniciativas específicas, como, por exemplo, as várias propostas do atual debate sobre reforma política.

 Power e Zucco complementam ainda, sustentando que, apesar de essa memória coletiva e essa visão de mundo parecerem resistentes a mudanças, o mesmo não ocorreria no que diz respeito tanto a opiniões quanto a comportamentos dos parlamentares, que variariam com a posição conjuntural (situação ou oposição) em que se encontram[4].

No entanto, se houver uma tensão estruturalmente importante entre a memória coletiva, a visão de mundo compartilhada, atitudes esperadas, e as opiniões e comportamentos particulares, vai prevalecer o coletivo, o compartilhado.  Se um comportamento individual ameaçar, de forma efetiva, a lógica institucional, colocando em xeque os papeis estabelecidos e os comportamentos esperados – aqueles que garantem a confiança, a confiabilidade, a instituição vai agir no sentido de mitigar a ameaça[5]. Somente em situações de crise, de mudanças estruturais advindas de questionamentos externos (e com força suficiente), teremos possibilidade de mudanças nessa lógica institucional (sem garantias de que sejam profundas)[6].

O Parlamento, conforme a análise de Pierre Bourdier (2014), é um ambiente de discursos e performances reguladas, e subverter de maneira radical esse ambiente é exigir dos atores que se afastem também de maneira radical do que lhes confere identidade e segurança para atuar. Isso afeta o sistema de conhecimento, sua dimensão epistemológica, que, em última análise, modelaria a atuação parlamentar na arena legislativa.

Eduardo Cunha ousou subverter a ordem, ao assumir o papel de autoridade máxima na interpretação das normas internas, ao remodelar órgãos, ao centralizar as indicações de cargos, ao controlar com lupa todos os movimentos realizados pelos parlamentares nas comissões e no Plenário, quase que anulando, em inúmeros momentos, o papel dos líderes partidários. Controlava também a TV, a Rádio e o Jornal Câmara, ameaçava com retaliação qualquer sinal de seus, agora, colaboradores que contrariassem uma ordem. Assumiu o papel de algoz do governo, mas, para isso, impôs-se superpoderes que nenhum outro presidente da Câmara dos Deputados ousou assumir, não deixando margem para negociação das pautas e manipulando os resultados toda vez que lhes desagradassem.

Ademais, impôs também um ritmo de trabalho intenso aos colegas, com sanções que antes jamais haviam sido tão rigorosas, de forma que manteve os parlamentares que o apoiavam sob rédeas curtas – e aos demais sob tensão constante. Perseguiu servidores e adversários políticos, permitiu que a fama de chefe de famiglia se firmasse (de forma que circulava a história de que havia seguidores fieis que faziam o trabalho sujo de ameaçar e efetivamente castigar os desafetos).

No momento em que, por causa de um evento externo (a decisão do Ministro Teori Zavascki), Eduardo Cunha é afastado da função de Presidente da Câmara, abre-se espaço para que o peso da memória institucional recoloque para os parlamentares o caminho mais fácil do exercício de papeis bem conhecidos[7] – e nos quais sentem-se confortáveis, de um ambiente com animosidade mais controlada, permitindo avaliar o agora afastado Presidente da Casa como um ser perigoso – porque se coloca em posição liminar (que utiliza do velho para fundar um novo que ele e somente ele compreende com perfeição – e ao qual controlaria de forma absoluta).

Nesse momento, depois de meses de presidência interina, em que os parlamentares são identificados, pela opinião pública e publicada, com esse ser perigoso, sobre o qual pesam acusações terríveis[8], e a instituição se vê dividida e numa guerra de facções, abre-se a possibilidade de colocar um fim ao que agora é visto como uma crise a ser superada, um ambiente de guerra a ser pacificado. Isso só é possível se o símbolo da crise, da guerra, do caos interno, for eliminado.

Cunha foi cassado porque se construiu tal possibilidade, tanto na opinião pública, quanto na arena do jogo político, e nesse sentido foi, repetimos, uma construção – o que mostra que, a despeito das incertezas dos resultados, não há outro caminho senão o da ação. Mas foi cassado principalmente porque, do alto de sua arrogância, ousou subverter, em benefício de um projeto grande demais para um só homem, a instituição[9] que, por sua vez, mostrou quem efetivamente manda.

Não precisamos advogar em favor da análise racional, mas não há dúvida de que não se pode fazer ciência do social sem pressupor, no mínimo, papel relevante para a racionalidade dos sujeitos, mas também dos sujeitos em contextos institucionais (dentro dos quais, agem racionalmente). A racionalidade limita os indivíduos e as organizações. Isso não é um juízo de valor e não se considera tal limitação negativamente. Teria a racionalidade em contexto institucional[10], entre outras, a função de ampliar a capacidade de os indivíduos para lidar com as informações (DOUGLAS, 1998)[11].

Por outro lado, e isso nos interessa, os indivíduos ficam impedidos de tomar decisões relevantes (ou não conseguem), aqueles que Mary Douglas chama de ‘decisões relativas à vida ou morte’. Nesses casos, os indivíduos decidem a partir de uma base compartilhada do conhecimento e de padrões morais.

No caso da cassação de Cunha, a decisão sobre a ‘morte’ do ex-presidente da Câmara dos Deputados, contou, para seus ex-aliados, com o apoio dessa base compartilhada.


NOTAS

[1] Falo em aposta, pois há uma possibilidade que não se pode descartar: a cassação ter sido negociada com o próprio Cunha (o que o número de deputados que votaram pela cassação parece dar margem a especular). Por que motivo ou que plano desenhou Eduardo Cunha, não há elementos suficientes para imaginar.

[2] As últimas grandes alterações na Câmara dos Deputados datam do ano 1970. Após a entrada em vigor da Constituição de 1988, houve nova edição do Regimento Interno da Casa com impacto importante sobre o trabalho das Comissões, valorizando-as, além da inclusão de competência na análise das concessões (e suas renovações) de rádio e televisão. Ou seja, essas adequações na estrutura já contam entre 30 a 40 anos de existência.

[3] O sistema político brasileiro como um todo.

[4] O que não implica, de toda sorte, que essa variação crie novos papeis ou altere a lógica institucional. A bem da verdade, costumam ser previsíveis, manifestando-se dentro de um espectro de expectativas esperadas.

[5] No caso, o indivíduo que a coloca em risco.

[6] Nada impede de analisarmos essas mudanças como o fazem, por exemplo, Thomas Khun ou, mais ainda, Lakatos, ao tratar dos paradigmas nas ciências. Devemos, portanto, procurar entender tanto o que facilita ou permite a permanência de certos papeis e atitudes, como compreender as mudanças, mas sempre no contexto institucional. Ou seja, a instituição importa (para ficar com o mote clássico dos neoinstitucionalistas).

[7] Embora não se deva ignorar a entrada de novos atores na arena legislativa, deputados de primeiro mandato, o fato é que estes não conseguem desviar-se com sucesso dos papéis estabelecidos ou evitar a lógica institucional. Nenhuma decisão importante é tomada sem que o pensamento institucional o permita. Há uma curva de aprendizagem, mas que pode ser encurtada pela imitação e pela agregação de assessores já devidamente treinados e conhecedores das minucias da ação parlamentar. Rapidamente, lá estarão os novos membros atuando como os demais. Quem foge do script torna-se um outsider e essa marca quase sempre leva ao insucesso na arena parlamentar.

[8] O que não difere de grande parte de outros parlamentares, sobre os quais pesam acusações de todo tipo. Portanto, não seria esse um fator preponderante, embora, na narrativa, possa ter um peso relevante.

[9] Evidente que Cunha conhecia bem a lógica institucional, mas não completamente para entender que a instituição é maior do que o que analises de conjuntura permitem capturar e que ela não responde a um indivíduo.

[10] Mais que isso, as instituições conferem uniformidade, assim como, aos indivíduos, conferem identidade. A importância das instituições (de sua análise) pode ser vislumbrada facilmente no fato de os indivíduos envolverem-se com a sua construção (das instituições) já a partir do início do empreendimento cognitivo, pois toda instituição responderia a uma tentativa de manter o vínculo social, a rigor sempre preexistente ao indivíduo.

[11] Apenas para mais um registro fora de lugar, lembremos que no modelo de escolha racional, os constrangimentos estruturais são importantes porque “tornam o repertório de cursos de ação abstratamente possíveis, reduzindo-os a um subconjunto infinitamente menor de ações exequível” (ELSTER, 1988, p.113). A ação racional, nesse sentido, diria respeito a ganhos, enquanto uma ação guiada, por exemplo, por normas sociais referir-se-ia a padrões compartilhados de comportamento, sustentados por aprovação ou desaprovação, sempre por meio de sanções externas ou, ainda, por sentimentos internalizados. (ESLTER, 1990).  Essa nossa avaliação, portanto, está em conformidade com tal modelo.


BIBLIOGRAFIA

BLOMGREN, M.; ROZENBERG, O. (ed). Parliamentary Roles in Modern Legislatures. London and New York: Routledge, 2012.

BOURDIEU, P. Sobre o Estado: Cursos no Collège de France (1989-92). São Paulo: Cia das letras, 2014.

DOUGLAS, Mary. Como as Instituições Pensam. São Paulo: Edusp, 1998.

ELSTER, Jon. Ulysses and the Sirens: Studies in rationality and irrationality. Cambridge: Cambridge University Press, 1988.

————. Nuts and Bolts for the Social Sciences. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.

FALLETI, Tulia G.; LYNCH, Julia F. Context and Causal Mechanisms in Political Analysis. In Comparative Political Studies, vol. 42, nº 9, September. Sage Publications: 2009.

POWER, Timothy; ZUCCCO JR., Cezar. O congresso por ele mesmo: Autopercepções da classe política brasileira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011

 

 

A COVARDIA DOS BUROCRATAS (E A DISSIMULADA INTENÇÃO DOS TECNOCRATAS DE TOMADA DO PODER)

A COVARDIA DOS BUROCRATAS (E A DISSIMULADA INTENÇÃO DOS TECNOCRATAS DE TOMADA DO PODER)

“A atitude primordial imediata do homem, em face da realidade, não é a de um abstrato sujeito cognoscente, de uma mente pdialetica do concretoensante que examina a “realidade” especulativamente, porém, a de um ser que age objetiva e praticamente, de um indivíduo histórico que exerce sua atividade prática no trato com a natureza e com os outros homens, tendo em vista a consecução dos próprios fins e interesses, dentro de um determinado conjunto de relações sociais”
(KOSIC, Karel. Dialética do Concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976, p. 13)
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o fim do mundo“O que queremos dizer é que a democracia se opõe totalmente ao populismo de direita, e também ao que chamamos de liberalismo. A democracia implica precisamente em desconfiar dos especialistas, dos competentes – da sua objetividade, do seu desinteresse, da sua virtude cívica. Os democratas viram no discurso liberal uma máscara para uma nova aristocracia, e ainda mais perniciosa, já que reivindicava uma base universalista que, de uma maneira ou de outra, sempre tendeu a manter amplamente os padrões existentes de hierarquia. Liberalismo e democracia destoaram muito frequentemente um do outro, defendendo tendências profundamente divergentes”
(WALLERSTEIN, Immanuel. O fim do mundo como o concebemos. Ciência social para o século XXI. Rio de Janeiro: Revan, 2002, p. 132)

 

Karel Kosik (1926-2003)

(Karel Kosik (1926-2003))

Tenho visto muita gente incomodada com o ambiente ‘polarizado’ que enxergam no “Brasil” de hoje. Reclamam que esse clima de divisão entre ‘claro x escuro’, esquerda x direita, PT x PSDB, coxinhas x petralhas, a favor ou contra o impeachment, ser golpista x não ser golpista, ser vermelho ou ser verde-amarelo… os obriga a tomar uma posição, a de não tomar posição, ou de, talvez, misturar-se, pois a ‘polarização’ não é boa para o ‘país’.

Cita-se de tudo um pouco, para mostrar que o mundo caminhou para múltiplas pautas, para a diversidade, de forma que esse ‘mundo globalizado’ deve ser

Immanuel Wallerstein

(Immanuel Wallerstein)

valorizado pelas múltiplas possibilidades de ‘ser’, que se deve dar vazão às incontáveis vozes presentes nesse mundo, que ‘classe social’ não é mais uma categoria que dê conta de explicar um mundo (ou melhor, os conflitos de um mundo) em que as identidades diversas, o pertencimento diverso, não caberia (o que lembra muito a já bem conhecida ‘teoria das elites’). Reclama-se do fla-flu na ‘política’ brasileira (como se não existissem rixas ‘históricas’ em todos os estados e municípios brasileiros, desde sempre, entre ‘facções’).

Sem entrar no mérito do ganho reflexivo que algumas dessas ‘analises’ podem trazer, inclusive para uma melhor compreensão do país hoje, arrisco dizer, antipaticamente, que falta a muitos desses analistas um pé no real, uma saída dos gabinetes em que devem estar enfiados desde a graduação, passando por seus mestrados, doutorados, pós-doutorados, incontáveis seminários, mesas redondas, palestras, entrevistas…. agora já não dão conta do que se passa (já deram?) e preferem recusar a entrada no Campo e em campo, negação freudiana, o caos não é bom, o dissenso incomoda, então exigem o direito de ficar onde sempre estiveram, confortavelmente: longe das ruas. Neutros. Em cima do muro de categorias que lhes permitam lançar sombras sobre qualquer lado, a depender da posição do sol, sem que pareçam inconsistentes.

É o direito de não ter que lutar, ou apenas, que seja, sujar as mãos, os sapatos, de não suar, sentir o cheiro das ruas, do povo, de não ter que bater o pó, de livrar-se da lama, de não impregnar-se com o odor da pobreza, da concretude da luta por manter-se vivo, mais um dia… incrível que não se perceba a polarização real, concreta, inevitável, em todo e qualquer pedaço do país (e do mundo, evidentemente). Não entendem como o povo organiza sua vida, as categorias que forja para dar conta d’o mundo’, desse mundo que não é nunca capturado de forma adequada nas descrições dos pálidos doutores sentados em suas cadeiras confortáveis.

Linhas e mais linhas, páginas e mais páginas, para justificar uma insatisfação intelectual e o direito de não se envolver ou, como acontece tantas vezes, de não se envolver diretamente, sob o argumento de que a abstenção propicia, e até garante, uma melhor explicação sobre o que ‘está acontecendo’.

Os intelectuais, especialistas, especializados, tão duramente preparados, apartados para serem melhor treinados, capacitados, têm essa missão de esclarecer os ignorantes, os dedicados ao trabalho braçal ou de menor exigência intelectual, esclarecer o que é a vida (essa a que recusam e se recusam experimentar).

Burocratas ou tecnocratas, às vezes bem travestidos, indignados por verem suas teses, suas brilhantes ‘descrições’, suas teorias, sofrerem tantos revezes, pouco ou nada explicarem e, pior, serem pressionados a ‘tomar posição’. Isso é demais, é muito. Tanto trabalho para eliminar o coletivo, para dar voz ao indivíduo, a um sujeito de categorias genéricas (e de novas demandas nesse ‘novo mundo’, globalizado, interligado), veem-se obrigados a justificar seu afastamento de sujeitos concretos, párias, putas, pretos, pobres, o resto, e da execrada categoria ‘classe social’. Absurdo. Nisso não diferem muito de Margaret Tachter (e sua visão liberal do mundo), para quem não existia essa coisa chamada ‘sociedade’, mas apenas o ‘indivíduo’ (e como são indivíduos, podem pensar o mundo a partir de si mesmos).

No final das contas, essa voz ‘critica’ dos que ‘denunciam’ uma polarização extremada, ao mesmo tempo em que reclamam o direito a manter-se num lugar em que não tenham que escolher lados, mas, ao contrário, a manterem-se abertos para toda e qualquer ‘posição’, ‘estilo’, ‘gênero’, ‘modo de vida’…. é um jeito de fazer política recusando a política, é o hedonismo envergonhado de que fala Slavoj Zizek, do café descafeinado. Prefere-se falar da inautenticidade da vida, criticar as ‘grandes narrativas’, acusar a insuficiência das categorias universalizantes, combater “a alienação da vida cotidiana, a ‘mercadorização’ do consumo, a inautenticidade de uma sociedade de massa em que ‘usamos máscaras’ e sofremos opressão sexual e outras etc”[1]. Tudo em nome, honesta e firmemente, da liberdade e do direito de sermos o que quisermos ser (?), e de uma ‘crítica do social’, claro.

Slavoj Zizek

Essa postura, anunciada de maneira elegante, acompanhada ou não de cigarros sem nicotina ou de um café descafeínado, em que se defende uma política despolitizada, mostra um desconforto com a política concreta, apaixonada, um inconformismo com o engajamento político. Em defesa das ‘vozes divergentes’ (inclusive – e muitas vezes apenas elas – dos excluídos do sistema mundo vigente, das minorias, das culturas não ocidentais – o que não deixa de ser irônico), naturaliza-se o fato de a luta pelo poder (inclusive econômico) continuar fazendo vítimas – justificada como resultado legitimo da história, da qual todos participam, ricos ou pobres, indígenas, negros e brancos, jovens e velhos, homens e mulheres. A nós cabe apenas garantir que a voz de todos apareça na descrição da história (que seja sangrenta e injusta não nos cabe ponderar, senão ex post facto).

Apesar da ironia que aparece aqui e ali nessa minha crítica, a mim mais irônico parece a postura aparentemente sóbria e solene com que defendem, citando categorias altissonantes, autores e teorias pops, sua covardia ou, aceito, incompreensão do que está em jogo. Como gostam de citações, como as com que iniciei o presente texto, termino esse parágrafo com uma de que gosto muito, de Peter Woit (comentando uma expressão usada pelo físico Wolfgang Pauli (1900-1958)): “I use ‘not even wrong’ to refer to things that are so speculative that there would be no way to know wether they’re right or wrong’[2].

peterwoit

(Peter Woit)

Os burocratas e os tecnocratas, filosoficamente são meio platônicos e bastante kantianos (em outro momento, avanço nessa caracterização). Os tecnocratas de um lado e os intelectuais burocratizados do ‘mesmo lado’ – afastados uns dos outros por uns poucos atributos, usam a critica ao real, pobremente polarizado dirão, perigosamente polarizado, como desculpa para intervir nele desprezando e criminalizando a política ou, do lado dos burocratas, negando qualquer intervenção, qualquer ação, ao mesmo tempo que recusam aceitá-lo, ao mundo, em nome de um outro mundo, mais amplo, mais diverso, mais plural, mas irreal, descrição idealizada do mundo concreto (como toda descrição)… Como a intenção aqui não é fazer um inventário dessas descrições (são múltiplas) nem uma critica exaustiva (que não daria conta) das ilusões mais comuns, apenas introduzo aqui a questão.

Para hoje, aqui e agora, interessa deixar claro que refuto as desculpas para não se engajar (e alguns até falam em não ficar em cima do muro, enquanto insistem em ficar ‘acima do muro’ – ou seja, a recusa das categorias que lembrem qualquer lado dos muros, lá em baixo). O momento [3] não pede justificativas metodológicas ou alguma espécie de neutralidade epistemológica (piada), mas simplesmente tomar posição quanto ao que interessa, concretamente. Isso nada tem a ver com (continuar a) pensar o mundo, distanciando-se metodologicamente dele. A não ser que a ideia seja viver uma vida de monastério. Que seja, então. Ao invés de gastarem seu tempo se desculpando, usem o silencio para meditar ou rezar, pedindo paz e justiça para o mundo. Menos confuso e, talvez, mais efetivo.

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NOTAS:

[1] ZIZEK, Slavoj. Crença na Utopia (…). 2008. Disponível em http://zizek.weebly.com/textos.html. Acesso em 22 de janeiro de 2011.

[2] Abstenho-me de ‘explicar’ essa citação assim como as duas que aparecem como epigrafe. A ideia é deixar aberta a interpretação, mas a esperança é que a ironia presente seja incomodamente percebida por aqueles que se encaixam na minha caracterização, seja como burocrata ou como tecnocrata (mais dificilmente, sei).

[3] O momento é de lutar para que não haja retrocessos em termos de direitos (trabalhistas, sociais), em nosso sistema garantista de justiça (que ainda assim já é injusto com os que menos tem, com os jovens, com os negros, com as mulheres, com as minorias em geral), é momento de lutar pela democracia. Não se trata de apoiar ou não governos concretos, mas de denunciar o golpe em curso e de assumir um lado, que seja o da democracia (de forma generalizada). Não é momento de gastar recursos e tempo para proteger-se, colocar-se num lugar confortável. Pode não ser o caso, mas o fascismo, a intolerância, o mal banal de que falou Hannah Arendt, são menos refinados e não perdoarão essa suposta neutralidade. Questão de tempo.

Uma reflexão sobre o sentido da Páscoa.

Santa Ceia

Santa Ceia

Uma reflexão sobre o sentido da Páscoa:

Como ilumina esse momento de ódio generalizado no país

A festa mais importante para o cristianismo é a Páscoa, como é importante o Pêssach para os judeus. Em ambas, de toda forma, o sentido de passagem de uma condição de opressão, na qual não se pode afirmar a própria identidade, por não ser livre, é um aspecto fundamental. A saída do Egito, mesmo que não tenha sido realizada do modo como a Torá (ou o Antigo Testamento) relata, não foi uma mera concessão do Faraó aos hapirus, mas resultado da intervenção de Iahweh, aquele que ‘ouve o clamor’ do povo e o liberta.

 

Passagem

Preparando-se para a passagem do ‘anjo da morte’

As pragas lançadas sobre o Egito e seu povo pode ser lida de muitas formas, até mesmo como ações do tipo guerrilha, mas o que importa é que a ultima ‘praga’ é a ‘passagem’ do anjo da morte, que faz sucumbir os primogênitos dos egípcios, a fim de que os (futuros) judeus tenham uma vida nova.
Interessante lembrar que esse amontoado de gente que ‘foge’ do Egito, enquanto o Faraó chora a morte de seu filho e os egípcios choram as de seus primogênitos, somente vai se tornar um povo depois de uma longa e sofrida caminhada, por anos, até que alcancem um lugar para chamar de lar (e não precisamos entrar na discussão do quão violento foi tomar posse desse lugar). Muitos não viveram para entrar na ‘terra prometida’, mas os que lá chegaram, moldados pela dura jornada, pelas dificuldades, pelas tentações de caminhos mais fáceis (retornar ao Egito, por exemplo), se transformaram em um povo.
Jesus, judeu, celebrava o Pessach com os seus – celebração que já devia ter cerca de 1200 anos, se estão certos os arqueólogos e estudiosos da bíblia e da Torá. Não é à-toa que Jesus escolhe o momento de celebração do Pessach para anunciar e sofrer sua paixão. Ele subverte a Pessach, que lembra um deus vingativo, que não hesita em matar os primogênitos dos egípcios, nem em matar os cananeus para dar posse aos (futuros) judeus. A terra prometida foi conquistada sobretudo com a violência, com o sangue dos cananeus.

 

O pão e o vinho, corpo e sangue

O pão e o vinho, corpo e sangue

A subversão se dá quando Jesus oferece-se para ser sacrificado, não mais para sacrificar outros. Deveria ser o último sacrifício, uma denuncia, se está certo René Girard, ao assassinato de inocentes, como sempre acontecia com os sacrifícios. “Esse é meu corpo (…), esse é meu sangue, que é derramado por vós para o perdão dos pecados”. Que maior pecado há que matar um inocente?

 

René Girard

René Girard

Para além das crenças de cada um, sobre o sentido estritamente religioso que cada cristão ou judeu carregue consigo sobre esse momento chamado Páscoa, queria reter, para encerrar a reflexão, um sentido que é mais ‘filosófico’ (e um algo mais), lembrando, ainda, o que nos pode ensinar René Girard em seu “O Bode Expiatório”. Para ele, os homens, por seu caráter mimético, produz e reproduz, a partir do desejo, a inveja (do desejo e desejado pelo outro), num circuito que, em algum momento, leva a uma crise (mimética), na qual há um sentimento generalizado de vingança, na realidade, da certeza de que é necessário vingar-se de algo ou alguém, sobre o qual se coloca toda culpa pela crise (que é real, todos a sentem e ‘veem).
Os linchamentos são os melhores exemplos de como isso se dá. Não importa se uma pessoa ou uma coisa, hoje talvez uma instituição, é má ou tenha feito efetivamente algum mal. Na crise mimética, todos passam a acreditar que sim. É por isso que a turba não hesita em capturar e assassinar, violentar, destruir aquele ou aquilo que consideram o causador de todo o mal, o caos vivido pelo grupo. Participar do linchamento é catártico, a destruição do outro libera o desejo de vingança, abre-se a oportunidade de voltar à normalidade, de encerrarmos a crise.
Aquele que é linchado não precisa ser, de fato, um pervertido, um bandido, um criminoso, um ser depravado, culpado por muitos crimes, o que importa é que a horda, a turba, o grupo acha que é (geralmente, há um componente de preconceito na seleção: cor, raça, hábitos, origem, classe social, algum defeito físico, mas pode ser apenas azar: lugar errado, hora errada). Não raro mata-se o inocente. Acontece que, depois do assassinato, há um recurso interessante, de criar uma narrativa que transforme o linchamento em um ato heroico e o linchado em um ser abominável. Assim, a narrativa é repetida ad nauseam até que seja incorporada por toda a comunidade e o bode expiatório seja demonizado a tal ponto que todos acreditam que seu assassinato, em verdade, foi um sacrifício necessário para restaurar a ordem, trazer a paz, fazer a justiça.

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Jesus, o Cristo, é um problema. Ele é a vítima inocente, mas sobre ele não se conseguiu produzir uma narrativa para torna-lo mau, portador do mal. Ele subverte definitivamente essa lógica e traz para o primeiro plano uma verdade dolorosa: Somos todos assassinos. Matamos todos os dias inocentes. Não é mais possível esconder esse fato. Matamos o inocente e libertamos, muitas vezes, o violento, o mal, sem nenhum constrangimento.
Vivemos uma crise terrível no país. Parte dela advém de uma crise econômica de nível global, mas a parte mais importante, e que mais impacto traz sobre nossas vidas, é a crise política, alimentada diariamente por pessoas, instituições, e pelos responsáveis em pautar a Opinião. Dissemina-se uma narrativa que praticamente nos exige vingança, nos direciona a alvos que podem ser sacrificados, porque representam o mal, são a causa de todos os males (não importa que nem saibamos nomeá-los ou explica-los, nem que facilmente, em condições normais, reconhecêssemos serem de origem e vigência muito mais antiga, talvez mais velhos que nós).
O processo em curso, que talvez surpreendesse até René Girard, nos levou a diabolizar o outro, por sua discordância quanto ao que estamos vivendo. Essa discordância, nos diz a narrativa ‘oficial’, é que provoca a permanência do ‘caos’. Esse outro, agora diabolizado, satanizado, é a ignorância viva, ignorância que pode impedir que façamos o sacrifício derradeiro e nos livremos dessa crise. A resistência em compreender e em ceder, permitindo o sacrifício, deve ser vista como um crime, uma adesão ao mal, o que autoriza sacrificar também esses ignorantes. Por isso, não há mal algum em persegui-los, marca-los, violenta-los, execrá-los, expulsá-los, humilhá-los, mata-los, enfim. São indignos. São culpados por ‘tudo que está aí’.
Exagero? Não creio, infelizmente. Espero que o outro lado não comece a ver o mesmo, mas, ao contrário, faça como Jesus, que, renunciando à violência, sem renunciar à denuncia, torna possível a ressurreição. Não é necessário, de fato, assassinar o inocente, há outra alternativa, há um caminho mais digno e mais efetivo, caminho que coloca a vida em primeiro lugar. Não é menos doloroso, mas é mais glorioso. Ele não promove a morte, mas a denuncia. Promove a vida e convoca a todos a tê-la em primeiro plano.

prometida
Que essa Páscoa nos permita, sejamos cristãos ou não, religiosos ou não, ponderar sobre o sentido maior de viver com os outros, no desafio de lutar pela vida, apesar de tanto desejo por promover a morte, único movimento que pode garantir,por mais tempo, nossa permanência nessa ‘terra prometida’.

 

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post scriptum:

A padre Josimo, a Dom Oscar Romero, a Camilo Torres, irmã Dorothy e tantos que, acreditando no sentido da cruz e da ressurreição, me fizeram crer no sentido da Páscoa, mesmo não crendo em mais nada.

Ocupação do o perímetro irrigado Jaguaribe-Apodi (maio de 2014), por cerca de 800 famílias de agricultores e agricultoras dos municípios da região Jaguaribana - parceria com movimentos sociais, pastorais e paróquias da Diocese de Limoeiro do Norte.

O QUE VEM POR AÍ? (ARANTES, Paulo)

QUE VEM POR AÍ?

(ARANTES, Paulo. Extinção. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007, pp. 263-266)

Extinção (P.Arantes, 2007)

Extinção (P.Arantes, 2007)

Paulo Arantes

Paulo Arantes

Houve um tempo em que a esquerda podia se dar ao luxo de contabilizar ilusões perdidas como ganhos reais. Ainda pensávamos assim quando o sistema soviético desabou. O espantoso é que continuamos a raciocinar segundo a lógica dos grandes desenganos produtivos quando, a rigor, ninguém mais tinha qualquer ilusão a perder acerca daquela formação social execrável. Nossos cálculos de progresso foram então refeitos como nos tempos em que a história parecia funcionar a favor da humanidade. Justiça seja feita, também a direita se equivocou redondamente quanto à natureza de seu triunfo acachapante. Tampouco a paz perpétua prometida pelo Ocidente deu o ar de sua graça, muito menos o renascimento moral do mundo profetizado pelos dissidentes do Leste europeu. Pelo contrário, como registrou um observador próximo, “desde a queda do socialismo, é possível verificar um aumento empírico da crueldade; por toda parte impera uma maldade incompreensível”. Não se trata, portanto, de constatar trivialmente que a derrota do campo comunista empurrou o mundo ainda mais para a direita, mas de esfregar bem os olhos e admitir que a extirpação de um organismo gangrenado pode simplesmente inaugurar um novo ciclo degenerativo. Essa a dissonância sombria que nos interessa identificar. A miragem do fim da história então era isso: decididamente ela não se encontra mais do lado de ninguém, vencedores ou perdedores. Tudo se passa como se o mundo tivesse ingressado em uma era de falsas superações espetaculares.

Passando da desgraça planetária à recente patologia nacional, pode-se dizer que algo dessa incongruência de fundo transparece na sensação difusa de que só agora caiu nosso Muro de Berlim. De novo não eram muitas as ilusões a perder. Mesmo assim, a analogia mais do que plausível entre os dois desmoronamentos recomenda se preparar para o pior. Como no resto do mundo depois da queda, juntos, os vencedores de sempre e os arrivistas da velha esquerda estão livres de novo para odiar, assim mesmo, intransitivamente, ainda que o alvo do paradoxal ressentimento dos dominadores seja a costumeira massa dos espoliados.

O sinal de alarme soou com o ato falho de um cacique da velha direita boçal, referindo-se à esquerda como uma “raça” da qual o país se veria enfim livre por uma geração. Um estudioso do passado tenebroso dos homens de mando neste país, o historiador Luiz Felipe de Alencastro, foi dos primeiros a antever a onda reacionária que esse recalque do preconceito de classe, temporariamente amortecido pela eleição de um ex-retirante e metalúrgico para a Presidência da República, prenuncia. Vem por aí uma explosão de raiva antipovo, raiva de pobre, raiva de negro, raiva de trabalhador[1]. Só agora o povo pobre, além de feio, sujo e malvado, é também corrupto. É que se comprovou, na figura de seus representantes políticos no poder, uma antiga calúnia sociológica tucana. Como se há de recordar – ou melhor, ninguém se lembra, graças ao mito da transição civilizada -, por ocasião da primeira reforma da Previdência, a tucanagem intelectual descobriu que o simpático e imprevidente povo brasileiro era, além do mais, um fraudador contumaz da Previdência, enfim, um agente catalisador da corrupção nacional, o principal avalista da naturalização da trambicagem coletiva. Outra maneira de consagrar o crime de colarinho-branco como prática duplamente popular. Não por acaso os civilizados tucanos paulistas estão arregaçando as mangas. Para não chover no molhado, deixo de lado o governador – cruzado da Opus Dei, inspirador de milícias à norte-americana, multiplicador da população carcerária etc. Muito mais alarmante me parece o new look do prefeito da capital[2]: foi-se a máscara desenvolvimentista, o jogo de cena com os rivais da ortodoxia econômica, para dar lugar à linha dura orçamentária, ao higienismo antipobres e antivelhos, às terceirizações galopantes, sem falar no tropeço memorável dos uniformes escolares com logomarca de patrocinador.

Quanto ao governo federal, embora seja trivial contornar a crise puxando ainda mais para a direita todas as suas políticas, não é menos revelador que sua estratégia defensiva esteja sendo traçada por um advogado criminalista. O referendo sobre o comércio de armas, por exemplo, é marola que vem de antes, mas foi encorpando conforme se adensava no horizonte o novo clima punitivo. O que se viu foi a “população honesta” marchando em defesa da sociedade dos homens bons ou coisa pior, porém dividida quanto a saber se seria preferível se armar contra os pobres-bandidos ou desarmar os bandidos-pobres. Com receio do cidadão a seu lado, de cor escura e malvestido, o classe-média, alvo do medo administrado, logo se juntará ao primeiro bando musculoso que passar ao ato. Uma hipótese para avaliar o estrago: como não é nada implausível que essa onda de choque reacionária provoque um contragolpe populista clássico, na pessoa de algum caudilho redentor dos estropiados e ofendidos, tem muita gente de esquerda torcendo para que a direita mais esclarecida não permita que o núcleo racional do petismo se desintegre. Não se poderia fechar melhor a equação dos novos tempos: no mercado conservador do medo, não haverá empreendedor que não encontre seu nicho.

Sempre se poderá dizer que o que vem por aí não é assim tão novo. Que as classes torturáveis – pobres, negros, presos comuns – nunca deixaram de comer o pão que o diabo amassou. Que os movimentos sociais, de um modo ou de outro, acabam sempre criminalizados. Que talvez a novidade de uma nota infame em que, para variar, a mídia pedia punição exemplar para o MST esteja apenas no título, associando involuntariamente preconceito e guerra preventiva: “Prevenção”[3]. Que as classes proprietárias nacionais nunca deixaram de mandar arrebentar e matar, se as circunstâncias assim o exigissem. Que tais circunstâncias se converteram em política de Estado em 1964. Não direi que não, estou apenas reparando que, tal como em 1964, justamente os donos de sempre do poder estão novamente livres para odiar – voltando ao golpe de vista do jornalista Paul Hockenos em viagem pela Europa oriental nos primeiros tempos do pós-comunismo. Mas principalmente acrescentando que, com a patética colaboração dos antigos comissários do povo, os generais golpistas finalmente conseguiram demonstrar o que era totalmente falso há quarenta anos: que o colapso do populismo culminaria com a revelação da simbiose entre subversão e corrupção. Para ficar na crônica dos partidos do ciclo que está se encerrando: de fato, o desenvolvimentismo só abortaria nos anos 80, levando consigo o PMDB; uma década depois, era a vez da tucanagem ser engolida pela vala comum; por fim, ruiu o muro do petismo lulista. Não custa insistir: o que vem por aí?

 

[1] Luiz Felipe Alencastro, “Falência do governo Lula pode trazer uma ‘onda reacionária’” (entrevista a Flávia Marreiro), Folha de S. Paulo, 19 de setembro de 2005.

[2] Gilberto Kassab (na época, pelo DEM)

[3] O Globo, 28 de setembro de 2005.