Quem sou eu?

De repente me pergunto por que haveria de dizer a desconhecidos algo sobre mim e por que deveria dizer aos conhecidos quase tudo que conhecem de mim, inclusive, e principalmente, os defeitos.

A história (estória) que contamos sobre nós, a ficção de nós mesmos, não corresponde à verdade sobre nós (ela existe?). Não é porque não sou essencialista que digo isso, não é argumento anti-religioso também, é convicção de que nos conhecemos de forma limitada (e assim parece preferirmos) e de que somos capazes de nos surpreender, particularmente em momentos críticos, o que indica que não somos tão transparentes assim e, mesmo, que o ‘essencial’ em nós não está acessível, nem seria estático (isso parece contraditório =0)).

Bom, mas sempre falamos algo sobre nossas crendenciais, ou falta delas. O curriculum mortis de que já falou mais de uma vez Rubem Alves é um bom nome para a lista de experiências, principalmente as ‘intelectuais’ que, quase sempre, nos limitam a visão de mundo (outros diriam que nos tornam especialistas). De toda sorte, embora isso não diga quem somos, pode dar uma indicação de caminhos para uma aproximação (tenho essa esperança). Talvez, para outros, seja somente pedante falar do que se estudou, por exemplo (muitas vezes é sim). Parece que ficamos numa encruzilhada.

Bom, vamos ao básico: nasci em Brasilia (e 1965 parece muito distante, embora esteja bem ali), o Brasil já ‘era’ uma ditadura; pai nordestino, potiguar de Apodi, mas desde cedo fora de casa, trabalhando na ‘capital’, Natal, fugiu para a nova Capital e aqui encontrou uma mineira, minha mãe. A história do encontro é muito mais complicada, como era a vida no cerrado recém desbravado, muita poeira, o desconhecido, o incerto, a companhia dos aventureiros e o olhar para o presente. Seis filhos, mais um que se foi antes de respirar o ar seco do Planalto Central. A loucura sobre controle, pois as mulheres só poderiam estar a um passo do surto. Sobreviventes, meus pais, como tantos  e tantos outros. Nós, a despeito de dificuldades muito objetivas, que nem sentiamos, nem processavamos, crescemos felizes e saudáveis.

Acidentes de percurso, o encontro com a religião (católica) e com a música, claro, mas também com a filosofia e a teologia, com a história, com a geografia, com a antropologia, com a psicanálise, com…. a leitura e releitura do mundo. Não sei dizer o que foi mais importante e o que foi mais estruturante, mas tendo a acreditar que foi o grupo de jovens, católicos, lutando por reconhecimento, para ter um lugar, que forçou um tipo de experiência que acabou por moldar um certo modo de ser, mas também de correção (ou pelo menos de amenização) de certos defeitos trazidos desde a infância: não aceitar ser corrigido (o primeiro e mais difícil =0)), não gostar de perder (futebol era uma praga), achar-se diferente (e melhor em muitos aspectos), desdenhar da autoridade… bom, nem tudo foi ‘corrigido’, mas a conscientização de muitos defeitos foi positiva, obrigando-me a um exercício para tornar-me melhor, e o grupo foi fundamental (se não houve melhora, aí a culpa foi da minha alma resistente).

Mesmo depois do distanciamento da religião e da identidade como católico (e isso era importante, porque sentir-se pertencendo a algo tão ‘grandioso’ fazia toda diferença) ficou o sentido do grupo, do cuidado com o outro, da correção fraterna, do compartilhamento do conhecimento e das ‘coisas’. Mais ainda, a disciplina para o estudo, para a leitura, foi reforçada de tal forma nessa experiência que até hoje se faz presente. E foi fundamental para toda a aventura que se seguiu (duas graduações, uma especialização, um mestrado, a psicanálise, e o doutoramento em curso). Olhando isso de forma retrospectiva, acho que o mais importante está bem lá atrás, eu sinto que era melhor e o conhecimento mesmo era mais importante e coerente quando tinha claro o porquê de estudar…. hoje, tudo parece pesado e infrutifero.

Bom, sobre outras coisas, talvez o principal, nada a declarar, coisas a investigar e etiquetas para classificar, por conta do freguês. O site é uma proposta antiga, fruto da inquietação de ter que ‘dizer’, ‘refletir’, ‘analisar’, ‘criticar’, mas também fazer música, simular poesia, compartilhar com os amigos…. hoje não sei se poderia afirmar ter o mesmo sentimento e a mesma vontade, mas acho que um espaço para escrever, primeiro para si, depois para os amigos e, por acidente, para os desconhecidos, é interessante. Sem pretensões, no entanto.

Sim, é bom lembrar. O PraPensar já teve outras versões, perdidas por aí (quem sabe um dia consigo ressuscitar essas coisas e incluí-las como memória, aqui). Esse aqui é uma nova velha versão daquele primeiro (talvez você consiga ver parte do que foi uma das antigas versões do PraPensar no seguinte lugar: http://web.archive.org/web/*/http://www.pra-pensar.org ).

Bem vindo ao PraPensar. Bem vindo a um pedaço minusculo do que (não) sou eu.

Erivan da Silva Raposo.

Brasilia, 2013