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o que surgir na cabeça

Partidos políticos no Parlamento: grupos privados usando recursos públicos


A estrutura física e o número de cargos que o parlamento brasileiro disponibiliza aos partidos políticos serve de atrativo para organizações políticas e atores fisiologistas, é preciso lançar luz sobre esta estrutura, se queremos superar nossa crise de representação.

No serviço público, o equilíbrio entre vontade política e capacidade administrativa ocorre sobre um fio tracionado por um lado pelos cargos comissionados, nomeados pelos representantes eleitos pelo povo, e por outro os servidores efetivos, aprovados em concurso público – tensão temperada ainda pelos servidores efetivos com conexões políticas. No Poder Legislativo federal, porém, há um desequilíbrio. Dos 15 mil funcionários da Casa (aos que se somam 3 mil terceirizados), pouco mais de 3 mil são concursados. A maior parte dos funcionários são Secretários Parlamentares, até 25 pessoas contratadas diretamente pelos Deputados para seus gabinetes pessoais, a um custo de R$ 78 mil reais mensais por parlamentar. Abordaremos aqui, porém, uma outra categoria: os chamados Cargos de Natureza Especial – CNEs. São hoje pouco mais de 1600 pessoas contratadas desta maneira na Câmara, diretamente pela Mesa Diretora, pelas comissões ou pelas lideranças partidárias.

Instituições privadas em órgãos públicos

Mas por que as lideranças partidárias teriam direito à contratação de pessoal às custas do erário? Na verdade, esta benesse é apenas uma parte da grande estrutura paga pelos cofres públicos para os partidos políticos no parlamento. É preciso que a população compreenda o que ocorre e que esta realidade seja submetida ao escrutínio público.

Uma coisa é garantir o funcionamento do partido, por meio da constituição de bancadas, dentro das Casas Legislativas, garantindo certas prerrogativas aos líderes (tema também sujeito a questionamento). Outra coisa é bancar uma estrutura completa para elas, as bancadas, dentro de cada Casa, com “direito” a sala, eletricidade, telefone, rede de computadores, computadores, funções comissionadas. Incluem-se aí as problemáticas funções para servidores concursados que, nesse caso – embora tenham se submetido a um concurso público, para atuar dentro de instituições estatais em prol da sociedade – passam a servir a um partido político, tornando-se inclusive, não raro, verdadeiros funcionários daquele partido. Na prática, portanto, tratam-se de escritórios particulares dos partidos pagos com dinheiro público.

Não há qualquer previsão legal para a cessão gratuita de áreas do parlamento aos partidos políticos ou a seus órgãos. Afinal, estas instituições já contam com o Fundo Partidário, e poderiam – no mínimo – arcar com a cessão onerosa e os custos desta estrutura. Ou seja: pagar aluguel como todos pagamos, pagar pelo uso da internet, pela eletricidade, pela água, pela manutenção.

Não há justificativa moral para que o contribuinte banque o funcionamento das estruturas criadas, que pague o salário de CNEs e muito menos, repita-se, que se tenha Funções Comissionadas disponibilizadas para elas, com servidores públicos sendo transformados em funcionários de partidos políticos, que são, conforme estabelece a Lei 9096/95, “pessoa jurídica de direito privado”. Some-se a isso as diversas Fundações e Associações privadas abrigadas gratuitamente dentro do Congresso, como a Fundação Ulysses Guimarães (PMDB), a Fundação Milton Campos (PP), a Fundação Instituto Pedro Aleixo (PSC). Uma visita aos sites destas instituições particulares mostrará seu funcionamento em pleno Anexo I da Câmara dos Deputados.

É certo que a democracia representativa, para manter-se sadia e forte, depende da existência de partidos igualmente robustos. É verdade que o partido político é legitimo, fundamental, para garantia de um Estado Democrático de Direito. É certo também, por outro lado, que estes partidos devem ser autônomos, independentes, apartados do Estado – a despeito do Fundo Partidário. Disputam o poder e podem participar da direção do Estado, mas não devem se confundir com ele, e sua relação com a infraestrutura física do Parlamento deve ser aquela de uma instituição privada com um órgão público.

Lembremos que os deputados (individualmente) já contam com uma gigantesca estrutura, um gabinete, como indicado acima, que pode contratar até 25 funcionários (de acordo com o como desejar dividir os salários entre estes) e muitos recursos, incluindo a famosa Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar que pode alcançar o valor de R$ 45.612,53 (quarenta e cinco mil, seiscentos e doze reais e cinquenta e três centavos) por mês, para os deputados de Roraima, e de R$ 30.788,66 (trinta mil, setecentos e oitenta e oito reais e sessenta e seis centavos) para os deputados do Distrito Federal, que destina-se a cobrir gastos com aluguel de carro, combustível, de escritório nos estados, divulgação, alimentação, telefonia, consultorias etc. Além disso, o deputado conta também com um auxílio-moradia, caso não ocupe um imóvel funcional – mas, de qualquer modo, tem moradia paga com dinheiro do contribuinte –, recebe jornais, revistas e publicações técnicas de graça, pode solicitar (além do uso que faz da CEAP) confecção de trabalhos gráficos, reprodução de documentos e material de expediente, e sua remuneração corresponde ao teto do serviço público, a saber, o salário de ministros do Supremo Tribunal Federal.

No Senado, a situação não é muito distinta, com a diferença de que servidores concursados assumem funções nos gabinetes e os gabinetes podem ter dezenas de funcionários contratados.

Não se trata aqui de um falso moralismo, de uma defesa do corte de recursos para o cumprimento da função pública do Legislativo. A função pública necessita de recursos para ser exercida. Sabe-se que este tipo de visão pseudo-espartana, por assim dizer, favoreceria justamente os políticos de partidos abastados – que não precisam de recursos públicos para montar seu escritório. Tampouco se trata da defesa irrestrita da burocracia estatal concursada, que costuma ascender ao poder justamente em estados totalitários. Trata-se, isso sim, de submeter a escrutínio público constante tais mecanismos, e buscar simplificá-los ao máximo. Trata-se de tornar mais transparentes os gastos públicos com o parlamentar, evitando desvios personalistas tornados possíveis por um intrincado sistema de benefícios e rubricas. Tantos benefícios, tão detalhados quanto obscuros, cumprem uma função clara no jogo do poder: favorecem o surgimento de políticos fisiologistas, que se ocupam antes em garantir a gestão destes vultuosos recursos que em realizar sua função pública. Se o cerne da crise política que vivemos é a crise de representação, tão importante quanto uma reforma política é uma revisão do tipo de representante que esta grande estrutura burocrática atrai.

Publicado n:

Vontade e Potência. Leitura de Agamben a partir de Baterbly, o Escrevente.

Giorgio Agamben

“Crer que a vontade tenha poder sobre a potência, que a passagem ao ato seja o resultado de uma decisão que põe fim à ambiguidade da potência (que é sempre potência de fazer e de não fazer)— essa é, precisamente, a perpétua ilusão da moral”
 
(AGAMBEN, Giorgio. Bartebly, ou da contingência. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015, p. 27)

Notas sobre uma conferência de Enrique Dussel – A vida como princípio primeiro

Conheço a obra de Enrique Dussel desde os anos 80, quando li “Caminhos de Libertação Latino-Americana” (em 4 tomos) e Filosofia da Libertação na América Latina, e fiquei fascinado (embora tenha entendido bem menos do que gostaria naquele momento em que tinha cerca de 17 anos), alterando profundamente minha vida dali em diante. Nunca mais abandonei as reflexões do filosofo argentino, mesmo quando dele tenha me tornado um crítico.

Enrique Dussel

Enrique Dussel

Ouvi-lo numa Conferência na Universidade de Brasília (no dia 21 de setembro de 2015) não me trouxe muitas novidades, portanto, mas me trouxe uma alegria inexplicável (permanecer naquele auditório com um calor insuportável somente sendo motivado por algo que vai além da mera curiosidade).

Fiz anotações, como de praxe. Abaixo, transcrevo livremente algumas (com alguma reflexão), tendo selecionado a primeira parte da conferência:

———

A categoria de exterioridades críticas, segundo Dussel, já estavam presentes no código de Hamurabi (ou seja, já fazia parte do imaginário social, na cosmovisão semita), em 1.700 a.C, mas mesmo no Livro dos Mortos, do Egito antigo, que contem partes recolhidas em torno de 3.200 a.C, ou seja, ultrapassam essas categorias os 5 mil anos.

Livro dos Mortos

Livro dos Mortos

Código de Hamurabi

Código de Hamurabi

 

 

 

 

 

 

No Hamurabi:

A viúva – não é a MINHA mulher, MINHA esposa

O órfão – não é o MEU filho

O pobre – não é o igual a MIM

O estrangeiro – não é o MEU concidadão

 

No Livro dos Mortos:

Dar de beber ao sedento

Vestir o desnudo

Abrigar o peregrino

Friedrich Engels

Friedrich Engels

 

Friedrich Engels, no A Sagrada Família (concebida por Marx e Engels em 1844), apresenta uma ética material, na qual a vida é o bem supremo, indicando que é fundamental comer, beber, vestir e ter uma casa.

A Sagrada Família

A Sagrada Família

 

Nesse sentido, podemos dizer que por milênios, os homens têm se colocado como fundamento de seu viver em conjunto que a vida (objetiva, concreta) seja protegida, que ela seja o principio da ‘política’ (como deve ser do Direito, da Economia), que a ética é a base da política (aqui pensada não como a política real, praticada em sociedades e tempos históricos específicos e que costumamos analisar a partir de alguns personagens e sua performance em um contorno institucional). A cosmovisão semita (sem entrar em nenhuma discussão mais aprofundada), em contraste com a grega, pensa o humano, ou melhor, o seu fundamento, como carne (o ‘basar’, ou se’er, hebraico), e não como alma/espírito (pneuma/psuche) – discussão boa para um outro momento.

A primazia da vida, o direito à vida, é o principio primeiro. Da filosofia, da política, do Direito. É a partir dele que podemos e devemos julgar qualquer ética, toda e qualquer política, a política, o Direito.

A legitimidade das instituições, da política, não pode assentar-se (exclusivamente) na legalidade. A legitimidade é base (da) política. A legalidade diz respeito ao corpo das leis vigentes em determinado momento (mesmo que se pretenda tenha ela um fundamento que o ultrapasse).

Se o primeiro principio é o direito à vida (aquele mesmo que diz que deve-se dar água ao sedento, alimentar ao faminto, acolher o peregrino, vestir ao desnudo, proteger a viúva, o órfão, o imigrante…), permite-nos levantar-se contra a lei, quando esta se coloca contra a vida.

Moisés

Moisés

Exodo desertoUma imagem cara ao imaginário semita (e que está bem presente no Antigo Testamento, na Torá) é a do deserto. No qual, o livro do Êxodo faz desenrolar o próprio nascimento de Israel (aqui pensado como ‘povo de Deus’, aquele cujo grito ‘Deus’ ouviu e a quem libertou – liberdade física e não espiritual). No deserto, há legitimidade, mas não há legalidade (não há leis).

Essa visão é tão forte que permanece mesmo no Novo Testamento cristão. Por isso, Paulo de Tarso pode afirmar que “a lei não é princípio de justificação” – se a lei mata o justo, mata os escravos, ameaça a vida, ela é injusta.

Cumprir a lei (injusta) é o maior dos pecados. A lei que justifica a morte do justo é injusta. De forma que pode afirmar-se que um cristão tem obrigação de ser ilegal quando a lei é injusta.

O Apóstolo Paulo ( Jan Lievens)

O Apóstolo Paulo ( Jan Lievens)

 

Infelizmente, o cristianismo, em suas muitas formas, optou pelo legalismo e não ousa afirmar a legitimidade da justiça (cuja base é a defesa da vida) para além e acima das leis.

 

 

 

Dussel não tratou disso, mas eu colocaria em pauta a dificuldade encontrada pelo marxismo em lidar com o Direito. Ouso dizer que não seria absurdo aproximar essa visão de Paulo de Tarso da ojeriza que (o marxismo?) se tem do Direito – como instrumento da ‘burguesia’ para a manutenção do status quo. A propriedade, já não mais pensada como base da/para a vida, mas como marca de separação, de apropriação, de impedimento da vida plena para o outro (principalmente quando se pensa que uma minoria da população pode deter a quase totalidade da riqueza, enquanto pessoas morrem de fome, não têm água para beber, não têm onde morar, não têm um país em que viver).

Karl Marx

Karl Marx

Se o Direito impede que se subverta essa situação: que se dê de comer aos famintos, de beber aos sedentos, de vestir aos desnudos, de acolher os que não têm abrigo, então esse Direito é contra a vida, ele é injusto, devemos nos colocar contra ele.

 

 

a origem da familiaburgues

Isso vale para a Economia e para a Política, vale para muito mais.

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As bases da nova direita (Antônio Flávio de Oliveira Pierucci )

Antonio Flávio Pierucci (19454-2012)

Antonio Flávio Pierucci (19454-2012)

Antônio Flávio Pierucci(1), em artigo publicado na Revista Novos Estudos (do CEBRAP), em dezembro de 1987, apresenta o perfil de eleitores de ‘direita’ na cidade de São Paulo. O artigo toma como base a analise de 150 entrevistas gravadas, com malufistas ou janistas (ou ambos), eleitores de Maluf e/ou Jânio Quadros.

Interessante a avaliação pois localiza-se no inicio da abertura política. Fica a tentação de atualizar o trabalho, pois algumas questões parecem dissonantes, mas outras são, no mínimo provocativas (para pensar). Afinal o que é ser de direita? faz sentido perguntar isso? a turma que bate panela e vota em Alckmin (para ficarmos com São Paulo ainda),  ainda se encaixaria no perfil traçado por Pierucci? O anticomunismo parece em voga novamente, mas talvez apenas como uma estratégia discursiva?

Um aperitivo:

“Seu tique mais evidente é sentirem-se ameaçados pelos outros. Pelos delinqüentes e criminosos, pelas crianças abandonadas, pelos migrantes mais recentes, em especial os nordestinos (às vezes, dependendo do bairro, por certos imigrados asiáticos também recentes, como é o caso dos coreanos), pelas mulheres liberadas, pelos homossexuais (particularmente os travestis), pela droga, pela indústria da pornografia mas também pela permissividade “geral”, pelos jovens, cujo comportamento e estilo de pôr-se não estão suficientemente contidos nas convenções nem são conformes com o seu lugar na hierarquia das idades, pela legião de subproletários e mendigos que, tal como a revolução socialista no imaginário de tempos idos, enfrenta-se a eles em cada esquina da metrópole, e assim vai.

 Eles têm medo. Abandonados e desorientados em meio a uma crise complexa, geral, persistente, que além de econômica e política é cultural, eles se crispam sobre o que resta de sua identidade em perdição, e tudo se passa como se tivessem decidido jogar todos os trunfos na autodefesa. “Legítima defesa” é, assim, um termo-chave em seu vocabulário. Esta autodefesa, que é prima facie a proteção de suas vidas, de suas casas e bens, da vida e dahonra de seus filhos (suas filhas!), sua família, é também a defesa de seus valores enquanto defesa de si. (Mas isto é ser de direita?) Eles não apenas votaram nas candidaturas mais à direita nas duas últimas eleições políticas realizadas no município de São Paulo; eles trabalharam por essas candidaturas. São ativistas da direita; não necessariamente militantes partidários, mas ativistas voluntários de pelo menos uma das campanhas, a de Jânio Quadros em 1985 e a de Paulo Maluf em 1986. A maioria deles o foi das duas. Não se trata, portanto, de simples eleitores, nem chegam a ser militantes partidários propriamente ditos. O nome ativistas sazonais, ou ativistas de campanha, denota com mais precisão o grau de envolvimento político-eleitoral dos entrevistados, assim como seu nível de informação política e de estruturação ideológica.

(…)

Mas que direita é esta? E até que ponto é “nova”? Questões complicadas. O medo e a agressividade em relação aos outgroup, como se sabe, não têm nada de novo como ingredientes de síndromes de extrema direita. Não têm nada de novo, é verdade, mas por outro lado conseguem orientar com segurança o diagnóstico, apontando na direção da extremidade direita do leque político: estamos às voltas com indivíduos arregimentáveis para causas antiigualitárias radicais e soluções autoritárias de direita. Estranhamente, porém, são favoráveis às greves dos trabalhadores e ao direito de greve, embora não façam greve e tenham cisma de que as greves degenerem em bagunça. Defendem a reforma agrária e, deste modo, estão bem longe da UDR; reprovam contudo as invasões de terras urbanas. Querem gastos públicos com a mesma veemência com que exigem as penas mais severas para o crime. Segurança policial e seguridade social são consideradas direitos urgentes de todos os cidadãos decentes e homens de bem: querem mais efetivos policiais, mais equipamentos e mais modernos, para o combate ao crime, maiores salários para os policiais; querem sobretudo a ROTA, emblema das decisões de polícia tornadas decisões de justiça. Mas querem, também, serviços públicos de saúde, escola, creches, orfanatos, reformatórios, internatos, às vezes campos de concentração com trabalhos forçados, transporte coletivo estatizado, seguro desemprego e aposentadoria condigna, tudo isto e muito mais eles querem do Estado. O papo liberal anti-welfare, claro está, não é com eles.

 

Do comunismo como fantasma assustador, velho pânico das direitas de um modo geral, do sobressalto ante a revolução socialista ali ao dobrar da esquina, nem sombra. Anticomunismo, quando há, é dos chefes, não das bases, assim como o pouco que se encontrou de neoliberalismo econômico provou-se minguante quanto mais longe das cúpulas das máquinas eleitorais ou partidárias se achava o entrevistado. De um lado, pois, o comunismo como um bicho-papão evanescente, que não mais atemoriza; do outro, o welfare state, que não convence como fantasma e alvo de ataque: nova direita sem reaganismo e sem thatcherismo? O fascínio que o neoliberalismo exerce sobre certos chefes partidários da direita, por enquanto, não reverbera nos ativistas de base.”

O artigo na integra pode ser acessado AQUI

 

(1) – Pierucci é bastante conhecido por seus trabalhos em sociologia da religião. No entanto, em 1988, apresentou interessante sugestão de interpretação sociológica das bases sociais das forças políticas de direita no contexto metropolitano no Brasil dos anos 80, tomando como base o município de São Paulo. Cf. http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_10/rbcs10_03.htm

Biopolítica e tanatopolítica, algumas notas

Os Retirantes (Portinari)

“Os Retirantes”, de Portinari

 

 

 

A Inversão da lógica de fins e meios:

  • A vida humana torna-se um meio
  • A eficiência torna-se o fim

A lógica instrumental da técnica moderna transforma os meios – a eficiência e a lucratividade – em fins.

Reduz-se o fim, a vida humana, a mero meio

 

O cuidado da vida humana – categoria ético-política central da modernidade reduz-se a um princípio formal da política moderna

  • cuida-se da vida quando é útil
  • abandona-se quando torna-se inútil

Há desdobramentos (não previstos) na objetivação da vida humana pelos dispositivos de poder.

(A Modernidade aponta para a POTÊNCIA (da e na vida)) –>

A política (que, por meio do direito) captura a vida traz em si a própria insurgência contra os dispositivos que tendem a controla-la.

As novas lutas políticas, então, são cada vez mais lutas biopolíticas
Os dispositivos do governo tendem a se confundir com técnicas de administração de Recursos Humanos.
O que pode ser considerado uma ‘boa invenção’ do Ocidente e da modernidade, os Direitos Humanos:

  • apontam para um contra discurso moderno: a vida humana como potência –> política insurgente.
  • despontam como discurso contra os dispositivos de controle.

Biopolítica, então, cada vez mais, seria uma política DA e não PARA a vida.

  • Política DA vida –> política como recurso funcional para a eficiência institucional –> a vida como um meio –> a política entendida como GESTÃO, é o FIM.
  • Política PARA a vida –> a vida humana seria uma alteridade irredutível em cada sujeito e um critério ético da política –> a vida é um FIM em si mesma –> a política seria MEIO para conseguir seu pleno desenvolvimento.

A TANATOPOLÍTICA –> O Estado como um corpo –> os problemas são tratados como doenças –> extirpar os agentes patológicos que ameaçam a existência do corpo (o Estado)

Uma diferença de tratamento:

  • POVO –> Cidadão –> Política –> Democracia
  • POPULAÇÃO –> Corpo –> Biologia –> Demografia

O Estado populacional de que nos lembra Foucault é aquele que trata os cidadãos como população, pois interessa muito mais saber como gerir, administrar os corpos, torna-los úteis, adaptados. Mais importante portanto seria a demografia, a estatística, a gestão, do que a vida qualificada, politicamente qualificada, a quem o Estado deveria servir e não servir-se.

AUTORES A (RE)CONQUISTAR:

Giorgio Agamben, Roberto Sposito, Judith Butler, Michael Foucault, Antonio Negri

Walter Benjamin

Walter Benjamin

Judith Butler

Judith Butler

Hans Kelsen

Hans Kelsen

Carl Schmitt

Carl Schmitt

Roberto Sposito

Roberto Sposito

Giorgio Agamben

Giorgio Agamben

Michael Foucault

Michael Foucault

 

 

 

 

 

Antonio Negri

Antonio Negri

 

 

 

 

 

TEMAS A CONECTAR:

Soberania e Estado de Exceção (Agamben, Carl Schmitt, Hans Kelsen, Walter Benjamin)

Amigo/Inimigo (Carl Schmitt)

Economia, filosofia da libertação, sacrificio (Enrique Dussel, Franz Hinklamert, Hugo Assmann, René Girard)

René Girard

René Girard

Hugo Assmann

Hugo Assmann

Franz Hinklamert

Franz Hinklamert

Enrique Dussel

Enrique Dussel

A(s) Lista(s) de Furnas (para não esquecer e acompanhar)

Apenas para manter o registro aqui. A transcrição da famosa (mas esquecida) lista de Furnas, com o nome dos beneficiários, na campanha eleitoral de 2002. Logo depois os arquivos (digitalização) da lista:

CAIXA 2 DE FURNAS – DIMAS TOLEDOR$ 39.910.000,00
PRESIDÊNCIA
José Serra PSDB-SP 7.000.000,00
GOVERNADOR-SP
Geraldo Alckimin PSDB-SP 9.300.000,00
SENADORES – SP
José Anibal PSDB 500.000,00
 
GOVERNADOR-MG
Aécio Neves PSDB-MG 5.500.000,00
SENADORES – RJ
Sérgio Cabral PMDB-RJ 500.000,00
Arthur da Távola PSDB-RJ 350.000,00
Marcelo Crivella PL-RJ 250.000,00
TOTAL DE SENADOR RJ 1.100.000 ,00
SENADOR-MG
Eduardo Azeredo PSDB-MG 550.000,00
Hélio Costa PMDB-MG 400.000,00
Zezé Perrella PFL-MG 350.000,00
TOTAL DE SENADOR MG 1.300.000,00
DEPUTADOS POR ESTADOS
 Partido na época  Valor (R$) Partido atual
DEPUTADOS-BA
Juthay Jr. PSDB-BA 270.000,00
Paulo Magalhães PFL-BA 250.000,00
Fábio Souto PFL-BA 200.000,00
ACM Neto PFL-BA 150.000,00
Luiz Carreira PFL-BA 100.000,00
Jairo Carneiro PFL-BA 100.000,00
João Almeida PSDB-BA 75.000,00
Gerson Gabrielli PFL-BA 75.000,00
João Leão PL-BA 75.000,00 PP
Robério Nunes PFL – BA 75.000,00
José Carlos Aleluia PFL-BA 75.000,00
José Rocha PFL-BA 70.000,00
Aroldo Cedraz PFL-BA 50.000,00
Coriolano Sales PFL-BA 50.000,00
TOTAL PARA A BAHIA 1.615.000 ,00
DEPUTADOS-ES
Luis Paulo Velloso Lucas PSDB-ES 350.000,00
José Carlos Fonseca / Francisco Gomide PFL-ES 100.000,00
Nilton Baiano PPB-ES 50.000,00 PP
TOTAL PARA O ESPÍRITO SANTO 500.000 ,00
DEPUTADOS-MA
Remi Trinta PL-MA 100.000,00
TOTAL PARA O MARANHÃO 100.000 ,00
DEPUTADOS-MG
Dimas Fabiano Jr. PPB-MG 250.000,00
Danilo de Castro PSDB-MG 250.000,00
Mauro Lopes PMDB-MG 200.000,00
Anderson Adauto PL-MG 200.000,00
Saraiva Felipe PMDB-MG 150.000,00
Herculano Anghinetti PSDB-MG 150.000,00
Osmânio Pereira PSDB-MG 150.000,00
Toninho Andrada PSDB-MG 150.000,00
Márcio Reinaldo PPB-MG 150.000,00 PP
Vanessa Lucas PSDB-MG 150.000,00
José Militão PTB-MG 150.000,00
Márcio Reinaldo Dias Moreira PPB-MG 150.000,00 PP
João Leite PSB-MG 150.000,00
Gil Pereira PPB-MG 150.000,00 PP
Agostinho Patrus PTB-MG 150.000,00
Ana Maria Vieira PSDB-MG 150.000,00
Antônio Júlio PSDB-MG 150.000,00
Alencar da Silveira Jr. PDT-MG 150.000,00
Carlos Melles PFL-MG 100.000,00
Roberto Brant PFL-MG 100.000,00
Ronaldo Vasconcelos PMDB-MG 100.000,00
Nárcio Rodrigues PSDB-MG 100.000,00
Odelmo Leão PPB-MG 100.000,00 PP
Marcelino Siqueira MG 100.000,00
Jaiminho Martins PFL-MG 100.000,00
João Magalhães PMDB-MG 100.000,00
Júlio Delgado PPS-MG 100.000,00
Aracely de Paula PL-MG 100.000,00
José Santana PL-MG 100.000,00
Mário Assad Jr. PL-MG 100.000,00
Sebastião Navarro PFL-MG 100.000,00
Djalma Diniz PSDB-MG 100.000,00
Luiz Humberto Carneiro PSDB-MG 75.000,00
Alberto Bejani PTB-MG 75.000,00
Jairo Lessa PL-MG 75.000,00
Athos PPS-MG 75.000,00
Pastor George PTB-MG 75.000,00
Pinduca Ferreira PPB-MG 75.000,00 PP
Bispo Gilberto PMDB-MG 75.000,00
Reminho Aloise PFL-MG 75.000,00
Domingos Sávio PSDB-MG 75.000,00
Ermano Batista PSDB-MG 75.000,00
Elbe Brandão PSDB-MG 75.000,00
Paulo Piau PPS-MG 75.000,00
Gustavo Valadares PFL-MG 75.000,00
Custódio Mattos PSDB-MG 75.000,00
Paulo César DE Freitas PRTB-MG 75.000,00
Fábio Avelar PTB-MG 75.000,00
Leonardo Quintão PMDB-MG 55.000,00
Fahim Sawan PSDB-MG 55.000,00
Sebastião Costa da Silva PFL-MG 55.000,00
Amílcar Martins MG 55.000,00
Ermano Batista PSDB-MG 55.000,00
Romeu Anízio Jorge PPB-MG 55.000,00 PP
Dilzon Melo PTB-MG 55.000,00
Maria Olívia PSDB-MG 55.000,00
Mário Rodrigues MG 40.000,00
Rafael Guerra PSDB-MG 40.000,00
Eduardo Barbosa PSDB-MG 35.000,00
TOTAL PARA MINAS GERAIS 6.155.000 ,00
DEPUTADOS-MT
Pedro Henry PPB-MT 100.000,00
TOTAL PARA O MATO GROSSO 100.000 ,00
DEPUTADOS-PE
Inocêncio de Oliveira PFL-PE 185.000,00 PL
Severino Cavalcante PPB-PE 180.000,00
Joaquim Francisco PFL-PE 150.000,00
Armando Monteiro PTB-PE 150.000,00
Pedro Correa PPB-PE 150.000,00
Raul Jungmann PMDB-PE 150.000,00
José Múcio PTB-PE 150.000,00
TOTAL PARA PERNAMBUCO 1.115.000 ,00
DEPUTADOS-PI
Ciro Nogueira PPB-PI 150.000,00
PP
TOTAL PARA O PIAUÍ   150.000,00
DEPUTADOS-PR
José Janene PPB-PR 150.000,00
José Borba PMDB-PR 150.000,00
Francisco Luiz Gomide PR 100.000,00
Affonso Camargo PSDB-PR 75.000,00
Aberlardo Lupion PFL-PR 75.000,00
Ricardo Barros PPB-PR 75.000,00 PP
Eduardo Sciarra PFL-PR 75.000,00
Affonso Camargo PSB-PR 50.000,00
TOTAL PARA O PARANÁ 750.000 ,00
DEPUTADOS-RJ
Paulo Feijó PSDB-RJ 150.000,00
Márcio Fortes PSDB-RJ 150.000,00
Alexandre Santos PSDB-RJ 100.000,00
Alice Tamborindeguy PSDB-RJ 100.000,00
Andréia Zito PSDB-RJ 70.000,00
Luiz Paulo PSDB-RJ 70.000,00
Eduardo Paes PSDB-RJ 250.000,00
Francisco Dornelles PPB-RJ 200.000,00
Rodrigo Maia PFL-RJ 200.000,00
Arold de Oliveira PFL-RJ 150.000,00
Bispo Rodrigues PL-RJ 150.000,00
Washinton Reis PMDB-RJ 100.000,00
Leonardo Picciane PMDB-RJ 100.000,00
Nelson Bornier PMDB-RJ 100.000,00
Eduardo Cunha PMDB-RJ 100.000,00
Roberto Jefferson PTB-RJ 75.000,00
Almerinda de Carvalho PMDB-RJ 75.000,00
Dr. Carlão PRONA-RJ 75.000,00
Jair Bolsonaro PPB-RJ 50.000,00
Simão Sessim PPB-RJ 50.000,00
Júlio Lopes PPB-RJ 50.000,00
Dr. Heleno PSC-RJ 50.000,00
Pastor Almir PL-RJ 50.000,00
TOTAL PARA O RIO DE JANEIRO 2.465.000 ,00
DEPUTADOS-SC
Gervásio Silva PFL-SC 75.000,00
Zonta PPB-SC 75.000,00 PP
Paulo Bauer PFL-SC 75.000,00 PSDB
Serafim Venzon PSDB-SC 75.000,00
João Pizzolatti PPB-SC 75.000,00 PP
Fernando Coruja PPS-SC 75.000,00
TOTAL PARA SANTA CATARINA 450.000 ,00
DEPUTADOS-SP
Valdemar Costa Neto PL-SP 250.000.00
Vadão Gomes PPB-SP 150.000,00
Antonio Carlos Pannunzio PSDB-SP 150.000,00
Aberto Goldman PSDB-SP 150.000,00
Walter Feldman PSDB-SP 100.000,00
Gilberto Kassab PFL-SP 100.000,00
João Batista PFL-SP 100.000,00 PP
Luis Antônio Fleury PTB-SP 100.000,00
Medeiros PTB-SP 100.000,00
Nelson Marquezelly PTB-SP 100.000,00
Robson Tuma PFL-SP 100.000,00
Arnaldo Faria de Sá PTB-SP 100.000,00
Zulaiê Cobra PSDB-SP 75.000,00
Chico Sardelli PFL-SP 75.000,00 PV
Xico Graziano PSDB-SP 75.000,00
Dimas Ramalho PPS-SP 75.000,00
Antonio Carlos Mendes (Thame) PSDB-SP 75.000,00
Luiz Carlos Santos PFL-SP 70.000,00
João Baptista PFL-SP 70.000,00 PP
Aluízio Nunes Ferreira PSDB-SP 50.000,00
Carlos Sampaio PSDB-SP 50.000,00
Lobbe Neto PSDB-SP 50.000,00
Silvio Torres PSDB-SP 50.000,00
Walter Barelli PSDB-SP 50.000,00
TOTAL PARA SÃO PAULO 2.265.000 ,00

 

*NÃO CONFERI ALGUNS NOMES, MAS A LISTA ACIMA ESTÁ DE ACORDO COM O PUBLICADO EM OUTROS SITES.

ABAIXO OS DOCUMENTOS DIGITALIZADOS

Fista de Furnas - parte 7

Fista de Furnas – parte 7

Fista de Furnas - parte 6

Fista de Furnas – parte 6

Fista de Furnas - parte 5

Fista de Furnas – parte 5

Fista de Furnas - parte 4

Fista de Furnas – parte 4

Fista de Furnas - parte 3

Fista de Furnas – parte 3

Fista de Furnas - parte 2

Fista de Furnas – parte 2

Fista de Furnas - parte 1

Fista de Furnas – parte 1

Crises nas Universidades (comunitárias) Católicas e o caso (ou caos?) de Brasília.

As Universidades Católicas no Brasil têm sido movidas, faz bastante tempo, por crises. Estas dizem respeito ao status diferenciado que estas (e outras) têm em relação a outra instituições de ensino superior no Brasil. Elas compõem um grupo especial de ‘Universidades Comunitárias’, ou seja, embora não sejam públicas teriam uma características específica, não baseada num ideal privada, como uma empresa (imagem com que claramente identificamos as faculdades, centros universitários, universidades particulares).

Isso também as beneficia de alguma forma e delas se têm uma confiança distinta, pelo menos no caso brasileiro isso é claro, em relação a outras IES privadas.

Mas a moda das consultorias e das gestões de mudanças, quase sempre com a desculpa de adequar a ‘saúde financeira’ dessas instituições para que continuem funcionando, têm direcionado muitas dessas universidades para adequar-se também a uma educação de massa, precarizando o trabalho dos professores, técnicos e, mesmo, terceirizados, buscando superlotar salas de aula, usar disciplinas virtuais para baratear o custo (o que significa mais alunos para um mesmo professor – ou, agora é moda, tutores, além de pagar menos para esses mesmos professores ou tutores, por cada hora trabalhada, malandragem aprendida com as consultorias e maus exemplos de IES que têm enchido os bolsos nesse país).

A PUC de São Paulo demitiu muitos professores em 2006 e entrou numa grande crise, da qual, acredito, até hoje não saiu. Houve indicação de uma intervenção, mas não tenho notícia de que isso tenha levado a uma normalização e a melhores condições de trabalho, garantia de qualidade nos cursos, ou coisa do gênero. Os professores foram à justiça para reverter as demissões. Outros momentos tensos, incluindo a Greve de 2012

A PUC de Minas Gerais também tem seus problemas com salários de professores, aumento abusivo de mensalidades, greve em 2011 e, em 2012, o quadro ficou bastante crítico. Mais ameaças de intervenção. Mesmos problemas já ocorridos em São Paulo.

A PUC de Goiás ressente-se atualmente do mesmo mal-estar. Com a desculpa de adequação e ajustes, o que se tem visto, na realidade, é um abandono da missão e do ideal de educação da PUC (“Conhecimento a serviço da vida”) para alinhamento ao ‘ideal’ da mercantilização da educação. Os ajustes são sempre no sentido de otimizar os ganhos, sem nenhum tipo de discussão sobre o projeto de educação. Mantem-se a fachada humanista, mas a precarização do trabalho aparece como ‘modernização’, como mudanças nos paradigmas de gestão, “pelo bem da saúde financeira da instituição’.

O caso da Universidade de Brasília é paradigmático. Ela não é um PUC, por opção. A motivação, parece, foi manter certa autonomia em relação à arquidiocese e, assim, também do Vaticano. A UCB é uma entre outras tantas instituições de ensino sob a gestão da UBEC – União Brasiliense de Educação e Cultura (até onde sabe-se, uma das instituições que lhe dava mais ‘entradas’).

A UCB já passou por problemas de caixa ou, talvez fosse melhor dizer, por problemas de gestão do caixa. O que foi superado por uma adequação de processos e, infelizmente, demissão de professores. Não é de hoje que a UCB ataca professores que ousam falar, discutir, pedir diálogo e transparência. Diz-se que custou o emprego de muitos ousarem organizar-se em associação.

Pois bem, em 2011, por causa de divergências entre membros do conselho diretor da UBEC e, dizem as paredes, divergências entre o então reitor da UCB, Pe. José Romualdo Degasperi e o presidente da UBEC, Pe. Décio Batista Teixeira, alteraram o estatuto e inventaram uma nova forma de escolha do reitor, que seria antecipada de uma pesquisa ‘no mercado’ para escolher um profissional adequado.

Foi com esse discurso que o sr. Cícero Ivan Ferreira Gontijo foi ‘descoberto’ pela consultoria contratada pela UBEC (Passarelli Consultores.) e passou a ser o reitor da Universidade, já em 2011. Só esqueceram de dizer que o sr. Cícero Gontijo é velho conhecido do Pe. Décio Batista Teixeira (primo?).

Na realidade, tudo mudou a partir desse ponto. Com a saída do pe. Romualdo Degasperi. Houve a quase total extinção dos setores administrativos de todas as mantidas da UBEC, e os engenheiros da nova organização concentraram tudo em um Centro de Serviços Compartilhados – CSC, que se transformou num transtorno e sinônimo de ineficiência, mas, funcionando dentro das dependências da UBEC, fechou com chave de outro a decretação de intervenção permanente nas mantidas, em particular a menina de outro, a UCB. Não há mais setores financeiros, controladorias, RHs etc, independentes. Tudo se resolve via CSC, mesmo para pedir um copo d’água, parece, tem-se que pediar a benção da UBEC, via CSC. Poder maior que esse?

Dentro da UCB, é de conhecimento de todos que a UBEC firmou contrato milionário com a CM Consultoria, de propriedade do Sr. Carlos Monteiro,. A empresa apregoa ser a maior do país na área de educação, embora em seu quadro, não conste exatamente profissionais de ponta em matéria de educação. O foco, fica claro, é reestruturar para mais lucrar. Nem sempre com resultados que sirvam como troféu. A GAMA FILHO, por exemplo, cliente da CM Consultoria faliu recentemente, seguindo a cartilha. Outras passam por dificuldades. Talvez, por isso, a UBEC venha tentando esconder a matriz de sua ideia de reestruturação, inclusive porque o MEC tem estado ‘de olho’ na CM e em suas propostas.

Pois bem. Apesar das dúvidas e da novidade, e da recepção também cheia de senões, sempre se tem esperança de que as mudanças possam trazer algo de positivo. A decepção não poderia ter sido maior. Após 18 meses de uma gestão absolutamente nula (porque eram os pró-reitores que efetivamente tocavam a UCB), o sr. Cícero Gontijo ‘pede demissão’, por motivos de ordem pessoal, e assume o sr. Ricardo Mariz, como pro-tempore, acumulando a função de pró-reitor de graduação e de Reitor.

Duas coisas a esclarecer: 1) corre, a boca miúda, que o sr Cícero Gontijo, na realidade, atreveu-se a ser reitor de verdade, embora tardiamente, o e a UBEC quis cortar suas asas. Como, além de reitor, ele era Procurador do DF (sim, ele permaneceu na ativa – embora dissessem que ela estaria licenciado), teria sido ‘demitido’, mas somente com um acordo que garantisse o pagamento do que teria direito pelo restante do mandato, embolsando uma boa quantia – se é verdade ou não é menos relevante; 2) o reitor pró-tempore parece que também foi pressionado a seguir uma cartilha de ‘modernização’ (o que pode ser traduzido como: demissão, redução de carga horária etc = precarização das condições de trabalho), acabou por demitir-se também, parece que com menos sorte, sem acordos vultuosos.

Não demorou muito e um novo reitor e pró-reitor logo surgiram.

 

O professor Dr. Afonso Celso Tanus Galvão, que já era da UCB, foi ‘convidado’ a assumir a reitoria e confirmado em junho de 2013. Iniciou-se um processo turbulento para ‘reestruturar’ a universidade, seguindo um plano que misturava indicações da CM consultoria e experiências do próprio professor Galvão, uma bricolage incompreensível do ponto de vista pedagógico e administrativo, mas claríssimo quando pensamos do ponto de vista financeiro e do sentido do plano da UBEC (quer dizer, da CM Consultoria, quer dizer, do sr. Leonardo Nunes Ferreira, que foi alçado à condição, em um certo momento (por meio de uma encenação de sua capacidade de saneamento financeiro) de Superintendente da UBEC (depois, acredito, os religiosos reajustaram suas expectativas e mudaram o nome pomposo.

Um coisa curiosa. A UBEC contratou a CM, que já teve o sr. Leonardo Nunes Ferreira como palestrante em seus cursos de formação. Uma relação, no mínimo, curiosa.

 

Os planos não saíram, ainda, como planejado e as trapalhadas da nova reitoria resultaram em protestos dos estudantes, criticas dos professores, presença do Sindicato e a rejeição formal da proposta de reestruturação da Universidade Católica de Brasilia, e uma postura rebelde do reitor em relação à UBEC, ousando falar em autonomia, complicaram o quadro e, nenhuma surpresa, o professor Afonso Celso Tanus Galvão foi demitido.

Tentaram encenar, como já tinham feito com o sr. Cícero Gontijo, que seria o caso de ‘problemas de ordem pessoal’, mas o professor Afonso Galvão desmentiu em publico que teria pedido para sair. Ainda não se sabe se houve ou não, nesse caso, o pagamento de uma boa ‘indenização’ para encurtar o mandato.

Pois bem, alunos de menos entrando na UCB, péssima estratégia de captação de novos discentes, insegurança dos docentes, retirada de recursos de pesquisa, da extensão, e mudança no formato de organização dos departamentos (mesmo sem a aprovação formal da reestruturação). Uma limpeza na gestão para garantir que não se encontraria mais resistência interna. Tudo isso levado a cabo pelo novo reitor, o religioso Dr. Gilberto Gonçalves Garcia.

Com muita experiência, inclusive tendo sido o primeiro e único presidente do Conselho Nacional de Educação que não vinha de uma instituição pública, parecia uma boa surpresa, dada também sua passagem pela UNISINOS. Enganaram a todos.

Adotando uma estratégia inicialmente compreensível de não dialogar com professores e, sequer, com os responsáveis pelos departamentos, ninguém parece lembrar-se da voz do novo reitor. O recado foi compreendido muito tardiamente: eu não vim para conversar.

A surpresa veio no final de ano, com a demissão em massa de professores (cujo critério de escolha não foi declarado, mas facilmente deduzido), antecedida de uma mudança, no final do semestre letivo, de certos cargos de confiança. Isso foi feito de forma sincronizada, quase silenciosa, para, provavelmente, o elemento surpresa ser efetivo. Professores com férias programadas, alunos de férias (não podendo ‘encher o saco’), o sindicato atordoado, e alguns meses antes do reinicio das aulas para fazer esquecer a ‘limpeza’ e o novo round da reestruturação ter inicio em 2015.

Assim como começamos o texto, crise nas universidades comunitárias não é novidade, mas a UCB tem se mostrado um exemplo a não ser ignorado. O fato de interesses particulares, pessoais, serem tão relevantes no caso de Brasília, com as intrigas entre integrantes da UBEC, a briga por poder entre professores e dirigentes dentro da UCB, o papel do sr. Leonardo Nunes Ferreira, até hoje mal esclarecido. A divisão interna entre Católica Virtual e a Católica ‘real’ (cursos presenciais), com suas visões distintas sobre o processo educativo e a luta por recursos e influencia. A extinção declarada do curso de Filosofia, a ausência de mais cursos da área de humanas (um curso de Ciência Política que não deslancha, onde está o curso de Geografia? Como pode um doutor em filosofia, agora reitor da universidade, compactuar com a desarticulação das áreas que ainda promovem a reflexão crítica?). O ano de 2014 foi importante pela organização dos estudantes, pelo fato de a UCB ter sido obrigada a responder publicamente algumas questões, mas agora profissionalizaram a coisa e se não se tirar da toca os responsáveis, nada mais será iluminado.

Pensam que é pela modernização? Nome esquisito e sem sentido, pelo saneamento das finanças conjugado com uma nova abordagem da educação? Ninguém se iluda: a responsável pela Escola de Educação não sabe o que é educação e quem participou da primeira e única reunião em que ela brindou os professores dos cursos pelos quais ela é responsável ouviram bem: não há estrutura, não há recurso, não há sequer sala, nada mudou em termos de sala de aula, mas são todos convidados a fazer o melhor que puderem. Educação? Que é isso? Não perguntem, ela respondeu claramente e é uma vergonha.

Para comparar, pensem na Escola de Direito. Sabem qual foi a primeira providência do seu diretor? ‘pedir’ (obrigar?) os professores a ‘vestirem-se adequadamente’ (algo como terno e gravata, tailler etc), de forma a diferenciarem-se dos alunos, impondo o respeito necessário. Viram bem qual a visão de educação e do papel dos professores e alunos?

 

Vamos ver se alguém de fora, seja agora no final de ano, seja no começo do ano que vem, pode, pelo menos, exigir transparência (aliás, obrigatória no caso das Universidades Comunitárias – alguém ainda conhece o estatuto?), os deputados, senadores, o Ministério Público, até o sindicato (que ainda não me convenceu de nada até o momento).

O novo reitor não vai permanecer tanto tempo na sombra e mudo. Seu currículo parece interessante, vamos ver como será vinculá-lo ao do sr. Leonardo e à CM Consultoria.

Esclarecimentos necessários, ou nem tanto. Que me importa?

Aos amigos, quase amigos, conhecidos e os que ainda serão, uma coisa ou outra:

1 – Vou votar na Dilma pra presidente. Para os demais cargos, serão todos de ESQUERDA, não voto em branco, nem anulo meu voto.

2 – Não acredito em santos, não acredito em discursos moralizantes ou moralistas sobre o ‘que fazer’ político. Isso não quer dizer que aceite mal feitos, mau-caratismo, roubalheira, apropriação de recursos públicos, corrupção, uso pessoal da coisa pública e coisas do gênero. Mas tenho claro que política não se faz fora da vida, deste mundo. Se até hoje, beirando os 50, não encontrei amigos que sejam santos, nenhum Dalai Lama, nenhum anjo, não será no campo da política que pretendo encontrar esses anjos esses seres acima do bem e do mal. Cobrar das pessoas nada além do que cobro de mim, sabendo que, inevitavelmente, vamos tropeçar aqui e ali. O que desejo é transparência e coerência. Quando a incoerência se fizer clara, que se mude, que se justifique, que se assuma, mas não que se faça milagres. Que se dê a energia honesta e dedicada a uma vida que exige isso, além de muita paixão.

3 – Dito isso. Preciso esclarecer que a ‘política’ ou o ‘tempo da política’ (como se diz no Nordeste) não me faz mudar ou começar a julgar meus amigos e conhecidos de outra forma, como inimigos ou adversários. EU NÃO SOU CANDIDATO, NÃO SOU FILIADO A PARTIDO POLÍTICO, NÃO TENHO PRETENSÕES POLÍTICAS (no sentido de militar em partido ou participar de governos ou de auxiliar ou assessorar quem quer que seja, embora me julgue competente para fazê-lo).
4. Não acredito em milagres, assim como não acredito nos santos. No entanto, devo admitir que, faz alguns anos, venho retomando um caminho que, sem pensar, havia abandonado ou no qual andava apenas passeando, dando-me conta de que é nesse caminho que me encontro verdadeiramente, digo, a minha identidade se mostra com clareza e minha ‘alma’ parece sentir-se plena. É um caminho que, avaliam muitos, temos sido constrangidos a dele ter vergonha, principalmente se você é de classe média ou a ela ascendeu: a da opção preferencial pelos pobres.
4.1 – Explico. Venho de uma família grande, como muitos dos meus amigos de infância, não sentimos os efeitos da ditadura militar, na qual nasci, porque meus pais não falavam disso e, seguindo o script que se lhes exigia o momento, fizeram de tudo para que não nos faltasse o básico, de forma que o sofrimento do meu pai para pagar as contas e levar comida para casa jamais foi compartilhado. Quanto à minha mãe, nunca a vimos reclamar, a despeito de ter que se desdobrar para costurar, cozinhar, nos vigiar (a todos os 6 – pois criança não é ‘gente’, como se diz), nos alimentar, nos educar, ao mesmo tempo em que lavava e passava roupa ‘para fora’, pois não poderia ‘depender’ do meu pai. Não foi uma vida de abundância, mas não tínhamos noção do que era ser pobre, nunca pensei nisso, sempre achei que tinha bastante. Até o dia em que, pela primeira vez que fomos à Minas Gerais, com o dinheiro que minha duramente juntou para ir visitar, depois de anos, sua mãe e alguns irmãos, ainda vivendo ‘na terra dos outros’, vivendo do trabalho duro que seus braços davam conta.
4.2 – Foi aí que, pela primeira vez, vi a diferença entre o que era meu avô, já morto, e o avô dos outros, naquele caso, dono de várias fazendas, cujas cercas perdiam-se de vista, assim como os limites da terra. Meu avô estava ali presente, nas cercas, nos mourões, que ele ajudou a fincar, demarcando claramente o que não era e não poderia ser dele. Como tantos, morreu sem nada, ficando apenas na memória de muitos seus dons de curandeiro e de parteiro. Contador de causo, sua ignorância no trato com os filhos deve ser perdoada, pois o amor estava lá também, contido pelas lambadas da dura vida.
4.3 – Não há nada de excepcional nisso. É a mesma história de muitos, na realidade de cerca de 2/3 da humanidade. Ele era seu Lazo (na realidade Lázaro), era um Silva, pra marcar que era um ninguém, como milhares nesse país e em todo lugar (segundo Hugo Assmman, num trabalho de 1994,”muitas das grandes corporações transnacionais trabalham com uma perspectiva de “cenário futuro”, para o ano 2010, entre 700 milhões e um bilhão de consumidores potenciais, com apreciável poder aquisitivo. Alguns poucos aumentam a cifra da clientela potencial “interessante” para ao (sic) redor de um bilhão e meio. Isso numa humanidade de, previsivelmente, 6,5 a 8 bilhões de habitantes. É para esse recorte de clientela que se planeja o “crescimento econômico”. Como dá para ver, a “massa sobrante”, isto é, o número dos “desinteressantes” e “descartáveis”, é assustador” ).
4.4 – Isso marcou minha vida, de modo que não compreendia naquele momento, mas que, logo depois, da experiência de algo fundamental, que desejava fosse temporário, pois, como jovem, não queria compromissos: participar de um grupo de jovens dentro da Igreja Católica.
4.5 – Era para ser somente, como acontece muito ainda hoje, uma experiência passageira, sem profundidade, talvez um tanto alienante, ou, a busca pelo extraordinário, ou a busca por identidade…. aconteceu um pouco de tudo, mas, por sorte, era um momento rico dentro da Igreja católica latino-americana e o que deveria ter sido um acidente de percurso, transformou-se no motivo para ter um percurso. Sem mais detalhes, foi ali que a Opção Preferencial pelos Pobres apareceu e fez sentido. Acreditava, havia um Deus em que depositava minha confiança, era um Deus que ‘ouvia o clamor de seu povo’, que ‘mandava libertar’, que acolhia ‘a viúva, o órfão, o estrangeiro’, que acolhia a prostituta, que andava com o povo, que ficava irado com a hipocrisia dos Fariseus, que não confabulava com os grandes, que nos chamava a ser coerentes, agir e viver sob o mandamento de amar uns aos outros, sabendo que o que fizermos à mais humilde das criaturas estaríamos fazendo a ele, Deus nos homens e nas mulheres deste mundo, não noutro. Mas um Deus que se faz presente nos desprezados desse mundo.
4.6 – Reviravolta da vida, superada a ditadura, condenada a Teologia da Libertação que tanto bem e tanta luz lançou sobre meus caminhos, restou a Filosofia da Libertação, e, por um tempo ainda, os trabalhos na Samambaia, em Planaltina, até que abandonando tudo isso, como abandonei a fé, fiquei perdido, mantendo apenas a leitura crítica e o apreço por ser provocado e testado continuamente.
4.7 – Tornei-me, sem que me desse conta, aquilo que alguns chamariam de pequeno burguês. A vida melhorou, o governo Lula recuperou a dignidade dos servidores públicos (e não apenas da ‘nata’ que FHC e o Bresser imaginaram ser a tecnocracia quer iria ‘modernizar’ a Administração). Impossível não mudar, impossível não encontrar com pessoas diferentes, impossível não fazer planos diferentes, principalmente quando a vida já não é seguida de forma solitária, planos são comuns, compartilhados, fazemos planos para os filhos. O Brasil é outro, algumas coisas parecem não fazer mais sentido ou nos fazem acreditar que nossos sonhos, nossas ‘utopias’, devem dar lugar ao conformismo e ao conforto de uma vida agora ‘segura’, padronizada.
4.8 – Vivi muitos conflitos por isso. Vi muitos amigos passarem pelo mesmo. Um sentimento de culpa por estar melhor que meus pais e por viver coisas que, por muito tempo, não faziam sequer parte dos meus desejos. Meus amigos hoje não andam de transporte coletivo (ou quase nunca), não soam com a jornada estafante do dia e das viagens para as cidades satélites, eles vão a bons restaurantes, consomem vinho com gosto e exercitam hábitos refinados, viajam para ‘o exterior’ com facilidade, consomem muito, usam produtos de beleza ‘de primeira’, gastam muito com sua (boa) aparência, roupas, perfumes, joias, óculos. Nada de poeira nos pés, nada de sapatos gastos, nada de carros populares. Boas escolas para os filhos, proteção, investimento no capital cultural, sonhos de grandeza para os descendentes. Nenhum mal, nenhum julgamento de valor, nenhuma avaliação negativa aqui. Um retrato. Eu também uso roupas melhores do que no passado, vou a restaurantes, degusto um bom vinho, viajo e viajei…. menos do que poderia, mais do que qualquer um da minha família poderia e gostaria. Ainda me sinto estranho, ainda resta um pouco de culpa, mas hoje bem compreendida.
4.9 – Tudo isso para dizer que tenho recuperado, com maior profundidade e consciência, o que me levou a fazer um dia essa opção preferencial pelos pobres. Assim como Jesus, o Cristo, não optou pelos pobres porque eles eram bons, mas porque eram pobres, eu também. Um sentimento de dever, dever de voltar-me para o outro, de ouvir sua voz, de levar a sério seu grito.
4.10 – Se hoje não teria mais condições de dedicar nenhum minuto à militância partidária, apostando que maior importância têm os movimentos de fora do sistema, inclusive ilegais, sei que há um custo em viver num mundo como o que inventamos, em sociedade, cabendo jogar o jogo da democracia, ao mesmo tempo em que se deve, de fora, reconfigurar o poder, para dar-lhe outra legitimação. Não dá para não levar a sério esse jogo. Se eu não sou atingido de imediato, protegido que estou na minha nova condição de classe, outros o são, diretamente, cruelmente, pesadamente, todos os dias. Não consigo não me sentir minimamente responsável. Não saber exatamente qual o melhor caminho, pessoal, de engajamento (que passe longe da caridade fácil e da indignação seletiva), não deve desanimar nem nos desacreditar ou nos desvalorizar.
Por natureza, se posso usar esse termo, tendo ao anarquismo. A rigor, sou contra qualquer governo e abomino a ideia de Estado (por motivos diferentes de alguns liberais), mas é fácil ser anarquista teoricamente. E é fácil mudar o mundo todo quando vivemos no conforto e não sofremos, como disse, as consequências de sermos alienados ou seguirmos as opções da classe.
4.11 – Já basta. Isso apenas para esclarecer que não sofri uma lavagem cerebral. Para deixar claro que não é amor pelo Partido dos Trabalhadores ou pelo Lula, nem pela Dilma, que move minha leitura do mundo e fundamenta minhas opções. Isso para afirmar que levo a sério dissecar, desmontar, a visão de mundo hegemônica construída pelos vencedores, transmitida como verdade nas escolas, nas igrejas, nas novelas, nos jornais, recontadas por personagens tão repugnantes como, em nosso caso, o Brasil, Demétrio Magnoli, Antonio Carlos Villa, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Olavo de Carvalho, Graça Salgueiro, os convidados do Instituto Millenium e congêneres, ou em pessoas mais interessantes como um Luiz Felipe Pondé…. saudades de José Guilherme Merquior e Roberto Campos (com quem podia não concordar em nada, mas que desafiava de verdade nossa inteligência e coerência).
A visão mediana, medíocre, quantofrênica, colonizada (desculpe Renato Janine Ribeiro, mas aqui cabe essa expressão), de almas que são puro reflexo do espelho de Próspero, amaldiçoadas por Malinche, idólatras do deus mercado, que recusam seguir o deserto por medo de lhes faltar as cebolas, o conforto…. essas não me perturbam, salvo por decepção, não me contém, apesar da tentação, apesar dos modelos bonitinhos, made by Miami. O que me assombra, me atemoriza é imaginar que esse lugar devorou minha alma e já não me chama o amor responsável, já não me sensibiliza a dor do outro, já me obscurece a visão e confunde o juízo, de forma a culpar os pobres e justificar os poderosos, de forma a não me importar e não sentir constrangimento, a me fazer defender o que beneficia poucos e não a maioria, principalmente os que menos têm e menos podem.
4.12 – Não tenho a pretensão de ser mais, de saber mais, de enxergar melhor, de considerar minha experiência e minha vida sequer relevantes. Acredito que nossa pretensão de ser algo nesse mundo é risível, duramos menos que um segundo que o Universo despreza, ‘desimportância’ absoluta. Ciente disso, mas sabendo que só temos essa vida e esse momento, o que faço devo fazer com o máximo de consciência e responsabilidade (outra alternativa era fazer o mesmo, apenas para e com os meus mais próximos – talvez seja o mais inteligente a fazer, quem sabe?). Ciente também de que isso aqui vai ser lido por um numero limitado de pessoas, alguns que, talvez, não compreendam a motivação, outras que reprovarão a iniciativa, outras que desistirão no meio do caminho, outros que me julgarão muito mal. A minha despretensão vai ser julgada como pretensão demais, como demonstração (ou tentativa) de superioridade, de vencer um jogo. Não posso fazer muito quanto a isso, mas posso continuar afirmando que não há tal pretensão, salvo a de dar vazão à necessidade de justificar minhas ultimas reações e minha posição diante não só desse momento importante da vida do país, mas diante de outras coisas. Não acho que tenho todas as respostas, não acho que estou plenamente capacitado para produzir analises isentas, não acho que compreendo absolutamente todo o contexto (por mais que tente), acho que algo me escapa, acho que devo ouvir mais, acho que devo tentar outros caminhos, mas de uma coisa não tenho dúvida hoje:

4.13 – JAMAIS ME TORNARIA UM CONSERVADOR, NEM ADOTARIA UMA VISÃO DE MUNDO QUE ACREDITA EXISTIR ALGO COMO “O MERCADO”, O NEOLIBERALISMO (EMBORA TENHA SIMPATIA POR ALGUMA FILOSOFIA (POLÍTICA OU MORAL) LIBERAL – O QUE SE DISCUTE ALI TEM SUA IMPORTÂNCIA, MESMO QUE NÃO A TORNE MINHA, PODE MELHORAR-ME), NÃO APOIO PARTIDOS OU IDEOLOGIAS QUE JUSTIFIQUEM A DESIGUALDADE, QUE SEMEIEM O ÓDIO AO DIFERENTE, QUE CRIMINALIZEM A POBREZA, QUE VALORIZEM O SISTEMA FINANCEIRO ACIMA DA VIDA (A ÉTICA EM QUE ACREDITO TEM COMO FUNDAMENTO PRIMEIRO A VIDA, SUA PRODUÇÃO, REPRODUÇÃO E PROTEÇÃO), QUE REPRESENTEM O INTERESSE DE UM CLASSE APENAS E ACIMA DE QUALQUER OUTRA (EMBORA MEU PONTO DE PARTIDA SEJA QUE OS PÁRIAS DA SOCIEDADE, A RALÉ, PARA LEMBRAR JESSÉ DE SOUZA, SEJAM AGENTES FUNDAMENTAIS, PRIMEIROS), NÃO APOIAREI JAMAIS, DE BOM GOSTO E SEM CONFLITOS TERRÍVEIS, QUALQUER CANDIDATO OU PARTIDO QUE DESVALORIZE A MULHER, QUE SEGREGUE HOMOSSEXUAIS, QUE IGNORE NOSSO RACISMO DISFARÇADO, QUE COLOQUE A PROPRIEDADE PRIVADA EM PRIMEIRO PLANO (DE NOVO, A VIDA DEVE VIR SEMPRE EM PRIMEIRO PLANO).

4.14 – Cada vez mais faz sentido para mim as lições do velho e sempre atual Karl Marx. Não sou dado a filiações teóricas, mas reconheço-me na filosofia da libertação de Enrique Dussel, mas também na Ética de Emanuel Lévinas, a antropologia, por sua vez, fixou um desejo de sempre desnaturalizar minha vida, meus valores, as categorias que utilizo para pensar o mundo (embora não consigamos fazê-lo sempre, isso aparece inevitavelmente em mim), a psicanálise ajuda a não levar tão a sério a razão e a consciência, mas nada disso é maior e mais fundamental do que o sentimento de pertença ao mesmo e único ‘destino’, incerto, do homem nesse mundo, principalmente o sentimento de responsabilidade pelos que se apresentam mais fracos (e me perdoe Nietzsche por esquecer tão fácil suas lições aqui).

4.15 – Então, amigos e quase amigos, perdoem se não consigo, por causa desse sentimento e desses mecanismos que são acionados em mim sempre que me deparo com afirmações sobre o mundo e, em particular, sobre nosso mundo hoje, do Brasil de hoje, e não as aceito sem antes submetê-las a inúmeros testes, quase automaticamente, de forma que posso ser injusto às vezes, descartar coisas muito rapidamente – mas porque, em tempos de tanto lixo informacional, não temos alternativas quanto a selecionar o que deve ser objeto de consideração ou não.
4.15.1 – Desculpem se não me interesso pelo que dizem os personagens já carimbados da nossa imprensa (e aqui digo que nem mesmo os que são próximos às minhas ‘convicções’ filosóficas e ou políticas – eu os replico muitas vezes, mas também me sinto cansado com e de certas posições e de certa insistência em leituras particulares). Não me interessa o que a Veja diga, o que O Globo diga, o que o JN diga, o que a CBN diga, muito menos o que os cheirosos do Manhattan Connection pensam sobre o mundo ou sobre sua visão negativa e sombria sobre o Brasil. Muito menos interessam-me os novos especialistas da mídia corporativa, salvo uma voz ou outra, destoante, que, estrategicamente, alguns veículos deixam ressoar.
4.15.2 – Depois de ler e entender o que pretenderam os “interpretes do Brasil”, de ouvir um Milton Santos, um Florestan Fernandes, um Darci Ribeiro, um Roberto Cardoso de Oliveira, um Celso Furtado, um Sérgio Buarque de Holanda, um Paulo Freire, um José Guilherme Merquior, um Roberto DaMatta, um Wanderley Guilherme dos Santos, ou depois de conhecer um José Carlos Mariátegui, um José Marti, um Enrique Dussel, um Leopoldo Zea, um Ruy Mauro Marini, um Theotonio dos Santos, um Salazar Bondy, um Franz Hinkelammert, um Gustavo Gutierrez, um Hugo Assmann, de ser atingido pelas palavras de um Aimé Cesaire, de um Franz Fannon, de uma Elza Tamez, ou ser revirado pelas questões postas por uma Judith Butler ou um Giorgio Agamben…. e, mais, de conhecer a vida de muitos desses homens e mulheres que dela fazem muito mais do que produzir e defender teorias, mas alçaram à condição de instrumento de transformação (se preciso indo de encontro à morte, de armas em punho), não dá para ficar dando ouvidos a bobagens, não dá para ter paciência com papagaios, com defesa de valores mal compreendidos ou defendidos ‘por inércia’ (de classe tantas vezes), não dá para ouvir reclamações mesquinhas sem me sentir ofendido, não dá para ver certos personagens ‘performarem’ o papel de paladinos da justiça e da moral quando suas vidas e seus projetos dizem que a coisa é um pouco mais confusa e até contraditória. Não dá para ter paciência com pessoas inteligentes manipulando números e forçando conexões entre fatos, alguns inventados, para sustentar uma tese, para disseminar duvida, para disseminar ódio, quando já há tanta violência e morte nesse mundo.
4.15.3 – Por outro lado, não vou mais, nem poderia, de qualquer modo, forçar ninguém – e ninguém deveria ou deve aceitar isso, a concordar comigo e ou com minhas ponderações e críticas.
No entanto, reforço: não discuto princípios (não em qualquer lugar, de forma leviana).

4.15. 4 -Falando desse novo mundo que é o mundo das comunidades e das redes sociais no mundo virtual, da internet, ele ainda nos dará trabalho até compreendermos seu tamanho e papel. Não é um campo de batalha, sei, mas também serve para mostrar nossas crenças e valores e, em certos momentos, críticos, esses valores e crenças, alguns dos quais (em tempos ‘normais’) preferimos manter meio protegidos, por nos revelarem mais, acabam aparecendo. Tenho visto isso bastante nesse momento. Eu sou prova disso. Algumas vezes, deliberadamente, replico coisas, para provocar, mas jamais escondi o que penso. Gosto quando me confrontam de forma a eu ter que melhorar ou abandonar meus argumentos e crenças, simplesmente é a coisa mais honesta que podemos fazer por nós e pelos outros.
4.15.5 – Faz muitos, muitos anos, incorporei algo que um grupo de amigos, estudando e discutindo filosofia, definiu como sendo uma regra para nossos encontros: todos participam de um AUDITÓRIO HOSTIL, não com a pessoa, mas com suas ideias e seus argumentos. Se eles sobrevivem ao auditório, saímos melhores e podemos ainda sustentar essas ideias e argumentos, até o dia em que sejam refutados ou colocados sob suspeita tão forte que não temos alternativa senão abandoná-los, sem morrer por causa disso.
Às vezes esqueço que esse auditório hostil faz sentido para mim e não para todos os que conheço, por isso espero que me perdoem se acreditam dirigir-me a pessoas (isso só é válido em poucos casos, por exemplo, eu adoraria dar um soco no Mainardi, no Magnoli, no Lobão, mas também não é um desejo permanente), mas a ideias. Como muitas delas refletem valores, sei que é difícil não sentir como um ataque direto. Não posso fazer muito quanto a isso. Apenas esclarecer que não é essa a intenção (como é a da maior parte das pessoas, infelizmente. Elas querem matar o autor da ideia, aquele que sustenta uma visão de mundo ou de vida que nos afronta etc).
4.15.6 – Como é fácil não nos lermos, cancelar a ‘amizade’ nos facebooks da vida, ou, mais disfarçadamente, deixar de ‘seguir’ alguém, isso não é tão traumático assim. Eu não me importo de jeito nenhum, mas quando acesso meu perfil e meus amigos replicam coisas que afrontam, como disse, certos valores e princípios, não tenho dúvida de, tendo tempo, devolver alguma coisa. Infelizmente, nesse momento, esse ‘alguma coisa’ pode ser confundido como defesa barata de um partido ou candidato, uma pena. Para mim, muitas vezes (e sempre espero estar errado ou exagerando) é questão de visão de mundo, é luta de classe em grande medida, é uma guerra entre valores fundamentais para o mundo que virá.
4.15.7 – Se depender de mim, meus filhos não sustentarão valores contraditórios à opção preferencial pelos pobres, à justiça social, aos direitos humanos, à tolerância, ao respeito à diversidade, à defesa da vida, à não criminalização da pobreza, antes, espero, conseguir fazer resistirem à  banalização do mal, que é o que, para mim, retrata grande parte do que venho observando, travestido de ingenuidade, de lugares comuns, de chavões, de dados inventados, de meias verdades…. a que as pessoas simplesmente acham que podem dar vazão, pois não são elas as produtoras, as ‘responsáveis’. Não raro, identifico um(a) idiota moral, perigosa porque aparentemente inofensiva, comum, pessoa de bem… como as tantas da Marcha da Família com Deus pela Liberdade em 1964, pacatos cidadãos, caçadores de comunistas, servos de Deus e da Nação. Nenhum deles acha que tem qualquer coisa a ver com as torturas e desaparecimento de pessoas durante o regime de exceção. Não são responsáveis, como não eram os kapos, os soldados, oficiais e comandantes nazistas, muitos deles pais e mães, cidadãos tão comuns, bons filhos, bons empregados, bons amigos, mas moralmente idiotas.

5. Além desses, por fim, os que não são nada idiotas, nem moralmente, porque sabem o que está em jogo e têm um lado. Quanto aos idiotas morais, não os perdoo, mas entendo. Quanto a esses últimos, não há o que perdoar, mas não os quero como amigos. Diferentemente do que disse acima, aqui somos inimigos, no sentido político. Se em tempos de normalidade isso pode não ser um problema, se posso aceitar a diversidade de opiniões, não consigo aceitar certos valores, certos estilos de vida. Coisas que vou cobrar cada vez mais de mim e que não pretendo cobrar dos e nos outros, impedem-me de ficar nessa posição que seria confortável, de olhar e não ver. Conheço meus limites e não sou pretensioso desse tanto. Sei o meu lugar. Simplesmente sigamos em frente, mas não tenham pena de mim. Não é necessário. Eu não tenho, ao contrário. É tentando, pelo menos isso, olhar para um lugar especifico no horizonte e assim espero poder caminhar e alcançar aquilo que, em algum momento, perdi, tenho certeza de que seguirei mais e mais feliz.

UM DESABAFO, ALGUMAS DECEPÇÕES, UM COMPROMISSO, TALVEZ UM DESPERTAR, QUIÇA – POR QUE NÃO POSSO DEIXAR PASSAR.

“Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?”

(Mateus 16:26)

A escola é um lugar assustador, apenas nos acostumamos com ela, porque já esquecemos quão terrível ela é. As crianças sabem, os adolescentes sabem, mas vão se conformando e, de repente, aprendem a lidar com os fantasmas e, em temos mais democráticos, vez ou outra a voz pode se fazer ouvir, há os colegas, há a burla das regras, aprende-se a dissimular, a fingir, a fazer de conta, na esperança de que tudo acabe logo, e o sofrimento do ensino médio é experimentado por uma alma já domesticada, em parte, e por um corpo que já se moldou às cadeiras pouco ergonômicas, às horas de suplício sentado, e nossa atenção mais ou menos domada permite sobreviver a tantas horas de conteúdos inúteis e às ideias de professores sem talento e aos burocratas que estão de passagem, por isso odeiam a escola, só não podem publicamente admitir, eles também foram treinados para dissimular, nosso mundo é um mundo de faz de conta, de atores ruins.

Não bastasse a escola ser essa instituição hermética, cuja burocracia é tão perversa quanto às teorias que dão suporte aos incontáveis experimentos com o corpo (porque é ele que sofre primeiro) dos alunos (agora iniciando seu martírio nas creches, ainda bebês), os pais, formados nessa mesma escola, que lhes fizeram crer ser boa (bastam alguns ajustes), graças à qual se disciplinaram, aprenderam ‘tudo que sabem’, aprenderam a ser gente, adultos responsáveis (?), reproduzem em casa a escola ou, por serem, ao contrário, críticos da escola ‘do tempo deles’, fazem de tudo agora para ‘não errar como os seus pais erraram’, como seus professores erraram.

Nesse ponto, os espertalhões de plantão já entenderam que esse tipo de gente, basicamente de classe média, é uma mina de ouro. A psicologia é a linguagem padrão (psicologia rasteira, mas é), todos querem que as crianças não se frustrem, não sejam infelizes, que aproveitem melhor sua inteligência, seu potencial, suas potencialidades, sua criatividade, Todos querem que seu ‘eu’ seja pleno, que elas, as crianças, sejam, enfim, melhores. Por isso, antecipamos todos os problemas e percalços que poderiam impedir nossos filhos de serem os próximos campeões olímpicos, o próximo Einstein, o inventor da cura do câncer, o melhor cirurgião do mundo, o próximo Bill Gates ou próximo Stephen Jobs, o próximo nobel (da Paz não, de Economia, Química, Física etc), por isso é inadmissível que a escola seja um entrave. Se ele não aprender inglês, francês, chinês, alemão agora, com seus já bem vividos 5 ou 6 anos, ele não terá uma boa pronuncia, ele poderá não ir para o MIT ou para Harvard…. isso seria um desastre, uma falha terrível….

Ao mesmo tempo, ainda convivemos com quem mal pode estudar e tudo que deseja é que o filho termine seu ensino médio e trabalhe ou, como agora no Brasil é possível, que faça um curso superior numa universidade ou faculdade particular…. outra história.

A verdade é que vivemos um tempo estranho no que diz respeito aos jovens. Não lhes oferecemos de verdade nenhum desafio significante, a escola é um lugar para enfraquecer sua alma e sua criatividade, os pais continuam sendo o de que pior se poderia esperar em termos de facilitação de caminhos próprios, de exercício criativo, de, também, modelo, de canal para o diálogo e para as dúvidas e angustias serem processados de modo positivo.

A televisão, uma possível saída (e lá se vão décadas, desde que Theodor Adorno refletiu sobre isso), é puro esgoto, a despeito de algumas poucas exceções; o rádio (principalmente FM) transformou-se, salvo também algumas exceções, em reprodutor de cultura alienígena (e hoje ninguém quer mais nem ouvir essa crítica, coisa de comunista ou gene careta). Se outrora, os adultos ficavam preocupados por ouvirmos tanta musica estrangeira, era verdade também que se ouvia e se fazia musica própria e de qualidade (ou pelo menos os registros nos dão razão para crer nisso), hoje continuamos a ter bons músicos, claro, mas cada vez menos bons letristas, cada vez menos boa música e a juventude, principalmente de classe média, conhece e canta mais músicas americanas do que brasileiras e nem passa por sua cabeça que isso seja considerado estranho ou alienante por alguém, inclusive porque já não fazemos com vigor essa crítica.

 

Não, não é o quadro que, desde que o mundo é mundo, os adultos pintam sobre os jovens. Os jovens sempre foram uma ameaça, graças aos céus, à tradição, ao que está estabelecido, e os adultos, não é raro na história, imputam a eles um monte de características negativas e indesejáveis para a ‘ordem’ social: preguiçosos, não tradicionais (que bom), desrespeitosos, violentos, ignorantes, de gosto duvidoso, alienados etc.

Se em algum momento isso pode ter feito sentido, quase sempre era uma leitura de quem sentia-se ameaçado pelo novo, porque sentia, também, medo do que viria se prevalecessem novos padrões estéticos, intelectuais, morais, coisas sobre as quais não haveria controle e, portanto, risco de o mundo ‘acabar’.

Hoje, a questão me parece outra e a escola teria sido, a despeito de ser uma instituição nascida má, um lugar para canalizar saídas para esse novo tempo.

Não preciso falar que vivemos num momento de ultra estimulação, de múltiplas fontes de interesse, de informações fluidas, de velocidade estonteante (ao menos no mundo virtual), da não fixação (por muito tempo) sobre nada, às vezes nem relacionamentos (o amor é algo cada vez mais deslocado), um tempo em que a tecnologia (sobre o que já se havia produzido tanta ficção, antecipando o que seria esse momento) nos pega de surpresa e, basta olhar na rua ou dentro de casa, para perceber isso: nós somos nós e nosso celular, nós e nosso tablet, nós e nosso smartphone, nós e nosso notepad, netpad, notebook. Somos nós e nossos aplicativos, somos Whatsapp, somos facebook, somos twitter, somos instagram, somos google drive, google maps, google….. e a escola não sabe o que fazer com isso. Esse é um ponto.

Essa é a cobrança que muitos fazem. Outros tantos acham que basta incluir um quadro interativo e usar uma plataforma (quadrada) de ensino à distancia que está tudo resolvido. Distribui-se tablets para os alunos e giz para os professores. E a crítica continua, sem tocar no ponto.

 

Esse quadro, acredito, é real. Os jovens não tem por onde correr, não há modelos disponíveis (pensados ou apresentados como tal), porque não se acredita mais em modelos. Não temos orgulho de ser éticos, a ética é algo sem sentido para indivíduos tão autocentrados, utilitaristas. A política é um peso, as instituições que dão contorno à Democracia são vistas como um peso morto, a representação não é compreendida e nem mais desejada, mas também não se propõe nada para seu lugar, simplesmente não se quer tomar parte, participar. Nossa identidade, cada vez menos, diz respeito a família, a bairros, a clubes, comunidades, mas ela é múltipla e fluida, se fez pela presença-ausência em comunidades virtuais, encontros diversos com grupos de ‘conhecidos’ ou completamente desconhecidos, a solidariedade não é uma coisa esperada e, muitas vezes, nem compreendida. É a turma do happy hour no bar X, da rave, do curso Y, da corrida (que bom que tem gente que corre ainda), do futebol da terça-feira, da igreja (mas sem que sejamos obrigados a participar de nada nela)…. claro que essa é uma tendência e há gerações disputando espaços, mas facilmente encontramos esses jovens por aí (e de outros tipos, graças aos céus).

Muitos nos surpreendem, claro. A despeito de que foram treinados para aprender a fazer provas e não compreender, muitos se saem bem, mas acredito que não sejam maioria.

Pois bem, sem maiores delongas, os pais ajudam a fechar o quadro terrível: os filhos não fazem nada em casa, não tem responsabilidade nenhuma ou quase nenhuma, não são obrigados a trabalhar a partir de certa idade e os empregados (ou os próprios pais) se transformam em servos dessas criaturas cada vez mais mesquinhas. Como disse uma articulista certa vez, registrando bem a imagem, eles, os filhos passam a acreditar que o mundo é deles, que eles não podem sofrer, que não podem se frustrar, que não podem sentir dor, que não podem perder, que os caminhos são planos, que eles sempre terão razão, que os adultos (incluindo os professores) não tem autoridade sobre eles (o que tem um lado bom, mas não é disso que os pais costumam falar, infelizmente), eles são verdadeiros reis (e Freud já tinha delineado isso no final do século XIX e início do século XX), verdadeiras pragas, isso sim.

 

Por outro lado, há tanta informação, tanta possibilidade de uma melhor formação, de entender melhor o mundo, de conhecer mais e melhor a diversidade, de trocas de ideias… e, no entanto, os mais jovens leem cada vez menos, acham livros uma coisa ultrapassada, chata e sem sentido. Por quê ler, se o google me diz o que preciso saber?

A imagem para isso, que delineou John Bell, é que o conhecimento se tornou mais extenso, porém mais raso. Sabe-se muito pouco, mas estica-se esse pouco até o limite, para parecer muito, mas sem profundidade alguma. Fundamentos são coisas incompreensíveis para essa mente. Lógica é algo a ser abolido. Argumentação é algo do passado, pois tudo está indexado e pode ser recuperado na ‘rede’, o importante é ter conexão, estar online….

Ainda veremos uma geração que, talvez, não goste de academias, de exercitar-se. Hoje ainda estamos na ressaca, no final da febre, as academias (agora franquias de gigantes norte-americanas) espalham-se pelo país, assim como os suplementos alimentares, os pré-treinos, as vitaminas, os condutores, que atuam no humor, na atenção, na força muscular, nos neurotransmissores, combatem o cansaço, o stress, a dor, a insônia, o sono, a falta de atenção…. a tristeza…. mas também a gordura em excesso ou localizada, as rugas, a impotência, a falta de apetite sexual, o excesso de apetite, para tudo há remédio. Não precisaremos, em breve das academias, dos esportes, sobrará tempo para os videogames, os zilhões de vídeos no youtube ou vimeo, os milhões de posts no facebook, as milhões de fotografias no instagram, para os bate-papos via Skype, Viber ou no ressuscitado ICQ…. ler, pensar, refletir, escrever, AGIR, nem pensar, certo?

Enquanto isso não acontece, convivemos com os híbridos ou com os protótipos desse tempo que será ainda mais estranho, e que não tarda, imagino. Esses híbridos podem ser de diversos tipos, mas alguns são bem comuns em sala de aula, agora falando da universidade:

-Há os que escaparam, sabe-se lá por que, que leem, escrevem, gostam de arte, se apaixonam, se envolvem em projetos, acreditam num mundo melhor, pelo qual eles são responsáveis…. cada vez em menor quantidade;

-Há os que leram menos, refletiram menos, são menos preparados para desafios, mas que ainda conseguem se motivar com o exemplo dos que fazem parte do primeiro grupo, podem se ‘converter’ e participar de grupos, de movimentos, de projetos, de forma engajada e consciente, mas podem desistir e voltar para o lugar mais comum, dos medianos, ficar anônimo, seguir as receitas e ‘viver em paz’;

-Há os com muito capital cultural e social, filhos de intelectuais (incluindo pesquisadores, professores universitários) ou de profissionais bem sucedidos, advogados, juízes, médicos, arquitetos, engenheiros, alguns empresários…. e que, mesmo por osmose, chegam às universidades (quase sempre públicas, embora os cursos de medicina agora atraiam parte desse público também nas particulares). Possivelmente serão bem sucedidos na ‘academia’, mas a maioria não se importa com política, com a ‘situação do país’, com o que virá. Não raro, são arrogantes, afrontam gratuitamente colegas e professores com seu ‘conhecimento privilegiado’, não se importam em parecer (e ser) elitistas, preconceituosos, pedantes. Embora existam pessoas que não se encaixem nesse perfil completamente, é nesse grupo que encontramos aqueles que, depois, darão sustentação ‘teórica’ (e como exemplo) à manutenção do status quo. Muitos são ‘neutros’, raramente de esquerda, embora possam ser críticos, mas o pior desse grupo são os conservadores e liberais. Daqui saem os cabeças de planilha.

-Há o grupo dos perdidos, daqueles que não tem capital social, nem capital cultural razoável para que aproveitem bem sua passagem pela universidade ou pelas instituições de ensino superior em geral. Quase todos, na situação do Brasil de hoje, estudarão em universidades ou IES privadas. Não raro, não sabem ler, nem escrevem corretamente. Estão a um passo de serem uma caricatura de seus correspondentes de classe média com mais capital cultural, mas que, também, não investem em estudo, em autoformação. Talvez esse grupo deixe de existir no futuro, mas hoje, dele, melhor de sua passagem pela universidade, resultarão: profissionais mal preparados, repetidores de teorias e modelos duvidosos, burocratas, futuros professores, mas, possivelmente, também, pessoas melhores, profissionais melhores (porque já são trabalhadores, já são mais maduros, não raro estão retornando ao estudo depois de uma década ou mais).

 

Esse último grupo é o mais difícil, para mim, de lidar. Nem sempre é fácil decidir sobre encaminhamentos, diante do fraco desempenho de uma boa parte desse grupo.

No entanto, é um tipo mais genérico que me incomoda mais. Fruto da escola fracassada e de pais igualmente fracassados no processo de formação do caráter, dos valores, há um tipo de jovem que simplesmente recusa-se a pensar, a sair do lugar comum, a aprofundar qualquer coisa que seja. Ele até é capaz de esforçar-se na repetição de formulas, em seguir receitas, mas ele acha uma afronta ser chamado a argumentar, dar razão a suas opiniões, a justificar suas opções, a estudar. Ele dorme em sala, sem o menor constrangimento, ou passa o tempo todo enviando mensagens, recebendo e respondendo e-mails, postando bobagens em redes de relacionamento, curtindo fotos e piadas de mal gosto, xingando as pessoas, disseminando mentiras (mesmo inadvertidamente – mas o que importa dirá ele?), ele utiliza a aula de uma disciplina para estudar outra, navega nos sites de notícia ou pelo google para matar o tempo, faz caras e bocas para as aulas expositivas, sai diversas vezes da sala para atender celular ou ir ao banheiro (ou melhor, para passear, esticar as pernas), conversa com os colegas durante as aulas, recusa-se a participar dos trabalhos em grupo, não lê nada do que lhe é solicitado, não compreende e não quer compreender a aula, o plano da disciplina, os autores estudados, os problemas investigados, os conceitos, as teorias…. e acha um absurdo ser reprovado, que lhe chamem a atenção, que lhe confrontem. Não é difícil encontrar alguns desses que sejam violentos, que gritem ou ameacem fisicamente colegas e professores. Um desses provavelmente vai ter cargos importantes um dia, talvez seja um procurador, um juiz, um político….. não é preciso muita imaginação para temer uma pessoa dessa com poder.

 

Há jovens apenas assustados, que não sabem o que fazer. Não aprenderam porque não lhes ensinaram ou não lhe deram oportunidade para aprender. Dificilmente esse será um jovem de classe média, cujos pais gastarão muito em ensino privado e professores particulares para ‘tapar’ os buracos, escolas de idioma, musica, academias, nutricionistas, fonoaudiólogos, psicólogos e psiquiatras (quiçá psicanalistas), provavelmente intercâmbios serão oferecidos, viagens de férias. Não, dificilmente esse jovem ficará nessa posição de assustado, temeroso, perdido. Desses costumo ter um pouco de compaixão, embora não saiba ao certo qual o melhor caminho. Prefiro fazer as cobranças e indicar caminhos para superação. Alguns vão, outros permanecerão perdidos. Raramente são do tipo arrogante, embora alguns se escondam em caricaturas do gênero.

 

No geral, porém, e aqui vou terminando, o que vejo são jovens que não dão o menor valor para o conhecimento (salvo de maneira muito pontual), principalmente se de caráter humanista, não técnico, não utilitário. Eles querem ser técnicos. Eles querem os manuais, as receitas. São, não raro, intolerantes, com professores, colegas e funcionários. Adoram um ‘você sabe com quem está falando’ (que raramente ousam dizer em sala). Acreditam que as instituições e os professores são empregados, que lhes devem, senão respeito, consideração diferenciada. São preconceituosos, conservadores, suas posições políticas são confusas mas facilmente encaixadas em visões liberais ou neoliberais, embora seja comum declararem-se apolíticos, com nojo da ‘política’, com ódio dos ‘políticos’. Não conhecem seu país, embora alguns conheçam outros países. Não gostam e sabem pouco de história. Não suportam serem contestados. Estão cheios de certezas e de receitas para ficar rico, para serem bem sucedidos, para ‘corrigir’ o Brasil. Quase tudo ou tudo está errado. O país é uma merda, dirão, embora não consigam justificar a afirmação. São fãs de jargões, de frases prontas, de opiniões compartilhadas (é fácil reconhecer as fontes: a grande mídia nacional ou estrangeira, algum artista ou, agora tão comum, comediante, ou comentaristas estrela de certos programas televisivos ou radiofônicos), mas juram que não.

Por que isso me perturba tanto hoje (na realidade, faz tempo), a ponto de parar e escrever essas ‘bobagens’? Por dois motivos pelo menos. Sou professor e, como tal, um observador interessado. Tenho visto isso tudo em sala de aula e nos corredores da universidade. Tenho filhos. Que passaram pela escola e pela universidade ou que ainda estão no caminho. Não posso não me importar.

Para piorar o quadro. Jovens não estão apenas nas escolas e nas universidades. Eles trabalham, eles estão nas ruas, eles se tornam policiais, técnicos de todo tipo, burocratas, médicos, enfermeiros, engenheiros… eles estão nos bancos, nos órgãos públicos, nas casas de nossos amigos, de nossos familiares…. E, nessa situação descrita, infelizmente, são poucos os que parecem melhores que os adultos que os criaram, educaram, antecederam, como era esperado.

Vemos isso tudo não apenas dentro de sala de aula. Vemos o em que se tornaram esses jovens, nas redes sociais, nos bares, nas praças, nas ruas (sim, eles têm automóveis muitas vezes), eles podem ser bem violentos, podem transformar sua ignorância, seu preconceito, sua intolerância em ação….

Eu penso em meus filhos, nos filhos dos meus irmãos, nos filhos dos meus amigos, nos meus vizinhos, difícil não ficar preocupado. Eu me importo.

Ora, os jovens não são fruto de geração espontânea, por isso comecei falando da escola (outras coisas como a mídia ou mais genérica ainda como a ‘internet’ não podem ser culpadas, pelo menos não sozinhas, pelo que aí está. Isso também é fruto de escolhas, de modelos estabelecidos, do jogo de poder…. isso tem a ver com a sociedade, oras, então, quando penso isso, estou pensando é no que será necessário enfrentar, politicamente inclusive, para contornar o que parece ser um tempo de recusa do Homem, da dignidade da vida, da autonomia, dos modelos de sociedade e de homem que pressupõem a liberdade, a autonomia, a capacidade de pensar e decidir por si…. ninguém quer decidir nada, apenas fruir. Problemas a gente não resolve, deixa que eles se resolvam, nós tomamos remédios ou, tapamos os ouvidos, vamos ouvir música, fechamos os olhos e andamos pela cidade em carros blindados…).

Esse jovens devem ser minimamente parecidos com seus pais, ou, pelo menos, muitos são. Com certeza eles são frutos de nossa sociedade doente e de nosso tempo.

Em tempos de eleições presidenciais, isso ficou mais assustador. Não porque agora temos redes de relacionamento e tantas ferramentas para compartilhar opiniões, assim como ódio, esse é nosso tempo. Ficou assustador porque, pelo menos em relação a uma certa classe social, aquela que tem acesso à internet em tempo integral e por meio de equipamentos mais caros, bons smartphones, computadores, tablets etc, a manifestação de ideias e opiniões, de preferências e interesses, de posições políticas (mesmo não admitidas, ou conscientemente assumidas), percebe-se que aqueles jovens que tanto me ‘incomodam’ (porque se tornam uma questão a pensar e resolver) na sala de aula, ou em que se pode tornar meus filhos mais novos, são o menor problema.

Muitos já saíram da academia e não são medíocres em termos de formação. Muitos adultos, que antes não percebíamos porque não existia essa possibilidade de conexão, também estão aí, ativos, e compartilhando visões de mundo, modelos, ideias, opiniões….. nem todas apontam para um mundo melhor, menos injusto.

Se é verdade que, grande parte dessas pessoas, jovens e não tão jovens assim mais, não ‘cheiram nem fedem’, porque se enquadram no mediano, no medíocre – e por isso representam um tipo de perigo também, o que mais impressiona são os que saem desse lugar e vão para um dos extremos.

Minha tendência é ir para a esquerda, bem próximo da extremidade, se é que é útil essa imagem, mas minha história pessoal, minha formação, as pessoas que são relevantes para mim quanto a valores e visão de mundo, impedem que eu seja intolerante, que não reconheça no diverso coisas que podem ser boas e até mais verdadeiras do que aquelas em que acredito em um determinado momento. Sim, dificilmente eu seria um liberal (em termos econômicos nem que o mundo acabasse), mas admiro muitos liberais (principalmente quando os penso no campo da política), vejo valores que estão lá. Dificilmente, afastaria de mim o que uso para medir ser mais justo e mais defensável política e economicamente, a saber, que eu não sou a medida, que devo pensar nos que sofrem, nos que nada ou quase nada tem, nos esquecidos da história, nas vitimas, nos mais fracos, nos que não tem voz. A desigualdade é uma afronta. Concentração de renda é puro roubo, mas é assassinato também. Corrupção é assassinato, pois tira recursos de quem mais precisa. Eu sei que ser empresário não é sinônimo de demônio ou demoníaco, conheço pessoas justas e honestas, mas não é difícil que os envolvidos com o sistema financeiro sejam a encarnação do próprio mal, pois ao sistema e seus operadores pouco importa o mundo real, a dor e o sofrimento das pessoas, e nunca se tem dinheiro demais. O Dinheiro é mais.

Minha opção pela esquerda nasceu da religião, o que talvez seja estranho para muitos, motivo pelo qual, talvez, militar por um pais mais igual, mais justo, sempre pensado a partir de quem menos tem, de quem é mais fraco, seja uma tendência forte (da qual eu fugi, me alienei, assim como muitos que conheço, mas não dá para fugir para sempre), por isso mesmo não tenho uma confiança cega em partidos (embora eu ainda hoje seja mais que simpatizante do Partido dos Trabalhadores. Já fui filiado, não mais e nunca mais – não porque não ache partidos importantes mais, mas porque há outros espaços que pretendo em breve retomar, como o dos movimentos sociais), não acredito em santos, mas entendi bem que a política não é lugar para santos, ou para aqueles que não querem sujar as mãos (aqui no bom sentido), motivo pelo qual vamos nos defrontar com aqueles de mãos sujas o tempo todo (aqui no sentido mais abominável que possamos pensar).

Mas não é minha biografia ou flashs dela que interessam aqui, mas o que me ficou registrado como uma radiografia do meu mundo, do lugar em que vivo, das pessoas com quem convivo, das instituições nas quais estou inserido, do papel das pessoas (inclusive por sua omissão), dos perigos e oportunidades que apontam no horizonte.

Sem dizer que isso é a verdade ou que isso é o mais fundamental ou que seja apenas uma dimensão que estou valorizando, o fato é que me dei conta (agora de maneira preocupante) da minha omissão, da minha pouca participação, da minha indignação seletiva, da minha posição favorável e, até, tranquila, que permite tudo isso e que acaba por me colocar mil dedos nas feridas, pois a imagem que fazia de mim e do meu lugar são colocados em xeque, e me colocam nu.

Tudo o que questiono e critico, inclusive naqueles jovens de quem comecei falando, vejo, mesmo que seja parcialmente, em mim. Isso me fez ficar diferente, mas tão diferente que foi inevitável olhar diferente também para os que estão próximos, inclusive dentro de casa.

Diante desse quadro, observando o destino possível dos jovens com quem convivo na universidade, mas também que estão na vizinhança, que são filhos de meus amigos e conhecidos, que estão nas redes sociais, que são amigos dos meus filhos, observando também alguns amigos, processando o que eles pensam para si, para seus filhos, para o Brasil, não consigo mais ficar indiferente.

Não posso deixar que meus filhos, os mais novos pelo menos, sigam adiante da mesma forma. Não posso permitir que se transformem em nada menos do que pessoas que morrerão tentando fazer a diferença nesse mundo, não para si, não para enriquecer, não para manter um padrão de vida elevado, não para ter coisas, mas como pessoas comprometidas com a verdade, com a justiça, com os mais pobres, com um pais mais igual, menos preconceituoso, menos intolerante, menos ignorante. Não dá para ficar no meio, ser medíocre, repetir receitas. Não dá para deixar para lá, não provoca-los, não orientá-los quanto a modelos alternativos, quanto à política, quanto à justiça, quanto ao destino do país deles. Isso não é banal. Não dá para deixar isso com a escola, com a universidade (pois de falei dos alunos, muito pior são certos professores – em quantidade vergonhosa), não quero que meus filhos tenham por modelo muitos dos meus vizinhos hoje, não quero que eles tenham por modelo o que sou hoje, acomodado, pouco engajado, não quero que eles se espelhem em muitos amigos e conhecidos, elitistas, medíocres, embora ocasionalmente e pontualmente interessantes (porque todos nós podemos ter qualidades e dons, alguns exercitados de forma a alcançar excelência).

Não quero imaginar que um filho meu um dia chegue em casa liberal, atacando políticas afirmativas, repetindo discursos prontos de conservadores e de direita. Não quero que ele aprenda primeiro a história do vencedor (e nisso, pelo menos, tento fazer um contraponto desde sempre em casa), a história contada pelos colonizadores, que eles se encantem com a imagem do mundo criada e reproduzida pelos filmes de hollywood apenas, não quero que eles ousem um dia cogitar imaginar que um outro ser humano pode ser menos digno do que eles, porque é pobre, doente, velho, homossexual, ou negro, indígena, estrangeiro….

E tudo isso vi explodir, de forma às vezes disfarçada e até pouco consciente, outras deliberadamente expressas: conservadorismo, elitismo, intolerância, ódio pela diferença, ódio das visões políticas de esquerda (provavelmente porque elas lembrem o tempo todo que existem pobres, que existe diferença de classe, luta de classe, ódio de classe, desigualdade na distribuição de renda, e que isso é fruto de injustiça, de roubo, de um estado pensado para privilegiar um pequeno grupo, por nos lembrar que não raro a classe média fica tentada a ficar no meio, fazendo de conta que é distinta – seja porque não faz trabalhos braçais, seja porque, ao ser melhor remunerado ou ter um pequeno negócio, vive nas ilhas de fantasia dos bairros nobres ou quase das grandes cidades, e pensar que isso pode mudar ou que sejamos obrigados a reconhecer que isso também faz parte da distribuição desigual da renda e da lógica do capital, não é agradável. Quero tomar meu vinho importado sem me sentir mal, quero ir ao restaurante do chef famoso (e por isso, caro) sem peso na consciência, não quero ser chamado a justificar-me eticamente quanto a isso que é simplesmente fruto do acaso, ou do meu trabalho. O fato de fazer parte de uma longa linhagem de ‘pequenos burgueses’ não deveria me fazer sentir mal. Voto na direita e na manutenção do status quo por vício, por não conseguir ver sentido nesse outro discurso. Eu não tenho ódio, quem tem ódio é a esquerda. Essa história de socialismo, de comunismo, é muito difícil engolir. Vocês de esquerda tem uma visão estranha das coisas, da família, da propriedade, até da sexualidade. Não consigo ver o que tem de mal em enriquecer. Eu não roubei, apenas apliquei na bolsa. Não tenho culpa por ter aprendido, por ter conhecidos, por conseguir informações interessantes).

Por isso, eu não posso seguir do mesmo jeito. Nem como pai, nem como marido, nem como professor, como profissional, nem como amigo, como pessoa. Não dá para não escolher. Não dá para fingir que certas posições políticas e certas Políticas são perniciosas. Não dá para fingir que o Estado (mesmo hoje, com um partido de ‘esquerda’ no poder) está estruturado para servir a poucos, que o Direito serve, antes de mais nada, para proteger quem mais tem, a propriedade, as instituições burguesas, a ordem social que, no final das contas, é apenas a opressão dos que veem nela apenas injustiça, morte, sofrimento. Não dá mais para deixar como está a mídia e a forma como ela seleciona o que mostrar desse mesmo mundo, que ela favorece pessoas, que ela ajuda a discriminar pessoas, que ela está a serviço de uma visão de mundo que é ‘burguesa’, que nos ilude com modelos alienígenas e nos quais a maior parte das pessoas não vai, nunca se encaixar, e, por isso, vão sentir-se e vão ser acusadas de serem inadequadas, problemáticas, marginais.

Não dá mais para fazer de conta que já fazemos isso. Mentira. Indignação seletiva, como a de tantos jovens e outros não tão jovens assim. Muito discurso e pouca ação.

Não dá para ficar, sabendo tudo que sabemos, em cima do muro ou como meros espectadores. Um modelo de sociedade na cabeça de um liberal ou de um louco varrido como os que temos agora como comentaristas na TV brasileira, pode não representar muito em termos de impacto para mim, mas representa para muitos brasileiros, não posso pensar a partir da minha vida e do meu lugar hoje. Não posso dispensar também de incluir o futuro, o planeta e o país que vou ajudar a deixar de herança para meus netos e bisnetos.

Não dá para fingir que a ditadura militar não foi uma desgraça e o resultado do mesmo tipo de mentalidade que diz não termos nada a ver com isso ou, com muito mais força, graças ao espirito conservador, elitista, de pessoas que provavelmente seriam correlatas a meus vizinhos e alguns conhecidos e amigos hoje. Será que se este ano fosse não 2014, mas 1964, não seria surpreendido com muitas pessoas de quem eu gosto hoje, amigos, próximos, quem sabe parentes, não seriam eles a me ‘entregar’, como ‘comunista’, como ‘marxista’, com gente do mal, que quer destruir esse pais, que não quer deixar avançar esse país…. um perigo para as famílias, para suas crianças, um mal exemplo?

Hoje, agora, não vejo como isso seja exagero, uma leitura desnecessariamente apaixonada de algo contingente. Depois que as eleições passarem, tudo volta a ser como antes, fala-se de amenidades, de opiniões inócuas, de problemas artificiais (como resolver questiúnculas em serviço público), de cunho teórico, das próximas férias….. eu não quero mais isso.

Meu desafio é conseguir, a partir de onde estou hoje, uma vida confortável, fazendo parte daquele percentual mínimo da população com um bom emprego (dois, na realidade), morando num bairro “nobre”, com conforto, com hábitos adquiridos por causa disso – compartilhados com os amigos e conhecidos mais ou menos do mesmo ‘nível social’, com filhos que não compreenderiam certas mudanças, ou seja, sem negar a minha história, tão parecida com muitos que conheço, e da minha condição de classe média, com bastante capital social e cultural (que meus pais tinham pouco), e militar, de verdade, em outras coisas e lugares que interessam e, sim, levar meus filhos de um modo ou de outro.

Ou devo transformar isso em filosofia apenas e, mudar apenas o possível, voltando-me para o núcleo familiar apenas, e apostando apenas nas amizades sustentadas por visões de mundo semelhantes a minha (e não apenas por compartilhar certos valores típicos da classe e do lugar em que me encontro) ? daria para conciliar as coisas?

A essa altura, parte da lógica que pretendi dar à reflexão deve ter se perdido. Não é o tipo de texto para sofrer revisão, o que me perturba está aí, dito nas linhas e entrelinhas. A angustia que tenho sentido nesse momento é terrível, pois é quase como uma revelação, olhar para o mesmo e ver o quanto não enxergava. Por perceber que apesar dos valores que carrego e das coisas que costumo ‘pregar’, é fácil fazer de conta que nada está em jogo ou em perigo, com palavras, relevando as coisas, minimizando os sentidos, ignorando os sinais, mantendo relações que, assusta-me pensar que sou assim, não tem profundidade (não é ausência de sentimento ou de respeito, de afeto, mas de recusa a enfrentar as diferenças, algumas delas podendo inviabilizar a manutenção das relações).

É estranho pensar que vivemos assim e que sequer desconfiamos.

Por fim, como fio condutor, está o fato de que, depois de viver o que vivemos, de saber o que sabemos, de acreditar no que acreditamos, é degradante ficar no meio. Claro que alguns vão, mesmo assim, para lugar pior (quantos velhos ridículos hoje, homens de esquerda ontem, fazem o papel de propagandistas da TFP ou coisa similar). A política importa e não posso me deixar mais contaminar por essa onda e esse discurso de ódio e de desprezo pela política. Como alguém de esquerda, entendo isso como parte do jogo para melhor dominar ou continuar dominando.

Não acredito que basta militar no e a partir do instituído. O que aí está, incluindo o Direito, está a serviço de si mesmo e daqueles que sempre estiveram com as rédeas, no domínio do Estado e dos meios de produção. Isso tudo serve, antes de mais nada, para a manutenção da lógica da propriedade privada (desde que seja a minha), por isso, se não dá para abandonar de vez a política partidária, as instituições já estabelecidas, essa democracia caquética que aí está, esse modelo de representação abominável, temos que agir fora disso também. Não quero que meus filhos tenham medo do ‘fora da lei’, do fora da Ordem, quero que eles tenham a exata noção de que a história é uma ficção e que quem a construiu e conta tem interesse na versão apresentada, quero que eles desconfiem do que parece legitimar a divisão entre os homens, que lutem contra isso, que não fiquem tentados a seguir o caminho fácil, de repetir o discurso dos ‘grandes’, quero meus filhos rebeldes. Se eles não o forem, eu pelo menos seguirei bem, sabendo que tentei e que não cedi, que eles não terão desculpas, que eles não poderão ficar facilmente, sem assumir sua má fé, no caminho do meio, do não responsabilizar-se, do não participar, mas principalmente não poderão justificar facilmente nenhum projeto de dominação e exploração, de intolerância, de ódio, de desigualdade.

 

 

Hoje, eu não sei ainda o que fazer comigo, esse foi o primeiro passo. Estranhar-me, provocar-me, re-invocar valores, assumir alguns compromissos. O que isso vai implicar vou ter que administrar passo a passo. Não quero mais o caminho mais tranquilo do não enfrentamento (ou quando muito da indignação seletiva).

 

Erivan

De onde vim – como o ponto de partida pode ser fundamental. ELEMENTOS QUASE BIOGRÁFICOS II

De onde vim – como o ponto de partida pode ser fundamental

Minha história não tem nada de excepcional, mas como a de todos nós, para o próprio percurso que fazemos nesse curto espaço de tempo na Terra, o ponto de partida pode ser fundamental na “determinação”, senão de todo o percurso, de parte relevante dele.

Nasci na metade dos anos 60, o que significa que, no Brasil, a Ditadura estava prestes a fazer aniversário e a América Latina era um laboratório de caudilhos. Meio do processo de urbanização generalizada, mas um mundo ainda bastante rural. Brasília já era uma realidade e para cá vieram brasileiros de todos os cantos do país, a maioria gente que contava basicamente com seu esforço físico para erguer a Capital, outros removidos do Rio de Janeiro para dar conta da burocracia federal, nos três poderes, outros logo encaixados na máquina estatal encarregada da gestão do Distrito Federal.

Uma aventura como a construção de uma cidade inteira, no centro do país, produziu sorte e azar, vida nova e morte, abusos e esperança. História que ainda estamos tentando entender e que ficou mais obscurecida pela, mal inaugurada a nova Capital, ditadura que se instalou no país.

Bom, meu pai, um sujeito que saiu de casa menino, filho de um funcionário publico no interior do Rio Grande do Norte, um fiscal de tributos, “seu Raposinho“, era segundo em idade – o mais velho tornou-se seminarista, mas abandonou a vida religiosa para tornar-se contador, adotando o Recife como seu lar. Meu pai foi o outro a abandonar o interior das terras potiguares e ir, menino, para a capital, Natal. Foi para estudar, mas também para trabalhar. Fez um bocado de coisas, mas antes da aventura em Brasília, foi uma espécie de vendedor misturado com caixa e contador de um armazém.

Veio, com a cara e a coragem para o centro do país e nunca mais deu notícias para os seus, pais e irmãos, seja no Apodi, seja no Recife. Talvez nem ele consiga dizer bem o que o motivou mais a vir para esse lugar estranho e inóspito e, também, a deixar por anos os familiares sem notícias, a ponto de acharem que havia morrido, o que era possível.

O fim da história é que a vida não era fácil e, provavelmente, lutar para manter-se em Brasília tenha consumido tanto da energia e da atenção que, somente depois de achar que a vida estava bem estabelecida, com família formada, com uma casa (construída em mutirão na recém criada cidade satélite do Guará), ele pode pensar na família que havia deixado pra trás no Nordeste. Quando a sorte parece ter sorrido para grande parte dos que permaneceram na capital e eles foram incorporados seja nas empresas do Governo do Distrito Federal ou do Governo Federal, meu pai optou por fazer parte dos quadros da Companhia Energética de Brasília (CEB) e lá iria se aposentar.

Minha mãe tem uma história mais típica do mundo rural. Uma entre uma dezena de filhos do seu Zé Lázaro, de origem desconhecida, mas provavelmente vindo da Bahia para Minas, onde circulou até mais ou menos assentar-se em região próxima à Patos de Minas, mas também de Vazante (cidade mais nova), de fato num lugar mais perto do “Retiro da Roça” por que passei uma vez, mas que nunca soube se ‘existia’ de verdade, como município ou parte de algum distrito. Coisas de Minas Gerais.

A verdade é que seu Zé Lázaro era analfabeto, como costumava ser essa ‘gente’, mas um curandeiro bastante conhecido, seja por suas garrafadas, seja por suas benzeduras, suas orações (e espantavam desde cobra até mau olhado). Mas isso era um talento extra, o outro era de ser mesmo trabalhador braçal, incansável, destino que seguiram seus ‘filhos homens’ tanto quanto as mulheres. Moravam na “terra dos outros”, com permissão, e tanto plantavam como colhiam: algodão e milho. Mas seu zé lázaro também fez cercas, muitas cercas….

AQUI UMA PAUSA

Foi uma das visões mais impressionantes que tive na vida e que marcaram meu espírito de forma definitiva. Ainda adolescente, por volta dos 14 anos, se não me engano, primeira visita, numa interminável viagem de ônibus, para o interior de Minas Gerais, com minha mãe e meus irmãos (uma dessas coisas que só mesmo uma mulher corajosa e determinada faria: juntou dinheiro do seu trabalho de lavadeira e passadeira e carregou os 6 filhos para visitar o seu ‘passado’, sem meu pai – e sem o dinheiro dele (que era pouco, diga-se de passagem), com a cara e a coragem, nos apresentou aquele mundo (tivemos a sorte de ser bem recebidos por antigos patrões – e ainda patrões de pelo menos dois tios – em suas fazendas).

Ali, numa extensão de terra tão grande que minha mente hoje não saberia precisar, vi, pela primeira vez, de perto (outras tinha visto na estrada pela janela do ônibus), uma imensidão de cercas, com arrame farpado e morões de madeira, muitos formatados a machadada. Meu avô fez grande parte daquilo.

Nesse momento já se formou em mim uma visão que, alguns poucos anos depois, voltou com toda clareza: o camponês explorado, sem terra, ajudando a demarcar as terras a que jamais terá acesso salvo como escravo. Literalmente, meu avô morreu trabalhando. Talvez com doença de Chagas, talvez de outras doenças, mas com grande possibilidade de decorrerem do ‘estilo de vida’, modo chique de dizer doença típica de pobre (ou agravadas pela pobreza).

Não morreu revoltado, acredito, apenas crente de que seu destino era aquele mesmo. Minha mãe cresceu assim, trabalhando “na roça”, na colheita, ou na casa dos outros, cozinhando, lavando roupa, mas com a alegria de uma família grande. Ela é a madrinha de muitos irmãos, que ajudou “a cuidar”. Apanhou, porque a ignorância dos pais incluía castigos severos até para o fato de ousar-se fazer perguntas. As loucuras, hoje isso é claro, da minha avó materna, forjou um casamento da minha mãe, adolescente, com um homem bem mais velho, um pouco a contragosto do meu avô, que, contudo, não evitou a situação trágica de tantas meninas no interior desse país.

A coisa não funcionou, ainda bem, minha mãe fugiu, mas somente mais tarde fugiria mesmo desse ambiente. Não sabemos exatamente o que motivou a partida, mas imagino como deve ser sofrido para uma garota, que mal sabia ler e escrever algumas palavras, sair de perto dos seus e daquilo que, por mais duro que fosse, era conhecido e “seguro”, para aventurar-se, primeiro em Minas Gerais mesmo, e depois em Brasília, aonde chegou carregando esperança e medo, fugia do passado e do homem com quem havia se casado. Não tinha medo de trabalho, aceitou o que apareceu, até que encontrou meu pai e a história desses dois, uma história improvável, teve início, com vários momentos em que o final da história se manifestou.

Não saberia como descrever as angustias, o medo, a luta para conseguir equilibrar-se nesse fim de mundo que era Brasília. Sei que logo nasceu minha irmã mais velha e, um ou dois anos depois, não nasceu meu irmão, abortado pela mesma angustia que a visão de futuro sofrido provocava, substituída depois pelo remorso, pela dor…. eu vim depois e, depois de mim, mais quatro, incluindo os gêmeos que nasceram 11 meses depois que eu tinha feito minha aparição neste mundo.

Os gêmeos vieram num janeiro chuvoso, exigindo dedicação e muita atenção, inclusive dos pouquíssimos vizinhos. Cultivo, desde então, com apenas 11 meses de idade, um sentimento de que este mundo não tem o menor interesse por nós, de que depende de nós, e só de nós, conseguir sobreviver, de que o mundo dos adultos tem uma lógica própria que é cruel, mesmo que não pretenda sê-lo.

Moramos em uma espécie de acampamento, lembro bem das casas de madeira, onde hoje é o Setor de Indústria e Abastecimento, vagamente imagens daqueles com quem convivemos por alguns anos, incluindo crianças e adolescentes. Minha mãe transformou-se naquilo que, talvez, fosse um de seus temores: uma ‘dona de casa’, agora eram 4 filhos e logo a quinta viria. Nesse momento estávamos prontos para a qualquer momento ir para a recém criada cidade satélite do Guará (I), na Quadra Interna 5, conjunto F, o segundo conjunto a ser levantado pelos próprios moradores, em regime de mutirão, com a ajuda do GDF.

Meu pai pretendia concluir os estudos, queria terminar eletrônica, ser um eletrotécnico formado, mas os sonhos de estudar foram abandonados com a dura jornada no trabalho acompanhada do trabalho em mutirão. 1968, estávamos de mudança. Ano tão importante para o mundo, tudo de que me lembro é de uma casa sem muros, e do cipreste que plantamos para servir de cerca viva, e dos poucos vizinhos que começavam a tomar posse das casas.

Acredito hoje que as mulheres, em sua maioria donas de casa, não enlouqueceram porque criaram um forte laço entre si, as vizinhas logo viraram comadres e os filhos afilhados. Todos cuidavam de todos e assim suportaram os anos, ao mesmo tempo em que testemunhavam as mudanças na cidade, e sentiam-se protegidas daquilo que, em um momento ou outro, sabiam estar acontecendo no país. Mas a ignorância do significado maior da situação do país provavelmente colaborou com a pouca preocupação em relação ao futuro dos filhos.

Logo viria a escola, mas antes, a sorte nos brindou com vizinhos que tinham filhos bem mais velhos. Uma vizinha era professora ou pelo menos tinha formação para isso. No quintal da casa, organizou um espaço onde a criançada se alfabetizou, onde aprendemos a ler e escrever. Era um espaço feliz, de encontro com os amigos de rua, onde havia carinho e atenção. Hoje tenho certeza de que isso foi fundamental para meu processo de aprendizagem, por gostar de ler e não ter medo de escrever.

Quando fui para a escola, já sabia, como muitos na época, ler e escrever, o que me deixou, estranhamente, confuso. Não entendia porque a professora desenhava as letras das vogais e tentava fazer com que repetíssemos aquilo. Fiquei muito apreensivo e, apesar timidez – que me acompanhou por quase toda a vida escolar, falei para a professora que já conhecia as letras e sabia ler. Com a direção da escola, providenciou minha transferência de turma. Lembro de ter chorado muito, pois não entendia porque tinha que ser transferido, acho que inicialmente recebi aquilo como um castigo.

A verdade é que as escolas públicas no Guará, naquele momento, ainda estavam plenas de professores com vocação e não posso dizer que tenha sido uma educação formal ruim, muito embora, até hoje, tenha convicção de que o que aprendi na escola tenha sido muito pouco. Nunca deixei de ter certo pavor do sistema. Sofri com alguns colegas (acho que, por ser pequeno e franzino, era um alvo clássico dos meninos e meninas maiores). Duas vizinhas de quadra foram verdadeiros carrascos para mim, nunca esqueci – elas provavelmente não lembrem (e talvez não fosse nada tão importante mesmo – mas marcou-me dolorosamente).

Não era louco pela escola, mas não tinha problemas com ela. Não resistia. E tínhamos a rua, os amigos, o futebol, o pique-esconde, o pique bandeira (bandeirinha, como chamávamos), a queimada, a carniça, a mimica, o teatro, a capoeira, e os jovens mais velhos que cuidavam de nós, nos ensinaram a ‘pegar passarinho’ com arapuca e visgo, fazer estilingue, pescar, pegar piabas nos córregos na mata próxima à nossa quadra, tomar banho nesses córregos (para desespero das mães), andar de bicicleta, fazer e soltar pipas (ou papagaio, como chamavam alguns), fazer cerol (quando não tínhamos mesmo o menor juízo), montar fogueiras…. uma vida deliciosamente despreocupada, em plena época de repressão violenta no país, da qual não sabíamos absolutamente nada.

Era um tempo no qual tínhamos que cantar o hino nacional e hastear bandeira, toda semana, tempo em que o Exercito Brasileiro oferecia ‘colônia de férias’ para as crianças e adolescentes, em que havia, no final de ano, cestas de natal e encontros no ginásio de esporte (lembro de um desses em que os Trapalhões animaram a festa), com direito a sorteio de brinquedos…..

Meu pai era um sujeito interessante. Comprava tudo que era livro oferecido por vendedores ambulantes. Gostava de literatura típica de sua terra, com os autores potiguares e suas metáforas engraçadas contando e recontando a história do Rio Grande do Norte e seus personagens, mas também, num tempo em que se montavam enciclopédias e livros por meio da coleção de fascículos em bancas de revistas, era freguês de carteirinha de seu conterrâneo, seu Pedro, dono da banca Guará-Rio (deveria ser Rio Grande do Norte, claro), banca que aprendi a frequentar e de onde suguei revistas em quadrinho, fascículos de dezenas de livros que colecionei, livros de bolso de faroeste, as fotonovelas é os livros para publico feminino, em papel barato (estilo “Sabrina”), que minha irmã mais velha adorava (mas que eu li de cabo a rabo)…

Lembro de uma coleção que fiz (graças a meu pai, claro) que se chamava O Mundo em que Vivemos, que após encadernação dos fascículos (era assim, comprávamos semanal ou quinzenalmente os fascículos e em um dado momento a CAPA que serviria para acondicionar o conjunto dos fascículos vinha junto, então, deveríamos pagar par encadernar. Quem providenciava isso era o dono da banca de revista, que recebia de nós o material e o pagamento e repassava para a gráfica responsável, então era uma loucura esperar até que o volume voltasse pronto, no formato de livro), resultava em dois grande volumes e mais um pequeno, feito das contracapas que, nesse caso, era o Diário de Bordo do Beagle, de Charles Darwin. Assim, ainda adolescente, sabia que a ciência era o que eu queria para minha vida. Fascinado por botânica, mas também por paleontologia, acreditava que seria biólogo ou paleontólogo, depois, por causa principalmente de Jacques Cousteau (e imagino que muitos da minha geração tenham tido o mesmo desejo), achei que seria Oceanógrafo. Cheguei a fazer um cursinho, mais tarde, para um ‘concurso’ para a Escola Naval, Uma furada, mas valeu para compreender que os sonhos de viver como pesquisador eram sonhos que não condiziam com minha classe social.

Lembro de que, numa época em que a enciclopédia Barsa era quase unanimidade, termos adquirido outras coisas como “Grandes Personagens da Nossa História”. Depois, por minha própria conta, fiz, por duas vezes a coleção de Os Pensadores, mas a glória foi ter comprado a Enciclopédia Britânica (que namorei por anos e que adquiri parcelada em 12 vezes, junto com os Greats Books – no qual se inspirou nosso Os Pensadores).

A banca de revista, porém, era fonte de muito prazer com seus gibis (li toneladas de Tio Patinhas, Mickey, Pato Donald, Recruta Zero, mas também Tex Williams, Conan, Fantasma, os Sobrinhos do Capitão, depois Maurício de Souza, assim como Agatha Christie – creio ter lido quase todos os pouco mais de 80 livros que me caíram em mãos, fora os livros de bolso de faroeste, que dizíamos ser coisa de peão, mas que eu devorava em questão de poucas horas, às vezes mais de um por dia, quando estávamos de férias (até hoje me recordo de 7 noivas para 7 irmãos que, depois, vi em formato de musical na televisão). Mas consumi alucinadamente os livrinhos de ficção do Perry Rodhan. As coleções da Abril Cultural, de literatura, foram essenciais. Foi por causa dela que descobri Edgar Allan Poe, de cuja obra nunca mais desgrudei.

Na escola, anualmente recebíamos os catálogos das Edições Ouro, que também, apesar da grana curta, era objeto de desejo de todos nós e que, ocasionalmente, com algum sacrifício, meu pai ou minha mãe consentia em comprar.

Sempre tive um espírito com múltiplos desejos e múltiplas vocações, creio. Gostava de musica, e fiz minha mãe ir até a Escola de Música de Brasília e tentar matricular-me, o que era possível e um pouco menos complicado do que hoje. No entanto, havia questões referentes a horário e necessidade de documentos que não tínhamos no momento. Lembro vagamente do que ocorreu, embora tenha ficado com muita raiva naquele momento, inclusive da minha mãe coitada que, para sair assim, de ônibus, cujos horários eram difíceis e tendo que andar bastante para alcançar uma parada, ainda deveria deixar os outros filhos, inclusive as menores ou carregar a penca toda, o que não era viável se tivesse que pagar passagem para um ou dois a mais.

Sei que não voltamos à Escola de Música de Brasília, o que eu faria somente muito tempo depois, já sozinho, e consegui ainda seguir por dois semestres um curso diurno, que tive que interromper quando a necessidade de trabalhar bateu à porta, ao final do Ensino Médio e quando as aulas de violão que cheguei a oferecer por um tempo, a um par de alunos, tornava inviável qualquer sonho, seja de artista, seja de cientista, seja de ser mágico (desejo que, infelizmente abandonei rápido demais, apesar de ter consumido o manual do mestre Fun Man Chu – que fiz meu pai comprar depois de muita importunação, via correio). Restava o comércio, ser vendedor.

Antes disso, porém, houve o encontro com a religião.

FIM DA PAUSA

Não éramos uma família religiosa. Hoje, minha mãe é uma típica católica praticante, ministra da Eucaristia, catequista, Filha de Maria, mas quando fiz 15 anos, idade em que já deveria ter, como católico, feito a “primeira Eucaristia” e iniciado a Crisma, não tinha nem chegado perto disso e as missas não eram exatamente parte da nossa rotina.

Bom, pressão feita, vizinhos em massa ‘matriculados’ na catequese, lá fui eu fazer um dois em um: Primeira Comunhão e Crisma, tudo junto.

O grupo de catequistas era fantástico, jovens que, diferente dos de minha geração, tinham noção do que acontecia no país e que não eram carolas, queriam tanto um país diferente quanto uma igreja diferente. Havia um seminarista (hoje bispo) que foi meu catequista e que se tornou meu padrinho. Ele é ‘culpado’ por muito do que vem depois dessa passagem pela ‘catequese’.

Talvez por causa de minhas perguntas, meus questionamentos, o então seminarista, Ronaldo, depois de ter me crismado e já entrando o ano seguinte ao da consumação do sacramento, eu, ainda novato em termos de violão, mas insistente, recebi não um, mas vários convites do meu padrinho para participar de um grupo de jovens, recém formado, composto de jovens que haviam, como eu, feito a Crisma, e que se encontravam, se não me engano, aos sábados na Paróquia São Paulo Apóstolo, lugar que se tornaria uma segunda casa para mim.

Como os convites não paravam, uma dia pensei que seria melhor ir conhecer o grupo e depois de uns dois ou três encontros, inventar uma desculpa e desaparecer. Eis que a vida se complica, e qualquer plano pode simplesmente ser atropelado e, sem mais, ficarmos presos numa armadilha.

Fiz exatamente isso: fui a uns 3 encontros, achei interessante uma parte, mas chatas outras, inclusive porque não entendia muito bem o sentido do grupo. Decidido a não mais voltar, eis que acontece uma reviravolta. Os catequistas, alguns dos quais eram responsáveis pelo grupo de jovens que eu estava frequentando, eram responsáveis pela “animação” de uma das missas mais movimentadas (20 horas), e, pelo que entendíamos naquele momento, se rebelaram contra certas determinações e se afastaram tanto da missa quanto do trabalho pastoral, ou seja, o grupo de jovens ficou ao “Deus dará”.

Que fazer? Fui pego de surpresa, pois pretendia, naquela semana, fazer minha ultima aparição nas reuniões do grupo, mas aquele encontro foi marcado pela discussão sobre, exatamente, o destino do tão jovem grupo de jovens. Alguns diziam que não tinha o que fazer, teríamos que desistir, pois sem um adulto para acompanhar não dava, outros insistiam que poderíamos procurar outra pessoa para se responsabilizar. E a discussão seguia.

Até hoje não entendo bem o que me motivava, mas descobri (embora somente muitos anos depois isso ficasse realmente claro para mim) que tinha um problema com autoridade. Não gostava de que dissessem o que poderíamos ou não fazer e, mais, descobri que poderia ser um líder (a despeito de eu sempre ter procurado me distanciar de grupos, de gostar de ficar sozinho). Meu discurso indicava que poderíamos muito bem seguir sozinhos e que entre nós escolheríamos um coordenador e que não havia motivo para desistir (logo eu que estava pronto para desaparecer). A coisa pegou e o grupo não se dissolveu.

Fui o primeiro coordenador do Juventude Libertadora (JULIBER), grupo que, anos mais tarde, daria trabalho idêntico ao dos catequistas recém “expulsos” da paróquia (ou que se retiraram, anunciando isso em plena missa). Na condição de coordenador, senti-me na obrigação de estudar, de me aprofundar no sentido de uma pastoral de juventude. Eu deveria ter entre 1 a 2 anos a mais que a maioria dos membros do grupo, que não passava de uns 10 naquele momento. Entre esses o meu, hoje irmão, Ricardo Spindola Mariz, cujos pais eram ativos na paróquia e, talvez, por isso, ele tenha também, embora tão novo, assumido responsabilidades grandes demais com o grupo. Nosso primeiro responsável pela “espiritualidade”, ou seja, aquele encarregado de nos brindar com reflexões sobre a própria religiosidade que o grupo deveria ter.

A história desse grupo é longa e fundamental para minha vida. Quero reter aqui, apenas, a memória de uma virada cada vez mais para a esquerda que, senão o grupo como um todo, muitos de seus membros, acabou fazendo. Inevitável foi ser contaminado pelo ideal de um grupo de base, de se encantar com as comunidades eclesiais de base (CEBs) e, a partir daí, descobrir o sofrimento do povo nesse Brasil imenso e, logo em seguida, descobrir a América Latina, sua cultura, mas igualmente sua dor. Agora já tínhamos plena consciência do que vivíamos e não tardou para conhecermos outras experiências pastorais importantes, como a da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Pastoral Estudantil, a Universitária, sobre o que já comentei acima.

 

Mais impactante, foi resgatar a memória dos mártires, primeiro dos religiosos, como Dom Enrique Angel Angelelli, bispo de La Rioja (Argentina) morto em 1974, Rutilio Grande, jesuíta salvadorenho morto em 1977, Dom Oscar Romero, Bispo de El Salvador, morto em 1980 (quando celebrava a missa – esse foi um dos fatos mais chocantes de que tenho lembrança), e saber, já agora dentro do trabalho pastoral, do assassinato dos jesuítas na Universidade Católica de El Salvador em 1989, quando morreu Ignacio de Ellacuria (que aprendi a admirar por seus escritos e pelas notícias de sua coragem), do assassinato de Padre Josimo, das inúmeras ameaças de morte. De ter conhecido pessoas, do Bico do Papagaio, por exemplo, que na semana seguinte haveriam de ser assassinadas.

Nessa altura, era impossível que a mensagem da teologia da libertação, mas de uma leitura libertadora da Bíblia acima de tudo, não nos motivasse a participar da política. Se não foi logo na primeira hora, não tardou muito para que alguns de nós se aproximasse do Partido dos Trabalhadores e começasse a participar das reuniões de diretório, no Guará I. Eramos os igrejeiros, expressão que visava muito mais nos marcar negativamente do que diferenciar uma “corrente” dentro do PT, mas que, entendo hoje, foi boa para evitar a contaminação da qual, infelizmente, nem todos escaparam.

Essa é uma fase nova e rica, que vai definir um modo muito próprio de se relacionar com política e com partidos políticos.