Arquivos da categoria: Psicanálise

Quadros de Guerra (Judith Butler)

           ( Judith Butler)

“… procuro chamar a atenção para o problema epistemológico levantado pela questão do enquadramento: as molduras pelas quais apreendemos ou, na verdade, não conseguimos apreender a vida dos outros como perdida ou violada estão politicamente saturadas. Elas são em si mesmas operações de poder. Não decidem unilateralmente as condições de aparição, mas seu objetivo é, não obstante, delimitar a esfera da aparição enquanto tal. Por outro lado, o problema é ontológico, visto que a pergunta em questão é: o que é uma vida?”
BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto?. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015, pp.13-14 )

AMAR OU ODIAR A VIDA? DESTINO, NADA, ILUSÃO…. OU A HIENA DO CIORAN

O. Spengler

O. Spengler

S. Freud

S. Freud

A. Schopenhauer

A. Schopenhauer

S. Kierkgaard

S. Kierkgaard

 

B. Spinoza

B. Spinoza

 

 

 

 

 

Não sei qual teria sido, efetivamente, a imagem da humanidade, dos homens, que pensadores como Spinoza, Nietzsche, Schopenhauer, Freud, Cioran, Kierkgaard, um Spengler, um Pessoa ou, mesmo, em época muito mais distante, um Demócrito, um Sêneca…. em outra direção e tradição, como Jó, por exemplo, descreveria essa criatura que infestou a superfície terrestre, onde possível, e transformou todas as paisagens com que teve contato…. qual seria a imagem mais interessante (sim, porque verdadeira nenhuma é. A verdade sequer sabemos o que seja)?

Ao longo da ‘história’ dessa criatura no planeta que ela mesmo denominou Terra, que mudanças foram significativas nela, a criatura, que justifique alterar a imagem que, hoje, poderíamos ter dela, uma imagem que nos remetesse mais rápida e consistentemente ao coeur, ao ‘espírito’, do que que seria ou a que estaria propenso a ser essa criatura. Será que existe algo a que se poderia denominar ‘natureza humana’? algo que dure e sem o qual não nos reconheceríamos como humanos? Ou a cada momento o que nos caracterizaria (estruturaria?) muda tanto e tão fortemente que não se pode dizer que aquilo que ontem era o homem, o humano, hoje o seria mais? Será que apenas o pensamento religioso consegue pensar o humano como permanente? Somos vazios de sentido (e significados) e tudo que somos depende de algo fora de nós, exógeno? A tecnologia, por exemplo? A suposta natureza humana diria respeito apenas a uma certa capacidade de, a partir da técnica, de mecanismos inventados, ir alterando o que somos enquanto espécie? A história seria apenas a descrição de alguns dos momentos nos quais uma certa tendência, por acaso, dadas as circunstâncias (igualmente aleatórias), tornou-se disponível e, coisa que jamais saberemos, hegemônica? Podemos aceitar a ideia girardiana de que somos seres miméticos, os mais miméticos na ‘Natureza’, de forma que isso favorece tanto a violência quanto o laço social e, do mesmo modo, portanto, a fixação de tendências, de modelos, que imitamos sem darmo-nos conta?

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nietzsche

F. Nietzsche

Se Nietzsche, em certo momento, entende que a melhor aposta é no amor fati, na aceitação do mundo (mas não um render-se ao mundo):

“Minha fórmula para a grandeza no homem é amor-fati: não querer nada de outro modo, nem para diante nem para trás, nem em toda eternidade. Não meramente suportar o necessário, e menos ainda dissimulá-lo – todo idealismo é mendacidade diante do necessário -, mas amá-lo” (Ecce Homo, § 10)

“Amor fati: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!”

(Gaia Ciência, § 276)

A alternativa do odium fati, como em Emil Cioran, parece igualmente razoável, bem como a sua decorrente imagem da vida:

cioran

E. Cioran

“A ‘vida’ é uma ocupação de inseto” (Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1991, p. 55).

“Alguém emprega continuamente a palavra ‘vida’? Saiba que é um doente” (Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1991, p. 33).

“A vida, esse mau gosto da matéria” (Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1991, p. 56).

“Repetir-se mil vezes por dia: ‘Nada tem valor neste mundo’, encontrar-se eternamente no mesmo ponto e rodopiar tolamente como um pião…” (Breviário de decomposição. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1989,. p. 96)

“O pessimista deve inventar cada dia novas razões de existir: é uma vítima do ‘sentido’ da vida” (Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1991, p. 16)

“Quando me lembro que os indivíduos são apenas gotas de saliva que a vida cospe, e que a vida mesma não vale muito mais em comparação com a matéria, dirijo-me ao primeiro bar que encontro com a intenção de nunca mais sair dele. E, no entanto, nem sequer mil garrafas me dariam o gosto da Utopia, dessa crença em que algo ainda é possível” (Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1991, p. 86).

“há coisa mais vil do que dizer sim ao mundo?” (Breviário de decomposição. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1989, p. 67).

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Dizer sim ou não dizer sim ao mundo, à vida? Como permanecer vivo se um certo e intenso pessimismo nos controlar? Como não desejar a morte a conviver com aquilo que julgamos, todo o tempo, sem sentido, uma anedota de mal gosto do acaso? Como suportar os companheiros de viagem quando não se acredita na viagem e se os vê, aos companheiros, como excrecência, com nojo, com repulsa, a suas crenças, a seus amores fingidos, a seus scripts ruins, a suas performances pouco convincentes, a sua covardia, a sua apatia…?

Matar-se seria a única saída?

Talvez esses pensadores, por sua condição ‘burguesa’, por não terem tido de trabalhar duro, de terem tido tanto tempo para pensar (e não desconsideremos, claro, que viveram momentos de transição muito ricos em seu tempo e lugar), podem ir tão longe e nos lançar olhares tão duros, vendo ovelhas e gente fraca onde outros poderiam ver homens e mulheres lutando para sobreviver.

No entanto, sinto que para alguns esse tipo de reflexão e de ‘assalto espiritual’ por imagens tão funestas sobre a humanidade e, claro, sobre homens e mulheres concretos, seja inevitável e pode conduzir suas ações.

F. Pessoa

F. Pessoa

Não sei o que é bom ou o que é mal, e aqui apenas repito Fernando Pessoa, mas há momentos em que sentimos uma espécie de ‘despertar’, de ‘lucidez’ extrema, que nos colocam exatamente as mesmas questões acima. Por vezes, acho que seria um ‘vazamento’ da minha arrogância, mas não deixa de me assustar e de fazer-me sentir, de súbito, um profundo desprezo pela humanidade, apesar do mal estar que vem junto com tal sentimento. A verdade é que tantas vezes esse sentimento se faz presente que não consigo deixar de julgar aqueles com que meu olhar cruza pelas ruas.

Assustam-me os momentos em que tal sensibilidade toma conta de mim. Estar em uma multidão, seja em um mercado, numa feira, num evento qualquer, e ser ‘atacado’ por tal pessimismo é desconcertante e violentamente perturbador.

Não ver mais pessoas, mas partes de um rebanho, homens e mulheres mal cuidados, adolescentes imbecis, crianças vazias, homens vazios, mulheres imbecis, crianças obesas (gordura demais, virtudes de menos; maus hábitos demais, compaixão de menos)… criaturas que, supostamente, são fruto de uma longa linhagem, que estariam na ponta mais extrema de um longo e penoso processo civilizatório, tanto quanto da ‘seleção natural’.

No olhar dessas criaturas enxergar apenas desejos vãos, vontade alguma, mentes vazias, pensamentos tolos, palavras limitadas, uma ‘compreensão’ acrítica, frágil…. e novas imagens se fazem presentes: a caverna de Platão, Matrix, o ciborgue, mas também outras, advindas da ‘história’: guerras, genocídio, ódio étnico, ódio religioso, assassinatos, crianças mortas, mulheres violadas, torturas, escravidão….. será que o bem que fazemos ou fizemos consegue equiparar-se às desgraças que trouxemos e continuamos trazendo a este mundo?

Fosse apenas uma questão do que sente meu espírito, talvez sequer perdesse tanto tempo remoendo tais imagens. No entanto, essas criaturas, mesmo as travestidas de hábitos e atitudes mais ‘civilizadas’, racionais, éticas, são capazes de promover (mesmo por inação) dor e sofrimento aos outros, isso aqui e agora, em níveis micro e em níveis macro. Quando junto isso com a questão do poder, do dinheiro, tudo se torna tão mais sem sentido que o dia fica denso e quase irrespirável… ao longe, continuo ouvindo fofocas, comentários fúteis, energia desperdiçada, afrontas à ‘necessidade’ criadora, mais imitação, um ‘prazer’ em participar do jogo de cena, de executar papeis tão pequenos, de fazer discursos elaborados sobre coisas insignificantes, de defender ideias alheias, de condenar terceiros, de trair, de defender as ficções sobre as quais, dia após dia, tenta enquadrar-se e convencer os demais ser a verdade sobre si….

Amor fati ou odium fati? Sim ou não à vida? Será que amanhã, esses demônios já não atormentarão mais?

Ser normal = ser saudável ou ser justo? (por JG Pinheiro)

UM COMENTÁRIO DO MEU AMIGO JG PINHEIRO, NUM POST NO FACEBOOK, RESULTOU NUM TEXTO QUE ACHO VALER A PENA LER E RELER (MESMO QUE EU VALORIZASSE OUTROS VIESES, E ATÉ ISSO ME CHAMOU MUITO A ATENÇÃO). TEMOS AQUI UM BOCADO DE COISA: SE É INEVITÁVEL NASCER EM UMA CULTURA, ISSO NOS DEVE IMPEDIR DE (RE)PENSÁ-LA? QUE É SER NORMAL? NOSSO DESTINO É UMA VIDA COMPLETAMENTE MEDICADA? OU COMO JÁ PERGUNTOU-SE EM OUTRO LUGAR: “PRA TUDO TEM (REALMENTE) REMÉDIO?
O CONTEXTO DO POST ERA O RESPEITO À DIVERSIDADE RELIGIOSA. EU ATAQUEI COM A “DIABOLIZAÇÃO” DO OUTRO, PROCESSO PELO QUAL TRANSFORMAMOS O OUTRO, DIFERENTE DE NÓS, EM REPRESENTANTE DO PRÓPRIO MAL, O QUE NOS AUTORIZARIA, NO EXTREMO, A ANIQUILAR O OUTRO SEM REMERSO (AO CONTRÁRIO, ATÉ MESMO COM UM CERTO ORGULHO DE TER AGIDO “EM NOME DE DEUS”). VAMOS O JG PINHEIRO:

 

JG Pinheiro

JG Pinheiro

O problema (…) é que os profissionais de saúde mental, assim como as próprias ciências que estudam a psiquê, sobretudo hoje em dia, são muito bem policiadas e não têm lá, digamos, tanta liberdade para criticar costumes aceitos, preceitos cerimoniais ou ético-religiosos, principalmente aqueles que sugerem que quem respeita, defende e vive a vida de acordo com dogmas religiosos — como o código de Moisés segundo o qual Deus não tem rosto, portanto todo aquele que adora imagens ou pratica sua fé em meio a estátuas estaria compactuando com Satanás e vivendo na iniquidade, seja lá o que isso for… –, enfim, todo aquele que reflete bem os costumes e mentalidades do grupo ao qual pertence é, via de regra, uma figura modelo, uma pessoa funcional, psicologicamente equilibrada, normal e acima de qualquer suspeita.

E vai dizer que não, que nem sempre é…! Uma vez que alguém se adequou perfeitamente ao seu meio sociocultural, não se pode, em vista disso, considerar tal pessoa doente ou desequilibrada. É tabu! Nem mesmo sabendo que o meio ao qual ela se adequou acredita que é dever de todo temente à Deus ser intervencionista, “consertar” a vida alheia em nome de tudo o que há de mais sagrado, segundo aprenderam a crer, enfim, combater a serpente, ciumenta do próprio Criador, livrando assim a Terra de todo o pecado, blá-blá-blá e coisa e tal…! Ao ponto de que não se pode, oficialmente, declarar problemática uma pessoa de descendência judaica, por exemplo, que nasceu em Tel-Aviv, em tempos pós-OLP, numa família hassídica (putz!), e que torce pela destruição do povo palestino em nome de Deus e de Israel… o que se faz é evitar a questão, esquivar-se do assunto e jamais perguntar: “será que ser normal significa, via de regra, o mesmo que ser saudável ou justo?”

Pais de determinadas denominações religiosas, como testemunhas de jeová, por exemplo, podem impedir filhos de receber vitais transfusões de sangue ou transplantes de órgãos, podem forçar parentes por meio do bullying familiar a passar por perturbadoras terapias de cura gay, podem adotar o uso e forçar outros a usar aparelhos de tortura atados à partes do corpo, coxas, testículos etc., como uma estratégia de superioridade perante os demais, os infiéis, podem hostilizar e tramar contra vizinhos e até amigos ou parentes que professam credos antagônicos, e toda uma longa lista de absurdos corriqueiros e diários, que ocorrem diante de um academicismo amordaçado, enquanto todos concordam que ser cético e experimentador, discordar da benevolência inquestionável de certas más ideias, questionar à vontade, ser tolerante e até amistoso com a diferença, buscar o novo, querer aperfeiçoar as circunstâncias de nossas vidas são características irresponsáveis, egoístas, superficiais, que remetem à falta de solidariedade e ao desrespeito pelo meio no qual você nasceu, além de um desprezo que só pode ter causas patológicas com relação a tradições acima de qualquer suspeita, crenças e caros costumes pelos quais gerações inteiras no passado escolheram (voluntariamente, isso é importante) se sacrificar e até doar a própria vida. É mole?

Eu já vi alguém reclamar (acho que o dr. John Breeding, autor e colaborador do canal psychtruth.com) que, por mais difamadas que fossem, consideradas subversivas e inconsequentemente anti-status quo, os melhores índices de cura da história da saúde mental pertencem às psicoterapias alternativas, muitas vezes baseadas em nomes tão geniais quanto perseguidos, tais como Kinsey, Wilhelm Reich etc., dos anos 1960 e 70.

Tudo aquilo foi tão radicalmente revelador que, talvez, considerando o modo como o stabilishment está blindado hoje em dia, tal dinâmica jamais volte a acontecer. Mas, bem, ela nos deu o direito (a capacidade?) de questionar a veracidade ou a eficiência de qualquer mentalidade ou crença, nos deu o divórcio, nos deu a noção de que religião, Estado e família não são instituições infalíveis, acima de qualquer suspeita, nos deu a união conjugal inter-racial, uma maior aceitação e maior entendimento da diversidade sexual e, só para encurtar, a impressão de que lutar pelos próprios direitos, bem como defender os direitos de minorias perseguidas ou desprivilegiadas, é um ato nobre e louvável.

Talvez como reação a toda essa “escorregadia” e “irresponsável” época, como um tipo qualquer de defesa, o que nós temos agora são apenas as intermináveis e onerosas sessões de terapia comportamental e drogas psiquiátricas corrosivas e viciantes que possuem, comprovadamente, o impressionante índice de cura de 0% em décadas de aplicação exclusiva, e terapeutas cujo melhor conselho que têm para o futuro da humanidade é que nós deveríamos nos manter medicados desde o berçário até o cemitério!

Pronto! Aí sim, quem sabe, a gente pode ter a chance de ser tudo aquilo que a gente mesmo inventou que é correto e saudável ser. Estando ou não com a razão, claro…


Para ver no facebook, no contexto original:

https://www.facebook.com/erivan.raposo/posts/856198321058875?

 

 

O Perverso

“o perverso é aquele que se consagra a tapar o buraco no Outro” (Lacan)
Lacan
Lacan
“A maldição de um ato perverso está justamente em que ele, por sua vez procriando, dê à luz a perversidade” (Friedrich Schiller)
Schiller
Schiller
“The heart prefers to move against the grain of circumstance; perversity is the soul’s very life.” (John Updike)

 

Updike

Updike

 

 

 

 


 

Ele não era amoral, sabia disso. Ele se importava com o que pensariam dele, tinha um modelo vago do que era necessário ser para ser aceito, para conviver. Angustiava-se com a possibilidade, por exemplo, de que um ser extraterrestre, com poderes especiais, fosse capaz de captar-lhe, com um único olhar, todas as inconsistências e incoerências, seus defeitos, sua falta de consistência. Isso era seu maior pesadelo. Não ele não era amoral.

Ser imoral era outra história, isso agradava. Não foi sempre assim, mas em algum momento, aquilo apareceu como um antidoto à expectativa alheia, que continuava sendo-lhe um peso, sem dúvidas, mas agora bem mitigado.

Desde pequeno tinha um problema com as expectativas alheias, não sabe porquê, mas gostava de pensar que um certo abandono dos pais, por causa dos irmãos mais novos, tinha um pouco de culpa nisso. Adotou uma estratégia de não se misturar, de não se parecer, de ser diferente. Falava pouco, aprendeu a usar as palavras, isso parecia importante. Não aceitava o erro, nem seu nem do outro. Irritava-se quando errava e ficava irado quando o outro percebia. Pior ainda se o outro fizesse chacota, um espírito quase assassino apresentava-se e ele não hesitava em ser violento, em partir pra cima, independente do tamanho do outro, isso era difícil controlar.

Com o tempo, já adolescente, aprendeu que poderia usar a seu favor outras coisas, criando um personagem agradável aos adultos, mas continuava sendo intolerante com os erros. Não queria atrair para si nenhum olhar reprovador, isso era quase a morte, um espírito perturbado.

A religião veio em boa hora, essa energia foi canalizada e o ideal de santidade parecia interessante, era uma questão de exercício, bem ao estilo de muitos santos. Isso domou parte da energia negativa, já não sentia vontade de retaliar, passou a adotar a postura de reconhecer o erro, publicamente, como uma ‘virtude’, o que fortalecia sua autoimagem. Era bom ser reconhecido como alguém no controle da situação, de si mesmo, capaz de buscar o caminho certo, mesmo contra si.

Essa imagem do santo, porém, depois tornou-se um fardo e a religião pura opressão. As coisas se inverteram, queria, no íntimo, mostrar que não era santo, que era outra coisa, completamente diferente…. mas ainda agradava-lhe que os outros o olhassem com admiração, como cultivar as duas coisas? Não havia possibilidade de isso dar certo, mas seu espírito o levou onde conseguiu ir.

Renegar deus era fácil, muita gente o fazia, e não havia lucro nisso. Melhor era apenas deixar pra lá. Passou a investir, sem que se desse conta, em situações que o deixavam em risco, sempre, no limite do errado, não, não, do moralmente inaceitável. Mentir não era o maior problema, isso muita gente faz e nem sente que é moralmente ruim. Há os que justificam mentir…. não, isso apenas era parte da questão.

Não tinha realmente tesão ou prazer com a pornografia, que poderia até ser excitante, mas era mais excitante saber da possibilidade de ser flagrado… quase tornou-se um voyeur, mas isso era pouco. Gostava de marcar encontros com garotas de programa, todos os detalhes, saber delas, mas não era pelo encontro, aos quais nunca foi, mas era o fato de sentir que isso seria visto, que, uma vez flagrado, sua imoralidade apareceria…. Não, ele não queria ser flagrado, queria a sensação de perigo, de estar fazendo algo ‘errado’….

Depois, passou a usar um tipo de agressividade verbal que era puro exercício de contestação ao outro, principalmente se esse outro se mostrasse muito pudico. Tinha prazer em ‘desmascarar’ o que considerava pura hipocrisia… ele, o maior dos hipócritas.

Por outro lado, continuava exercitando seu lado ‘santo’, gostava de ouvir as histórias dos outros, de tentar entender o que se passava nas mentes e corações, ficava tentando se encaixar, imaginando como seria participar de verdade daquelas histórias. Tinha particular predileção por histórias de sofrimento, principalmente sofrimento ‘de amor’.

Calculava, friamente, como aproximar-se, conquistar o outro, aproveitar-se da fragilidade ou da delicadeza da situação. Na verdade, ele se importava, mas achava-se tão grande que, ao se colocar na história, poderia alterar o sofrimento, o final da história…. era um desafio, sentia-se um arquiteto, um poeta, um perito da ficção….

Aliás, passou a achar que o mundo era isso mesmo, pura ficção. Histórias que contamos e recontamos todos os dias para preencher nosso vazio, ou os vazios da alma. Somos todos artificiais, acreditava e repetia. Assim, pelo menos ele, sabendo o que era, podia decidir que tipo de ficção contar para si e para o outro. Hoje uma, amanhã outra, de acordo com o momento e a oportunidade.

Não se sentia vil ou um perverso…. na realidade, sabia-se perverso, gostava do lixo, que achava ser toda a humanidade, gostava do reprovável, gostava de estar ali, no limite, pronto para cair no abismo….. tinha medo de passar o resto da vida caindo, sem jamais chegar ao fundo desse abismo, por isso não queria cair. Se era para viver no vazio, que fosse esse que conhecia ou achava conhecer.

Não se sentia um coitado, embora às vezes sentisse-se mal por ter escolhido certos caminhos, mas cultivava esse momento do mesmo jeito que cultivava outros, como possibilidade e aproveitava a dor para tentar expurgar o medo de estar errado sobre o vazio, sobre o depois, sobre a possibilidade de, sim, existir um julgamento sobre o que fazemos aqui e agora.

Mas isso não dura muito, e mais um dia coloca-se diante dele e tudo que consegue ver é que esses seres a sua frente são tão ignóbeis e frágeis, tão cheios de crenças que se tornam dignos de pena, mas, por isso mesmo, merecem e precisam de que alguém lhes conduza para algum lugar, já que lugar não existe (mas eles não sabem). Esse é seu papel, continuar iludindo e contando suas histórias, ao mesmo tempo em que atua em outras, sempre na esperança de que caia ele mesmo em contradição, que as máscaras caiam, que luz se lance sobre sua performance, que descubram o ator…. essa tensão é o que continua dando sentido ao viver, é puro tesão.

Tudo é atuar, tudo é fingir, até crer é fingimento…. de vez em quando, parece compreender sua perversão, mas ele simplesmente não consegue ver-se distinto disso que é, ou será que apenas gostou mais dessa ficção? Quem sabe está na hora de outro personagem? É cansativo viver com a certeza de que apenas você enxergou a verdade (e que ela é a afirmação da mentira)…. ah! Se tivesse vocação para suicida, mas ele ama viver, mesmo assim, ainda assim.

Isso é um show e ele é um artista, essa imagem agrada. Um prestidigitador, um ilusionista, que faz pose de deus, empoderado, que sabe que é puro truque, mas que gosta de dar o seu melhor e fazer acreditar que é possível que o truque não exista, que a magia seja real….. e por quê não?

The Grateful Summoning of Familiars for Sexual Perversity

The Grateful Summoning of Familiars for Sexual Perversity

 

 

A Educação depois de Auschwitz (Adorno) – sobre o CALOR HUMANO

adorno“Não me entendam mal. Não quero pregar o amor. Penso que sua pregação é vã: ninguém teria inclusive o direito de pregá-lo, porque a deficiência de amor, repito, é uma deficiência de todas as pessoas, sem exceção, nos termos em que existem hoje. Pregar o amor pressupõe naqueles a quem nos dirigimos uma outra estrutura do caráter, diferente da que pretendemos transformar. Pois as pessoas que devemos amar são elas próprias incapazes de amar e por isto nem são tão amáveis assim. Um dos grandes impulsos do cristianismo, a não ser confundido com o dogma, foi apagar a frieza que tudo penetra. Mas esta tentativa fracassou; possivelmente porque não mexeu com a ordem social que produz e reproduz a frieza. Provavelmente até hoje nunca existiu aquele calor humano que todos almejamos, a não ser durante períodos breves e em grupos bastante restritos, e talvez entre alguns selvagens pacíficos. Os utópicos frequentemente ridicularizados perceberam isto. (…) O apelo a dar mais calor humano às crianças é artificial e por isto acaba negando o próprio calor. Além disto, o amor não pode ser exigido em relações profissionalmente intermediadas, como entre professor e aluno, médico e paciente, advogado e cliente. Ele é algo direto e contraditório com relações que em sua essência são intermediadas. O incentivo ao amor – provavelmente na forma mais imperativa, de um dever — constitui ele próprio parte de uma ideologia que perpetua a frieza. Ele combina com o que é impositivo, opressor, que atua contrariamente à capacidade de amar. Por isto o primeiro passo seria ajudar a frieza a adquirir consciência de si própria, das razões pelas quais foi gerada.” (Theodor W. Adorno. A Educação depois de Auschwitz. Em Educação e Emancipação. São Paulo: Paz e Terra, 2006, 134-135)

Esse animal que não deu certo surpreende pela quantidade de ficções que cria sobre si e como, quase devocionalmente, volta-se para tais ficções: a família nuclear (leia-se: burguesa, cristã, europeia), monogamia, o homem como obra de Deus, sua especialíssima Razão, a consciência como marca do humano, o amor romântico, o amor desinteressado…. Há ficções nobres, talvez como modelo devessem mesmo ser seguidas, perseguidas, mas melhor saber que o fazemos como responsáveis por nossas escolhas, pois não há, de fato, uma natureza boa (nem má) do homem, não há uma justiça que nos transcenda (podemos deseja-la, mas isso não a torna real), a democracia, igualdade (incluindo de gênero)…

Admitir que somos um projeto aberto e resultado de experimentos, de (antropo)técnicas que inventamos, de modelos que  concebemos, constitui passo necessário para que nossas apostas em modelos mais interessantes e responsáveis, considerando aqueles que ainda não existem, aqueles que virão, sejam feitas da melhor maneira possível. Não podemos abdicar de nossa responsabilidade (moral) com o planeta, com a vida, com a herança que vamos deixar para os que virão, humanos e não humanos. Um modelo de homem que não aceite a frieza e o individualismo autocentrado talvez seja uma aposta mais adequada, o modelo que nos foi legado tem nos deixado à deriva, incentiva nosso egoísmo, ridiculariza o amor, exalta o gozo sem mais (ainda egoísta), concorda com a coisificação do outro, valoriza a irresponsabilidade e uma ativa negação da consciência.

Narcisismo das pequenas diferenças (Freud)

freud“(…). Segundo Freud, nosso ego é espontaneamente inclinado a rechaçar críticas, reprovações e discordâncias feitas por iguais em pertença social, religiosa, étnica, política etc. No caso da credulidade, essa tendência se torna hiperestésica. O mais curioso, porém, é que o julgamento daqueles que são notoriamente desiguais, em geral, incomoda pouco o sujeito crédulo. O fosso que existe entre as crenças dos dois faz com que ele trate o opositor como um ignorante ou um inimigo cuja opinião deve ser desqualificada. Outra coisa é a relação com os iguais em crenças. Aqui, o pretexto da ignorância não faz sentido. O opositor conhece tanto quanto o crédulo aquilo em que ele acredita. Para o crédulo, portanto, a dissidência só pode ocorrer por motivo de má-fé, competição, desejo de humilhá-lo ou qualquer outro sentimento do mesmo teor. A dúvida do parceiro de crença é interpretada como um acinte, uma tentativa de rebaixar o valor daquilo que ele valoriza. Em suma, como um ataque à sua imagem narcísica. O resultado é o revide raivoso, as rivalidades fraticidas, que, no mais das vezes são vistas como despropositadas, incompreensíveis ou ridículas por aqueles que não partilham as crenças dos litigantes.20140101-221002.jpg

Para a justiça, isto é letal, pois o crente ingênuo nunca se satisfaz em “fazer justiça a si”. Sempre racionaliza o autointeresse como sendo um dever universal de todos. Ao fazer isso, obviamente, se choca com as regras do funcionamento do consenso e com o respeito à perspectiva do outro. A saída é o desprezo pela persuasão e o emprego da violência para trazer os incrédulos e os desgarrados para o bom caminho”.

(COSTA, Jurandir Freire. O ponto de vista do outro. Rio de Janeiro: Editora Garamond Ltda, 2010, p. 71-72)

Em Freud, o conceito é tratado pelo menos em:

FREUD, S.  O Tabu da Virgindade. Em FREUD, Sigmund. Obras completas, v. 9.
São Paulo: Companhia das Letras, (1918/2013).
______.  Psicologia das massas e análise do eu. Em FREUD, Sigmund. Obras completas, v. 15. São Paulo: Companhia das Letras, (1921/2011).
______. Mal-estar na civilização. Em FREUD, Sigmund. Obras completas, v. 18. São Paulo: Companhia das Letras, (1930/2010).

Sintomas (em 2005 parecia fazer sentido…. ainda faz, para mim)

thescreenPara a psicanálise, a angústia nasce com o desejo que, por sua vez, entra na história do sujeito como a descoberta de uma falta…. não se deseja o que já se tem, mas aquilo que nos falta. A angústia surge da impossibilidade de o desejo ser satisfeito, da Lei que proíbe um certo gozo….

Sempre podemos transgredir a Lei, mas não eliminá-la. Portanto, a culpa pela transgressão certamente marcará o sujeito, junto com a mesma angústia, que, no máximo, ficou suspensa, mas que retornará – uma vez que o gozo jamais ocorre plenamente. Essa falta em nós jamais é preenchida, sob o risco de não sermos mais nós mesmos.

Teoria (e talvez interpretada equivocadamente por mim aqui). Penso nas angústias de fato – que conseguimos assim classificar ou que os outros detectam em nós…. desconheço alguém que não tenha se angustiado algum dia.
Talvez o termo ‘angústia’ seja enganador, já que o utilizamos habitualmente para indicar coisas várias senão esse sentimento de desafio de saber de seu desejo e da impossibilidade de gozá-lo…. não importa, a pergunta que me faço agora e que deixo no ar é: Sabemos nomear nosso(s) desejo(s)?

Abandonarás teu pai e tua mãe (Philippe Julien)

Retorno ao texto do Philippe Julien, com as perguntas sobre a situação da família hoje em dia (para além das questões morais e da visão de uma família burguesa, invenção recente do Ocidente). Um aspecto chama a atenção de imediato: a família tem se tornado cada vez mais pública, ao mesmo tempo em que a sexualidade cada vez mais privada (não estou descartando os usos que se faz da sexualidade enquanto imagem, mas apontando que, na história do Ocidente, a sexualidade sempre foi pública – a religião cristã, de um jeito e noções sobre INTIMIDADE forjadas depois, colaborarão para esse movimento rumo ao privado).

Qual é a importância, se ainda há, da família?

philippe

“À diferença da conjugalidade, cada vez mais discreta, a parentalidade passa a depender abertamente do social por intermédio de peritos chamados para dizer quais são os direitos da criança e, em caso de conflito conjugal, o que convém mais ao filho ou à filha: novos papais e mamães em posição de tutores e tutoras em razão de sua suposta capacidade de resolver tanto os sintomas das crianças quanto os conflitos entre pais.

Chegamos finalmente ao que Jean-Jacques Rousseau escrevia em suas Confissões (1788):

Ao entregar meus filhos à educação pública, por não poder educa-los eu mesmo, ao destiná-los a se tornarem operários e camponeses em vez de aventureiros e caçadores de fortunas, acreditei cometer ato de cidadão e de pai e me olhava como um membro da República de Platão.

Com efeito, Platão queria que todos fossem filhos do Estado e, da mesma forma, Rousseau se considerava pai porque cidadão. O pai se torna o delegado da Nação, a quem pertence o filho em primeiro lugar. Esta posição, que se desenvolve ao longo dos séculos XIX e XX, tende a estabelecer que a parentalidade não se define primeiro biologicamente, mas civilmente, enquanto “autoridade” reconhecida pela lei.

Medimos, portanto, o estranho hiato: quanto mais a conjugalidade é privada, mais a parentalidade é pública. Quais são as consequências deste desnível crescente? Como ele é percebido e vivido hoje em dia?”