O papel da Razão (Hume e Kant)…

A razão teria menos a ver com conhecer do que com criar e perseguir propósitos?

“Para Hume, a indução era um mito. Já que não podemos saber se as conexões causais que escolhemos são genuínas, nossa decisão de chamar algumas delas de leis é uma questão de conveniência e hábito. (Talvez profunda conveniência e bons hábitos, mas nada além disso.) O que para Hume era um mito era um milagre para Kant e uma chave para entender o mundo como um todo. Ao insistir na ruptura entre razão e natureza, Kant começava negando que o desígnio fosse um aspecto da natureza. O desígnio era, isso sim, o aspecto que definia a razão. Tanto na ciência quanto na moralidade, a tarefa da razão é propor fins que não estejam presentes na experiência, mas que nos orientem para algo além da experiência.”

 

(NEIMAN, Susan. O mal no pensamento moderno: uma história alternativa da filosofia.  Rio de Janeiro: DIFEL, 2003, p. 89)

SUSAN NEIMAN

 

Herdeiros de Seattle. Um novo mundo é possível.

Hériter de Seattle

“”Un autre monde est possible!” est un cri. Sa puissance propre n’est pas celle d’une thêse ou d’un programme, dont la valeur se juge à leur «plausibilité ». Il n’autorise aucune mise en perspective triomphale et ne propose aucune garantie. C’est pourquoi d’ailleurs le singulier “un autre monde” convient: il ne s’agít pas d’une allusion à un monde particulier, que nous pourrions définir, ni non plus à n’importe quel autre monde (tout mais pas ça). Il s’agit d’en appeler au possible contre l’allure inexorable du processus qui s’est installé et qui, bien sur, continue aujourd’hui de plus belle. Il s’agit de briser quelque chose qui était de l’ordre de l’envoutement, de l’impuissance sidérée dont même ceux qui luttaient encore pouvaient sentir la proximité. Nous dirons que ce cri est le nom d’un événement, et que la force de cet événement est la maniere dont il fait exister, pour tous ceux, toutes celles qui lui répondent, la question : comment hériter, comment prolonger ? Comment devenir enfant de cet événement?”

PIGNARRE, Philippe Pignarre & Isabelle Stengers

(PIGNARRE, Philippe; STENGERS, Isabelle. La sorcellerie capitaliste: Pratiques de désenvoûtement. Paris: Éditions La Découverte, 2007, p. 10)

Comentário de Hannah Arendt (em entrevista de 1973 concedida a Roger Errera) sobre o MAL:

Hannah Arendt (1906-1975)

“When I wrote my Eichmann in Jerusalem one of my main intentions was to destroy the legend of the greatness of evil, of the demonic force, to take away from people the admiration they have for the great evildoers like Richard III.

I found in Brecht the following remark:

The great political criminals must be exposed and exposed especially to laughter. They are not great political criminals, but people who permitted great political crimes, which is something entirely different. The failure of his enterprises does not indicate that Hitler was an idiot.

Now, that Hitler was an idiot was of course a prejudice of the whole opposition to Hitler prior to his seizure of power and therefore a great many books tried then to justify him and to make him a great man. So, Brecht says, “The fact that he failed did not indicate that Hitler was an idiot and the extent of his enterprises does not make him a great man.” It is neither the one nor the other: this whole category of greatness has no application.

“If the ruling classes,” he goes on, “permit a small crook to become a great crook, he is not entitled to a privileged position in our view of history. That is, the fact that he becomes a great crook and that what he does has great consequences does not add to his stature.” And generally speaking he then says in these very abrupt remarks: “One may say that tragedy deals with the sufferings of mankind in a less serious way than comedy.” This of course is a shocking statement; I think that at the same time it is entirely true. What is really necessary is, if you want to keep your integrity under these circumstances, then you can do it only if you remember your old way of looking at such things and say: “No matter what he does and if he killed ten million people, he is still a clown.””


O texto da entrevista foi transcrito e pode ser acessado AQUI:

(Cf. página 10)


Vídeo da entrevista de Hannah Arendt a Roger Errera, disponibilizado em 1974:
https://www.youtube.com/watch?v=cK3TMi9GqwE


 

A naturalização da sociedade liberal e a origem histórica das ciências sociais (Edgardo Lander)

Edgardo Lander

II. A naturalização da sociedade liberal e a origem histórica das ciências sociais

“O processo que culminou com a consolidação das relações de produção capitalistas e do modo de vida liberal, até que estas adquirissem o caráter de formas naturais de vida social, teve simultaneamente uma dimensão colonial/imperial de conquista e/ou submissão de outros continentes e territórios por parte das potências europeias, e uma encarniçada luta civilizatória no interior do território europeu na qual finalmente acabou-se impondo a hegemonia do projeto liberal. Para as gerações de camponeses e trabalhadores que durante os séculos XVIII e XIX viveram na própria carne as extraordinárias e traumáticas transformações (expulsão da terra e do acesso aos recursos naturais), a ruptura com os modos anteriores de vida e de sustento condição necessária para a criação da força do trabalho “livre” e a imposição da disciplina do trabalho fabril, este processo foi tudo, exceto natural.

As pessoas não entraram na fábrica alegremente e por sua própria vontade. Um regime de disciplina e de normatização cabal foi necessário. Além da expulsão de camponeses e de servos da terra e da criação da classe proletária, a economia moderna exigia uma profunda transformação dos corpos, dos indivíduos e das formas sociais. Como produto desse regime de normatização criou-se o homem econômico (ESCOBAR, 1995, p. 60*).“

(LANDER, Edgardo. Ciências sociais: saberes coloniais e eurocêntricos. In LANDER, Edgardo (org.) A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Colección Sur Sur. Buenos Aires: CLACSO,  2005, p. 12)

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Autro Escobar

* ESCOBAR, Arturo. Encoutering Development. The Making and Unmaking of the Thirld World. Princeton: Princeton University Press, 1995.

The Three Worlds, or the Division of Social Scientific Labor (Carl E. Pletsch, 1981)

 

Carl E. Pletsch

“Substitutions like that of the word “traditional” for “primitive” were part of a general Western tendency to clean up the language of government, journalism, and social science in reference to the rest of the world. Terms evoking ethnocentrism, condescension, imperialism, and aggression were systematically replaced by apparently neutral and scientific terms – euphemisms. Not only did former colonies become “developing nations” and primitive tribes become “traditional peoples,” the War and Navy Departments of the United States Government were transformed into the “Defense” Department. This was also the time when “the end of ideology” was announced by Daniel Bell.’* But the simplicity of the categories-as distinguished from the euphemistic character of the new terminology-evinces the propensity for general ideas noted by de Tocqueville. It would have been simply impossible to explain the need for foreign aid and vast military expenditures in a time of peace with categories any more differentiated than those marshalled under the three worlds umbrella.” (p. 575)

[…]

“(…) let us see what can be derived from the distinctions among science, ideology, and culture. Western social scientists have reserved the concept of culture for the mentalities of traditional societies in their pristine states. They have designated the socialist societies of the second world the province of ideology.  And they have long assumed-not unanimously, to be sure-that the modern West is the natural haven of science and utilitarian thinking. Consistent with this scheme, one clan of social scientists is set apart to study the pristine societies of the third world-anthropologists. Other clans-economists, sociologists, and political scientists-study the third world only insofar as the process of modernization has already begun. The true province of these latter social sciences is the modern world, especially the natural societies of the West. But again, subclans of each of these sciences of the modern world are specially outfitted to make forays into the ideological regions of the second world. Much as their fellow economists, sociologists, and political scientists who study the process of modernization in the third world, these students of the second world are engaged in area studies. What distinguishes their area is the danger associated with ideology, as opposed to the now innocent otherness of traditional cultures. But the larger contrast is be-tween all of these area specialists, whether of the second or third world, and the disciplinary generalists who study the natural societies of the first world.” (p. 579)

*BELL, Daniel. The End of Ideology. Glencoe: Free Press, 1960

PLETSCH, Carl E. The Three Worlds, or the Division of Social Scientific Labor, Circa 1950-1975 In Comparative Studies in Society and History, Vol. 23, No. 4. (Oct., 1981), pp. 565-590. Cambridge: Cambridge University Press, 1981

Vontade e Potência. Leitura de Agamben a partir de Baterbly, o Escrevente.

Giorgio Agamben

“Crer que a vontade tenha poder sobre a potência, que a passagem ao ato seja o resultado de uma decisão que põe fim à ambiguidade da potência (que é sempre potência de fazer e de não fazer)— essa é, precisamente, a perpétua ilusão da moral”
 
(AGAMBEN, Giorgio. Bartebly, ou da contingência. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015, p. 27)

PECADO E TRANSFIGURAÇÃO (Emil Cioran, em O Livro das Ilusões)


 

Emil Cioran (1911-1995)

Há muito de alegria na angústia e de gozo no sofrimento. Sem este compromisso superior, quem sabe se existiriam ainda homens que buscam sua felicidade na desgraça e a salvação pelos caminhos da obscuridade, e se seria possível ainda a libertação pelo subterfúgio do mal? O amor do infernal não é possível sem os reflexos paradisíacos da alegria e do gozo em estado puro. Mas, e quando nossa consciência, pela via da salvação inversa, fica em um momento dado desprovida de alegria e de gozo, quando a angústia e o sofrimento se fecham em si mesmos para meditar sobre seu abismo? Podemos então crer que estamos no caminho da libertação? Ou queremos ainda libertar-nos? Não se pode saber se o homem quer ou não libertar-se, porque não se pode saber se o momento último da libertação, a transfiguração, é algo mais do que um sublime beco sem saída.
A recusa da libertação tem sua origem em um amor secreto pela tragédia. É como se, uma vez salvos, tivéssemos medo de que a divindade nos jogasse no lixo e preferíssemos o extravio para satisfazer nosso orgulho absoluto. Apesar de tudo, não há ninguém que não veja a perda da salvação como a grande ocasião perdida, como também não há ninguém que não se ruborize ante o sonho branco da transfiguração. E essa situação é tão dramática que nos perguntamos se Deus não nos terá exilado a cada um separadamente na terra.

Mas o homem não pode viver só na angústia e na dor. A existência exclusiva em uma gama de estados “negativos, sem retornar à ingenuidade e sem avançar para a transfiguração, sobrecarrega em tal medida nossa consciência que a pressão de uma culpa acrescenta-lhe um atributo doloroso. A aparição da má consciência indica um momento perigoso e fatal. Nos sentimos gradualmente oprimidos por recônditas apreensões e responsáveis sem saber ante quem. Não cometemos crime algum nem ofendemos o mais insignificante dos seres; mas nossa consciência está perturbada como depois de um crime ou da mais terrível das ofensas. Nós nos esconderíamos em um lugar escuro por medo da luz. O medo da claridade nos domina, medo das coisas transparentes, de tudo o que existe sem necessidade de justificação. A inquietude vai crescendo tanto mais quanto não podemos encontrar uma determinação concreta e imediata. Uma culpa sem objeto, uma inquietude sem causa exterior. Pensamos então que mais teria valido ter cometido um crime, ter destruído um amigo, ter arruinado uma família, ter sido abjeto, obsceno e inumano. Aceitaríamos melhor sentir-nos responsáveis por uma vítima do que nos submergir no indefinido de nossa inquietude. Perdidos na obscura galeria de uma mina e condenados sem escapatória, nos sentiríamos mais felizes do que presos nas malhas de uma culpa que não “podemos compreender. A má consciência nos oferece o exemplo do maior naufrágio moral. Sem ela não entenderíamos nada de todo o drama do pecado, não suspeitaríamos nada do processo pelo qual, sem ser culpados de algo, podemos ser culpados de tudo. Quando nos sentimos responsáveis ante as fontes primárias da vida, então a audácia de nosso pensamento se tornou um perigo para a nossa existência.

Resulta inconcebível que nasça a má consciência se não há uma existência que está sofrendo. O caminho para o pecado parte do sofrimento e é sofrimento. Mas um sofrimento infinito. A pressão da má consciência não a conhecem aqueles em quem o sofrimento se interrompe, para quem ele é apenas uma simples senda, tão estreita como seu desejo de felicidade ou de infelicidade. O que ocorre, no entanto, com os que não podem escolher entre o sofrimento e o paraíso? (Mas existe, porventura, outra alternativa?) E o que ocorre com os que, por medo de perder o sofrimento ao ganhar o paraíso, não podem renunciar nunca a ele? Em que mundo se acomodarão os que se sentem fortes só na contradição, os que são vitoriosos unicamente entre dois gumes? Não é a existência mais plena quando os casulos sorriem para a podridão? Em uma grande existência a contradição é a unidade suprema. O reflexo da divindade no homem é perceptível na resistência às antinomias. Estamos na via da divinização cada vez que, em nós, a dialética interrompe seu curso, cada vez que as antinomias adquirem corpo na abóbada de nosso ser, imitando a curvatura da celeste, e estamos em nossa via (a de quem caiu irremediavelmente no tempo) cada vez que vivemos todo o processo dialético como uma dor. E vivemos a dor como dialética de um só termo. A dor se afirma; tudo se nega e se combina “nela. Em todo o drama do sofrimento há algo de monótono…

Queira-se ou não, todo homem tende a considerar a dor como um caminho para a pureza, como uma simples etapa em sua evolução, porque até agora ninguém pôde aceitá-la como um estado natural. Ao não poder vencê-la nem superá-la, ela sistematiza-se em nossa existência e exige uma disposição exatamente contrária à pureza. O que expiamos por nosso sofrimento? É a primeira pergunta da má consciência. O que expiamos quando não fizemos nada? A culpa sem objeto nos tiraniza e o peso sobre a consciência aumenta à medida que aumenta a dor. Um criminoso tem uma desculpa para sua angústia: a vítima; um homem religioso: um ato imoral; um pecador impenitente: a infração da lei. Esses homens são excluídos da comunidade; tanto eles quanto a comunidade sabem por que estão malditos. O seu desassossego encontra um ponto de apoio na certeza do motivo exterior. Cada um deles pode dizer tranquilamente: “sou culpado porque…”. Mas e o que não pode dizer sequer por quê? Ou quando, mais tarde, nas torturas da má consciência esse por que for seguido de uma desculpa que encubra tudo e este tudo não possa consolar com sua imensidão nossa dolorosa ansiedade depois de um pecado imediato, concreto e vivo? Não quereríamos ser culpados ante algo visível? Saber que sofremos por causa de tal e tal coisa, sentir-nos culpados ante uma presença, ante um ser determinado, poder dar um nome à nossa dor sem nome…

Não pecamos contra ninguém nem contra nada; mas pecamos contra tudo, contra a razão última. Essa é a via do pecado metafísico. Assim como as múltiplas formas do temor, em vez de nascer individualmente e de forma disparatada para culminar no medo da morte, nascem em alguns de um medo inicial diante da morte, também no caso do pecado metafísico, uma culpa essencial diante da existência irradia desde o centro todos os elementos de nosso tormento interior.

Nossa má consciência, cercada pela negra coroa do pecado, finalmente se dá conta do atentado que comete nossa existência contra as fontes da vida e da existência. O primeiro e último pecado.

A consciência do pecado nasce de um sofrimento interminável; aquele, por sua vez, é o castigo por esse sofrimento. Ou talvez mais: o pecado é um autocastigo pelo sofrimento. Por meio dele expiamos a culpa de não termos sido purificados pela dor; de não termos realizado o salto, a transfiguração, e continuamos sofrendo sem limite, expiamos sobretudo o não termos querido tornar-nos puros. Mas não se pode dizer que não tivemos cada um nós, em um momento dado, a chave do paraíso…

Depois de refletir longamente sobre si mesma, a má consciência começa a descobrir as razões últimas de sua agitação. No entanto, isso nunca poderá equivaler ao motivo preciso e à causa exterior, mas, ao contrário, aumenta os problemas da própria existência.

Porque todo o drama do pecado metafísico consiste em trair as razões últimas da existência. Isso significa ser culpado de tudo, não de algo. Sabido isso, tornaríamos mais suportáveis nossa carga e nossa maldição? Não, porque não podemos eliminar “a causa” de nossa perturbação sem eliminarmos a nós mesmos… E ao pecar nos excluímos da existência e ganhamos em troca uma desconcertante consciência dessa existência.

Todos os que traíram o gênio puro da vida e perturbaram as fontes vitais no entusiasmo demiúrgico da consciência atentaram contra as razões primeiras da existência, contra a existência como tal. Violaram os mistérios últimos da vida e levantaram todos os véus que cobriam mistérios, profundidades e ilusões. A má consciência resulta do atentado, voluntário ou não, contra a vida. Todos os instantes que não foram instantes de êxtase ante a vida se totalizaram na culpa infinita da consciência. A vida nos foi dada para que morramos em meio a seu êxtase. O dever do homem é amá-la até o orgasmo. Os homens tinham que trabalhar para construir o segundo paraíso. Mas nenhuma pedra foi colocada para sua construção; só lágrimas. Pode-se construir um paraíso com lágrimas?

O pecado metafísico consiste em desviar-se da suprema responsabilidade ante a vida. Por isso nos sentimos extremamente responsáveis frente a ela. Somos culpados de haver conspirado em nossa infinita dor contra a pureza inicial da vida. (Mas a vida não conspirou também contra nós?)
Um homem que ame a vida e tenha conspirado contra ela é como um cristão fanático que tivesse renegado Deus. O pecado teológico é tão grave quanto o metafísico. No entanto, há uma diferença: Deus pode perdoar se quiser, mas a vida, cansada e cega por nossos esplendores, só pode nos acolher de novo se nós o quisermos. O que significa: renunciar à via da própria divinização e perder-se no anonimato das fontes vitais (recobrar a ingenuidade paradisíaca, quando o homem não conhecia a dor nem a paixão pela dor). Uma vez mais, a salvação é uma questão de vontade.

Matar um homem e matar a vida? No primeiro caso teus semelhantes te condenam; no segundo, teu destino se converte em uma condenação. Vives como se tivesses sido condenado por um princípio último (pela natureza, pela vida, pela existência, por Deus etc.). Talvez só então comeces a saber o que é a vida e a entender coisas inacessíveis à filosofia; a desprezar as leis da natureza; a entristecer-te de outra maneira; a amar o absurdo…

Então, um caminho através da obscuridade poderia fazer-nos desembocar em uma luz secreta. Mas e se essa luz fosse um momento final? Pois da luz já não podemos cair na obscuridade, já que a luz nos acolhe como o fim de nossa história. A transfiguração é uma grande tentação após o fardo do pecado metafísico, que nos arrancou da ordem dos homens e da vida mais do que um crime ordinário. Ninguém que siga a via da dor e do pecado, da loucura e da morte, perde de vista a envolvente fascinação de uma luz final. Mas tampouco nenhum dos que viveram amargamente a dialética demoníaca da vida pode aceitar a beatitude final, quando ainda tem que viver. Por medo de seu fim. Pois a transfiguração é uma derrota da dialética, a transcendência essencial de todo o processo. A santidade é um estado de contínua transfiguração, porque é a superação definitiva da dialética. Um santo não tem história de nenhuma espécie; vai diretamente para o céu.

Aquele que aceitou os grandes fardos da vida ama mais a tragédia do que a transfiguração. O medo da monotonia dos instantes sublimes é maior do que o medo da queda. O que pode ser para ele a transfiguração senão o esquecimento de sua tragédia e de suas covardias sublimes? Há muita alegria na inquietude e muito gozo no sofrimento desde o momento em que o homem teme qualquer forma de salvação, que ele a considera como prematura, antes da hora. Como se, uma vez realizado o esforço da transfiguração, temêssemos haver perdido a nós mesmos. Quantas vezes até hoje o homem teria podido salvar-se se tivesse querido? Mas se vê que o sofrimento revela um mundo que pode sufocar a lembrança e a saudade do paraíso…

(CIORAN, Emil. O Livro das Ilusões. Rio de Janeiro: Rocco, 2014, p. 104-110)

DEIXEMOS “2016” PARA TRÁS : AVANCEMOS NA HISTÓRIA COM REBELDIA, SEM RESIGNAÇÃO

DEIXEMOS “2016” PARA TRÁS

AVANCEMOS NA HISTÓRIA COM REBELDIA, SEM RESIGNAÇÃO

El derecho de rebelión penetra en las conciencias, el descontento crece, el malestar se hace insoportable, la protesta estalla al fin y se inflama el ambiente. […]
Bendito momento aquel en que un pueblo se yergue. Ya no es el rebaño de lomos tostados por el sol, ya no es la muchedumbre sórdida de resignados y de sumisos, sino la hueste de rebeldes que se lanza a la conquista de la tierra ennoblecida porque al fin la pisan hombres.

El derecho de rebelión es sagrado porque su ejercicio es indispensable para romper los obstáculos que se oponen al derecho de vivir. Rebeldía, grita la mariposa al romper el capullo que la aprisiona: rebeldía, grita la yema al desgarrar la recia corteza que le cierra el paso; rebeldía, grita el grano en el surco al agrietar la tierra para recibir los rayos del sol; rebeldía, grita el tierno ser humano al desgarrar las entrañas maternas; rebeldía, grita el pueblo cuando se pone de pie para aplastar a tiranos y explotadores.
La rebeldía es la vida; la sumisión es la muerte. […]
Supremo derecho de los instantes supremos es la rebeldía.”
(MAGÓN, Ricardo Flores. El derecho de rebelión. Em Regeneración, núm. 2, septiembre 10, 1910)


Ricardo Flores Magón (1874-1922)

2016 foi um ano terrível, embora não possamos afirmar com certeza que tenha sido o pior, nem mesmo o pior nesta década – que já ultrapassa sua metade – ou desse século XXI ou, nem sequer ainda, do século XX. Embora a sensação que muitos de nós, viventes e testemunhas vivas desse intenso inicio de milênio, seja a de que este é um ano com peso secular e que se arrasta como a prolongar sofrimento e dor milenar – para quase imitar o poeta.

Pois bem, do que conhecemos da história dos homens e mulheres neste mundo (e o que imaginamos tenha sido sua proto-história, muito mais longa e provavelmente muito mais difícil de ser ultrapassada), sabemos que a violência contra os membros da mesma espécie é um padrão e que o mal a atravessa, a despeito de termos inventado a ideia do Bem e de paz, os quais buscamos de forma incessante.

O século XX, que nos é mais claro na memória, foi marcado por duas grandes guerras mundiais e pela invenção do genocídio. Pela primeira vez, pelo que se pode registrar na história, os seres humanos planejaram eliminar um grupo inteiro da face da terra, por sua origem e crença comuns. O Holocausto (ou a shoah, como preferem outros), que horrorizou a muitos – depois de derrotado seus executores, não impediu que guerras étnicas fossem levadas a cabo não muito tempo depois do fim da Segunda Grande Guerra e de todas as manifestações de vergonha pelo que parecia a mais desumana das invenções humanas. Guerras de ódio pelo outro, pelo diferente, levaram e levam muitas vidas e nos marcam até hoje, seja pelo ressentimento, seja pela dificuldade de superar o horror e ter que conviver com seu algoz. Não há mais ilusão quanto ao domínio do mal sobre nós.

Mas somos pródigos em inventar coisas que possibilitem o domínio do outro. Inventamos, por exemplo, o neoliberalismo e o capitalismo de desastre (não, não esqueço o mal que o totalitarismo fez em outras plagas, como na antiga União Soviética, na Coreia, na China). O sistema financeiro dominou o mundo, colocando na mão de poucos esse domínio, de maneira quase anônima. O dinheiro continuou, apenas que de maneira disfarçada, a movimentar guerras. Guerras por petróleo, por água, por terra, por florestas, pelo mar… não guerras para proteger a água, a terra, as florestas, o mar, mas para tomar posse deles, garantir lucros e recursos para povos específicos (senão para grupos e pessoas apenas).

Os Estados Unidos da América aprimoraram suas estratégias para interferir e dominar os países e regiões que lhe interessam. Controlam a internet, espionam todos, compram apoio de pessoas que julgam influentes ou importantes em cada país – e até governos inteiros, sem precisar assumir isso publicamente. A maior democracia do mundo não gosta de democracia mundo afora, apenas de seu simulacro.

Os Estados Unidos da América e seus aliados mais ricos, no final do século passado e no inicio desse século XXI, colaboraram direta e ativamente na ampliação da desigualdade no mundo. Embora em algum momento as grandes corporações assumam papel mais relevante nisso do que os países propriamente ditos, é os EUA aquele que mais investe na criação de crises e instabilidade no mundo, pois aprendeu, com seu capitalismo de desastre, a lucrar com o caos.

Dito isso, não se pode desconsiderar o papel dos norte-americanos e aliados, desde pelo menos o final do século XIX, nos contornos desse mundo em que vivemos: interferência na soberania de outros países, apoio a ditadores – que lhes garantiram ‘comprar’ terras, explorar mão-de-obra barata, apropriar-se de recursos naturais ou comprá-los a preços irrisórios, eliminar as populações indígenas, fixar a imagem de povos bárbaros ou incapazes naqueles vivendo abaixo da linha do Equador. A lista do mal que produziram e produzem é muito maior.

Claro que grande parte de nossas mazelas advém de nossos colonizadores europeus, bárbaros com discurso de civilizados. Ditadores e fascistas que mal chegaram ao fim do século XX como ‘democracias’. Violentos, nos saquearam desde a conquista – e continuam saqueando e violentando até hoje. Arrogantes, sempre trataram suas colônias como fontes de riqueza, desprezando seus habitantes, mesmo os migrantes, seus concidadãos.

Considerando, então, a história (que é sempre a história dos humanos sobre esse planeta), o ano de 2016 apresenta coisas muito diferentes? Foi mais violento? Foi mais trágico? Foi menos previsível?

Talvez, para nós, brasileiros, o GOLPE de estado que sofremos nos tenha tirado (ou nunca a tivemos) a capacidade de olhar um tempo histórico maior e, assim, aceitar que este mundo tem sido desde sempre violento e trágico; que os pequenos, as minorias, as mulheres, os jovens, os pobres sempre experimentaram quase que exclusivamente o sofrimento, salvo, talvez em uma cultura, em uma sociedade, ou outra (o que para nós se tornou invisível ou apagado da memória, a ponto de acreditarmos que não seja possível um mundo diferente).

Exemplos recentes talvez nos deem a exata dimensão do que teria sido 2016.

O Iêmen completou, neste mês de dezembro, 21 meses de conflito, no qual há um saldo de 7 mil mortos e mais de 35 mil feridos pelo menos. O conflito na Síria parece já alcançar mais de 300 mil mortos, segundo contagem de setembro de 2016. A guerra do Iraque (na realidade, a guerra inventada pelos EUA contra o povo Iraquiano) produziu mais de 170 mil mortos.

Só em 2014, uma das ‘operações’ de Israel contra o povo palestino deixou mais de 1.500 civis mortos, 11.000 feridos e desabrigou mais de 100.000. Naquele ano, 2.200 palestinos foram mortos na Faixa de Gaza, incluindo combatentes e 550 crianças, fora as milhares de casas destruídas e gente deslocada.

Desde 2001, o Afeganistão sofre com uma guerra que parece nunca cessar, mudando apenas os atores nela envolvidos. Já são mais de 170 mil civis mortos por causa dos combates. A guerra provocou um boom de refugiados que ultrapassa a casa dos 6 milhões, além dos deslocamentos internos que chegam próximo de 600 mil.

E o que dizer do genocídio de Dafur, que produziu cerca de 400 mil mortos? E qual seria o número total de refugiados no mundo hoje? 60 milhões? mais?

Em 2016, a vida de palestinos, de iemenitas, sírios, iraquianos, afegãos, sudaneses e de uma infinidade de africanos de nacionalidades diversas (nem tocamos numa quantidade enorme de outros conflitos ou de problemas causados por ‘governos’ na Ásia por exemplo, nem nos que produzimos no continente latino-americano) não tiveram uma vida fácil, como não têm tido, muitos deles, a vida toda.

Cerca de 80% da população mundial, para o sistema financeiro e para o “Mercado” (que ‘pensa’ em termos de consumidores), é literalmente descartável. Não têm utilidade, não é importante para a manutenção do próprio ‘sistema’. O G20 constantemente apresenta suas contas, assim como as grandes corporações. Para ficarmos com um ano marcante, em 2010 trabalhava-se com uma expectativa de 700 milhões a 1 bilhão de consumidores potenciais, com poder aquisitivo considerável – ou até 1 bilhão e meio, quando pensava-se em uma clientela potencial ‘interessante’. Num mundo em que a população mundial já beirava, naquele ano, os 7 bilhões, isso significa que, no máximo, 20% da população do mundo importava para o mercado. É para essa parcela do mundo que se planeja o crescimento econômico. O resto é o que é, descartável. Essa é a lógica da Exclusão de que nos falou muitas vezes Hugo Assmann.

Não admira, portanto, a constatação de que, a partir dos anos 1980, a desigualdade voltou a crescer e que hoje vivemos o período em que se registra a maior concentração de renda da história.

Por que esse pequeno e incompleto passeio nas mazelas desse mundo? E por que isso seria importante para nós, brasileiros, ao pensar o ano de 2016? Para mim, a reflexão é importante pois permite terminar esse ano terrível para nós brasileiros, com a consciência de que vivemos ‘fora da curva’ por um curto período de tempo (queiram admitir alguns ou não, esse tempo é o dos governo do PT) em que nos protegemos, em muitos aspectos, ao reduzimos a miséria, em que todos ganharam em poder aquisitivo e segurança alimentar e financeira, com a implantação de importantes políticas sociais, com investimento, muito pequeno ainda – mas maior que se já havia registrado no país, nos mais pobres.

É importante ter plena consciência da miséria, da tragédia, da violência, do mal, do fato de como alguns poucos dominam praticamente o mundo todo – porque dominam as grandes empresas e, principalmente, o sistema financeiro global. É importante saber que este mundo está organizado sob uma lógica de exclusão. Cerca de 80% da população mundial é descartável, ela é considerada um entrave, um peso, um problema. Por isso, seu destino não comove, de fato, os senhores gordos e vorazes de Nova Iorque, Londres, Paris, Tóquio, Hong Kong ou São Paulo. Quando os donos do mundo se reúnem em Davos, na Suíça, e falam em filantropia, eles ainda estão pensando em como ganhar dinheiro e não choram ou deixam de dormir pelas crianças mortas no Iêmem ou no Sudão, nem nas periferias das grandes cidades brasileiras.

O golpe no Brasil, embora tenha seus agentes internos, tenha sustentação em interesses de grupos e pessoas do próprio país, não é, se pensarmos bem, uma grande coisa diante da loucura desse mundo. O que esses senhores que tomaram de assalto o poder têm produzido em pouco tempo de usurpação do Estado segue a mesma lógica da exclusão e sustenta-se no mesmo espirito de desprezo pelos párias, pelas minorias, pelos que sobram. Atacar políticas públicas de cunho social é apenas o aspecto mais mesquinho dessa lógica e desse espírito.

Não, 2016 não foi diferente, apenas foi mais claro para muitos de nós. Por isso, exige-nos uma postura diferente daqui por diante, de nós que enxergamos o de que se trata. Não precisamos sequer de uma linguagem mais especializada, como a marxista (embora seja recomendável), para ter claro quem são nossos inimigos (porque nos tornamos inimigos deles quando decidimos confrontá-los e à sua lógica de exclusão).

Naquilo que nos diz respeito, porque mais próximo e mais determinante para nosso bem estar e futuro, a retomada do poder parece ser inquestionável. Temos que assumir, se conseguirmos manter algo que se possa chamar ainda de democracia, que não há caminho fora da política, o que engloba a política partidária também. Porque é só nesse campo que podemos disputar e combater essa lógica de exclusão.

Teremos que pensar e começar 2017 com esse desafio, como vamos dar conta do que nos cabe, como vamos viabilizar ao máximo que a lógica da exclusão não se faça representar como hoje no parlamento, no poder judiciário e nos governos de todos os níveis.

Iniciemos 2017 com rebeldia e, com esse espírito, vamos digerir o desafio de fazer diferente, vamos pensar juntos, vamos decidir algo juntos, vamos definir um mínimo de estratégias que possam ser replicadas. Precisamos sair dessa teia em que nos colocaram. Sim, pois, a rebeldia, para produzir frutos, exige ação, ação coordenada, planejada, se possível. Que 2016 vá embora e fiquemos com a consciência de que temos a obrigação de fazer melhor nos anos que seguem. Que a tragédia e o mal nos ‘iluminem’ a fim de que os enfrentemos com dignidade e sabedoria, que sua luz cor de sangue não nos imobilize nem nos transforme em espectros do que poderíamos ser, mas reforce em nós a rebeldia necessária para nos movimentarmos nesse mundo de cabeça erguida, cheios de vida e prontos a lutar por ela.

Temer e Mazzilli: dois homens, um mesmo destino?

Michel Temer e Ranieri Mazzilli

Texto de Eugênio Aragão, publicado com permissão do autor.

O que estes dois homens têm em comum?

Michel Temer e Ranieri Mazzilli foram premiados pela mesma circunstância excepcional para chegarem ao poder: a situação de emergência política. A breve passagem de Ranieri na presidência interina a partir de 2 de abril de 1964, após o golpe desferido contra o Presidente constitucional João Goulart, rendeu-lhe o curioso apelido de “presidente-modess”, aquele que fica no melhor lugar, nos piores dias, só para evitar o derramamento de sangue.

O destino não foi clemente com Ranieri. Em menos de duas semanas, premido pela junta militar, deixaria o lugar para o General Humberto Castelo Branco, “eleito” pelo Congresso Nacional.

Já para Michel Temer, o destino se fez ébrio: premiou sua traição e lhe entregou uma responsabilidade muito além do que seu minúsculo tamanho pode suportar. Permitiu-lhe corromper o exercício do poder republicano, vangloriando-se de que ser impopular , para ele, seria uma vantagem, porque poderia empurrar à sociedade medidas amplamente rejeitadas, sem se preocupar com a opinião pública.

Além de traidor, golpista e indigente intelectual e tecnicamente, mostrou um caráter autoritário que lhe dispensa repassar o poder aos militares. Mas, assim como Ranieri, sentou-se, por um golpe e uma trapaça, numa cadeira que o voto popular não lhe franqueou.

LULA: Porque muita gente ainda precisa melhorar de vida

LULA

Porque muita gente ainda precisa melhorar de vida

Erivan da Silva Raposo[i]

Luiz Moreira[ii]

 

Quero fazer um governo que amplie nossos compromissos com os mais pobres, pois o melhor caminho de servir melhor a todos é atender primeiro os que mais necessitam
(Lula, na convenção do PT em Brasília, 24/06/2006)

 

Luiz Inácio Lula da Silva é um fenômeno que assusta ainda hoje seus adversários políticos. Aos 71 anos, duas vezes presidente da República, cargo para o qual concorreu e foi derrotado outras 3 vezes, elegeu sua sucessora, Dilma Rousseff, assim como ajudou a eleger outros ‘postes’[iii] Brasil afora. Terminou seu mandato com 87% de popularidade[iv].

Hoje, mesmo depois de o seu Partido dos Trabalhadores (PT) atravessar três grandes tempestades: 1) a AP 470 (popularizada pela mídia como “Mensalão”), com grandes lideranças do partido sendo inclusive presas; 2) a operação Lava Jato, que já lhe rendeu transformar-se em réu em 3 (três) ações, de ter levado à prisão o tesoureiro do PT, João Vaccari, e outras figuras importantes do partido – além do marqueteiro João Santana e esposa; e 3) o impeachment de Dilma Rousseff, vítima de uma conspiração midiático-jurídico-parlamentar que teve como um de seus maiores impactos lançar sobre o partido do ex-presidente Lula um sinal negativo[v], suspeitas de corrupção e de má gestão, Lula teria, segundo as duas últimas pesquisas Vox Populi[vi], entre 41 e 42% dos brasileiros que ainda o consideram o melhor presidente que o país já teve.

Mais que isso, a mesma pesquisa indica que Lula venceria em 2018, em todos os cenários, qualquer adversário em primeiro turno com bem mais do dobro de votos de qualquer um deles. A pesquisa Datafolha[vii], cujo levantamento ocorreu entre os dias 7 e 8 de dezembro de 2016, o ex-presidente Lula cresceu em numero de intenção de votos em relação à pesquisa do mesmo Datafolha realizada em julho, vencendo todos os candidatos com média de 25% das intenções de voto, aumentando sua vantagem em relação a todos os candidatos indicados na pesquisa, incluindo dos tucanos Aécio, Serra e Alckmin. Além disso, segundo o mesmo Datafolha, o índice de rejeição do ex-presidente Lula vem diminuindo paulatinamente desde o pico em março de 2016.

Na última pesquisa Vox Populi, os números são mais impressionantes ainda. A média de intenção de votos chega a 31% (em relação a 34% que indicava a pesquisa de outubro/2016). Vencendo todos seus oponentes tanto no primeiro quanto no segundo turno. Todos os demais candidatos perderam pontos em intenção de votos em relação à última pesquisa.

Estamos falando de um homem por quem nenhum canal de comunicação, principalmente as grandes empresas de rádio e televisão do país, nutrem simpatia e que qualquer pesquisa isenta vai mostrar que, não raro, colocam-se ativamente num jogo de desconstrução da imagem positiva que tem o ex-presidente Lula. O Manchetometro[viii], para ficarmos com um interessante instrumento de medida do viés da imprensa, mostra claramente a diferença de tratamento que os grandes veículos impressos e televisivos dedicam a Lula em relação a seus adversários políticos[ix].

Num país em que a televisão é um instrumento poderoso na transmissão de informação e na fixação de narrativas de ‘verdades’[x], é impressionante que mesmo sistematicamente boicotado e atacado impiedosamente, o ex-presidente Lula permaneça com imagem tão positiva para quase metade da população e que continue sendo uma opção política para tão grande parcela dos eleitores.

E nem se fale aqui da campanha sistemática realizada pelo Ministério Público (em Curitiba[xi], em São Paulo, e no Distrito Federal pelo menos), e não apenas no contexto da ação denominada Lava Jato, contra o ex-presidente. Não só pelo MP, mas pela Polícia Federal e por membros do Judiciário, incluindo o Ministro preferido de Fernando Henrique Cardoso, Gilmar Mendes, à frente da batalha[xii], e o juiz de primeira instância, em Curitiba, Sérgio Moro no papel de promotor. Talvez a campanha, via poder judiciário, contra o Partido dos Trabalhadores e, em particular, contra o ex-presidente Lula venha ser conhecido como o maior caso de lawfare[xiii] do mundo.

Sem dúvidas, diante de cenário tão negativo, para explicar esse fenômeno, há muitas coisas a considerar. Uma, contudo, parece forte candidata em relevância: o fato de o ex-presidente representar, melhor que qualquer outro, essa mesma parcela da população que o considera o melhor presidente do país. O Brasil é um país de desigualdades abissais[xiv]. A despeito do grande feito do governo Lula de ter retirado o país do Mapa da Fome[xv] e de ter tirado da miséria mais de 27 milhões de brasileiros[xvi], o maior país da América Latina é também campeão em contradições, em violência, em preconceito, com milhões de pessoas ainda excluídas do acesso ao mínimo de dignidade.

Se o país melhorou muito seus índices de desenvolvimento humano[xvii], se houve investimento em educação[xviii], se a fome deixou de ser um fantasma a nos assustar[xix], se o salário mínimo foi valorizado[xx], se oportunidades de estudo fazem a diferença[xxi], o fato é que somos um país cuja desigualdade é tão gigantesca que os excluídos ainda são muitos, e eles gritam.

Verdade é que, graças a Lula e Dilma, milhões de família tiveram acesso a casa própria, a saneamento básico, luz elétrica, médico, há milhões que ainda esperam ser alcançadas, pois a estrutura oligárquica, plutocrática, que comanda o país desde sua descoberta, gerou uma desigualdade estrutural gigantesca que dificilmente vai ser derrotada, não sem ousadia e sem participação popular.

O que disse Lula na Convenção do PT em 2006, quando decidiu-se que seria candidato à reeleição – e que é nossa epigrafe, diz também e muito sobre o que Lula representa: ‘atender primeiro aos que mais necessitam’. Mas isso não é uma coisa que ele disse em plena campanha de reeleição. Vejamos o que ecoava já em 2002, no meio do povo[xxii]:

“Minha mãe dava um duro danado. Arrumava as camas, lavava as roupas, cozinhava, preparava comida para gente vender na rua. E ainda tinha alegria. Isso é incrível; ainda tinha alegria, muita alegria. E foi viajando pelo Nordeste, na caravana da cidadania, que eu fui entender a alegria e o otimismo de minha mãe. Você conversa com um sertanejo, às vezes, ele está passando fome, há três dias sem comer, mas está com a cabeça erguida e acha que tudo tem jeito, que tudo pode mudar. Eu fico impressionado. É uma espécie de profissão de fé. Uma profissão de fé na vida. Você pergunta para ele ‘Como é que é, companheiro, vamos melhorar?’ E ele responde: ‘Se Deus quiser, vamos melhorar. Tenho fé que vai melhorar’. Então eu fico pensando: Com um povo desses, é claro que este País tem jeito. Eu estou convencido disso. Tenho a mais absoluta certeza de que, com um povo como é o povo brasileiro, a gente pode fazer do Brasil a nação com a qual sempre sonhamos”.

 

Como assegura Delfim Neto, Lula “(…) é o único sujeito no Brasil que quando fala em pobre está falando seriamente. Todos nós somos cínicos…”[xxiii]. O “nós” de Delfim Neto é a síntese dos governantes, ou candidatos a governantes, e de seus assessores, assim como dos economistas, dos tecnocratas, de todos esses que têm passado pelo comando do país, dos Estados e dos municípios brasileiros, cinicamente fingindo pensar nos pobres ou governar para eles.

Lula não apenas diz, e se emociona ao dizer, que o pobre deve vir em primeiro lugar, ele colocou em marcha um conjunto de políticas que incluíram os mais pobres como prioridade, como sujeitos. A maior política de distribuição de renda da América Latina saiu das mãos de Lula. A maior política habitacional para a população de baixa-renda sai dos governos petistas, sob as bênçãos de Lula. Energia elétrica em lugares desprezados governo após governo, acesso a crédito, inflação sob controle, cesta básica acessível, salário mínimo reajustado acima da inflação, geração de emprego (as menores taxas de desemprego por décadas):

“(…)se analisarmos o que foi feito, vamos perceber que outros países não conseguiram, em trinta anos, fazer o que nós conseguimos fazer em dez anos. quebramos tabus e conceitos preestabelecidos por alguns economistas, por alguns sociólogos, por alguns historiadores. Algumas verdades foram por água abaixo.
Primeiro, provamos que era plenamente possível crescer distribuindo renda, que não era preciso esperar crescer para distribuir. Segundo, provamos que era possível aumentar salário sem inflação. nos últimos 10 anos, os trabalhadores organizados tiveram aumento real: […] o salário-mínimo aumentou quase 74% e a inflação esteve controlada. terceiro, durante essa década aumentamos o nosso comércio exterior e o nosso mercado interno sem que isso resultasse em conflito. Diziam antes que não era possível crescer concomitantemente mercado externo e mercado interno.
Esses foram alguns tabus que nós quebramos. E, ao mesmo tempo, fizemos uma coisa que eu considero extremamente importante: provamos que pouco dinheiro na mão de muitos é distribuição de renda e que muito dinheiro na mão de poucos é concentração de renda.”
(Em SADER, 2013, p. 10)

 

Enquanto Presidente, Lula manteve acesa a esperança de milhões de brasileiros, mais, reafirmou a importância e a dignidade dos mais pobres, restituindo a confiança a espíritos tão maltratados e humilhados, inspirando as pessoas comuns na busca por dias e condições de vida melhores, porque sabem-se merecedoras e que a eles têm direito, apesar de sua origem e condição social.

Os números falam por si, mas são as imagens do povo cercando Lula, abraçando-o, chorando e sorrindo com ele, que gritam: precisamos de você, pois ainda somos muitos e ninguém nos ouve, ninguém nos vê.

Relato do ex-presidente, em entrevista ao Correio Braziliense[xxiv], publicada em 27 de setembro de 2013, indica como isso é claro para Lula. Ameaçar esse legado, essa transformação, é algo que um espírito como o de Luiz Inácio Lula da Silva jamais assistirá impassível. Ele sabe que talvez tenha mesmo que se colocar em cena, para garantir a outros as conquistas que ele ajudou a promover:

Algo que me marcou foi meu último encontro com os cantadores de material reciclado e moradores de rua de São Paulo. Uma menina, afrodescendente, pegou o microfone e perguntou: “presidente, você sabe o que mudou na minha vida nestes oito anos?” Eu não sabia. E ela disse: “Não foi o dinheiro que eu ganhei, nem as cooperativas que organizei. Foi o direito de andar de cabeça erguida que o senhor me restituiu. Hoje, não tenho vergonha de andar com o carrinho catando papelão na rua. Me sinto tão importante quanto os que passam de carro ao meu lado”

Os mais pobres sentem-se importantes ao lado de Lula e isso ninguém vai tirar deles, por isso, acreditam, querem tirar Lula de cena, destruí-lo, pois ele é um perigo, ele faz pobres acharem que são gente e que têm direito, que são alguém.

Depois do golpe, com o desmonte das políticas públicas e a piora em todos os índices imagináveis da economia, com a violência com que o ilegítimo governo de Michel Temer tenta impor reformas que jamais seriam aprovadas pelo eleitor, as esquerdas não terão alternativa, caso ainda pretendam ter um papel nesse país, senão unir-se em torno de um programa mínimo, de bases mínimas, e não poderão, como pensam e sustentam abertamente alguns, dispensar Lula. Ao contrário, tanto Lula quanto o Partido dos Trabalhadores terão um papel importante na construção de uma Frente Ampla das esquerdas. E o ex-presidente continua, quase que solitariamente, fazendo essa chamada para que o país se una e construa uma saída para a crise que hora enfrenta:

Alguém tem que dar um voto de confiança ao Brasil, alguém tem que dar um voto de confiança à sociedade. Não dá para ficar parado (…). Temos que trabalhar, fazer propostas novas. (…) É possível juntar pessoas de bem nesse país para consertar o Brasil. Você tem empresário (…), você tem sindicalista (…), você tem intelectuais que querem participar, você tem uma juventude que está ansiosa…. se você não oferecer um caminho, uma oportunidade e essa gente cair na desesperança tudo fica pior (…) O povo brasileiro é tão fantástico (…) esse povo não merece passar pelo que está passando”[xxv]

 

A intensidade dos ataques a Lula indica que levam a sério o que ele representa. Mas, insistimos, o mais importante é o que o povo acha que ele representa. Há muitos, muitos, quepensam que Lula é o que representa melhorar de vida, como ajudou milhares a melhorarem as suas, ele vai ajudar a melhorar a de outros. E ainda faltam muitos.


NOTAS:

[i] Mestre em Antropologia e Doutor em Ciência Política

 

[ii] Mestre em Filosofia e Doutor em Direito pela UFMG

 

[iii] Na campanha presidencial de 2010, políticos da oposição e a imprensa usavam a expressão pejorativa ‘poste’ para ressaltar a falta de experiência política de Dilma Rousseff.

 

[iv] Pesquisa CNT/Sensus de 2010. Pesquisa CNI/Ibope, apresenta índice idêntico de popularidade. Em 2008, o Ibope apontava que Lula tinha índice de aprovação de 92% no Nordeste.

 

[v] Esse sinal negativo, que desconstruiria a imagem de um partido ético, cujas ações o distinguiria de outros partidos e cujos membros seriam confiáveis e combativos, foi acionado durante a Ação Penal 470, mas a Lava Jato, desde o início atua sob a tese (sustentada pelo ministro do STF Gilmar Mendes) de que o PT agiria como uma organização criminosa, visando perpetuar-se no poder. Mesmo sem fatos e provas, essa imagem é repisada cotidianamente pelos adversários políticos e pela mídia.

[vi] Divulgadas nos dias 18 de outubro e 21 de dezembro de 2016. A primeira pesquisa indica também que a para 56% dos brasileiros a vida melhorou com os governos do PT. No Nordeste, esse índice sobe para 75% Cf. http://www.cut.org.br/imprimir/news/2600313dc5daa2862a37e0b0e0735068/

E http://www.cut.org.br/noticias/cut-vox-populi-lula-o-mais-admirado-e-o-melhor-presidente-do-brasil-e-imbativel-b2e2/

 

 

[vii] cf.: http://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2016/12/1840614-lula-amplia-vantagem-no-1-turno-mas-perderia-disputa-direta-contra-marina.shtml

 

[viii] “O Manchetômetro é um website de acompanhamento diário da cobertura da política e da economia na grande mídia, especificamente nos jornais Folha de S. Paulo, O Globo e Estado de S. Paulo, e no Jornal Nacional, da TV Globo. O Manchetômetro é produzido pelo Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP), grupo de pesquisas com registro no CNPq, sediado no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).” Cf. http://www.manchetometro.com.br/

 

[ix] Estudo preparado pelo cientista político e sociólogo João Feres Júnior mostra como o Jornal Nacional (JN), da Globo, tem sido imparcial com o ex-presidente Lula, usando horário nobre para desconstruir sua imagem. Um exemplo claro é o levantamento feito entre dezembro de 2015 e agosto de 2016, que revelou que o JN apresentou 13 horas de noticiário negativo intenso contra o ex-presidente Lula, mais quatro horas de manchetes neutras e alguns segundos de informações favoráveis. Conferir: http://www.lula.com.br/pesquisa-entregue-para-onu-prova-perseguicao-de-globo-contra-lula

 

[x] Pesquisa do Ibope, publicado em agosto de 2016, confirma pesquisas anteriores que indicam serem os brasileiros telespectadores assíduos, ultrapassando, nas Américas, Estados Unidos e Canadá. Cf.: http://www.ibopeinteligencia.com/noticias-e-pesquisas/brasileiros-navegam-na-internet-mais-do-que-americanos-e-canadenses/

 

[xi] Ficou patente a perseguição na, agora ridicularizada, apresentação do grupo tarefa da Lava Jato, em power point, no dia 16 de setembro,sobre denúncia à Justiça contra Luiz Inácio Lula da Silva, sua esposa, Marisa Letícia, e mais seis pessoas. Convocaram uma entrevista coletiva de imprensa e colocaram Lula no centro de um dos slides, como criador da ‘propinocracia’ e general do esquema de propina instalado na Petrobras. Cf. Uma das máterias que analisou a denuncia e a coletiva: http://www.controversia.com.br/blog/2016/09/20/as-aberracoes-da-denuncia-do-ministerio-publico-federal-contra-lula/

 

[xii] No dia 18 de março de 2016, modificando, estrategicamente, seu próprio entendimento – que sustentava não poderem os partidos políticos usarem mandado de segurança para contestar nomeação de autoridades, recebeu e concedeu MS impetrado pelo PSDB para impedir a posse do ex-presidente Lula como ministro, por ‘entender’ que haveria indícios de que tal nomeação teria sido motivada pelo objetivo de manter no STF as investigações contra o ex-presidente, retirando do Juiz Sérgio Moro a possibilidade de ordenar um eventual pedido de prisão do petista. Mas essa não foi a primeiro e não se acredita que seja a ultima de Gilmar Mendes contra o PT e suas lideranças. Ele constantemente acusa o Partido de ser uma organização criminosa, mesmo sem apresentar provas.

 

[xiii] O termo lawfare surgiu em 1975, mas ganhou um sentido negativo mais recentemente. Nas palavras da professora Susan Tiefenbrun, lawfare “é uma arma projetada para destruir o inimigo através do uso, mau uso e abuso do sistema legal e dos meios de comunicação, para levantar o clamor público contra aquele inimigo.” (TIEFENBRUN, Susan. Semiotic Definition of ‘Lawfare’ (June 17, 2011). In Case Western Reserve Journal of International Law, Vol. 43, 2011; Thomas Jefferson School of Law Research Paper No. 1866448.). Assim, a defesa do ex-presidente Lula tem sustentado tratar-se de lawfare a campanha contra seu cliente. cf.: http://lula.com.br/defesa-identifica-taticas-de-lawfare-em-denuncia-contra-lula

 

[xiv] Dados do Banco Mundial indicam o Brasil como o 4º país mais desigual da América Latina e um dos mais desiguais do mundo. Essa avaliação é confirmada pela Oxfam e por outras pesquisas realizadas no país. Cf http://temas.folha.uol.com.br/desigualdade-no-brasil/ e http://www.oxfam.org.br/noticias/relatorio_davos_2016

 

[xv] https://nacoesunidas.org/crescimento-da-renda-dos-20-mais-pobres-ajudou-brasil-a-sair-do-mapa-da-fome-diz-onu/

 

[xvi] Há controvérsia sobre os números relativos à redução da miséria, dependendo o período analisado. Mas tanto a FAO, quanto a OIT, como o próprio governo (Ipea) fizeram levantamentos que indicam que até 2012/2013 há redução da miséria e da pobreza, em números que podem variar entre 22 a 41 milhões de pessoas. O número de 27 milhões foi registrado após relatório da OIT em 2012: http://migre.me/vvO4I . Conferir também essas duas notícias do Planalto: http://migre.me/vvOb7 e http://migre.me/vvOiL

 

[xvii] http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/12/151214_idh_brasil_onu_avanca_cai_ms

 

[xviii] Cf. http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Educacao/Educacao-superior-em-Lula-x-FHC-a-prova-dos-numeros/13/16291 e http://www.fpabramo.org.br/fpadefato/?p=281

 

[xix] http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2015/05/fome-cai-82-no-brasil-destaca-relatorio-da-onu

 

[xx] http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2016/04/ganho-real-de-77-do-salario-minimo-melhorou-a-vida-de-48-milhoes-de-pessoas

 

[xxi] http://www.vermelho.org.br/noticia/246625-1

 

[xxii] SERRONI, Vicente. MERDA: dias melhores!. São Paulo: Aruna Editora e Produtora Cultural, 2008, p. 220).

 

[xxiii] http://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=1349:entrevistas-materias&Itemid=41

 

[xxiv] http://www.lula.com.br/entrevista-de-lula-ao-correio-braziliense

 

[xxv] Entrevista à TV turca TRT World em 20 de dezembro de 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NC1Un69tPX4