Arquivos da categoria: Filosofia

Quadros de Guerra (Judith Butler)

           ( Judith Butler)

“… procuro chamar a atenção para o problema epistemológico levantado pela questão do enquadramento: as molduras pelas quais apreendemos ou, na verdade, não conseguimos apreender a vida dos outros como perdida ou violada estão politicamente saturadas. Elas são em si mesmas operações de poder. Não decidem unilateralmente as condições de aparição, mas seu objetivo é, não obstante, delimitar a esfera da aparição enquanto tal. Por outro lado, o problema é ontológico, visto que a pergunta em questão é: o que é uma vida?”
BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto?. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015, pp.13-14 )

O papel da Razão (Hume e Kant)…

A razão teria menos a ver com conhecer do que com criar e perseguir propósitos?

“Para Hume, a indução era um mito. Já que não podemos saber se as conexões causais que escolhemos são genuínas, nossa decisão de chamar algumas delas de leis é uma questão de conveniência e hábito. (Talvez profunda conveniência e bons hábitos, mas nada além disso.) O que para Hume era um mito era um milagre para Kant e uma chave para entender o mundo como um todo. Ao insistir na ruptura entre razão e natureza, Kant começava negando que o desígnio fosse um aspecto da natureza. O desígnio era, isso sim, o aspecto que definia a razão. Tanto na ciência quanto na moralidade, a tarefa da razão é propor fins que não estejam presentes na experiência, mas que nos orientem para algo além da experiência.”

 

(NEIMAN, Susan. O mal no pensamento moderno: uma história alternativa da filosofia.  Rio de Janeiro: DIFEL, 2003, p. 89)

SUSAN NEIMAN

 

Herdeiros de Seattle. Um novo mundo é possível.

Hériter de Seattle

“”Un autre monde est possible!” est un cri. Sa puissance propre n’est pas celle d’une thêse ou d’un programme, dont la valeur se juge à leur «plausibilité ». Il n’autorise aucune mise en perspective triomphale et ne propose aucune garantie. C’est pourquoi d’ailleurs le singulier “un autre monde” convient: il ne s’agít pas d’une allusion à un monde particulier, que nous pourrions définir, ni non plus à n’importe quel autre monde (tout mais pas ça). Il s’agit d’en appeler au possible contre l’allure inexorable du processus qui s’est installé et qui, bien sur, continue aujourd’hui de plus belle. Il s’agit de briser quelque chose qui était de l’ordre de l’envoutement, de l’impuissance sidérée dont même ceux qui luttaient encore pouvaient sentir la proximité. Nous dirons que ce cri est le nom d’un événement, et que la force de cet événement est la maniere dont il fait exister, pour tous ceux, toutes celles qui lui répondent, la question : comment hériter, comment prolonger ? Comment devenir enfant de cet événement?”

PIGNARRE, Philippe Pignarre & Isabelle Stengers

(PIGNARRE, Philippe; STENGERS, Isabelle. La sorcellerie capitaliste: Pratiques de désenvoûtement. Paris: Éditions La Découverte, 2007, p. 10)

Comentário de Hannah Arendt (em entrevista de 1973 concedida a Roger Errera) sobre o MAL:

Hannah Arendt (1906-1975)

“When I wrote my Eichmann in Jerusalem one of my main intentions was to destroy the legend of the greatness of evil, of the demonic force, to take away from people the admiration they have for the great evildoers like Richard III.

I found in Brecht the following remark:

The great political criminals must be exposed and exposed especially to laughter. They are not great political criminals, but people who permitted great political crimes, which is something entirely different. The failure of his enterprises does not indicate that Hitler was an idiot.

Now, that Hitler was an idiot was of course a prejudice of the whole opposition to Hitler prior to his seizure of power and therefore a great many books tried then to justify him and to make him a great man. So, Brecht says, “The fact that he failed did not indicate that Hitler was an idiot and the extent of his enterprises does not make him a great man.” It is neither the one nor the other: this whole category of greatness has no application.

“If the ruling classes,” he goes on, “permit a small crook to become a great crook, he is not entitled to a privileged position in our view of history. That is, the fact that he becomes a great crook and that what he does has great consequences does not add to his stature.” And generally speaking he then says in these very abrupt remarks: “One may say that tragedy deals with the sufferings of mankind in a less serious way than comedy.” This of course is a shocking statement; I think that at the same time it is entirely true. What is really necessary is, if you want to keep your integrity under these circumstances, then you can do it only if you remember your old way of looking at such things and say: “No matter what he does and if he killed ten million people, he is still a clown.””


O texto da entrevista foi transcrito e pode ser acessado AQUI:

(Cf. página 10)


Vídeo da entrevista de Hannah Arendt a Roger Errera, disponibilizado em 1974:
https://www.youtube.com/watch?v=cK3TMi9GqwE


 

A naturalização da sociedade liberal e a origem histórica das ciências sociais (Edgardo Lander)

Edgardo Lander

II. A naturalização da sociedade liberal e a origem histórica das ciências sociais

“O processo que culminou com a consolidação das relações de produção capitalistas e do modo de vida liberal, até que estas adquirissem o caráter de formas naturais de vida social, teve simultaneamente uma dimensão colonial/imperial de conquista e/ou submissão de outros continentes e territórios por parte das potências europeias, e uma encarniçada luta civilizatória no interior do território europeu na qual finalmente acabou-se impondo a hegemonia do projeto liberal. Para as gerações de camponeses e trabalhadores que durante os séculos XVIII e XIX viveram na própria carne as extraordinárias e traumáticas transformações (expulsão da terra e do acesso aos recursos naturais), a ruptura com os modos anteriores de vida e de sustento condição necessária para a criação da força do trabalho “livre” e a imposição da disciplina do trabalho fabril, este processo foi tudo, exceto natural.

As pessoas não entraram na fábrica alegremente e por sua própria vontade. Um regime de disciplina e de normatização cabal foi necessário. Além da expulsão de camponeses e de servos da terra e da criação da classe proletária, a economia moderna exigia uma profunda transformação dos corpos, dos indivíduos e das formas sociais. Como produto desse regime de normatização criou-se o homem econômico (ESCOBAR, 1995, p. 60*).“

(LANDER, Edgardo. Ciências sociais: saberes coloniais e eurocêntricos. In LANDER, Edgardo (org.) A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Colección Sur Sur. Buenos Aires: CLACSO,  2005, p. 12)

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Autro Escobar

* ESCOBAR, Arturo. Encoutering Development. The Making and Unmaking of the Thirld World. Princeton: Princeton University Press, 1995.

The Three Worlds, or the Division of Social Scientific Labor (Carl E. Pletsch, 1981)

 

Carl E. Pletsch

“Substitutions like that of the word “traditional” for “primitive” were part of a general Western tendency to clean up the language of government, journalism, and social science in reference to the rest of the world. Terms evoking ethnocentrism, condescension, imperialism, and aggression were systematically replaced by apparently neutral and scientific terms – euphemisms. Not only did former colonies become “developing nations” and primitive tribes become “traditional peoples,” the War and Navy Departments of the United States Government were transformed into the “Defense” Department. This was also the time when “the end of ideology” was announced by Daniel Bell.’* But the simplicity of the categories-as distinguished from the euphemistic character of the new terminology-evinces the propensity for general ideas noted by de Tocqueville. It would have been simply impossible to explain the need for foreign aid and vast military expenditures in a time of peace with categories any more differentiated than those marshalled under the three worlds umbrella.” (p. 575)

[…]

“(…) let us see what can be derived from the distinctions among science, ideology, and culture. Western social scientists have reserved the concept of culture for the mentalities of traditional societies in their pristine states. They have designated the socialist societies of the second world the province of ideology.  And they have long assumed-not unanimously, to be sure-that the modern West is the natural haven of science and utilitarian thinking. Consistent with this scheme, one clan of social scientists is set apart to study the pristine societies of the third world-anthropologists. Other clans-economists, sociologists, and political scientists-study the third world only insofar as the process of modernization has already begun. The true province of these latter social sciences is the modern world, especially the natural societies of the West. But again, subclans of each of these sciences of the modern world are specially outfitted to make forays into the ideological regions of the second world. Much as their fellow economists, sociologists, and political scientists who study the process of modernization in the third world, these students of the second world are engaged in area studies. What distinguishes their area is the danger associated with ideology, as opposed to the now innocent otherness of traditional cultures. But the larger contrast is be-tween all of these area specialists, whether of the second or third world, and the disciplinary generalists who study the natural societies of the first world.” (p. 579)

*BELL, Daniel. The End of Ideology. Glencoe: Free Press, 1960

PLETSCH, Carl E. The Three Worlds, or the Division of Social Scientific Labor, Circa 1950-1975 In Comparative Studies in Society and History, Vol. 23, No. 4. (Oct., 1981), pp. 565-590. Cambridge: Cambridge University Press, 1981

PECADO E TRANSFIGURAÇÃO (Emil Cioran, em O Livro das Ilusões)


 

Emil Cioran (1911-1995)

Há muito de alegria na angústia e de gozo no sofrimento. Sem este compromisso superior, quem sabe se existiriam ainda homens que buscam sua felicidade na desgraça e a salvação pelos caminhos da obscuridade, e se seria possível ainda a libertação pelo subterfúgio do mal? O amor do infernal não é possível sem os reflexos paradisíacos da alegria e do gozo em estado puro. Mas, e quando nossa consciência, pela via da salvação inversa, fica em um momento dado desprovida de alegria e de gozo, quando a angústia e o sofrimento se fecham em si mesmos para meditar sobre seu abismo? Podemos então crer que estamos no caminho da libertação? Ou queremos ainda libertar-nos? Não se pode saber se o homem quer ou não libertar-se, porque não se pode saber se o momento último da libertação, a transfiguração, é algo mais do que um sublime beco sem saída.
A recusa da libertação tem sua origem em um amor secreto pela tragédia. É como se, uma vez salvos, tivéssemos medo de que a divindade nos jogasse no lixo e preferíssemos o extravio para satisfazer nosso orgulho absoluto. Apesar de tudo, não há ninguém que não veja a perda da salvação como a grande ocasião perdida, como também não há ninguém que não se ruborize ante o sonho branco da transfiguração. E essa situação é tão dramática que nos perguntamos se Deus não nos terá exilado a cada um separadamente na terra.

Mas o homem não pode viver só na angústia e na dor. A existência exclusiva em uma gama de estados “negativos, sem retornar à ingenuidade e sem avançar para a transfiguração, sobrecarrega em tal medida nossa consciência que a pressão de uma culpa acrescenta-lhe um atributo doloroso. A aparição da má consciência indica um momento perigoso e fatal. Nos sentimos gradualmente oprimidos por recônditas apreensões e responsáveis sem saber ante quem. Não cometemos crime algum nem ofendemos o mais insignificante dos seres; mas nossa consciência está perturbada como depois de um crime ou da mais terrível das ofensas. Nós nos esconderíamos em um lugar escuro por medo da luz. O medo da claridade nos domina, medo das coisas transparentes, de tudo o que existe sem necessidade de justificação. A inquietude vai crescendo tanto mais quanto não podemos encontrar uma determinação concreta e imediata. Uma culpa sem objeto, uma inquietude sem causa exterior. Pensamos então que mais teria valido ter cometido um crime, ter destruído um amigo, ter arruinado uma família, ter sido abjeto, obsceno e inumano. Aceitaríamos melhor sentir-nos responsáveis por uma vítima do que nos submergir no indefinido de nossa inquietude. Perdidos na obscura galeria de uma mina e condenados sem escapatória, nos sentiríamos mais felizes do que presos nas malhas de uma culpa que não “podemos compreender. A má consciência nos oferece o exemplo do maior naufrágio moral. Sem ela não entenderíamos nada de todo o drama do pecado, não suspeitaríamos nada do processo pelo qual, sem ser culpados de algo, podemos ser culpados de tudo. Quando nos sentimos responsáveis ante as fontes primárias da vida, então a audácia de nosso pensamento se tornou um perigo para a nossa existência.

Resulta inconcebível que nasça a má consciência se não há uma existência que está sofrendo. O caminho para o pecado parte do sofrimento e é sofrimento. Mas um sofrimento infinito. A pressão da má consciência não a conhecem aqueles em quem o sofrimento se interrompe, para quem ele é apenas uma simples senda, tão estreita como seu desejo de felicidade ou de infelicidade. O que ocorre, no entanto, com os que não podem escolher entre o sofrimento e o paraíso? (Mas existe, porventura, outra alternativa?) E o que ocorre com os que, por medo de perder o sofrimento ao ganhar o paraíso, não podem renunciar nunca a ele? Em que mundo se acomodarão os que se sentem fortes só na contradição, os que são vitoriosos unicamente entre dois gumes? Não é a existência mais plena quando os casulos sorriem para a podridão? Em uma grande existência a contradição é a unidade suprema. O reflexo da divindade no homem é perceptível na resistência às antinomias. Estamos na via da divinização cada vez que, em nós, a dialética interrompe seu curso, cada vez que as antinomias adquirem corpo na abóbada de nosso ser, imitando a curvatura da celeste, e estamos em nossa via (a de quem caiu irremediavelmente no tempo) cada vez que vivemos todo o processo dialético como uma dor. E vivemos a dor como dialética de um só termo. A dor se afirma; tudo se nega e se combina “nela. Em todo o drama do sofrimento há algo de monótono…

Queira-se ou não, todo homem tende a considerar a dor como um caminho para a pureza, como uma simples etapa em sua evolução, porque até agora ninguém pôde aceitá-la como um estado natural. Ao não poder vencê-la nem superá-la, ela sistematiza-se em nossa existência e exige uma disposição exatamente contrária à pureza. O que expiamos por nosso sofrimento? É a primeira pergunta da má consciência. O que expiamos quando não fizemos nada? A culpa sem objeto nos tiraniza e o peso sobre a consciência aumenta à medida que aumenta a dor. Um criminoso tem uma desculpa para sua angústia: a vítima; um homem religioso: um ato imoral; um pecador impenitente: a infração da lei. Esses homens são excluídos da comunidade; tanto eles quanto a comunidade sabem por que estão malditos. O seu desassossego encontra um ponto de apoio na certeza do motivo exterior. Cada um deles pode dizer tranquilamente: “sou culpado porque…”. Mas e o que não pode dizer sequer por quê? Ou quando, mais tarde, nas torturas da má consciência esse por que for seguido de uma desculpa que encubra tudo e este tudo não possa consolar com sua imensidão nossa dolorosa ansiedade depois de um pecado imediato, concreto e vivo? Não quereríamos ser culpados ante algo visível? Saber que sofremos por causa de tal e tal coisa, sentir-nos culpados ante uma presença, ante um ser determinado, poder dar um nome à nossa dor sem nome…

Não pecamos contra ninguém nem contra nada; mas pecamos contra tudo, contra a razão última. Essa é a via do pecado metafísico. Assim como as múltiplas formas do temor, em vez de nascer individualmente e de forma disparatada para culminar no medo da morte, nascem em alguns de um medo inicial diante da morte, também no caso do pecado metafísico, uma culpa essencial diante da existência irradia desde o centro todos os elementos de nosso tormento interior.

Nossa má consciência, cercada pela negra coroa do pecado, finalmente se dá conta do atentado que comete nossa existência contra as fontes da vida e da existência. O primeiro e último pecado.

A consciência do pecado nasce de um sofrimento interminável; aquele, por sua vez, é o castigo por esse sofrimento. Ou talvez mais: o pecado é um autocastigo pelo sofrimento. Por meio dele expiamos a culpa de não termos sido purificados pela dor; de não termos realizado o salto, a transfiguração, e continuamos sofrendo sem limite, expiamos sobretudo o não termos querido tornar-nos puros. Mas não se pode dizer que não tivemos cada um nós, em um momento dado, a chave do paraíso…

Depois de refletir longamente sobre si mesma, a má consciência começa a descobrir as razões últimas de sua agitação. No entanto, isso nunca poderá equivaler ao motivo preciso e à causa exterior, mas, ao contrário, aumenta os problemas da própria existência.

Porque todo o drama do pecado metafísico consiste em trair as razões últimas da existência. Isso significa ser culpado de tudo, não de algo. Sabido isso, tornaríamos mais suportáveis nossa carga e nossa maldição? Não, porque não podemos eliminar “a causa” de nossa perturbação sem eliminarmos a nós mesmos… E ao pecar nos excluímos da existência e ganhamos em troca uma desconcertante consciência dessa existência.

Todos os que traíram o gênio puro da vida e perturbaram as fontes vitais no entusiasmo demiúrgico da consciência atentaram contra as razões primeiras da existência, contra a existência como tal. Violaram os mistérios últimos da vida e levantaram todos os véus que cobriam mistérios, profundidades e ilusões. A má consciência resulta do atentado, voluntário ou não, contra a vida. Todos os instantes que não foram instantes de êxtase ante a vida se totalizaram na culpa infinita da consciência. A vida nos foi dada para que morramos em meio a seu êxtase. O dever do homem é amá-la até o orgasmo. Os homens tinham que trabalhar para construir o segundo paraíso. Mas nenhuma pedra foi colocada para sua construção; só lágrimas. Pode-se construir um paraíso com lágrimas?

O pecado metafísico consiste em desviar-se da suprema responsabilidade ante a vida. Por isso nos sentimos extremamente responsáveis frente a ela. Somos culpados de haver conspirado em nossa infinita dor contra a pureza inicial da vida. (Mas a vida não conspirou também contra nós?)
Um homem que ame a vida e tenha conspirado contra ela é como um cristão fanático que tivesse renegado Deus. O pecado teológico é tão grave quanto o metafísico. No entanto, há uma diferença: Deus pode perdoar se quiser, mas a vida, cansada e cega por nossos esplendores, só pode nos acolher de novo se nós o quisermos. O que significa: renunciar à via da própria divinização e perder-se no anonimato das fontes vitais (recobrar a ingenuidade paradisíaca, quando o homem não conhecia a dor nem a paixão pela dor). Uma vez mais, a salvação é uma questão de vontade.

Matar um homem e matar a vida? No primeiro caso teus semelhantes te condenam; no segundo, teu destino se converte em uma condenação. Vives como se tivesses sido condenado por um princípio último (pela natureza, pela vida, pela existência, por Deus etc.). Talvez só então comeces a saber o que é a vida e a entender coisas inacessíveis à filosofia; a desprezar as leis da natureza; a entristecer-te de outra maneira; a amar o absurdo…

Então, um caminho através da obscuridade poderia fazer-nos desembocar em uma luz secreta. Mas e se essa luz fosse um momento final? Pois da luz já não podemos cair na obscuridade, já que a luz nos acolhe como o fim de nossa história. A transfiguração é uma grande tentação após o fardo do pecado metafísico, que nos arrancou da ordem dos homens e da vida mais do que um crime ordinário. Ninguém que siga a via da dor e do pecado, da loucura e da morte, perde de vista a envolvente fascinação de uma luz final. Mas tampouco nenhum dos que viveram amargamente a dialética demoníaca da vida pode aceitar a beatitude final, quando ainda tem que viver. Por medo de seu fim. Pois a transfiguração é uma derrota da dialética, a transcendência essencial de todo o processo. A santidade é um estado de contínua transfiguração, porque é a superação definitiva da dialética. Um santo não tem história de nenhuma espécie; vai diretamente para o céu.

Aquele que aceitou os grandes fardos da vida ama mais a tragédia do que a transfiguração. O medo da monotonia dos instantes sublimes é maior do que o medo da queda. O que pode ser para ele a transfiguração senão o esquecimento de sua tragédia e de suas covardias sublimes? Há muita alegria na inquietude e muito gozo no sofrimento desde o momento em que o homem teme qualquer forma de salvação, que ele a considera como prematura, antes da hora. Como se, uma vez realizado o esforço da transfiguração, temêssemos haver perdido a nós mesmos. Quantas vezes até hoje o homem teria podido salvar-se se tivesse querido? Mas se vê que o sofrimento revela um mundo que pode sufocar a lembrança e a saudade do paraíso…

(CIORAN, Emil. O Livro das Ilusões. Rio de Janeiro: Rocco, 2014, p. 104-110)

DEIXEMOS “2016” PARA TRÁS : AVANCEMOS NA HISTÓRIA COM REBELDIA, SEM RESIGNAÇÃO

DEIXEMOS “2016” PARA TRÁS

AVANCEMOS NA HISTÓRIA COM REBELDIA, SEM RESIGNAÇÃO

El derecho de rebelión penetra en las conciencias, el descontento crece, el malestar se hace insoportable, la protesta estalla al fin y se inflama el ambiente. […]
Bendito momento aquel en que un pueblo se yergue. Ya no es el rebaño de lomos tostados por el sol, ya no es la muchedumbre sórdida de resignados y de sumisos, sino la hueste de rebeldes que se lanza a la conquista de la tierra ennoblecida porque al fin la pisan hombres.

El derecho de rebelión es sagrado porque su ejercicio es indispensable para romper los obstáculos que se oponen al derecho de vivir. Rebeldía, grita la mariposa al romper el capullo que la aprisiona: rebeldía, grita la yema al desgarrar la recia corteza que le cierra el paso; rebeldía, grita el grano en el surco al agrietar la tierra para recibir los rayos del sol; rebeldía, grita el tierno ser humano al desgarrar las entrañas maternas; rebeldía, grita el pueblo cuando se pone de pie para aplastar a tiranos y explotadores.
La rebeldía es la vida; la sumisión es la muerte. […]
Supremo derecho de los instantes supremos es la rebeldía.”
(MAGÓN, Ricardo Flores. El derecho de rebelión. Em Regeneración, núm. 2, septiembre 10, 1910)


Ricardo Flores Magón (1874-1922)

2016 foi um ano terrível, embora não possamos afirmar com certeza que tenha sido o pior, nem mesmo o pior nesta década – que já ultrapassa sua metade – ou desse século XXI ou, nem sequer ainda, do século XX. Embora a sensação que muitos de nós, viventes e testemunhas vivas desse intenso inicio de milênio, seja a de que este é um ano com peso secular e que se arrasta como a prolongar sofrimento e dor milenar – para quase imitar o poeta.

Pois bem, do que conhecemos da história dos homens e mulheres neste mundo (e o que imaginamos tenha sido sua proto-história, muito mais longa e provavelmente muito mais difícil de ser ultrapassada), sabemos que a violência contra os membros da mesma espécie é um padrão e que o mal a atravessa, a despeito de termos inventado a ideia do Bem e de paz, os quais buscamos de forma incessante.

O século XX, que nos é mais claro na memória, foi marcado por duas grandes guerras mundiais e pela invenção do genocídio. Pela primeira vez, pelo que se pode registrar na história, os seres humanos planejaram eliminar um grupo inteiro da face da terra, por sua origem e crença comuns. O Holocausto (ou a shoah, como preferem outros), que horrorizou a muitos – depois de derrotado seus executores, não impediu que guerras étnicas fossem levadas a cabo não muito tempo depois do fim da Segunda Grande Guerra e de todas as manifestações de vergonha pelo que parecia a mais desumana das invenções humanas. Guerras de ódio pelo outro, pelo diferente, levaram e levam muitas vidas e nos marcam até hoje, seja pelo ressentimento, seja pela dificuldade de superar o horror e ter que conviver com seu algoz. Não há mais ilusão quanto ao domínio do mal sobre nós.

Mas somos pródigos em inventar coisas que possibilitem o domínio do outro. Inventamos, por exemplo, o neoliberalismo e o capitalismo de desastre (não, não esqueço o mal que o totalitarismo fez em outras plagas, como na antiga União Soviética, na Coreia, na China). O sistema financeiro dominou o mundo, colocando na mão de poucos esse domínio, de maneira quase anônima. O dinheiro continuou, apenas que de maneira disfarçada, a movimentar guerras. Guerras por petróleo, por água, por terra, por florestas, pelo mar… não guerras para proteger a água, a terra, as florestas, o mar, mas para tomar posse deles, garantir lucros e recursos para povos específicos (senão para grupos e pessoas apenas).

Os Estados Unidos da América aprimoraram suas estratégias para interferir e dominar os países e regiões que lhe interessam. Controlam a internet, espionam todos, compram apoio de pessoas que julgam influentes ou importantes em cada país – e até governos inteiros, sem precisar assumir isso publicamente. A maior democracia do mundo não gosta de democracia mundo afora, apenas de seu simulacro.

Os Estados Unidos da América e seus aliados mais ricos, no final do século passado e no inicio desse século XXI, colaboraram direta e ativamente na ampliação da desigualdade no mundo. Embora em algum momento as grandes corporações assumam papel mais relevante nisso do que os países propriamente ditos, é os EUA aquele que mais investe na criação de crises e instabilidade no mundo, pois aprendeu, com seu capitalismo de desastre, a lucrar com o caos.

Dito isso, não se pode desconsiderar o papel dos norte-americanos e aliados, desde pelo menos o final do século XIX, nos contornos desse mundo em que vivemos: interferência na soberania de outros países, apoio a ditadores – que lhes garantiram ‘comprar’ terras, explorar mão-de-obra barata, apropriar-se de recursos naturais ou comprá-los a preços irrisórios, eliminar as populações indígenas, fixar a imagem de povos bárbaros ou incapazes naqueles vivendo abaixo da linha do Equador. A lista do mal que produziram e produzem é muito maior.

Claro que grande parte de nossas mazelas advém de nossos colonizadores europeus, bárbaros com discurso de civilizados. Ditadores e fascistas que mal chegaram ao fim do século XX como ‘democracias’. Violentos, nos saquearam desde a conquista – e continuam saqueando e violentando até hoje. Arrogantes, sempre trataram suas colônias como fontes de riqueza, desprezando seus habitantes, mesmo os migrantes, seus concidadãos.

Considerando, então, a história (que é sempre a história dos humanos sobre esse planeta), o ano de 2016 apresenta coisas muito diferentes? Foi mais violento? Foi mais trágico? Foi menos previsível?

Talvez, para nós, brasileiros, o GOLPE de estado que sofremos nos tenha tirado (ou nunca a tivemos) a capacidade de olhar um tempo histórico maior e, assim, aceitar que este mundo tem sido desde sempre violento e trágico; que os pequenos, as minorias, as mulheres, os jovens, os pobres sempre experimentaram quase que exclusivamente o sofrimento, salvo, talvez em uma cultura, em uma sociedade, ou outra (o que para nós se tornou invisível ou apagado da memória, a ponto de acreditarmos que não seja possível um mundo diferente).

Exemplos recentes talvez nos deem a exata dimensão do que teria sido 2016.

O Iêmen completou, neste mês de dezembro, 21 meses de conflito, no qual há um saldo de 7 mil mortos e mais de 35 mil feridos pelo menos. O conflito na Síria parece já alcançar mais de 300 mil mortos, segundo contagem de setembro de 2016. A guerra do Iraque (na realidade, a guerra inventada pelos EUA contra o povo Iraquiano) produziu mais de 170 mil mortos.

Só em 2014, uma das ‘operações’ de Israel contra o povo palestino deixou mais de 1.500 civis mortos, 11.000 feridos e desabrigou mais de 100.000. Naquele ano, 2.200 palestinos foram mortos na Faixa de Gaza, incluindo combatentes e 550 crianças, fora as milhares de casas destruídas e gente deslocada.

Desde 2001, o Afeganistão sofre com uma guerra que parece nunca cessar, mudando apenas os atores nela envolvidos. Já são mais de 170 mil civis mortos por causa dos combates. A guerra provocou um boom de refugiados que ultrapassa a casa dos 6 milhões, além dos deslocamentos internos que chegam próximo de 600 mil.

E o que dizer do genocídio de Dafur, que produziu cerca de 400 mil mortos? E qual seria o número total de refugiados no mundo hoje? 60 milhões? mais?

Em 2016, a vida de palestinos, de iemenitas, sírios, iraquianos, afegãos, sudaneses e de uma infinidade de africanos de nacionalidades diversas (nem tocamos numa quantidade enorme de outros conflitos ou de problemas causados por ‘governos’ na Ásia por exemplo, nem nos que produzimos no continente latino-americano) não tiveram uma vida fácil, como não têm tido, muitos deles, a vida toda.

Cerca de 80% da população mundial, para o sistema financeiro e para o “Mercado” (que ‘pensa’ em termos de consumidores), é literalmente descartável. Não têm utilidade, não é importante para a manutenção do próprio ‘sistema’. O G20 constantemente apresenta suas contas, assim como as grandes corporações. Para ficarmos com um ano marcante, em 2010 trabalhava-se com uma expectativa de 700 milhões a 1 bilhão de consumidores potenciais, com poder aquisitivo considerável – ou até 1 bilhão e meio, quando pensava-se em uma clientela potencial ‘interessante’. Num mundo em que a população mundial já beirava, naquele ano, os 7 bilhões, isso significa que, no máximo, 20% da população do mundo importava para o mercado. É para essa parcela do mundo que se planeja o crescimento econômico. O resto é o que é, descartável. Essa é a lógica da Exclusão de que nos falou muitas vezes Hugo Assmann.

Não admira, portanto, a constatação de que, a partir dos anos 1980, a desigualdade voltou a crescer e que hoje vivemos o período em que se registra a maior concentração de renda da história.

Por que esse pequeno e incompleto passeio nas mazelas desse mundo? E por que isso seria importante para nós, brasileiros, ao pensar o ano de 2016? Para mim, a reflexão é importante pois permite terminar esse ano terrível para nós brasileiros, com a consciência de que vivemos ‘fora da curva’ por um curto período de tempo (queiram admitir alguns ou não, esse tempo é o dos governo do PT) em que nos protegemos, em muitos aspectos, ao reduzimos a miséria, em que todos ganharam em poder aquisitivo e segurança alimentar e financeira, com a implantação de importantes políticas sociais, com investimento, muito pequeno ainda – mas maior que se já havia registrado no país, nos mais pobres.

É importante ter plena consciência da miséria, da tragédia, da violência, do mal, do fato de como alguns poucos dominam praticamente o mundo todo – porque dominam as grandes empresas e, principalmente, o sistema financeiro global. É importante saber que este mundo está organizado sob uma lógica de exclusão. Cerca de 80% da população mundial é descartável, ela é considerada um entrave, um peso, um problema. Por isso, seu destino não comove, de fato, os senhores gordos e vorazes de Nova Iorque, Londres, Paris, Tóquio, Hong Kong ou São Paulo. Quando os donos do mundo se reúnem em Davos, na Suíça, e falam em filantropia, eles ainda estão pensando em como ganhar dinheiro e não choram ou deixam de dormir pelas crianças mortas no Iêmem ou no Sudão, nem nas periferias das grandes cidades brasileiras.

O golpe no Brasil, embora tenha seus agentes internos, tenha sustentação em interesses de grupos e pessoas do próprio país, não é, se pensarmos bem, uma grande coisa diante da loucura desse mundo. O que esses senhores que tomaram de assalto o poder têm produzido em pouco tempo de usurpação do Estado segue a mesma lógica da exclusão e sustenta-se no mesmo espirito de desprezo pelos párias, pelas minorias, pelos que sobram. Atacar políticas públicas de cunho social é apenas o aspecto mais mesquinho dessa lógica e desse espírito.

Não, 2016 não foi diferente, apenas foi mais claro para muitos de nós. Por isso, exige-nos uma postura diferente daqui por diante, de nós que enxergamos o de que se trata. Não precisamos sequer de uma linguagem mais especializada, como a marxista (embora seja recomendável), para ter claro quem são nossos inimigos (porque nos tornamos inimigos deles quando decidimos confrontá-los e à sua lógica de exclusão).

Naquilo que nos diz respeito, porque mais próximo e mais determinante para nosso bem estar e futuro, a retomada do poder parece ser inquestionável. Temos que assumir, se conseguirmos manter algo que se possa chamar ainda de democracia, que não há caminho fora da política, o que engloba a política partidária também. Porque é só nesse campo que podemos disputar e combater essa lógica de exclusão.

Teremos que pensar e começar 2017 com esse desafio, como vamos dar conta do que nos cabe, como vamos viabilizar ao máximo que a lógica da exclusão não se faça representar como hoje no parlamento, no poder judiciário e nos governos de todos os níveis.

Iniciemos 2017 com rebeldia e, com esse espírito, vamos digerir o desafio de fazer diferente, vamos pensar juntos, vamos decidir algo juntos, vamos definir um mínimo de estratégias que possam ser replicadas. Precisamos sair dessa teia em que nos colocaram. Sim, pois, a rebeldia, para produzir frutos, exige ação, ação coordenada, planejada, se possível. Que 2016 vá embora e fiquemos com a consciência de que temos a obrigação de fazer melhor nos anos que seguem. Que a tragédia e o mal nos ‘iluminem’ a fim de que os enfrentemos com dignidade e sabedoria, que sua luz cor de sangue não nos imobilize nem nos transforme em espectros do que poderíamos ser, mas reforce em nós a rebeldia necessária para nos movimentarmos nesse mundo de cabeça erguida, cheios de vida e prontos a lutar por ela.

Sobre Akrasia, manipulação e outros bichos esquisitos – Ou sobre porque devemos investir em melhores formas de compreender e agir

 

Sobre Akrasia, manipulação e outros bichos esquisitos
Ou sobre porque devemos investir em melhores formas de compreender e agir

Ora, decerto, ninguém escolhe voluntariamente o caminho para as coisas más, nem para as que pensa serem más. Uma atitude dessas, querer ir atrás das coisas que se pensa serem más, preferindo as que são boas, não é, pelo que me parece, própria da natureza humana. 358d E quando é forçoso que se escolha uma de duas coisas más, escolhe alguém a maior, podendo escolher menor?
(Diálogos de Platão, Protágoras, § 358c e 358d)

Uma clássica discussão sobe se ‘pode um homem agir contra seu melhor conhecimento’ (1) remete-nos aos registros de Platão sobre as ideias socráticas, mas foi enfrentada por Platão e posteriormente por Aristóteles, todos de maneira ligeiramente distintas, mas todos concordando que o homem não age contra seu melhor conhecimento. Ou seja, alguém age ou encaminha-se para o mal por ignorância, nunca como fruto do seu conhecimento.(2)
Temos vislumbrado em nosso país centenas de manifestações que facilmente poderíamos classificar como más, como visando ao mal, visando ferir ou até destruir pessoas, ideias, instituições, símbolos, contra os fundamentos da boa convivência, do respeito, da dignidade humana, da diversidade, do bem comum. Antes, vemos muitos usando tais fundamentos para justificar suas más ações.
Afinal, quem (há um) é culpado pelas manifestações de ódio, pelos ataques fascistas, por essa gente maluca babando nas ruas e pedindo intervenção militar, por mentiras e canalhices reproduzidas por Diogo Mainardi, Reinado Azevedo, Marco Antonio Villa, Kim Kataguri, Revoltados Online, bolsonaretes, Felicianos, Malafaias, paneleiros e cidadãos de bem mandado a Presidenta da República ir tomar no cu? Quem é culpado por essas barbaridades e centenas de outras que temos testemunhado pipocarem no país?
E quem é culpado pela ignorância e ódio do cidadão ‘comum’ pela ‘política’, pelos partidos, pelos governantes, pelas instituições?
A televisão, a imprensa, é capaz de criar sentimentos tão negativos e duradouros nas pessoas? E por que não atinge a todos?

Teun von Dijk

Teun van Dijk, especialista em análise de mídia e linguagem do discurso político, no IV Simpósio Internacional sobre analise do discurso (SIAD), ocorrido esse mês de setembro na UFMG, mostra como O Globo, por meio de seus editorais, teria manipulado seus leitores para criar uma imagem negativa, muito negativa, sobre o governo Dilma, sobre Lula e sobre o PT, criminalizando-os e, assim, colaborando para motivar as pessoas irem às ruas manifestar-se contra esses personagens.
Não fica claro como é que O Globo, e qualquer jornal, rádio ou televisão, obtém sucesso na empreitada manipuladora, mas indica alguns elementos presentes nos discursos do jornalão e que estariam na base dessa manipulação.
A questão não é, porém, se há ou não manipulação. Os jornais claramente manipulam informações, abusam de imagens, de palavras, de certas construções sintagmáticas, de ‘dados’ dispostos de uma certa maneira, tudo para gerar uma certa disposição nos leitores. Isso sendo feito de maneira sistemática, continuada, provavelmente predispõe o leitor mediano a certas crenças, aproxima-o de certos valores.
No entanto, devemos nos perguntar:
1 – É possível mesmo que se faça ‘lavagem cerebral’ em alguém por meio dos jornais impressos, radiofônicos ou televisivos? Que seja, então, pela ‘educação’ (na escola) ? (coisa de que acusam costumeiramente a esquerda de fazer)
2 – como explicar tal fenômeno de maneira consistente, descrevendo os mecanismos acionados e seu funcionamento no processo de ‘lavar o cérebro’?
3 – Como demonstrar que os jornais, revistas, rádio e televisão (ou, de novo, mesmo a educação formal) são bem sucedidas em sua empreitada de ‘manipular’ as pessoas? Na conversão das pessoas a certas crenças (ideológicas) ?
Dizer, pura e simplesmente, que as pessoas são manipuladas não nos ajuda a melhorar nossa compreensão nem a combater de forma efetiva tal ‘manipulação’.

 

Steven Michael Lukes

Steven Lukes, já na década de 1970, ao tratar a questão do poder, alerta para a dificuldade de entendermos como as pessoas atuariam contra seus interesses, que seria a ideia por trás da manipulação. Como as pessoas chegam a aceitar uma visão falsa de seus próprios interesses?
O pressuposto é que seriam socializadas para tal, por meia da ‘mobilização de vieses’, em um dado sistema político, de forma que essa mobilização ultrapassaria a esfera das escolhas intencionais. Ou seja, nem tudo é conscientemente escolhido, e nem sempre as escolhas implicam os resultados pretendidos.
De todo modo, as pessoas protestam, criticam, afirmam coisas outras que vislumbramos nas ‘manipulações’. Devemos levar a sério, sem dúvida, o papel da imprensa, do rádio e da TV, mas devemos abandonar o discurso comum sobre o poder que esses meios teriam de manipular e impor uma ideologia por meio, simplesmente, do discurso, da repetição sistemática de certas afirmações. Há algo que nos escapa e que parece, intuitivamente, importante.

Os sentimentos e as ações decorrentes da exposição à ‘manipulação’ não são na maior parte das vezes explicados pela ‘manipulação’ mesma. O ódio não poderia nascer da manipulação (salvo se lançássemos mão de uma psicologia rasteira (3) para relacionar, quase pavlovianamente, um comando escondido em sinais, palavras, frases, musicas, imagens, cores etc que ativaria organicamente, quem sabe quimicamente, os mecanismos que propiciam – nas pessoas – o sentimento de ódio). (4)
As pessoas consentem e permitem-se o ódio e as ações violentas. Elas concordam com os fundamentos que os sustentam, não são coagidas. Então, talvez, seja hora de pararmos de acusar um suposto consórcio midiático de produzir (sozinho) nossos fascistas, nossos ‘odiadores’, nossos conservadores, nossos misóginos, nossos racistas, nossos queimadores de índios, nossos jagunços, nossa PM violenta….
Há algo que está em outro lugar, quem sabe na ‘cultura’ (e, mesmo assim, devemos ainda continuar com as perguntas:  ela não está, de toda sorte, circunscrita ou mais circunscrita a uma classe social, a grupos determinados). A violência política é uma constante e deve igualmente pesar em nossa avaliação sobre os fenômenos que genericamente denominados de manipulação (e até de alienação).


NOTAS:

[1] Em grego o termo Akrasia (ἀκρασία), com o sentido aproximado de ‘falta de comando’ (comando de si) ou algumas vezes, equivocadamente, como fraqueza de vontade. Geralmente traduzido como a incapacidade de agir conforme o melhor conhecimento da pessoa.

[2] Sócrates é claro nesse ponto, impossível que o homem, ciente do bem, faça o mal. Platão, diante do fato indiscutível de que o homem faz constantemente o mal, precisa explicar as diferenças entre os homens e demonstrar que há homens ignorantes por ‘natureza’. Aristóteles chama a atenção para a possível racionalidade num ato que parece mal, mas que visa a um bem que desconhecemos quando apenas o observámos de maneira distanciada.

[3] Bem sendo que Freud, em seus trabalhos que têm como objeto a cultura e a política,

Sigmund Freud

também aposta na irracionalidade (ou o que ele escolheu para estudar tem caráter aparentemente irracional, como os fenômenos autoritários de massa). Como explicar o fascismo e o nazismo? Não é nosso ponto aqui, mas ficam as interrogações.

 

[4] E aqui temos uma questão adicional que merece ser discutida em separado, num texto especifico, que seria a compreensão da própria política. Se o ódio a que nos referimos têm por objeto, por alvo, o Estado ou o governo, um Partido ou o sistema partidário como um todo, as instituições publicas, políticas publicas, personalidades publicas, agentes públicos, estamos no campo do político. Nesse caso, a ontologia do político interessa ao pesquisador, ao analista, em duplo sentido: como ele mesmo entende a política, como ela aparece para ele e, por outro lado, como esse campo, como a Política emerge na vida do cidadão (inclusive na desse que ‘odeia a política e os políticos’). O ódio é irracional? E a política? Pura tradição? Algo sempre irrefletido, no campo da paixão ou de uma moral coletivamente incorporada? Ou é instrumental, racional? Dependendo da resposta, vamos tratar o fenômeno do ódio de uma maneira ou de outra.


Notas fora de lugar
Um ultimo ponto. As acusações igualmente genéricas que utilizam indeterminados para indicar o culpado pela manipulação, pelo ódio, pela violência, pelo golpe, pela inação, pelos erros de estratégia, por TUDO, enfim. TUDO, ALGUÉM, ELES, OS GOLPISTAS, OS FASCISTAS, OS COXINHAS, OS CONSERVADORES, são termos comuns que encontramos em nossas opiniões emitidas, nossas avaliações. Mesmo quando denominamos um grupo, como o Movimento Brasil Livre, ou um partido, como o PSDB, o PMDB, perdemo-nos na generalização por indeterminação.

Alfred Schutz (1899-1959)

Que seja inevitável, aqui e ali, lançarmos mão de tipificações, porque isso facilita a classificação e nos impede de perder tempo em minúcias, permitindo que rapidamente enquadremos o desconhecido, é aceitável, como descrição do nosso modo de interagir, de interrelacionar, de capturar o mundo num determinado momento de nossa experiência dele e nele (é o que nos vai indicar Alfred Schutz, por exemplo), mas isso não serve para a reflexão sobre o mundo e sobre a própria experiência. Isso serve (e não é objeto de questionamento) enquanto estamos inseridos no círculo, no sistema, e estamos tratando de ‘sobreviver’, mas a reflexão implica afastar-se do circulo, olha-lo de fora, envelhecer – segundo ainda, Schutz.
Questões para outro texto, gostaria de reter o incomodo no mal trato que damos às categorias, aos conceitos, aos termos que usamos. Damos pouca atenção aos fundamentos, entregamo-nos a uma inesgotável sequencia de opiniões sobre tudo e todos e com isso podemos até conseguir nos aliviar temporariamente de angustias, compartilhar sentimentos de desesperança e, até mesmo, acreditamos, de boas explicações sobre o que se passa no país, na economia, na escola, nas manifestações, na cabeça dos jovens, no interior das instituições, como já fazemos com o futebol, com os relacionamentos amorosos, com a educação, com a ‘criação de filhos’ etc.
Nada disso é mal, nós emitimos opiniões, nós falamos abobrinhas, interagimos por meio de chistes, de blefes, até de mentiras. Apenas acho que não se pode transformar isso em estilo de vida e que isso impeça a reflexão, que isso nos condene à inação, que nos mantenha confortáveis com nossas opiniões inteligentes sobre TUDO, que nos convença de que fazer política limita-se ao campo discursivo e por aí vai.
Então, precisamos de alguma direção para aprimorarmos as análises ou voltarmos a fazê-las de uma forma mais sistemática. Isso implica enfrentar certas ilusões e implica igualmente um enorme esforço para superar essas ilusões. Um dos modos possíveis seria lançar mão de instrumentos analíticos mínimos, de termos boas teorias (que as dominemos e deixemos que elas conduzam nossas analises), de sermos minimamente fieis a certas categorias (que devemos dominar), de evitarmos que o senso comum (travestido na opinião publicada) informe até o modo de descrevermos os problemas que enfrentamos.

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Indicações:

1 Site de Teun von Dijk (Discursos em Sociedade):
http://www.discursos.org/

2 Texto de Steven Lukes: Power: A radical View:
http://isites.harvard.edu/fs/docs/icb.topic1458086.files/lukes_power.pdf

3 Artigo de revisão bibliográfica sobre Alfred Schutz, para quem quer iniciar-se e aproveitar as indicações bibliográficas.

CASTRO, Fábio Fonseca. The phenomenological sociology of Alfred Schutz. In Ciências Sociais Unisinos48.1 (Jan-Apr 2012): 52-60. Disponível em http://revistas.unisinos.br/Findex.php/ciencias_sociais/article/download/Fcsu.2012.48.1.06/839/3436

4 – sobre akrasia há muito material disponível, por isso faço uma unica indicação:

Artigo Akrasia: conocimiento y práctica , de José Leonardo González Valderra. Disponível em http://aprendeenlinea.udea.edu.co/revistas/index.php/versiones/article/viewFile/11039/10110

 

Uma reflexão sobre o sentido da Páscoa.

Santa Ceia

Santa Ceia

Uma reflexão sobre o sentido da Páscoa:

Como ilumina esse momento de ódio generalizado no país

A festa mais importante para o cristianismo é a Páscoa, como é importante o Pêssach para os judeus. Em ambas, de toda forma, o sentido de passagem de uma condição de opressão, na qual não se pode afirmar a própria identidade, por não ser livre, é um aspecto fundamental. A saída do Egito, mesmo que não tenha sido realizada do modo como a Torá (ou o Antigo Testamento) relata, não foi uma mera concessão do Faraó aos hapirus, mas resultado da intervenção de Iahweh, aquele que ‘ouve o clamor’ do povo e o liberta.

 

Passagem

Preparando-se para a passagem do ‘anjo da morte’

As pragas lançadas sobre o Egito e seu povo pode ser lida de muitas formas, até mesmo como ações do tipo guerrilha, mas o que importa é que a ultima ‘praga’ é a ‘passagem’ do anjo da morte, que faz sucumbir os primogênitos dos egípcios, a fim de que os (futuros) judeus tenham uma vida nova.
Interessante lembrar que esse amontoado de gente que ‘foge’ do Egito, enquanto o Faraó chora a morte de seu filho e os egípcios choram as de seus primogênitos, somente vai se tornar um povo depois de uma longa e sofrida caminhada, por anos, até que alcancem um lugar para chamar de lar (e não precisamos entrar na discussão do quão violento foi tomar posse desse lugar). Muitos não viveram para entrar na ‘terra prometida’, mas os que lá chegaram, moldados pela dura jornada, pelas dificuldades, pelas tentações de caminhos mais fáceis (retornar ao Egito, por exemplo), se transformaram em um povo.
Jesus, judeu, celebrava o Pessach com os seus – celebração que já devia ter cerca de 1200 anos, se estão certos os arqueólogos e estudiosos da bíblia e da Torá. Não é à-toa que Jesus escolhe o momento de celebração do Pessach para anunciar e sofrer sua paixão. Ele subverte a Pessach, que lembra um deus vingativo, que não hesita em matar os primogênitos dos egípcios, nem em matar os cananeus para dar posse aos (futuros) judeus. A terra prometida foi conquistada sobretudo com a violência, com o sangue dos cananeus.

 

O pão e o vinho, corpo e sangue

O pão e o vinho, corpo e sangue

A subversão se dá quando Jesus oferece-se para ser sacrificado, não mais para sacrificar outros. Deveria ser o último sacrifício, uma denuncia, se está certo René Girard, ao assassinato de inocentes, como sempre acontecia com os sacrifícios. “Esse é meu corpo (…), esse é meu sangue, que é derramado por vós para o perdão dos pecados”. Que maior pecado há que matar um inocente?

 

René Girard

René Girard

Para além das crenças de cada um, sobre o sentido estritamente religioso que cada cristão ou judeu carregue consigo sobre esse momento chamado Páscoa, queria reter, para encerrar a reflexão, um sentido que é mais ‘filosófico’ (e um algo mais), lembrando, ainda, o que nos pode ensinar René Girard em seu “O Bode Expiatório”. Para ele, os homens, por seu caráter mimético, produz e reproduz, a partir do desejo, a inveja (do desejo e desejado pelo outro), num circuito que, em algum momento, leva a uma crise (mimética), na qual há um sentimento generalizado de vingança, na realidade, da certeza de que é necessário vingar-se de algo ou alguém, sobre o qual se coloca toda culpa pela crise (que é real, todos a sentem e ‘veem).
Os linchamentos são os melhores exemplos de como isso se dá. Não importa se uma pessoa ou uma coisa, hoje talvez uma instituição, é má ou tenha feito efetivamente algum mal. Na crise mimética, todos passam a acreditar que sim. É por isso que a turba não hesita em capturar e assassinar, violentar, destruir aquele ou aquilo que consideram o causador de todo o mal, o caos vivido pelo grupo. Participar do linchamento é catártico, a destruição do outro libera o desejo de vingança, abre-se a oportunidade de voltar à normalidade, de encerrarmos a crise.
Aquele que é linchado não precisa ser, de fato, um pervertido, um bandido, um criminoso, um ser depravado, culpado por muitos crimes, o que importa é que a horda, a turba, o grupo acha que é (geralmente, há um componente de preconceito na seleção: cor, raça, hábitos, origem, classe social, algum defeito físico, mas pode ser apenas azar: lugar errado, hora errada). Não raro mata-se o inocente. Acontece que, depois do assassinato, há um recurso interessante, de criar uma narrativa que transforme o linchamento em um ato heroico e o linchado em um ser abominável. Assim, a narrativa é repetida ad nauseam até que seja incorporada por toda a comunidade e o bode expiatório seja demonizado a tal ponto que todos acreditam que seu assassinato, em verdade, foi um sacrifício necessário para restaurar a ordem, trazer a paz, fazer a justiça.

bodeexpiatorio osacrificiolivro girard

 

 
Jesus, o Cristo, é um problema. Ele é a vítima inocente, mas sobre ele não se conseguiu produzir uma narrativa para torna-lo mau, portador do mal. Ele subverte definitivamente essa lógica e traz para o primeiro plano uma verdade dolorosa: Somos todos assassinos. Matamos todos os dias inocentes. Não é mais possível esconder esse fato. Matamos o inocente e libertamos, muitas vezes, o violento, o mal, sem nenhum constrangimento.
Vivemos uma crise terrível no país. Parte dela advém de uma crise econômica de nível global, mas a parte mais importante, e que mais impacto traz sobre nossas vidas, é a crise política, alimentada diariamente por pessoas, instituições, e pelos responsáveis em pautar a Opinião. Dissemina-se uma narrativa que praticamente nos exige vingança, nos direciona a alvos que podem ser sacrificados, porque representam o mal, são a causa de todos os males (não importa que nem saibamos nomeá-los ou explica-los, nem que facilmente, em condições normais, reconhecêssemos serem de origem e vigência muito mais antiga, talvez mais velhos que nós).
O processo em curso, que talvez surpreendesse até René Girard, nos levou a diabolizar o outro, por sua discordância quanto ao que estamos vivendo. Essa discordância, nos diz a narrativa ‘oficial’, é que provoca a permanência do ‘caos’. Esse outro, agora diabolizado, satanizado, é a ignorância viva, ignorância que pode impedir que façamos o sacrifício derradeiro e nos livremos dessa crise. A resistência em compreender e em ceder, permitindo o sacrifício, deve ser vista como um crime, uma adesão ao mal, o que autoriza sacrificar também esses ignorantes. Por isso, não há mal algum em persegui-los, marca-los, violenta-los, execrá-los, expulsá-los, humilhá-los, mata-los, enfim. São indignos. São culpados por ‘tudo que está aí’.
Exagero? Não creio, infelizmente. Espero que o outro lado não comece a ver o mesmo, mas, ao contrário, faça como Jesus, que, renunciando à violência, sem renunciar à denuncia, torna possível a ressurreição. Não é necessário, de fato, assassinar o inocente, há outra alternativa, há um caminho mais digno e mais efetivo, caminho que coloca a vida em primeiro lugar. Não é menos doloroso, mas é mais glorioso. Ele não promove a morte, mas a denuncia. Promove a vida e convoca a todos a tê-la em primeiro plano.

prometida
Que essa Páscoa nos permita, sejamos cristãos ou não, religiosos ou não, ponderar sobre o sentido maior de viver com os outros, no desafio de lutar pela vida, apesar de tanto desejo por promover a morte, único movimento que pode garantir,por mais tempo, nossa permanência nessa ‘terra prometida’.

 

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post scriptum:

A padre Josimo, a Dom Oscar Romero, a Camilo Torres, irmã Dorothy e tantos que, acreditando no sentido da cruz e da ressurreição, me fizeram crer no sentido da Páscoa, mesmo não crendo em mais nada.

Ocupação do o perímetro irrigado Jaguaribe-Apodi (maio de 2014), por cerca de 800 famílias de agricultores e agricultoras dos municípios da região Jaguaribana - parceria com movimentos sociais, pastorais e paróquias da Diocese de Limoeiro do Norte.